Na última segunda-feira (03), o prefeito de Itajaí, em Santa Catarina, Volnei Morastoni (MDB-SC), alegou que vai adicionar um novo tipo de tratamento contra a Covid-19: a aplicação de ozônio via anal. A cidade já colocou à disposição da população inverctina e cânfora. LINK


É isso aí. 100.000 mortos, não faz distanciamento nem quarentena, mas tem cloroquina e ozônio do cu. Desfavor da semana.

SALLY

Lembra quando o brasileiro se preocupava com o buraco na camada de ozônio? Bons tempos não? Quem diria que, décadas depois, teriam que se preocupar com uma camada de ozônio no buraco.

Talvez o papel dele seja fazer a cloroquina parecer menos nociva: “putz, e eu que reclamava de uma parada cardíaca, agora vão enfiar uma mangueira no meu cu”. O que é uma cegueira, uma surdez, um choque anafilático perto do descolamento das pregas, não é mesmo? Vamos todos louvar a cloroquina!

O lado bom é que agora dá para dizer que o brasileiro vai tomar no cu em todos os sentidos com essa pandemia. Só faltava o sentido literal e ele foi providenciado. O trocadilho está completo. Tá achando que é tão absurdo que não corre o risco de ser implementado? Bem, o Ministro interino da saúde, Pazuello, recebeu três defensores do tratamento esta semana. Não duvidem do Brasil, meus queridos.

Sendo bem sincera aqui, se um leitor do Desfavor passa nos comentários e pede para que eu escreva um texto sobre o tema, eu nem cogito. Mas parece que o Governo cogita enfiar uma mangueira no cu do povo e soltar ozônio no fiofó alheio. Talvez seja uma estratégia contra a superlotação dos hospitais: a pessoa sabe o que a espera se procurar atendimento médico e opta por morrer digna em sua casa.

Você deve estar percebendo que este texto não está evoluindo. É isso aí. Não tem pano de fundo hoje, não tem aprofundamento. É basicamente rir do Brasil e do brasileiro em duas páginas. Estão cogitando colocar uma mangueira no cu de vocês, jogar um gás dentro. E para nada, pois é um tratamento comprovadamente ineficaz. Não tem mais o que falar, resta debochar, rir. A melhor coisa que eu fiz da minha vida foi sair do Brasil!

Parece que o Ozônio no Cu já está em funcionamento. Não vou dignificar isso falando o nome técnico do tratamento, no máximo chamar de Cuzônio Terapia. O fato é que já está sendo implementado em alguns hospitais, como o de Porto Alegre: pessoal que curte um ventinho maroto no brioco, já pode começar a fazer fila no hospital Vila Nova. Começaram bem. Enfiar coisa no cu em Porto Alegre, no Rio e na Bahia é fácil, vão fazer até fila na porta. Quero ver quando isso chegar em Goiás.

Considerando as pessoas que participaram da reunião, gente como o terraplanista Osmar Terra, talvez vire tratamento padrão, até para crianças e gestantes, como foi com a cloroquina. E talvez seja bom. Olhemos pelo seguinte ângulo: ensina o brasileiro a tomar no cu desde pequeno.

Quem sugeriu esse maravilhoso tratamento foi o prefeito da cidade de Itajaí, em Santa Catarina, que calhou de ser um médico homeopata. Foi bom para esclarecer uma questão: eu achava que homeopatia simplesmente não fazia efeito algum, hoje vejo claramente o quão… invasiva ela pode ser.

Fora o constrangimento de ter que explicar do que se trata para a minha família, que vive no exterior, eu juro que estou achando graça. Atila Iamarino deve estar chorando em posição fetal de ter que explicar em um vídeo que ventinho no cu não é eficaz contra coronavírus. Certeza de que ele está fazendo as malas e fechando seu canal no Youtube.

Aqui não, aqui a gente ama. Cu sempre foi um tema recorrente. Mal posso esperar pelos próximos Ei Você e FAQ (Fucked Asked Questions). Tomara que tenha material para fazer uma postagem inteira sobre a Cuzônioterapia. Anseio por receber um feedback da percepção do brasileiro médio sobre este fascinante tratamento.

Também fico imaginando figuras mais sóbrias do jornalismo nacional, como o William Bonner, sendo obrigado a descrever no que consiste o tratamento. O Governo Bolsonaro está obrigando todo mundo a descer ao nível do Desfavor, vocês têm noção do que é isso? Eu não consigo parar de rir! Desculpa, eu sei que vocês estão na merda, mas quando se vê de fora, o Brasil é muito engraçado.

E os Memes? Ahhhh, os Memes… Nessas horas eu queria saber mexer no fotoshop para fazer uma montagem dizendo que está explicada essa cara inchada do Bolsonaro, colocando uma foto dele sendo enchido pelo cu por uma bomba de ar, feito um balão. Bom, joguei a sugestão para o universo, se for para ser, alguém vai fazer.

Vocês já viram os jornalistas de outros países dando a notícia? O daqui começou se desculpando e pedindo perdão pelo que teria que falar! HAHAHAHAHAHAHAHA! Gente, é muito maravilhoso, os capítulos mais grotescos da história do Brasil estão sendo escritos diante dos olhos de vocês, pensa nas histórias que vocês poderão contar para os seus netos!

Aí você pode, em um rompante de inocência, dizer: “Mas Sally, se não tem comprovação científica, não podem usar. O CRM não autoriza nem recomenda que os médicos façam esse tipo de intervenção”. Certo. Cloroquina tem comprovação científica? Tem aval do CRM? Pois é. É Brasil, queridão. Já vai comprando o lubrificante, na primeira febre você vai tomar no cu.

E a empolgação do Prefeito falando do tratamento? Vocês viram o vídeo? A mangueira bateu forte na próstata do cidadão, ele estava eufórico. É um tratamento que eu anunciaria com pesar, mas ele não, ele estava empolgadíssimo dando detalhes que poderiam muito bem ser roteiro de um seriado de comédia. O tiozão curtiu demais a intervenção.

Não parece uma lei do retorno que bolsonaristas que sempre foram tão preconceituosos e ao mesmo tempo fizeram altas ginásticas argumentativas para defender tudo que o governo apresenta sejam colocados na posição de defender que enfiem uma mangueira no seu cu? Acho que deu tela azul neles. Estão todos caladinhos. E aí? Defende o Micto e perde as pregas ou conserva as pregas e desapega do Messias?

Geste, desculpa, mas hoje não deu para falar sério. O Brasil merece não ser levado a sério. O Brasil merece tomar no cu. Não, não. É mais do que tomar no cu: toma no cu com direito ao sopro de um ventinho gelado! HAHAHAHAHAHAHAHA

Para dizer que vem aqui em busca de informação de qualidade e está decepcionado, para dizer que serão duas semanas seguidas de Ei Você todos os dias ou ainda para dizer que, apesar de tudo, você riu: sally@desfavor.com

SOMIR

O Brasil não é para amadores mesmo. Estou me colocando num desafio para falar sobre esse assunto de forma séria, afinal, é verdade que a maioria de nós fica mais infantil no minuto que qualquer atividade anal entra na conversa. Algumas coisas são inerentemente engraçadas.

Eu, por exemplo, nunca imaginei que as palavras “buraco” e “ozônio” voltariam à discussão pública ao mesmo tempo em outro contexto. Vamos inaugurar a era dos peidos ecológicos, só mandar para a Antártica um bando de brasileiros com bastante feijão enlatado que salvamos a camada de ozônio. Droga, já falhei no meu desafio…

Talvez seja a vontade de rir para não chorar. Num país que acaba de bater 100.000 mortos pelo Coronavírus em menos de um semestre e que aparentemente desistiu de qualquer medida de contenção da doença antes mesmo de começar, não sobra muito motivo para sorrir. A estupidez está cobrando sua conta: na hora que precisamos arejar a cabeça em busca de novas ideias para lidar com a pandemia, acharam melhor arejar outra parte do corpo. Opa, não tem jeito mesmo…

No país da homeopatia paga pelo SUS, da cloroquina estocada por décadas para tratar uma doença que comprovadamente não trata, o que é uma mangueirinha na bunda? Essa coisa de oferecer serviços de saúde sem utilidade comprovada é um clássico brasileiro. Se alguém disser que cura Covid-19 com acupuntura, é bem provável que possa fazê-lo recebendo dinheiro do Estado. Então, tecnicamente, a Cuzônioterapia nem deveria chamar tanta atenção.

Mas chama. Como eu disse, algumas coisas são inerentemente engraçadas. Como eu queria que a Cloroquina fosse de aplicação anal, isso teria evitado algumas milhares de mortes, afinal, não daria para tratá-la com o mesmo grau de seriedade que enganou tanta gente até aqui. Bolsonaro com certeza ficaria com seu instinto de “tiozão no meu cu não” ativado e não teria defendido isso com tanta ênfase. Duvido que ele aparecesse em público dizendo que encheu o cu de cloroquina e está bem.

Sorte que o novo tratamento milagroso sem comprovação alguma envolve enfiar algo na bunda, porque se não fosse isso, o brasileiro médio teria ainda mais uma desculpa para ignorar a ciência e exercer seu orgulhoso obscurantismo sem repercussões. Mais ou menos como no tempo de crianças, basta dizer que algo é “coisa de viado” ou deixar isso presumido que a maioria dos homens pula fora. No caso das mulheres, é só sexualizar de alguma forma. Então, basta fazer piadas que as pessoas estão tomando aplicação de ozônio no cu porque gostam para reprimir imensamente o comportamento.

Porque não poderíamos depender, de forma alguma, da compreensão de que a pandemia se combate de outros jeitos e que esses tratamentos mágicos que aparecem todos os dias são fruto de gente com baixíssimo saber científico. Alguns simpatias descaradas. No país onde dizer que homeopatia é um absurdo gera muita discussão (inclusive com médicos formados), não se pode contar com bom senso e conhecimento técnico. Tem que ter algo tão rasteiro quanto a mentalidade desse povo.

Se o tratamento de ozônio fosse por inalação, provavelmente estaríamos aqui muito mais preocupados com a reação popular e sem clima para tantas piadas. A única coisa que consegue proteger o brasileiro da teimosia de não fazer as coisas que comprovadamente combatem o coronavírus é o medo de tirarem sarro dele por colocar uma mangueira no rabo. Se pelo menos tivesse uma Fake News dizendo que a Cloroquina transforma homem em viado… era só isso e aposto que até o Bolsonaro pararia de defender.

Estamos tirando sarro disso porque o Brasil é a hora do recreio de uma escola de ensino fundamental. Qualquer bobagem que o amiguinho fala é indiferenciável da verdade, todos tem medo de ser isolados como “gays” ou “putas” mesmo mal entendendo o que essas palavras significam, não pensam nas consequências de seus atos, batem em quem é mais fraco e correm de quem é mais forte. E, é claro, bufam quando é hora de voltar para a aula. Sem refinamento, sem senso claro de comunidade, só um bando de crianças vivendo um recreio por vez.

Infelizmente, é só uma analogia, porque as crianças ainda podem aprender a ser melhores do que isso, o brasileiro, só nascendo de novo. E de novo, e de novo… enquanto isso, nem tomando no cu. Parabéns por 100.000 mortes, Brasil! Uma das pandemias mais brandas da nossa história, que só precisava de um mínimo de organização, e a resposta é cloroquina na boca e ozônio na bunda. Está funcionando muito bem. Quem sabe não chegamos nos 200.000? Vai ver que Bolsonaro também curte isso de dobrar a meta.

Para dizer que o nível aqui já foi melhor (quando?), para dizer que veio aqui para rir e não para perder a fé na humanidade, ou mesmo para dizer que pelo menos não é o Líbano (ainda não): somir@desfavor.com

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