Axiomas da mídia.

O axioma é um termo da lógica que significa uma afirmação básica sobre a qual se constrói sua ideia. Normalmente é baseado em algo óbvio ou um consenso entre a maioria das pessoas, ou seja, algo que você não precisa ficar provando toda vez que quer falar sobre um tema. Descrevendo assim parece um conceito complexo, mas é algo absolutamente natural a qualquer conversa entre duas pessoas. Sem axiomas, não nos entendemos, porque com premissas muito diferentes, as conclusões costumam ser também muito diferentes. E eu acredito que esse conceito é muito importante para lidar com toda essa questão de mídia manipuladora e fake news que assola a sociedade moderna.

Com cada vez mais gente se informando por manchetes e resumos, o mundo vai parecendo mais e mais confuso: cada um diz uma coisa, todos se acusam de mentirosos, lados completamente opostos citam pesquisas e especialistas dizendo coisas opostas… como se informar no meio desse caos, como não cair em mentiras, boatos infundados ou conspirações bizarras nesse ambiente?

A minha sugestão é aderir a alguns axiomas sobre a mídia de massa e imprensa em geral. Partindo desses princípios, fica mais simples processar a informação que chega até você diariamente. Eu fiz o máximo para não tornar nenhum deles partidários ou tendenciosos, mas não é como se imparcialidade fosse uma ciência exata…

1 – Não existe imprensa ou mídia imparcial: toda informação que precisa de um interlocutor (esteja essa pessoa sendo filmada, gravada ou escrevendo) corre o sério risco de ser modificada pelas crenças pessoais desse interlocutor. No dia a dia, essa parcialidade costuma ser bem explícita, a maioria de nós não está falando para grandes públicos e pode colocar a opinião bem no meio de um relato sem maiores consequências. Sua família ou amigos já sabem mais ou menos como você pensa e você dificilmente sofre consequências sérias por dar uma informação tendenciosa.

Agora, quando falamos de profissionais da área, aqueles que trabalham para grandes redações ou que mesmo sozinhos já tem um público grande o suficiente, essa impressão de parcialidade no fato pode ser bem mais discreta: o jornalista que apura, o editor que analisa e o apresentador que leva para o público final colocam um pouco da sua visão de mundo na informação. Não precisam nem querer fazer isso, é automático: se analisam um caso de violência entre bandidos e policiais, alguns vão ver as dificuldades pelas quais os policiais passam no trabalho, outros vão ver os abusos que cometem contra a população. O fato compreende os dois lados, mas quando ele é contado para outra pessoa, a parte que ganha mais destaque é a que tem mais suporte interno na mente de quem conta.

Ninguém consegue desligar isso. O cérebro não permite imparcialidade absoluta, até por isso revisão é algo tão importante no jornalismo: não é saudável para a imprensa que só uma pessoa tenha controle sobre a informação, afinal, ela vai acabar deixando vazar suas opiniões pessoais de alguma forma, querendo ou não. Isso quer dizer que ninguém manipula informação propositalmente? Claro que não. O que não falta é gente misturando jornalismo direto com opinião para mexer com a opinião pública, mas não é tão fácil assim saber se a pessoa está fazendo isso propositalmente ou não. Imparcialidade é muito complicada.

2 – Mentiras custam caro: todo mundo adora dizer que a Globo mente. Não coloco minha mão no fogo pela correção dos dados dessa empresa e de qualquer outra, mas parece que algo muito básico passa batido pela maioria das pessoas: em toda área do conhecimento humano, existem pelo menos alguns milhares de pessoas nesse mundo capazes de reconhecer informações falsas. E num mundo com tantas sociedades vivendo como democracias com liberdade de expressão, é muito complicado empurrar uma mentira absurda, especialmente se você tem uma grande plateia. Essas pessoas falam.

O que não quer dizer que Globo e outros grandes veículos de mídia nunca dizem coisas falsas, há muita coisa errada chegando ao público final todos os dias, mas é importante entender a diferença entre um conspirador no YouTube falando sobre os planos secretos de políticos e uma matéria sobre uma figura pública feita por jornalistas: embora ambos os casos possam conter informações erradas, a gravidade das conclusões é completamente diferente. O lobo solitário pode dizer basicamente o que quiser protegido pela obscuridade. Pode dizer que existem alienígenas transformando seus filhos em transsexuais ou que o presidente mandou matar a Marielle Franco, porque raramente isso vai dar em alguma coisa para ele.

Mas vai o Bonner dizer uma dessas coisas no Jornal Nacional, vai… não só aparece um exército de pessoas para apontar inconsistências, como a emissora é processada por mil pessoas diferentes. Seria uma tragédia para a empresa dizer qualquer coisa grave do tipo sem ter provas. Quando a imprensa profissional dá informações erradas, normalmente não o faz dessa forma, é algo mais sutil, provavelmente mais ligado ao primeiro axioma do que uma mentira deslavada.

Em basicamente qualquer país democrático do mundo, se a mídia de massa diz uma mentira absurda, corre o sério risco de ir à falência com perda de credibilidade, anunciantes e espectadores, além de processos muito custosos para pagar. Não precisa ter ninguém lá dentro defendendo a verdade por ideologia, só precisa ter alguém que quer continuar recebendo salário mês que vem… o que nos leva ao próximo axioma.

3 – Imprensa é um negócio: e como todo negócio, precisa pagar suas contas. E isso significa que precisam fazer escolhas que maximizem seus lucros. Já falei disso outras vezes, mas é importante ressaltar como o ciclo de notícias não reflete exatamente o que acontece no mundo, e sim filtra as informações com maior potencial de chamar atenção das pessoas. É minha briga eterna com a Sally e com muitos de vocês: virtualmente todos os indicadores de qualidade de vida humana sobem consistentemente há décadas ao redor do mundo. Inclusive no Brasil. Mas não se faz uma página lucrativa de notícias tentando refletir tudo isso.

Talvez por pressão evolutiva, acabamos com um foco de atenção muito específico para tragédia e coisa ruim. Claro que essas coisas acontecem sem parar, mas não são só elas que acontecem. O resto é considerado mais banal, e dificilmente alcança o mesmo grau de interesse do grande público. Então, para que os assinantes e anunciantes continuem colocando dinheiro na mídia, é importante desequilibrar um pouco a medida para o lado negativo da humanidade.

Mas isso pode ser ainda mais sutil: somos criaturas de hábito. Informações que já conhecemos são mais seguras, pessoas com as quais já nos familiarizamos são mais interessantes. Não é à toa que a mídia fica repetindo seu foco em algumas pessoas e temas, está provado pelos números de audiência que isso funciona. Se o povo está vidrado em tudo relacionado ao presidente, cada movimento dele será noticiado. E aí, voltamos para o viés negativo da mídia: é comum que esses grandes fluxos de atenção sejam baseados em críticas. Uma celebridade que está evitando críticas pode até ser querida pelos anunciantes, mas não muito pelos jornalistas. Pra quê falar de algo que não vai atrair público?

E aí você começa a entrar numa armadilha de enxergar viés político em notícias que só estão lá porque são a melhor decisão comercial. Se executivos da grande mídia tem objetivos maiores, é evidente que eles vão aparecer no conteúdo que suas plataformas disponibilizam, mas nem mesmo as empresas mais ricas do mundo podem abandonar seu modelo de negócios e não sofrer pesadas consequências financeiras. Na prática: hoje em dia custa caro para uma grande emissora de TV ou portal de notícias não bater no Bolsonaro. Para seus fãs e para os que o odeiam, a atenção é garantida. Vocês podem ver o SBT, que decidiu ficar em bons termos com o presidente, sentindo uma queda pronunciada na audiência. Não é à toa: mesmo quem gosta do Bolsonaro não tem muito incentivo para ficar sintonizado num canal que tem que ficar fingindo que a pessoa mais polêmica do país não está fazendo nada no momento.

Posicionamentos que você poderia jurar que são políticos podem muito bem ser apenas algo que aumenta em 10% o valor dos contratos com anunciantes naquele momento. Não é como aqui no Desfavor, onde só perdemos dinheiro e podemos escrever basicamente o que der na telha, atraia atenção do público ou não. Quem paga as contas com notícias tem que levar em consideração o que gera dinheiro e o que não gera. A Globo já foi inimiga do PT na primeira candidatura do Lula, já foi conivente com o PT durante seu governo, voltou a ser inimiga nos tempos da Dilma, e agora, pelo visto é aliada do PT contra o Bolsonaro… é só ver onde estava o dinheiro e o interesse do grande público em cada uma dessas fases.

Não confie cegamente na Globo, mas não porque ela tem um plano maligno para mentir para você. E sim porque ela vai seguir o dinheiro todas as vezes e azar do que ficar no seu caminho. Ela precisa disso para não falir. Não confie em grande empresa de mídia nenhuma por esse mesmo motivo, tradicional ou digital. O Facebook e o Google vão fazer o que precisarem para manter suas empresas dando lucro, se parecem ter um viés esquerdista hoje, é porque isso é mais lucrativo do que ser conservador. A partir de um certo tamanho, empresas começam a funcionar mais ou menos sozinhas, mais preocupadas com a própria sobrevivência do que qualquer outra coisa. Lacração é o novo “iniciativa sustentável”, algo que publicitários planejam para manter um grau mínimo de simpatia com a marca e evitar que concorrentes ganhem espaço no mercado.

4 – Manchete não é notícia: podia ficar dentro da categoria anterior, mas merece atenção especial. Manchetes e resumos tornaram-se ainda mais importantes na indústria da informação moderna, pois a maioria das pessoas tem uma oferta imensa de veículos de mídia ao seu dispor produzindo conteúdo compulsivamente 24 horas por dia. O tempo disponível para qualquer cidadão médio para se informar pode até ser o mesmo de décadas anteriores, mas é tanta coisa disputando atenção que cada notícia ou artigo tem menos e menos tempo para conseguir um espaço nesse foco de atenção.

Tem coisas que simplesmente não dá para resumir numa frase, informações complexas que precisam de contexto que nem todo mundo tem. De uma certa forma, manchetes e resumos são baseados em axiomas do mesmo jeito que uma conversa: dependem de alguma coisa que você já conhece para chamar atenção. Dizer que cientistas descobrem nova partícula não vira muitas cabeças, mas falar que acharam a “partícula de Deus” gera atenção imediata. E todo mundo sabe disso de uma forma ou de outra.

Por isso, é cada vez mais comum que as manchetes tentando atrair um clique comecem a vagar um pouco mais longe da notícia real, em busca desse lugar comum mais apelativo. Não é mais uma notícia na capa de um jornal, disputando só com outro jornal na banca, é um bloco minúsculo numa tela pequena de celular numa lista com centenas de outras notícias. E isso cria um mundo paralelo de manchetes: tem que ser minimamente relacionadas com o texto ou o vídeo que tentam divulgar, mas estão travando uma batalha à parte com todas as outras manchetes. Que vença a pior!

Se você clicar na notícia, começa a perceber que cada vez mais o conteúdo não tem nada a ver com a chamada. Num mundo ideal, as pessoas sempre leriam o conteúdo, mas hoje em dia a manchete já vai direto para a rede social e pessoas discutem sobre ela sem parar, a maioria nunca lendo o texto original. Entender que manchete não é notícia é importante como axioma da nossa relação com a imprensa e a grande mídia em geral porque se você percebe que ela pode não ter relação nenhuma com o conteúdo, começa a entender que só vai falar besteira e passar vergonha assim que estiver lidando com alguém que prestou atenção naquele conteúdo. E mais importante, não vai construir nada em cima daquela afirmação bombástica, porque sabe que as chances daquilo ser verdade são cada vez menores.

Procure por assuntos e pessoas que te interessam, não por manchetes chamativas. Mesmo que a matéria tenha um título bizarro que te ferva o sangue, se você relaxar a mente e entender que manchete é só uma propaganda de notícia, vai até ler o material com menos preconceito e conseguir absorver melhor o conteúdo. Exemplo: você lê uma manchete dizendo que ar-condicionado é machista. Aquilo só existe para chamar atenção, mas no texto tem uma informação valiosa: muitas mulheres ficam com vergonha de dizer que estão com frio em escritórios, você pode melhorar a produtividade delas se perguntar sobre isso às vezes. Mesmo que a autora do texto só tenha falado asneiras ao redor disso. Se você quiser ficar furioso com a manchete, pode simplesmente perder um dado construtivo dentro do texto pelo bloqueio que faz instintivamente no pensamento. Manchete é manchete, conteúdo é conteúdo. Não misture os dois.

O mercado está tomado por essa guerra por atenção e ninguém parece ter a solução ainda, então, enquanto isso, adapte-se você: não dê a mínima para a manchete até ler o texto. E se for um assunto que você não tem interesse algum, não deixe uma frase bizarra te fazer gastar tempo com o tema.

5 – O mundo tem mais gente razoável do que malucos: sem um pouco de confiança na palavra e no estudo do outro, o mundo não é possível. Fake News, boatos e negacionismo científico correm soltos, mas gente que fala coisa séria com o melhor das suas habilidades também existem, e não são poucos. Se a turma da desinformação fosse uma maioria tão grande quanto nos fazem acreditar, você estaria vivendo numa caverna agora. A civilização depende de informação confiável para existir nos seus níveis mais básicos, e ainda se valoriza o que é bem feito e se pune aqueles que fazem as coisas da forma errada, nem sempre, é lógico, mas o suficiente para manter a vida em sociedade viável.

Não é para achar que todo mundo está mentindo e você está sozinho para entender o mundo, isso inclusive é sinal de doença mental. Pensamento crítico não é desconfiar de tudo e todos sem parar, é ter conhecimento e treino para perceber quando algo está estranho e dar mais atenção para o tema até achar algo que faça mais sentido. Em tese, simples assim. Na prática, precisa de treino e interesse.

E enquanto isso, pode pegar esses axiomas emprestados.

Para dizer que não acredita em nada do que eu escrevi, para dizer que todos estão te perseguindo, ou mesmo para dizer que já sabia tudo isso e quer seu tempo de volta (mas você já pensou nisso com calma?): somir@desfavor.com

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Comentários (16)

  • Texto bem interessante, até mesmo pra colocar em chegue uma discussão de longa data. que inclusive já travei uma vez com um pobre sujeito estudante de jornalismo: afinal, a mídia manipula ou não manipula as pessoas? Claro que tem que ver também que conceito é esse de “manipular”, né? Mas o meu ponto na discussão é: de fato, não existe imparcialidade total, não existe mídia imparcial. Se é algo que passa pelo discurso, pela linguagem humana, certamente passa também pela subjetividade, e não tem como não ser “contaminado” de alguma maneira por ela.

    Exprimir algo pela linguagem – seja ela na forma de uma notícia – deixa impressa as marcas discursivas e de certa “visão de mundo” acerca da realidade que se insere o indivíduo. O pessoal da análise do discurso adora se debruçar sobre isso, enquanto há uns ortodoxos que insistem de maneira acerba que existe imparcialidade no discurso.

  • O medo não é o objetivo, é a arma. O objetivo é te manter num estado perpétuo de trauma e pessimismo em que você sente que não está seguro.

    EU SÓ QUERO GRELHAR

    • Alicate não pega de surpresa ninguém que conhece o Alicate. Pode fazer merda, mas é extremamente consistente nelas.

  • O que está acontecendo é um processo de Mafaldificação do ser humano. Assim como a menina das tirinhas argentinas, as pessoas estão excessivamente dedicadas a ficarem indignadas apenas por ficar, sem pensar em soluções práticas. Será vício em cortisol?

    • Eu ando com a impressão que ficar indignado/ofendido virou obrigação social. Claro que o mundo dá motivos, mas considerando quanta gente parece fazer isso até mesmo em nome de outros, isso está virando comportamento esperado do cidadão moderno.

      • Também acredito nisso. Como vcs já escreveram aqui, a todo momento algum youtuber/blogueiro da vez ganha likes e visualizações por “algum nada”que acontece e te convida a se indignar com ele. Se não, você é um filho da luta de um ser desprezível que não sente empatia. Essa semana vi uma manchete do cara que decepou o dedo, que acabou dentro de uma esfiha. Dei boas gargalhadas até alguém problematizar isso. Acho que ultimamente ficamos indignados pelas pessoas se indignarem por tudo…

        • “Acho que ultimamente ficamos indignados pelas pessoas se indignarem por tudo…” Não poderia ter resumido melhor…

  • “se parecem ter um viés esquerdista hoje, é porque isso é mais lucrativo do que ser conservador. ”
    Em outras palavras, não adianta um grupo ser maior em número (pessoas normais + conservadores) se não é um grupo engajado. Mas uma minoria dominando tudo, independente da opinião da maioria, não é novidade na nossa história…

    • Criança aprende rápido que fazer barulho funciona, e como aparentemente amadurecimento saiu de moda, temos um mundo de berros.

    • Não sabia que market-share se media por engajamento e não número de consumidores.
      Melhor nem falar no exagero do “dominando tudo”…

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