Comemorações de 12 anos encerradas. Luto oficial em toda a nação por tempo indeterminado.

Morrendo pela Covid.

Brasil e Estados Unidos, pelo menos oficialmente, são os países com maior número de mortos pela pandemia do Covid-19, e talvez não à toa, dois países com presidentes parecidos na tendência de negação científica e achismo acima de tudo. Sally e Somir discordam sobre qual deles passaria a mensagem mais poderosa caso perecessem para a doença. Os impopulares tratam de opinar.

Tema de hoje: qual morte para a Covid-19 seria mais didática para o mundo, Bolsonaro ou Trump?

SOMIR

Trump. Morte de presidente em exercício americano é um evento mundial, pelo menos enquanto o país ainda goza do status de potência hegemônica. Poucas coisas dominariam tanto o ciclo de notícias global, do mais rico condomínio suíço à mais pobre favela sul-africana, em questão de horas é provável que quase todo ser humano do planeta fique sabendo do acontecido. Multiplique esse impacto por dez com um presidente tão polêmico e midiático como Trump no cargo.

Claro, a morte de um presidente brasileiro não seria ignorada, mas estamos falando de um impacto mais regional. Da mesma forma que Trump, Bolsonaro tem ao seu favor ser uma figura que divide muito a opinião pública, mas é importante separar a escala das coisas logo no começo dessa argumentação. A morte de Trump seria uma bomba atômica, a de Bolsonaro um atentado terrorista. E nessas horas, a escala é importante para passar uma mensagem.

Exemplo: a ideia de um regime focado em pureza étnica e poder absoluto não incomodava tanto assim o mundo até a Alemanha nazista resolver conquistar a Europa toda e lançar o mundo numa guerra global. E para falar a verdade, ainda não incomoda tanto: quando aconteceu em Ruanda nos anos 90 foi só um triste acontecimento. A ideia de genocídio sempre é ruim, mas a mensagem só fica clara quando ela toma esse tipo de proporção. Ou vai me dizer que só descobrimos que o extermínio em massa de pessoas era algo terrível nos anos 40 do século passado?

Hoje em dia, já temos todos os recursos para saber que subestimar uma pandemia como a Covid-19 é uma péssima ideia que coloca milhões de vidas em risco de forma totalmente desnecessária, mas apesar da doença ter se espalhado pelos quatro cantos do mundo, temos uma visão mais localizada da situação: cada país se vira mais ou menos sozinho. Fazemos rankings de mortes e contaminações, comparamos estratégias de contenção… e até mesmo tornamos isso motivo para ativar rivalidades vindas de outros campos. China e EUA usaram o vírus como ferramenta de propaganda da guerra comercial, por exemplo.

Na prática, isso quer dizer que apesar de todos estarmos sofrendo com as consequências da doença, o evento aumentou ainda mais a onda nacionalista recente. Falta um grande evento para unificar as mensagens e nos fazer entender que o inimigo é o mesmo. Inclusive aqui no Brasil, onde ao mesmo tempo que mais de mil pessoas morrem por dia, alguns imbecis continuam achando que o importante é não usar máscara para desafiar os comunistas chineses ou seja lá a lógica distorcida que usam para defender seus comportamentos. Sem algo que una o mundo pelo menos pelo impacto da notícia, vai ser complicado passar uma mensagem clara.

E é aí que a morte de Bolsonaro falharia em cumprir a função. Enviaria ondas de choque pela América Latina e com certeza chamaria atenção de boa parte do mundo, mas seria notícia de um ou dois dias na mídia mundial. Sem um imenso impacto global, o evento da morte do presidente brasileiro provavelmente falharia até na missão de impactar suficientemente o público negacionista regional: com o tema ainda sendo visto pela ótica nacionalista, seria bem mais fácil continuar culpando inimigos externos e conspirações mirabolantes do que olhar para o que está diante do próprio nariz. Certeza que diriam que foi assassinato a mando dos chineses ou algo do tipo.

E na dúvida entre obviedades incômodas que exigem repensar na realidade e teorias fantasiosas que reforçam o que já se acredita, já sabemos qual é mais palatável para o cidadão médio, não? Trump cair para a Covid-19 tem efeitos mais poderosos: não que as teorias conspiratórias desaparecem, muito pelo contrário, elas durariam séculos, mas se teoricamente a pessoa mais poderosa do planeta não resistiu a uma doença e o mundo passar semanas falando disso sem parar, algo vai começar a entrar na cabeça de muita gente. Mortes de presidentes nos mostram como somos finitos independentemente de nosso poder, e nada é mais didático nesse sentido (pelo menos atualmente) que a morte do presidente em exercício dos Estados Unidos. Se ele não resistiu, ninguém está imune.

Isso desmobilizaria boa parte da base negacionista americana, no clima político deles, Trump é meio que a única figura viável para seguir se você não está guinando para a esquerda política. Foi uma falha do sistema deles que se repetiu por aqui: uma geração perdida de centristas que foi engolida por radicais de ambos os lados do espectro político e limitou muito as escolhas do povo. Sobrou o Trump por lá para combater os Democratas, sobrou o Bolsonaro aqui para combater o PT. O que é tudo menos ideal… mas se a direita maluca americana perder o ponto focal, é bem provável que a brasileira siga o caminho.

Se você acompanha os temas e discursos da direita americana, percebe rapidamente que a brasileira é composta de imitadores descarados. O que falam por lá é traduzido palavra por palavra por aqui. E como o negacionismo científico relacionado à Covid-19 depende muito da direita, provavelmente veríamos um efeito dominó por aqui: a direita americana fica sem foco por alguns meses, a brasileira vai perdendo a identidade também. Nenhum movimento político é eterno, claro que as coisas se reorganizariam eventualmente, mas nesse vácuo de poder é provável que muita gente deixasse de ser irresponsável por ideologia. E sem essa gente, os cabeças-ocas que só precisavam de uma desculpa para encher a cara no barzinho ficariam mais isolados.

Sim, eu sei que tem uma mensagem sobre o quanto cada presidente foi incompetente na gestão da crise, mas essa mensagem já está clara há meses, não vê quem não quer e tem na mentalidade nacionalista e ideologia americana de direita as defesas para racionalizar o comportamento cretino. O que falta agora é berrar a mensagem tão alto que ninguém mais possa tapar os ouvidos e inventar outra realidade no lugar. E não vai ser o presidente de uma república das bananas – que todo mundo já meio que esperava que ia fazer merda – que vai fazer barulho suficiente. Se alguém pode morrer aumentando o volume dessa mensagem o suficiente, tem que ser Trump.

Para dizer que Bolsonaro vai morrer de Cloroquina, para dizer que se Trump morrer o mundo acaba (não duvido), ou mesmo para dizer que escolhe os dois: somir@desfavor.com

SALLY

O que seria mais didático para o mundo: se Trump morresse de coronavírus ou se Bolsonaro morresse de coronavírus?

Bolsonaro. Eu sei que a vontade de ver o Trump morto é enorme, pois ele é o elo mais forte, mas, para fins pedagógico, Bolsonaro seria mais didático.

Apesar de todos os erros do Trump, ele tentou se redimir. De um jeito tosco? Sim, como tudo que ele faz, mas ele tentou. Comprou tudo que havia de insumos e equipamentos de proteção para tentar assegurar que o povo americano tenha acesso a tratamento.

Fez o que estava ao seu alcance e concordou com uma política pública de combate ao coronavírus. É um bosta que acha beber água sanitária pode ajudar, mas ao menos deixou que quem entende minimamente do assunto trabalhe.

Houve uma quarentena séria nos EUA. Houve uma campanha de conscientização eficaz. Depois que o caldo entornou, a cartilha certa começou a ser seguida. O governo gastou milhões e moveu mundos e fundos para tentar desfazer a merda que havia feito.

Bolsonaro não. Bolsonaro não fez nada e ainda atrapalhou quem estava tentando fazer. Quando o número de mortos explodiu, ao contrário de Trump, ele continuou inerte e/ou atrapalhando. Nunca mudou de atitude e ainda empurrou goela abaixo da população um remédio que não serve para tratar a doença e ainda faz mal. Uma vida baseada em minimizar uma pandemia que matou mais de 50 mil brasileiros.

Seria uma belíssima mensagem: se você quer brincar de EUA, é bom que tenha todos os recursos para isso. Não dá para ser tupiniquim e querer se portar como americano, quando você tenta fazer uma coisa dessas, morre.

Bolsonaro faz um discurso na teoria e na prática, quando é com ele, se porta de forma bem diferente: manda dar cloroquina em estágios iniciais da doença para todos, inclusive crianças e gestantes, afirmando ser muito seguro, mas quando ele adoeceu e tomou essa porcaria, foi no melhor hospital fazer dois eletrocardiogramas por dia para avaliar se o remédio estava causando danos ao seu coração. Muito seguro um remédio que demanda dois exames cardíacos por dia.

Se a cloroquina começar a causar danos ao Bolsonaro, ele vai saber de imediato. O Fulaninho atendido pelo SUS vai descobrir morrendo do coração. Bolsonaro é uma minoria, que tem toda a infraestrutura do mundo à sua disposição, mas a regra do país é a precariedade e, por isso mesmo, não se podem assumir riscos, sejam pessoais, sejam na política pública de combate ao covid.

Brasileiro não é americano e não pode se dar ao luxo de agir ou de errar como americano, pois não tem o que precisa para reparar o erro. Brasileiro, por ser um bando de fodido, tem que tomar mais cuidado com os riscos que corre. Brasileiro tem que ser o mais precavido possível, pois não tem margem de manobra, não pode comprar todos os insumos do mundo para reparar seus erros.

Seria belíssimo ver um macaco de imitação se fodendo por ser um macaco de imitação. Passaria uma ótima lição para os brasileiros: ser arrogante sendo um incompetente dá nisso. Vocês não são os EUA, vocês não têm recursos, não tem poder, não tem competência, não tem o que precisa para se portar dessa forma irresponsável e, apesar de tudo, reverter o problema. Se vocês forem inconsequentes, o resultado será a morte.

Trump foi um escroto ao subestimar a pandemia e morreu muita gente inocente por causa disso, mas ele reagiu. Acho mais merecedor de danação um filho da puta que, apesar de muitas mortes, permaneceu na arrogância e não mudou uma vírgula do seu discurso e das suas ações e ainda usou a própria doença para promover um remédio ineficiente e que faz mal.

Seria a macaquice brazuca sendo coroada e exposta ao mundo. Olha aí o que acontece quando se portam como símios. Os americanos escaparam, pois eles tinham respaldo para tentar a sorte e, ainda assim, reverter um placar desfavorável. Os americanos sobreviveram, pois em algum ponto revisaram sua estratégia e perceberam que era necessário mudar o rumo do combate à pandemia. Quando você insiste no erro, e esse erro é um vírus letal, a morte me parece um desfecho bastante didático.

Eu sou fã de competência. Eu tiro o Trump da forca pela competência que teve em admitir que precisavam mudar de estratégia. Em vez de ficar gritando “just a flu”, foi direto com o povo dizendo que aconteceria um massacre pior do que o 11 de setembro e por fim fez o diabo para conseguir todo o material possível para combater o corona. Me parece um bosta menos bosta.

Trump permitiu que alguns nomes não lunáticos tenham voz e colaborem, como Anthony Fauci, chefe da força tarefa contra coronavírus. No Brasil, Bolsonaro se encarregou de escrotizar dois Ministros de Saúde até que eles saiam e o cargo está vago até hoje, em meio à maior pandemia que o país já enfrentou. Não apenas isso, como manda calar qualquer um que ouse contrariá-lo. Quem merece se foder mais?

Eu sei que ninguém no mundo gosta dos EUA ou do Trump, mas a pergunta não é sobre quem você desgosta mais, é sobre o que seria mais didático. Na minha concepção, o mais didático é que quem foi mais arrogante, irresponsável e incompetente se ferre mais, de preferência de forma pública, para servir de exemplo e desencorajar outras pessoas a se portarem dessa forma.

Deixa o Laranja lá, que ele está fazendo o que pode para controlar a pandemia, do seu jeito tosco. Deixa o corona levar o Bolsonaro, quem sabe assim assume alguém que coloque um freio nessa loucura que vocês estão passando e seja um plus de didatismo: quem foi irresponsável morreu e quando entrou alguém que prestigiou a ciência, tudo foi revertido. O problema nunca foi o vírus e sim a forma como o país conduziu a pandemia. Talvez se assumir alguém que faça diferente o povo finalmente perceba onde o erro aconteceu.

Acho até que se morresse o Trump, Bolsonaro seria capaz de capitalizar a favor dele dizendo alguma barbaridade como “tá vendo? Quando estava tratando como uma gripezinha e tomando cloroquina ele estava ótimo, quando começou a cair no sensacionalismo morreu”. Bolsonaro seria o sobrevivente, o último bastião de resistência, quase que um herói e atribuiria sua sobrevivência a ter “enfrentado o vírus feito homem”.

Pelo tamanho da negação que vemos no Brasil, o povo (ou ao menos parte dele) só acordaria com um aprendizado hard, um choque de realidade como esse. Os fanáticos por Bolsonaro teriam o cérebro bugado e seriam obrigados a lidar com a dura realidade de que se comportar como um imbecil, sair sem máscara, ignorar a seriedade de uma pandemia, leva à morte.

Talvez fosse a coisa mais didática que o brasileiro já tivesse experimentado coletivamente. E podem ter certeza que o povo brasileiro precisa desse aprendizado mais do que o americano.

Para dizer que ambos deveriam pegar covid e morrer, para dizer que ambos deveriam pegar covid e ficar com sérias sequelas pelo uso de cloroquina ou ainda para dizer que acha que Mourão seria pior: sally@desfavor.com

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Comentários (10)

  • Respondendo à pergunta desta postagem, eu fico com o Somir desta vez. Apesar de o Bolsonaro ter feito todas as cagadas possíveis ao lidar com a pandemia, uma eventual morte do Trump causada pelo Coronavírus teria mais repercussão e, quem sabe, mais impacto para colocar um pouco de juízo na cabeça de quem ainda não foi capaz de entender que a situação é realmente séria.

  • Eu não sei como é a alimentação do Trump, mas a do Bolsonaro é toda errada. Café da manhã pão e leite condensado que não alimenta, os lanchinhos porcaria de cachorro quente, teve uma filmagem que nem toalha tinha na mesa, higiene zero. Fora as hérnias e a facada. Como pode? Deve ter influência genética aí pra pegar covid e não se lascar.

  • Acho que o que causaria maior impacto seria a morte do Trump. Uma notícia que monopolizaria todos os veículos por umas boas semanas, tempo suficiente pra entrar na cabeça do brasileiro médio que, se a doença matou a porra do presidente dos fuckin’ Estados Unidos, que tem toda a tecnologia e infraestrutura ao dispor, imagina nesse shithole sem leito de UTI pra todo mundo.

    Agora se o Bolsonaro morresse…brasileiróide que, hoje, já está respirando teoria da conspiração, inventaria na hora umas 15 teorias pra dizer que foi a China/ONU/OMS/whatever que mandou matar ele, porque a cloroquina era a cura e atrapalharia os planos malignos da China, que quer dominar o mundo

    • Você não acha que morrer um presidente de um país distante geraria identificação e proximidade suficientes para que o brasileiro perceba que pode acontecer com ele também?

  • Para o mundo? Trump, pelo simples motivo de ele ser o “presidente do mundo”, enquanto o Bolsonaro é só o presidente de uma república das bananas.

    Mas, como a Sally disse, o Bolsonaro é o que lidou pior com a pandemia. Negou até onde pôde, decretou uma quarentena toda cagada, forçou a meme da cloroquina e continua fazendo questão de agir como se a doença fosse só uma gripe. Ele seria um exemplo perfeito de como tudo tem conseqüência.

  • trump perdeu no voto popular e só tá na presidência por causa daquele sistema eleitoral maluco deles lol
    acredito seriamente que vai ser o último presidente republicano deles

  • Eu acho que seria o Trump. Exatamente por aqui ser um país emergente, seria visto como esperado algúem morrer de uma doença que não tem cura. Como tudo é precário seria meio previsível. Já num país com recursos assustaria melhor. O mundo mal sabe quem é Bolsonaro.

    A propósito, eu acho que Pocket deveria chamar Dr. Bumbum para ministro da saúde. Ex-médico, agora está estudando odontologia, é qualificado. (haha)

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