CHAZ

CHAZ é a sigla de “Capitol Hill Autonomous Zone”, uma área contendo seis quarteirões e um parque público no bairro Capitol Hill na cidade americana de Seattle, Washington. Desde o dia 08 de junho, manifestantes em protesto ao assassinato de George Floyd pela polícia vivem nessa região da cidade sem intervenção alguma do poder público. Com a conivência da prefeita da cidade, esperam provar que vivem melhor sem a polícia por perto. Quer dizer, esperavam…

Até o dia que escrevo este texto, a zona continua por lá, embora a pressão para desfazê-la continue aumentando. Depois de vários tiroteios e denúncias de crimes graves como estupros, o governo regional se vê com menos e menos alternativas de capitalizar sobre a popularidade dos protestos e mais e mais cidadãos insatisfeitos. Em tese, a CHAZ (ou CHOP como a mídia americana começou a chamar recentemente) era quase como uma comuna hippie no meio de uma metrópole: as pessoas tomaram conta de um parque e das ruas adjacentes para montar sua própria sociedade. Diziam-se melhores sem a opressão policial e as regras capitalistas americanas.

Muita gente cria essas comunidades alternativas no interior, a novidade era estar no meio de uma grande cidade. Mesmo assim, goste ou não deles, hippies querendo uma vida autônoma nunca foram motivo de terror. O problema é que o experimento anárquico não durou mais que alguns dias, rapidamente um grupo armado liderado por um rapper chamado Raz Simone declarou-se líder do movimento, e até pela parte de ter soldados armados, não foi contestado. CHAZ começou a ter regras próprias e uma política cada vez mais agressiva de defesa das fronteiras.

Nos dias que se seguiram, dependendo da inclinação política do veículo de imprensa que você acompanhava, via cenas de uma sociedade utópica se formando em perfeita harmonia ou via cenas de violência e criminalidade se espalhando por uma área sem lei. Tecnicamente, ambas as análises são verdadeiras: se você procurar, acha os exemplos que quiser para empurrar sua narrativa sobre essa região. Durante o dia, lacradores dançavam de mãos dadas e tentavam plantar nas terras do parque, durante a noite, criminosos corriam soltos tentando dominar a região.

E a prefeita da cidade, a democrata Jenny Durkan, parecia achar tudo muito bonito. Eleita sobre uma plataforma pra lá de progressista, lésbica assumida e morrendo de medo de ser vista como inimiga do movimento, tolerou que uma área considerável de sua cidade fosse tomada por manifestantes e ainda disse, lá no começo da invasão, que quem sabe seria um novo “verão do amor” na cidade. Verão do amor é o nome da invasão hippie das cidades de São Francisco e Nova Iorque nos EUA em 1967. Apesar dos problemas relacionados com muita gente drogada no mesmo lugar, é historicamente lembrado como um movimento cultural pacífico.

Mas não havia mais amor nos meses quentes do hemisfério norte, não em 2020. As inúmeras bancas oferecendo refeições veganas grátis atraíram moradores de rua de várias outras regiões da cidade. O que vocês podem imaginar que começou a causar uma série de problemas. Os negócios presos dentro da área invadida até viram um aumento do movimento nos primeiros dias, mas a maioria já fechou. Complicado depender de uma gangue armada liderada por um rapper para manter um mínimo de ordem numa região. E, é claro, os donos de negócios não são malucos de exigir a saída dos manifestantes, se já tinha gente depredando propriedade privada sem motivo claro antes, imagine agora sem polícia alguma? Já estão processando a cidade, mas sem fazer crítica alguma ao movimento nos processos.

Nos últimos dias, duas pessoas já foram mortas em tiroteios. Ironicamente ou não, dois homens negros. Para um protesto que começou dizendo que o maior perigo para os negros era a polícia, realmente não pegou bem. O que se torna evidente na situação é que boa parte das pessoas na área só está lá pela comida grátis e um lugar para colocar suas barracas. Financiados por doações de gente que quer se mostrar aliada, independentemente do resultado prático das ações. Ainda não se sabe quanto tempo o CHAZ vai durar, afinal, o poder público local ainda não parece ter coragem de intervir. Só sabemos que se for com uma invasão policial, as coisas não vão acabar bem: além da gangue armada de Raz, a Antifa tem células infiltradas na região prontas para o enfrentamento violento.

Se eu tivesse que fazer uma previsão, salvo algum massacre violento dentro da região, o governo local vai tentar esperar até os residentes cansarem e voltarem para suas casas. Pelo menos até novembro, que é quando as eleições presidenciais devem acontecer. Um desastre na reocupação do CHAZ seria munição para Trump e os republicanos durante a campanha. Mas com a escalada da violência numa terra sem polícia, talvez não exista tempo hábil para isso.

O que o CHAZ demonstra claramente é que o mundo não é tão simples quanto o que se escreve no Twitter. Organização social é algo muito complexo, especialmente quando você tenta entrar num trem em movimento: não existe sociedade utópica com lanches veganos e homenagens às minorias no meio de uma cidade que já tem todos os problemas clássicos da civilização. Crie uma casa de portas abertas sem lei e ela vai ser tomada por mendigos e criminosos.

Comunidades hippies de sucesso (existem sim, ninguém fica rico, mas as pessoas conseguem se manter, e teoricamente) só funcionam por estarem longe do resto da sociedade ou por terem uma política de fronteiras bem definida: tem que ser praticamente impossível para pessoas sem valores muito parecidos com os seus entrarem no local. Faça no meio do mato e quase ninguém vai ter como chegar, feche as portas e você vai perceber rapidamente quem se integra ao seu grupo. Ou há alguma unidade na sua comunidade ou as coisas começam a desmontar rapidamente.

E não estou falando de unidade por raça, e sim de propósito. Religiosos e hippies conseguem viver separados de boa parte do resto da sociedade porque são pessoas que pensam parecido e que pagaram algum preço para estar lá. Ir para o meio do nada para viver de trabalho duro, renunciar ao consumismo ou aceitar as regras de uma religião são excelentes filtros para pessoas dispostas a colaborar. Uma zona autônoma no meio de uma cidade é só questão de pegar um ônibus e se sentar na grama. Vai encher de gente que pode até achar que quer a mesma coisa, mas na prática, não tem interesse genuíno em trabalhar juntos e pagar o preço de viver às margens da civilização.

Você entende rapidamente o valor de viver em harmonia se depende de cooperação para ter o que comer. Agora, se você pode andar dois quarteirões para tomar um café na Starbucks e voltar para enfrentar o sistema, algo essencial se perde. Quando as pessoas não pagam por algo, acham que tem menos valor, é natureza humana, por mais que comunistas de boutique se oponham à ideia. O CHAZ não custou nada. Rebeldia de criança permitida pelos pais frouxos, que enfrenta o sistema recebendo lanchinhos veganos do próprio sistema. Sem esses valores fundamentais de esforço e unidade, a ideia se degenera em esconderijo de bandidos, arroubos autoritários de gangsters e refeições grátis para mendigos.

A diversidade urbana é a maior inimiga do CHAZ. Uma ironia daquelas que só o culto doentio que nos roubou a esquerda original poderia proporcionar. Diversidade é uma força quando ela contribui para a unidade, não por si só. Sociedades com pessoas muito parecidas ganham com experiências novas trazidas por pessoas diferentes, mas sociedades que já são muito misturadas como as de grandes metrópoles não conseguem gerar essas vantagens. É só mais gente sentada no parque esperando por comida grátis. Longe de mim criticar os mendigos que foram lá se aproveitar da situação, eu teria feito o mesmo. Sagrado direito de buscar o que é melhor para você. Mas isso não forma uma sociedade alternativa, isso só forma um abrigo a céu aberto.

No final das contas, não estão lutando contra nada, não estão passando mensagem alguma. Entre as mídias pra lá de partidárias americanas, o que se enxerga são dois extremos, ambos validando crenças preexistentes de seus públicos. Salvo um desastre causado pelos bandidos infiltrados ou por uma desocupação forçada muito violenta, vai ser difícil tirar alguma conclusão dessa história além da óbvia: jovens idealistas tomam um parque para criar uma sociedade alternativa sem polícia, acabam tomados por gangues, sociopatas, desempregados e mendigos. Qualquer preconceito que você tiver pode ser moldado ao redor dessa situação. Ativismo do século XXI aparentemente só serve para reforçar as ideias que você já tem.

Para dizer que sou hipócrita porque quero fazer o mesmo no Suriname (com a gente vai ser diferente, à lá comunismo), para dizer que está acompanhando com um saco de pipocas, ou mesmo para dizer que vidas negras só importam quando você pode fazer pose com isso: somir@desfavor.com

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Comentários (8)

  • O recente êxodo urbano, com tendência a aumentar após a pandemia, diz muito sobre a condição atual das metrópoles. Isso já havia começado há alguns anos nas grandes metrópoles europeias, como Londres e Paris, por causa do trânsito, da poluição, custo de vida caríssimo e outras coisas politicamente incorretas demais pra serem ditas. Tanto é que volta e meia surge um artigo de jornalista progressista genérico chamando os entusiastas da vida no campo de [alguma coisa]-istas. Como ousa comer comida saudável, gastar seu dinheiro apenas com coisas necessárias e dar mais atenção ao seu filho?

    Com tanta gente trabalhando de forma remota e compras online se tornando banais, cada vez mais pessoas vão questionar se alugar uma lata de sardinha por 2.000 reais num bairro onde mal pode andar sem medo e passar 2 horas no trânsito até pra ir ao mercado só pra “morar perto de tudo” (irônico, não?) realmente vale a pena. Digo isso por experiência própria: cresci no campo, passei 6 anos estudando e trabalhando na capital e foi o suficiente pra perceber que aquele lugar não é pra mim.

    Mas não tenho certeza sobre como a sociedade, principalmente as elites, vão lidar com isso. Talvez esse bando de milionário compre todas as terras do interior e torne o êxodo urbano impossível, nos levando à uma distopia nível Wall-E. “Não faça nada, apenas trabalhe, consuma produtos e fique empolgado esperando os próximos”. Talvez a humanidade se fragmente em várias cidades pequenas e médias (o ideal, na minha opinião), as pessoas vão passar menos tempo no trânsito, vão andar a pé com mais frequência, terão mais tempo e espaço pra produzir os próprios alimentos e os índices de obesidade e doenças relacionadas à ela vão despencar.

    Ou talvez o êxodo urbano fique restrito a uma minoria, pois cuidar de um sítio não deixa tempo pra jogar videogame e postar a bunda no TikTok. Vai saber :P

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