Passado condenado.

A temporada de caça às estátuas parece estar aberta. Nos Estados Unidos, o movimento iniciado nos protestos pela morte de George Floyd entra em nova fase, com diversos pedidos para derrubas estátuas que os manifestantes consideram glorificar racistas e genocidas, já com diversos sucessos. Na Inglaterra, a estátua de Winston Churchill teve que ser coberta com um caixão de metal para evitar a fúria popular. Estátuas de personalidades do tempo da colonização já começam a ser derrubadas na Europa. Mas… qual a lógica disso tudo?

A mais simples é que não deveríamos homenagear pessoas que contribuíram para a morte e a exploração de grupos marginalizados. O que não deixa de ser razoável. Esses não são, ou pelo menos não deveriam ser os valores da sociedade no século XXI. Invadir uma floresta distante e exterminar os nativos em nome de Deus com certeza não te renderia uma estátua hoje em dia. Se descobrirem que você tem escravos nas suas propriedades, não vão te considerar um herói não importa o que você faça. Novamente, faz sentido: nosso mundo não tolera mais boa parte dos comportamentos comuns em séculos passados.

Se eu fosse um negro americano, eu com certeza não acharia uma boa ver a estátua de um general do exército que lutou pela manutenção da escravidão da minha raça em destaque numa praça da cidade. Porque isso deixa as coisas no mínimo confusas: se partimos do princípio que nenhum ser humano pode ser tratado como mercadoria e ser tolhido de seus direitos mais básicos, é estranho que escravocratas dispostos a dar a vida pela manutenção daquele sistema horrível precisem ser lembrados pelas futuras gerações. A mensagem não fica clara o suficiente dessa forma. É meio como erguer uma estátua de Hitler em Israel. Na melhor das hipóteses vai deixar o povo local bem confuso sobre o objetivo daquilo.

Não é complicado entender por que tem gente querendo derrubar algumas estátuas. Mesmo que você estude melhor a história da Guerra Civil americana e perceba que, como sempre, é mais complexa do que parece; o argumento de que na verdade as estátuas homenageiam o espírito livre do povo local e a capacidade de enfrentar um governo que consideravam tirânico não dão conta de esconder o elemento racial do conflito. Em tese pode até não ser uma homenagem a quem queria manter os negros como escravos, mas na prática não tem como não ser visto dessa forma.

Você pode considerar que é história, que história tem dessas coisas. Muita gente do passado fez coisas horríveis, mas na média se tornou grandiosa o suficiente para ser lembrada. Não precisamos corroborar com as ideias da pessoa para considerá-la histórica. E sim, isso tem seu fundo de verdade. Mas é importante estabelecer a questão do tempo aqui: hoje em dia valorizamos estátuas de César e de Alexandre da Macedônia, contamos suas histórias, e muitos até se inspiram em seus feitos e ideias. Mas eu aposto que na época em que estavam vivos e provavelmente até alguns séculos após suas mortes, muita gente nesse mundo teria ódio mortal de dois conquistadores que travaram das guerras mais sangrentas do mundo antigo.

Uma coisa é admirar um busto de César num museu e ouvir sobre sua fascinante vida hoje em dia, outra é estar na Gália em 55 a.C. e ver seu exército marchando em direção a sua aldeia. Se você viu sua aldeia pegar fogo enquanto os soldados romanos estupram todas as mulheres que você conhece, não é admiração o sentimento que você vai nutrir pelo general… mas quando se passa quase dois mil anos entre a morte da pessoa e o momento no qual você olha para sua estátua, todos esses sentimentos já estão perdidos na história. Não há nenhuma conexão palpável entre você ou qualquer pessoa que você conheça e os erros daquela pessoa.

Agora, a escravidão dos negros? Nos EUA tem gente cujo avô foi escravo. A prática só foi banida em 1865. Ao redor do mundo, muitos povos foram escravizados, mas esse efeito histórico já funciona para quase todos eles. Os últimos que escaparam disso foram os negros, no caso do Brasil só em 1888! Não é uma coisa que “vira história” tão rápido assim. Então, embora o argumento de que as coisas acabam perdendo o poder sentimental depois de tempo suficiente seja válido, isso não é o caso desse público específico. Estou falando de tudo isso porque a análise dessa guerra contra estátuas não é uma questão simples: eu compreendo por que algumas devem cair. É aquela máxima popular: não se fala de corda em casa de enforcado.

Mas a coisa começou a se espalhar para outros campos históricos. Uma estátua de Cristóvão Colombo foi retirada de São Francisco nos EUA ontem mesmo. O descobridor das Américas. O argumento foi que Colombo foi peça fundamental no genocídio dos índios americanos, e há alguns anos foi se tornando persona non-grata no país. Pelo menos para o grupo que se engaja nesse tipo de pauta nos últimos anos. Embora não se possa negar o terror causado pelos conquistadores europeus na população indígena americana, aqui a linha entre feridas recentes e história consolidada começa a ficar mais borrada.

Colombo e os primeiros colonizadores não são exemplos para ninguém do século XXI, mas será que suas estátuas e homenagens colocam em dúvida os valores desejados pelas novas gerações? A colonização criou as Américas como conhecemos, apesar dos imensos abusos que geraram. E com exceção da Guiana Francesa, todos os países já se tornaram independentes. Qual é exatamente a mensagem problemática nas estátuas de Colombo e similares? Que colonização é uma coisa boa? Porque hoje em dia o conceito mudou bastante, não tem mais áreas livres no mundo para conquistar, não sem repercussões severas do resto dos países (a não ser que você seja a Rússia). O mundo é consideravelmente diferente agora do que era em 1492, e eu acredito que isso já esteja bem definido na cabeça das pessoas.

Eu entendo Colombo como história antiga o suficiente para não enviar mais mensagens diretas para os dias atuais. Mas estou disposto a aceitar que é uma área cinza: genocídio é um crime sem prescrição. A humanidade tem uma história violenta, contada por quem conseguiu matar mais que seus adversários. Por isso, é provável que muitas de nossas estátuas sejam homenagens a assassinos (diretos ou indiretos). Podemos aceitar que as coisas eram assim em séculos e milênios passados e aprender com isso, ou podemos decidir que para seguir em frente precisamos eliminar esse passado. São duas formas de ver as coisas.

Mas aí chegamos ao caixão metálico protegendo a estátua de Winston Churchill na Inglaterra. Com o espalhamento dos protestos americanos ao redor do mundo, a estátua do primeiro-ministro britânico que guiou o Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial foi pichada com “era racista”. Temendo que a turba enfurecida derrubasse a figura de um líder histórico do país, as autoridades colocaram uma proteção ao redor da estátua.

Que Churchill provavelmente era racista eu não duvido. Pouca gente no mundo não era naquela época. Para ser bem honesto, se a campanha de Hitler fosse realizada contra africanos, árabes ou talvez até asiáticos nos anos 40, é provável que a guerra nem tivesse começado. Há pouco menos de um século atrás, muita coisa considerada normal seria absolutamente inaceitável nos dias de hoje. Se vocês lessem o que Gandhi escrevia sobre negros, por exemplo, provavelmente não o achariam um exemplo de paz e tolerância…

Mas aí que entra a diferença essencial entre atacar a estátua de um general da guerra civil americana e a de Churchill: o segundo não é lembrado pelo racismo. Quando você vê a estátua do bonachão líder inglês, lembra de um Reino Unido acuado pelos nazistas, resistindo praticamente sozinho contra um regime genocida. Lembra da vitória contra o nazismo e o mundo criado após esse momento. Churchill podia falar barbaridades e agir de forma racista em vários momentos como muita gente naquela época, mas é um símbolo do mundo que começou a seguir a Declaração Universal dos Direitos Humanos algum tempo depois. É por isso que a estátua está lá.

De perto, ninguém é só virtudes. Não importa o ídolo que você construa, a pessoa continua cheia de defeitos. Sempre tem alguém que detesta o seu herói, e muitas vezes de forma justificada. Se a gente colocar uma lupa na história de qualquer pessoa que virou estátua, algo me diz que nenhuma vai ficar de pé. Por isso, é bom lembrar que pessoas viram símbolos depois de algum tempo. Não são mais uma entidade presente que acerta e erra, são uma imagem com um significado. E é assim que devem ser julgadas.

Por isso eu passei por três exemplos com graus diferentes de significado: a estátua do general que lutou para manter a escravidão pouco mais de um século atrás tem uma mensagem, o colonizador europeu que trouxe a versão que conhecemos de civilização para as Américas tem outra, e a imagem de Churchill também. Não são a mesma mensagem. A primeira ainda fala sobre racismo institucionalizado, a segunda fala sobre a história trágica de um continente e a terceira sobre a vitória da civilização contra o nazismo. Mas, na cabeça de quem está derrubando estátuas para saciar uma histeria revisionista, parecem indiferenciáveis: homens brancos com muito poder.

E é aqui que eu digo que toda essa análise é praticamente supérflua. Infelizmente. As estátuas não estão sob ataque para rever a relação da humanidade com as mensagens que elas passam, as estátuas estão sendo “canceladas”. Não é sobre uma análise dos significados que elas representam, é uma forma de repetir o comportamento cada vez mais comum nas redes sociais de buscar qualquer justificativa para derrubar uma pessoa. E quanto maior a imagem dela, mais saborosa é a derrocada. Era de se esperar que a sensação de poder atrelada a linchar virtualmente celebridades e influencers não fosse sustentar o comportamento para sempre. Como todo vício, cada dose traz menos satisfação.

Melhor do que fazer um imbecil qualquer perder seus patrocinadores é atacar imagens grandiosas. Se você consegue cancelar Cristóvão Colombo, talvez você se sinta mais poderoso que ele. Os conquistadores da antiguidade sempre tinham a história de outro para motivá-los: “se ele venceu 100 batalhas, eu vou vencer 101.” O ser humano se mede pelo ser humano. Quanto maior seu adversário, mais poderosa a sua vitória. Não é à toa que o movimento vai virando sua mira para grandes figuras históricas: derrubar esses alvos é uma prova de poder. Algo que talvez faça você se sentir alguém na história.

Porque não importa se você é branco, negro, asiático, índio… você é humano. E alguns instintos falam mais alto para todos nós. Se você sente que não tem poder para nada, vai transformá-lo num fetiche. E dada a oportunidade, dificilmente estará acima de atacar quem acredita que pode te ceder esse poder. O mundo de hoje tem estruturas de poder muito bem estabelecidas, revoluções não tendem a ter bons resultados.

Isso é em parte por uma profissionalização sem precedentes da manutenção de poder das elites, mas também de um mundo que não causa tanto terror ao cidadão médio quanto o no qual as pessoas das estátuas viveram. Tem alguma coisa travada na humanidade, e quem tem o poder aprendeu a dirigir a fúria da plebe para alvos cada vez menos eficientes. Se o custo de continuar onde está é ceder essa ilusão de poder aos rebeldes, podem apostar que mais e mais estátuas começarão a cair. É perfeito para a ilusão de estar adquirindo algum poder. Se o que querem é “cancelar” pessoas mortas há muito tempo, que tenham isso. E se você falar disso do jeito errado, talvez nem apareça nos resultados de pesquisa…

Tempos ruins para as elites criam estátuas, tempos bons para elas as derrubam.

Para dizer que pombas são aliadas há milênios, para dizer que eu devo vender estátuas, ou mesmo para dizer que essa gente derrubando estátuas nunca vai merecer ser imortalizada: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas: ,

Comments (6)

  • Hmm, eles que sabem. Eu não sei se gostaria de ter uma estátua do Bolsonaro, Lula, Sarney, Collor… nas praças daqui.

  • Eu vi essa notícia de que um ex-prefeito de uma cidade sueca sugeriu trocar a estátua de um rei da Suécia por uma estátua da Greta:
    https://www.rt.com/news/492077-sweden-king-statue-greta/
    É pura palhaçada “progressista” mesmo, a cada dia que passa fico mais convicto de que europeus merecem ser dominados por muçulmanos, chineses, africanos e o caralho a 4. Cambada de frouxo disfarçado de “evoluído”!

    • Treta Grumberg, que não passa de uma Fadora Isaber sueca, faz por merecer seu próprio Processa Eu.
      Tem muita coisa pra se criticar nessa moçoila autista que seria só mais uma, não fosse o holofote dado a ela.
      Não bastava Boomer, Xoomer e Millenial passando vergonha… Tinha que ter essa Zoomer também.
      Os que a criticaram o fizeram de uma forma tão errada, mas tão errada que acabou reforçando o mito dela de pobre garota injustiçada, o que é um desfavor a parte.
      Vai que é tua, Sally.

  • Falando em Europa, deixo uma divagação conspiralouca aqui (relevem): com o tanto de imigrante islâmico por lá hoje, se houvesse uma guerra, os países islâmicos teriam como causar muito dano, mesmo com menor poderio bélico, usando táticas de guerrilha, que são extremamente efetivas.
    Caso conseguissem cooptar “soldados” o suficiente que já estejam lá, o “mundo islâmico” teria uma puta vantagem. Já está em território inimigo, e com o poder de serem incógnitos. Bombas atômicas não poderiam parar os ataques, visto que destruiriam também os lugares que se quer proteger.
    Se eu fosse um comandante militar islâmico apostaria nisso. Táticas de guerrilha são a única opção quando se luta com um oponente mais poderoso, e são extremamente eficientes, vide o caso da guerra de secessão americana, guerra do Vietnã, etc.
    No caso, devido ao imenso poderio bélico do mundo ocidental, o “mundo islâmico” poderia até perder, mas o tanto de estrago que seria causado, faria Trump e companhia se arrepender de ter feito essa merda. Isso porque não estamos colocando Rússia e China na jogada…

  • “Mas aí que entra a diferença essencial entre atacar a estátua de um general da guerra civil americana e a de Churchill: o segundo não é lembrado pelo racismo. Quando você vê a estátua do bonachão líder inglês, lembra de um Reino Unido acuado pelos nazistas, resistindo praticamente sozinho contra um regime genocida. Lembra da vitória contra o nazismo e o mundo criado após esse momento. Churchill podia falar barbaridades e agir de forma racista em vários momentos como muita gente naquela época, mas é um símbolo do mundo que começou a seguir a Declaração Universal dos Direitos Humanos algum tempo depois. É por isso que a estátua está lá.

    De perto, ninguém é só virtudes. Não importa o ídolo que você construa, a pessoa continua cheia de defeitos. Sempre tem alguém que detesta o seu herói, e muitas vezes de forma justificada. Se a gente colocar uma lupa na história de qualquer pessoa que virou estátua, algo me diz que nenhuma vai ficar de pé. Por isso, é bom lembrar que pessoas viram símbolos depois de algum tempo. Não são mais uma entidade presente que acerta e erra, são uma imagem com um significado. E é assim que devem ser julgadas.”

    Com esses dois parágrafos, você já resumiu perfeitamente o que eu penso em relação a esse assunto, Somir. Mas vai tentar explicar isso pra essa militância histérica que teima em medir o ontem com a régua de hoje e que prefere apagar o passado em vez de tentar aprender com esse mesmo passado…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: