Filhos da pandemia.

Embora a pandemia tenha mudado muito da nossa rotina, tudo o que deriva do instinto humano continua acontecendo, de uma forma ou de outra. E um desses instintos é a reprodução. Sally e Somir não discutem o ato, mas sim a consequência. Os impopulares criam um consenso.

Tema de hoje: uma pandemia é motivo válido para não ter um filho?

SOMIR

Não. E vejam bem, não estou querendo me meter no sagrado direito alheio de escolher ter filhos ou não, apenas quero argumentar que se todos os outros argumentos contra ter filhos não são suficientes, não vai ser esse que vai realmente desequilibrar a balança. “Eu gosto de dormir” e “não quero engordar” são motivos até mais válidos, se você realmente pensar sobre o tema.

Seres humanos criam novas vidas para encarar um mundo muito difícil há… bom, há tantos anos quanto humanos existem. Nem faz tanto tempo assim que a norma era ter um monte de filhos para que pelo menos alguns sobrevivessem à infância. Historicamente, nunca foi fácil para as crianças. Dar a vida significa ao mesmo tempo condenar à morte, é a lógica da existência neste planeta. Tudo depende do que se faz com o tempo entre as duas coisas.

Não quero escapar do foco com filosofia, quero apenas estabelecer que querendo ou não, você joga dados quando tem um filho. Muitas coisas podem dar errado antes, durante e depois do nascimento da criança. E de fato, muitas coisas dão errado: se você for considerar a chance de uma criança nascer com uma doença ou deformidade congênita terrível, estamos falando de chances na faixa de uma em dezenas de milhares. São improváveis, mas acontecem ao redor do mundo cerca de 200.000 nascimentos por dia, o que significa que pelo menos umas 10 famílias recebem péssimas notícias nesse sentido todos os dias.

Muitas coisas podem dar errado numa gravidez, algumas delas fatais para as mães. Já melhoramos muito nesse sentido, mas novamente, não faz muito tempo que morrer no parto era extremamente comum. O próprio ambiente psicológico da gravidez é capaz de quebrar famílias e já fazer a criança nascer com menos suporte. Médicos e funcionários de hospitais ainda cometem erros, trocam crianças… se você realmente quer segurança nesse sentido, conhecimento e dinheiro ajudam, mas não te tornam imune.

E se você está preocupado com interações entre o vírus e a criança no ventre, sim, algumas doenças podem fazer isso, mas há pouco tempo eu escrevi um texto falando sobre como já tem DNA deles misturado com o nosso desde a fase embrionária. Temos uma resistência considerável que vem de fábrica, até pela exposição constante.

E mesmo assim, as pessoas têm filhos, e a estratégia funciona na maioria das vezes. Pode-se argumentar que muita gente não tem estrutura para ter filhos, mas como o mundo ainda não está pegando fogo, podemos presumir que pelo menos na média os pais conseguem entregar um ser humano minimamente válido na sociedade. Sim, vivemos reclamando aqui de pessoas estúpidas, egoístas e arrogantes, mas mesmo assim, ainda funcionam num nível básico para a manutenção da humanidade.

Não importa o problema, a solução mais básica que o ser humano conhece é colocar mais gente para resolver. Pode estar vivendo numa situação horrenda, mas vai lá e faz filho. Aliás, parece que quanto pior a vida da pessoa, maior a sanha de se reproduzir. Isso não pode ser colocado só na conta da ignorância, tem algo mais profundo: mesmo que não pareça na hora, funciona. É melhor colocar três filhos mal criados no mundo do que nenhum. A humanidade joga um jogo de números: quanto mais humanos fazemos, maior a possibilidade de transformar a realidade.

Quer dizer que agora eu sou fã de quem faz dez filhos sem ter como alimentar dois? Não. Individualmente ainda é repreensível, mas quando olhamos para o quadro geral, não podemos negar que eventualmente funciona. Instintivamente, você sabe disso. Até porque com certeza é descendente de gente que tinha maior propensão de fazer filhos: não tem ninguém na sua linhagem direta de ascendência que não tenha se reproduzido, por motivos óbvios.

Ter medo do mundo nunca foi motivo para deixar de ter filhos, porque não é assim que a humanidade funciona. O que aconteceu, e estamos falando de no máximo um século, é que a qualidade de vida subiu tanto, tão rápido, que começamos a nos dar ao luxo de escolher se é conveniente no momento. Países que tem qualquer tipo de evolução no acesso ao estudo e mercado de trabalho pelas mulheres veem uma redução imensa da taxa de natalidade em pouco mais de uma geração. Ou seja: a realidade da pessoa melhora e ela não quer ter filhos. Percebem como a conexão não está aí?

Uma pandemia com certeza é motivo de preocupação, mas francamente, se a humanidade passou pela Peste Negra antes da medicina moderna, é complicado imaginar que alguma doença tenha poder de nos erradicar. Quando falamos de medidas contra o Covid-19, é sobre prevenir mortes preveníveis e não atolar completamente o sistema de saúde. Não é uma doença com potencial de extermínio, e mesmo que haja uma mutação que torne sua taxa de letalidade 10 vezes maior, ainda sim é menos destrutiva do que um décimo do número de pessoas resistiu no tempo em que se achava que banho fazia mal…

Eu estou argumentando que nem a Peste Negra era suficiente para decidir por não ter filhos, aliás, foi justamente tendo muitos filhos que a humanidade conseguiu sobreviver. Não é como se a existência do coronavírus atual aumente consideravelmente o risco de sofrimento para uma criança: proporcionalmente, é só mais um grão de areia nessa praia de danações. Agora, o que eu sempre digo e muitos de vocês torcem o nariz: a qualidade de vida da humanidade está melhorando consistentemente há milênios. A única coisa melhor para a criança do que nascer hoje é nascer amanhã. Não é otimismo, é realidade. Não impede que você reclame dos problemas desse mundo, como eu mesmo faço direto, mas não perca os fatos de vista. O mundo é terrivelmente desigual e perigoso, mas é menos do que era 10, 20 ou 50 anos atrás.

Problemas sempre vão existir. Doenças, se não para sempre, pelo menos por muito tempo ainda. Se não quer ter filhos, não tenha. Eu mesmo não quero. Mas não porque o mundo está me forçando a não ter, e sim porque eu não tenho essa vontade. E esse é o único motivo válido. O resto me parece racionalização desnecessária…

Para dizer que eu mataria meus filhos de tédio e não de coronavírus, para dizer que todos os motivos são válidos se tivermos menos gente no mundo, ou mesmo para dizer que quase todo mundo é acidente mesmo: somir@desfavor.com

SALLY

Uma pandemia é um motivo válido para deixar de ter um filho?

Sim. Acho muito complicado escolher engravidar em um cenário como este.

Existe uma grande diferença entre colocar um filho em um planeta que está sofrendo uma danação constante que pode cobrar seu preço em 50 anos e colocar um filho em um planeta de fato fodido, no presente. Um planeta que vem sendo destruído pode, quem sabe, ser recuperado e ver seus danos revertidos no todo ou em parte, mas ter um vírus mortal circulando que te obriga a ficar trancado gera prejuízo imediato à formação de uma criança.

Para começo de conversa, não sabemos se passa de mãe para filho ou se o fato da mãe adoecer afeta o filho de alguma forma. Ainda não nasceram filhos de mães contaminadas no começo da gestação para saber. Basta lembrar do que aconteceu com o Zika para perceber que às vezes podem ficar sequelas graves para o resto da vida. Eu sinceramente acho egoísmo fazer essa loteria genética com uma criança, pagar com a saúde dela para ver o que acontece, pelo simples desejo de ter um filho. Nem sempre se pode ter o que se quer.

Eu ficaria muito preocupada em colocar uma criança no mundo que eu sei que poderá nunca ser independente, ciente de que provavelmente eu morreria antes dela. Quem cuidaria dela? Óbvio que ninguém está livre de acontecer um acidente genético em uma gestação, porém, aceitar correr um risco maior do que o normal, para trazer a criança a um mundo economicamente instável sem a previsão de quando se poderá sair de casa com normalidade me parece demais.

Não sabemos o quanto essa pandemia vai durar. Tudo pode estar normalizado em um ano ou pode nunca se normalizar. Eu optaria por esperar para avaliar as reais consequências dessa pandemia antes de colocar um filho no mundo. Francamente, criar uma criança trancada (principalmente se for em um apartamento), que não pode sair, que não pode ir à escola, que não pode conviver com outras crianças… Imagino que exista um dano psicológico por crescer ou passar anos nessas condições. Ao menos é o que dizem os psicólogos sobre crianças que estão há muito tempo em quarentena.

Fico espantada como no Brasil o “mas eu quero” se sobrepõe a tudo. Falta ética. Foda-se se você quer ter um filho, se não há condições mínimas para que esse ser humano cresça e se desenvolva de forma saudável, você deve ignorar o seu querer e fazer a coisa ética. Se você não tem dinheiro para dar condições dignas de vida, não deve ter um filho. Se você não tem maturidade emocional e tempo para educar um ser humano, não deve ter um filho. Se você não tem uma série de condições que asseguram uma existência digna, não deve ter um filho.

E, no caso, um ambiente como o que vivemos atualmente (ao menos em países sério, que cumprem uma quarentena séria) não parece um ambiente saudável para uma criança. Vamos passar por uma crise econômica mundial, o que afeta o quanto uma família pode gastar com um filho, vamos passar por períodos de quarentena e privações sociais, o que afeta a estabilidade emocional de todos, pais e crianças. A verdade é que não sabemos como o mundo vai ficar daqui para frente, e fazer uma aposta onde quem pode perder é o bem estar do seu filho é um puta dum egoísmo.

Uma coisa é uma danação futura, que pode ou não se concretizar. Outra coisa é uma danação presente, da qual se tem certeza e ainda não se sabe a extensão. Eu discordo, mas posso compreender quem coloca um filho nesse mundo cagado: a criança que lute quando tiver 50 anos e acabar a água do planeta (coisa que eu nem acho que vá acontecer). Um adulto pode lutar, pode se virar, tem ferramentas para manejar uma crise.

Porém, quando a crise é atual, ela impacta a criança. Uma criança não tem ferramentas para manejar uma crise e isso pode se transformar em um dano ou um trauma permanente. Ao ter um filho, o que se pondera não é o seu querer e sim a qualidade de vida que você vai poder dar para esse filho. Se não for boa, tê-lo é uma baita irresponsabilidade e egoísmo.

Não custa pontuar, pois os brasileiros estão em um estado de anestesia coletiva que assusta: um país onde todos os dias 30 mil pessoas são contaminadas por um vírus que pode ser letal e onde mais de mil pessoas morrem por dia não é um lugar onde uma criança vá ter qualidade de vida. Um país cuja economia vai pro fundo do poço por diversos fatores (pandemia, desprestígio/sanções internacionais, incompetência, etc) não é um lugar onde a criança vá ter qualidade de vida (a menos que os pais sejam muito ricos).O cenário é desfavorável. Aceite a realidade.

Já seria uma péssima ideia em qualquer lugar do mundo, mas em um país que é epicentro mundial de uma pandemia, com uma condução negacionista que só vai afundar o país mais e mais, com zero expectativa de melhora realista, com um povo ignorante, inconsciente e polarizado, com péssima prestação de serviços públicos, com tudo jogando contra, é simplesmente loucura ter um filho. Mas, para perceber isso a pessoa precisa ser racional em vez de ser uma débil mental iludida que acredita que todo seu amor pela criança vai bastar. Não basta. Amor sem infraestrutura não basta, uma coisa não compensa a outra.

Como eu disse, eu não colocaria um filho neste mundo mesmo sem pandemia, sobretudo no Brasil, um país violento, sem cultura, com educação precária e com uma desigualdade social galopante. Porém, entendo que o esquema “sapo na panela de água quente” do brasileiro: as pessoas se acostumam a viver mal, a ver seus filhos receberem péssimas influências, a seus filhos terem uma educação de merda.

Sempre foi assim, isso dá um ar de normalidade. Mas a pandemia é algo novo, as pessoas têm base de comparação, podem avaliar como era antes e como está agora, portanto, podem ver o decréscimo que ela causou na qualidade de vida. Não tem desculpa: pandemia e gestação são uma roleta russa que nenhuma pessoa sã se prestaria a fazer. É sobrepor seu querer à realidade. Não dá para ter filho com segurança agora e ponto final.

Brasileiro é um povo muito atrasado que dá muito valor “aos meus sonhos”. Você NÃO É CRIANÇA, pare de viver em função dos seus sonhos e comece a viver em função da realidade, isso é vida adulta.

Para se doer por desejar ter um filho agora, para dizer que seu sonho é mais importante do que tudo ou ainda para dizer que ambos conseguimos desagradar 99% do público com estes textos: sally@desfavor.com

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Comentários (14)

  • Sim. O motivo principal a meu ver é: a mãe/pai pode morrer por conta dessa pandemia. Não vou entrar no mérito dos X cenários possíveis quando uma criança perde os pais mas assumindo que quem quer um filho tbm quer vê-lo crescer é estupidez ter um filho durante uma situação com grandes chances de privar a pessoa disso.

    • Concordo, porém, por essa teoria, lugares muito violentos com alta mortalidade não deveriam ter natalidade (coisa que eu também concordo), o que parece tirar muita gente do sério, chamando isso de “eugenia” e coisas parecidas.

  • As mulheres (com raras exceções) são burras demais para parar de procriar. Já conversei com algumas mães sobre o motivo para se ter filho, e elas dizem: “não sei, deu vontade”. Algumas inclusive com uma educação elevada, dizem o mesmo, é “sonho” ser mãe. E assim segue a humanidade.

    • Quem faz algo apenas por ter vontade, sem ponderar as consequências a longo prazo, é criança. Quem realiza um “sonho” sem pensar racionalmente se tem condições para tal, também é criança. Adulto não se porta dessa forma.

  • Qualquer coisa é motivo pra não procriar feito coelho alucinado. Como se não bastasse o planeta lotado e poluído, violência e falta de alimentos no futuro, agora ainda veio pandemia de brinde. Essas antas tem que perceber que se não tá bom pra eles, por que diabos vão fabricar outro ser pra sofrer junto?

    • Com essa frase você está dizendo que todos os problemas tem a mesma proporção. Não acha que a presença de um problema grave como uma pandemia merece uma análise individualizada?

  • Concordo com o Somir, a humanidade evoluiu pra sobreviver no caos, com a possibilidade de sair da caverna e não voltar mais. E isso nunca nos impediu de continuar. Especialmente em lugares com altas taxas de criminalidade a morte é uma rotina, as pessoas estão acostumadas com grandes números de mortes, estatísticas horríveis, expectativas negativas.
    E talvez essa meio que seja a maneira correta de viver, mesmo nos lugares mais seguros do mundo, conhecem a expressão “memento mori”? Não chega a ser nihilismo ou falta de empatia pelas mortes, mas assimila a realidade de que o amanhã não pode ser controlado.

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