Amigo negacionista.

O assunto está mais relevante do que nunca: muita gente por aí começou a questionar conhecimento científico, alguns estabelecidos há vários séculos. Durante a pandemia, eles se tornaram especialmente perigosos, afinal, ao negar a doença ou seu risco, ameaçam todos ao seu redor. E se um deles estiver próximo a você no papel de um amigo? Sally e Somir discutem o melhor rumo para a relação, e os impopulares testam suas opiniões.

Tema de hoje: o fato de uma pessoa ser negacionista e não tomar cuidados para se proteger do coronavírus é motivo para terminar uma amizade?

SOMIR

Não. Não automaticamente… muito embora uma pessoa dessas tenha que ser mantida afastada enquanto manifesta sintomas de ignorância sobre o funcionamento da ciência e da medicina em geral, não quer dizer que a doença do negacionismo seja incurável. Assim como tantas outras, exige um tratamento que pode ser complicado, mas que não tem nada de impossível na realização.

Tudo depende de quanta energia você quer doar para essa relação. Como estamos falando de amigos de verdade, não colegas ou conhecidos, presume-se que você tenha mais disponibilidade para essa pessoa. Quando são questões emocionais envolvidas, às vezes amigos precisam dedicar muitas e muitas horas numa questão para ajudar o outro. Eu mesmo já estive dos dois lados desse processo. Claro, não dá para viver em função disso, todos temos nossas vidas pra viver também, mas amigos verdadeiros se diferenciam por uma disponibilidade acima do comum.

Dito isso, o caso de negacionismo em relação ao coronavírus é uma questão baseada em pouco conhecimento específico sobre a ciência envolvida. Embora tenhamos sim alguns fatores emocionais mal resolvidos na história, não é como se você tivesse que lidar com uma pessoa arrasada pela morte de uma pessoa querida, por um término traumático ou mesmo um quadro depressivo, como a questão é tratada por um viés mais racional, é muito mais simples ajudar a pessoa a não ficar presa naquele lugar ruim da mente.

Lidar com uma questão puramente emocional para ajudar um amigo exige muita paciência, tempo e tato; mas uma com uma raiz racional simplifica o processo: você não precisa esperar a pessoa perceber as coisas sozinha, você pode adicionar as informações necessárias durante uma boa conversa. Não quer dizer que é fácil, só quer dizer que o caminho é menos tortuoso. Desde, é claro, que você tenha uma boa ideia do que está fazendo.

E aqui é bom diferenciar tipos de pessoas: algumas como eu tem um interesse muito mais desenvolvido em buscar e acumular informações. Eu me vejo diante de um negacionista com todas as ferramentas necessárias para responder perguntas e explicar coisas por dias seguidos, se for o caso. De políticas públicas de saúde ao mundo dos microrganismos, eu tenho de onde tirar informações rapidamente para desmontar virtualmente toda conspiração relacionada ao coronavírus. Como todo generalista, eu perco para um especialista na sua especialidade, mas talvez nesse caso essa minha habilidade seja mais eficiente para “desconverter” um negacionista do que puro saber aprofundado sobre uma área ou outra. Afinal, quando a pessoa se sente acuada num tema, é comum fugir para outro. Quanto maior sua capacidade de manter uma visão de mundo sólida e bem informadas diante dos vários caminhos tortuosos criados pelos teóricos da conspiração e negacionistas em geral, maior a chance de quebrar o escudo que estão colocando na sua frente.

Outras pessoas não têm o mesmo foco na vida. Talvez você seja uma delas: consegue depreender do ambiente que algumas informações são melhores que as outras, mas não é “acumulador de conhecimento” como eu. E não se sinta mal: se todo mundo fosse como eu, não conseguiríamos trocar uma lâmpada, quanto mais fazer uma. A humanidade se baseia em cooperação entre pessoas com focos diferentes. E se você não se sente seguro para discutir infinitamente com qualquer negador até vencer suas defesas e encontrar um lugar comum para trabalhar, saiba que saber qual o tamanho necessário de um furo para bloquear uma molécula de oxigênio não é tão importante assim, é um bônus, mas não a base da coisa.

Na verdade, quando você tenta trazer um negador de volta do mundo do radicalismo, basta estar tranquilo com a ideia de que está tentando ajudar e não tratar isso como uma disputa. Eu falo sobre quebrar escudos não num sentido de vitória ou derrota numa luta, e sim sobre desarmar o estado mental de batalha que está com a pessoa: não precisa de escudo porque não vai ser atacada. Se você souber apresentar uma forma mais pacífica de lidar com a realidade, ensina por exemplo. Tudo o que o negador quer para saciar o monstro que colocou dentro da cabeça é uma briga: é na troca de insultos e na desumanização do outro que reside seu poder.

Se você der atenção, falar com calma e se propor a estudar o assunto melhor com seu amigo, vocês podem ir acalmando essa fera e mudando o teor do assunto: não é mais sobre a sociedade impondo seus objetivos malignos sobre a pessoa, é sobre a busca da verdade. Discordar com calma e até mesmo afeto faz muita diferença. Mande às favas gente que não te importa, mas traga para perto (intelectualmente, faça isso pela internet) quem te é querido e está falando bobagens. Todo mundo fala besteiras de tempos em tempos, acredita em coisas erradas, é normal. Quando a situação é mais banal, dá para provocar um pouco o amigo para ele pensar melhor, mas nesse caso, é só ir com serenidade. O pouco que você souber de ciência já vai fazer muita diferença se a pessoa não te vir como mais uma inimiga.

Só no caso de você se dispor a ajudar e a pessoa ainda te tratar mal que você considera cortar a amizade. Afinal, se colocou “ciência de WhatsApp” e malucos de YouTube aleatórios na frente da amizade que tem com você, é porque essa amizade já não estava valendo nada. Mas você só vai saber se der uma chance. Eu já tive várias opiniões estúpidas nessa vida, devo ter um monte ainda, mas sempre encontrei pessoas dispostas a conversar sobre isso numa boa, mesmo nos tempos onde eu era muito mais agressivo em discussões do que sou hoje.

Pra mim é sobre devolver o que eu já recebi: provavelmente alguém já te deu atenção e se esforçou para te explicar alguma coisa que deveria ser óbvia, não é tão horrível assim devolver o favor para outra pessoa. Não dá para vencer a batalha contra a rede de desinformação histérica que vai se formando nas redes sociais se você quiser enfrentar todos de uma vez, mas se você pegar um indivíduo e se importar o suficiente, é bem mais simples do que parece.

E se não vai fazer isso com um amigo, vai fazer com quem?

Para dizer que tem mais o que fazer, para dizer que é defensor da seleção natural em todos os contextos, ou mesmo para dizer que não consegue ficar calmo com essa gente: somir@desfavor.com

SALLY

O fato de uma pessoa ser negacionista e não tomar os devidos cuidados para não se infectar com coronavírus é motivo para ruptura de amizade?

Para mim, sim.

Tudo depende do que você considera amizade e para que você tem amigos. Não estamos falando de um colega, uma pessoa do trabalho, um vizinho. Estamos falando de um AMIGO, e eu levo essa palavra muito a sério.

Tem gente que faz amigos por interesse: uma casa com piscina, um barco, bons contatos ou qualquer bem material que a pessoa possa oferecer bastam para uma aproximação e a construção de uma relação de amizade. Tem gente faz amigos para ter com quem sair, com quem farrear. Para mim, nada disso é amizade.

Amigos eu quero para uma relação de cumplicidade, respeito, admiração, parceria e, acima de tudo, para conversar, trocar ideias, para que me acrescentem algo. Se não é isso o que você procura em um amigo, tá tudo bem. Não é uma fórmula fechada, não existe um jeito “certo” de estabelecer uma amizade. Mas, no meu conceito, um amigo deve atender a esse propósito.

Como é que eu vou estabelecer uma relação de cumplicidade, respeito, admiração, parceria, como é que eu vou conversar, trocar ideias e buscar alguém que me acrescente com um negacionista? Não dá, né? Não tem os requisitos do edital que eu montei. Sou uma pessoa da ciência, não tem como ter admiração (e cá entre nós, nem respeito) por alguém que tem a diarreia mental de afirmar que o coronavírus não existe.

Não tenho interesse em estar perto de uma pessoa assim. Não gostaria nem de ter um vizinho negacionista, muito menos um amigo. Não se trata de ser intolerante com discordâncias, tenho amigos de todos os partidos políticos, de todas as religiões, de todos os times de futebol. Vai um pouco além da questão da divergência. Um negacionista causa um mal social e pode ser responsável por mortes. É uma questão ética, moral, de caráter (no caso, o meu caráter, de não me manter próxima a quem pode matar outras pessoas).

Eu não consigo conviver e compartilhar minha vida com alguém que eu estou vendo que coloca a vida de terceiros em risco. Essa sempre foi uma resistência minha, seja para o imbecil que dirige bêbado, seja para o energúmeno que acha que todos os hospitais de todos os países do mundo estão mentindo e inventando doentes e mortos. Não dá. Não me sinto bem perto de uma pessoa assim. Pra que me violentar e forçar o convívio?

Além disso, não acho que negacionismo seja fruto do acaso. Como falamos no texto do sábado passado, tem várias questões emocionais e sociais que acabam empurrando mentes mais fracas para o negacionismo. Esse conjunto, esse “pacote” de pessoa não me interessa. Agressividade, arrogância, certezas, revanchismo, sentimento de rejeição, falta de amor… não, não, é muito chato conviver com pessoas assim. Tô fora. Gente emocionalmente estável e madura é muito mais interessante.

Eu sei que pode ser que a vida da pessoa tenha sido uma merda, que ela tenha sido vítima de maus-tratos na infância, que ela tenha sofrido rejeição social em algum momento da sua vida, que ela não tenha sido estimulada intelectualmente, etc. Eu sei que a culpa não é da pessoa. Mas também não é minha. Acho uma agressão para comigo me obrigar a conviver com uma pessoa cujas atitudes eu repudio e julgo nocivas, ainda que elas sejam fruto de mera inconsciência e não de maldade.

E isso é uma zona nebulosa entre brasileiros. Parece que se uma pessoa é bem fodida da cabeça mas é boa pessoa, você é um escroto caso decida se afastar dela. Ser boa pessoa é UM dos requisitos para alguém entrar na minha vida, não o único. Pode ser uma ótima pessoa, mas se levar a vida na melhor das intenções acreditando que a pandemia é uma mentira é o vírus não existe, eu não quero perto de mim mesmo sendo boa pessoa.

Tem boas pessoas que são chatas pra caralho, tem boas pessoas que são autodestrutivas e te importunam com suas carências, tem uma infinidade de boas pessoas que, mesmo sendo boas pessoas, são um transtorno. Desculpa a sinceridade, mas manter qualquer relacionamento com alguém que você não tem afinidade, admiração e respeito só por ser uma boa pessoa se chama “pena”.

Lamento muito se a pessoa teve uma realidade bosta que a empurrou para esse grau de danação mental, lamento mesmo, mas eu não me sinto confortável perto dessa pessoa. Para ser meu amigo eu quero uma pessoa emocionalmente madura e que tenha um mínimo de afinidade com meus princípios. E fazer esta seleção não me torna má pessoa, preconceituosa ou elitista, esta seleção é um sinal de que eu me respeito e me julgo merecedora de escolha – e não de abraçar de forma agradecida qualquer um que queira ser meu amigo.

Dá para ter discordância com amigos. Dá para ter muitas discordâncias. O que não dá é para manter uma amizade com alguém que coloca em risco a vida alheia ou sua própria vida. Aí o preço é caro demais e eu não pago. E recomendo que ninguém pague, quando você se mantém ao lado de uma pessoa que faz mal a ela mesma, em algum momento ela vai fazer mal a você também, ainda que sem querer. E, tolerar que te façam mal, ainda que sem querer, é um claro sinal de baixa autoestima.

Para terminar, em um pensamento mais simplório: um negacionista pode colocar em risco a minha vida e a vida das pessoas que amo. Uma pessoa que acha que o vírus não existe provavelmente não toma os cuidados necessários para não se contaminar, portanto, pode acabar me contaminando. Não tem amigo neste mundo que valha a minha vida ou a vida da minha família. Tem muita gente bacana no mundo para eu me sujeitar a essa furada.

Se tem uma coisa que a vida me ensinou é a peneirar muito bem quem eu permito que se aproxime de mim e quem eu chamo de amigo. E olha, como a vida melhora quando a gente aprende a fazê-lo…

Para dizer que está revendo mentalmente suas amizades, para dizer que eu levo a vida muito a sério ou ainda para dizer que quem dorme com porco come farelo: sally@desfavor.com

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Comentários (12)

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    Capitão Impressionante

    Eu nem sequer cogito me aproximar de quem tem perfil ou tendência pra ser negacionista, quanto mais terminar uma amizade. Se o fdp quer agir feito um idiota, problema dele. Só não me venha colocar a vida da minha família em risco com um comportamento de merda…

  • A abordagem do Somir só faria sentido se fossem aquelas pessoas dispostas a trazer suas conclusões à luz do debate, pessoas que acreditam em algo incorreto, mas com um mínimo de capacidade de rever o que sabem.

    Os negacionistas hoje consideram como um ataque pessoal trazer questionamentos ao que eles sabem. Se portam como arautos da verdade, e não lidam bem com opiniões contrárias – surtam, debocham, e caso você não compartilhe das visões dessas pessoas, é tratado como idiota, porque eles são os sabe-tudo.

    A coisa mais saudável a se fazer é cortar relações com esse tipo de negacionista. É um risco à saúde estar próximo a uma pessoa que não apenas ignora a potencial gravidade do vírus, como também não se dispõe a entender direito como as coisas funcionam

  • Não, absolutamente não dá para manter negacionistas na minha vida. Ao menos não com a proximidade que tenho dos meus amigos. Meus pais já estão passando raiva com amigos que insistem em querer visitá-los – não negacionistas, mas também não levam a sério – e nós chutamos o balde e dissemos que minha mãe está sob suspeita. Mentir é feio, mas se for pra manter o bem estar das pessoas que amamos, é aceitável.
    Eu não me imagino mantendo amizade com negacionistas, lidar com pessoas que sabem que o vírus existe mas não levam a sério já me deixa irritada o suficiente.

    • Não sei o que é pior: quem nega uma realidade cientificamente comprovada ou quem acredita nela e, ainda assim, se coloca em risco.

  • Não é questão de opinião
    Nem de ponto de vista
    Jamais ter amizade negacionista!

    O tempo não volta atrás
    Muito caro se aproximar
    E toxicamente ter de lidar…
    Com convicções que podem ser letais!

  • “Desculpa a sinceridade, mas manter qualquer relacionamento com alguém que você não tem afinidade, admiração e respeito só por ser uma boa pessoa se chama ‘pena'”.

    Aqui foi uma terceira situação, da qual não há opções tão preto no branco: parentes que moram no oeste paulista e Mato Grosso do Sul.

    No início nos mandavam tirando fotos de churrascos e almoços em família, reclamando dos impactos econômicos por conta do exagero das medidas aqui na capital.

    Agora mandam relatos felizes dizendo que a Ivermectina só está causando diarreia neles, depois de alguns parentes terem flertado com a morte…só resta ter pena.

    Já os amigos que estão se automedicando com cloroquina, estou sendo sádica mesmo: já que se fecham a qualquer conselho sensato, passei a recomendar que tomem corticoide mesmo, uma vez que o prefeito das cidades deles haviam mandado publicar essa recomendação como protocolos de saúde. E é bem mais barato que cloroquina.

    Não vão matá-los do coração, mas farão que retenham líquido…

    Afinal, burrice tem que ser punida em vida.

      • Pois é. Longe de torcer pela morte de alguém, mas não lamentaria a perda de uma pessoa cujo negacionismo chega ao ponto de ameaçar concretamente parentes e amigos queridos nesses lugares.

        Já falei pra várias dessas pessoas: “Deixa pelo menos eu montar uma funerária antes para faturar em cima de você. É o único modo da sua morte não ser em vão”. Já perdi algumas oportunidades de negócio desde então.

        Nem assim param. Nem que fosse só para me contrariar, já ficaria feliz.

        Então, se acreditam em remédio milagroso e nada nem ninguém a demovem dessa crença, vão em frente, quem sou eu para dissuadi-las…outras até querem convencer para receber nossa concordância (!).

        Se a pessoa delega assuntos sérios ao crivo de (qualquer) terceiro, que pague o preço. De preferência, na minha futura funerária.

        Mas sem incluir os meus na fatura, que estão literalmente longe do meu alcance.

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