Esquimós

Eles ocupam o extremo norte do planeta desde 5 mil a.C e sobrevivem a frios extremos que podem chegar a -45°C. Atualmente, são cerca de 150 mil pessoas, ocupando uma área 3 mil km de extensão, entre a Sibéria, o Alasca, o norte do Canadá e a Groenlândia. Desfavor Explica: Esquimós.

Na verdade, o nome nem mesmo é apropriado. “Esquimó” é um termo que, apesar de pairarem muitas controvérsias sobre o significado, pode ser considerado pejorativo (uma das traduções seria “comedor de carne crua”). Por isso muitos governos, como Canadá e Groenlândia pararam de usar o termo “Esquimó” em seus documentos oficiais.

Por óbvio, os Esquimós não se chamam de “Esquimós”, apenas nós os chamamos assim. Normalmente eles se chamam pelo nome das respectivas etnias. A mais conhecida, talvez por ser a mais populosa, é a “Inuit” (que também designa o idioma falado pela maior parte deles). Mas, por questões de compreensão do texto, vamos nos referir a eles como “Esquimós” mesmo.

Originalmente, eles eram asiáticos, mas, por algum motivo, decidiram migrar de um continente para o outro e colonizaram uma grande faixa gelada ao norte do planeta. Acredita-se que eles tenham cruzado o Estreito de Bering (pontinha que liga a Sibéria, localizada na Ásia, ao Alasca, localizado na América do Norte) no começo da sua jornada, se expandindo por outros países como Canadá e Groenlândia.

Os Esquimós são um dos povos indígenas mais antigos do mundo e provavelmente o que melhor sobreviveu e se adaptou, principalmente se pensarmos nas condições inóspitas nas quais eles vivem. As baixíssimas temperaturas geram uma infinidade de restrições, inclusive alimentares. Como não é possível plantar nada no meio da neve, sua dieta consiste basicamente de carne. Não apenas carne de peixe, como muitos pensam, mas de diversos animais como aves, focas, boi almiscarado, baleias e até urso polar.

Curiosamente, os Esquimós são muito saudáveis. Além de apresentarem uma alta expectativa de vida, há um baixo índice de doenças cardiovasculares, mesmo comendo apenas carnes, no geral, gordurosas. Isso acontece pois eles são fisicamente muito ativos, caminham por longas distâncias para caçar, pescar ou até mesmo para se mudarem a uma região mais favorável. O cerne da questão, quando falamos em saúde, não é a alimentação (eles comem a gordura da baleia e da foca com colher) e sim o sedentarismo.

Por sinal, foi a notória saúde cardiovascular dos esquimós que desencadeou essa sanha por óleos de peixe e ômega 3. De nada adianta ingerir esses alimentos se você não se exercitar absurdamente, como eles fazem. Além disso, no frio extremo, o corpo precisa de calorias, pois as consome para se manter aquecido. Não tem mistério: para não adoecer tem que comer o necessário para sua realidade, se comer muito, gaste muito. Se gastar pouco, coma pouco.

A configuração social deles é muito diferente da nossa. Não há tribos ou chefes, eles cooperam de igual para igual pensando sempre na sobrevivência do grupo. Quando você está passando por uma nevasca e um frio de -45°, se for individualista ou se não estiver muito focado no que é importante, morre e compromete a vida do grupo todo. As “leis” são, na verdade, normas de convivência passadas boca a boca de geração para geração, voltadas para o bom convívio na comunidade, sobrevivência e bem-estar de todos.

E estas regras são cumpridas. Não é difícil imaginar o motivo: se você faz alguma coisa que compromete a sobrevivência do grupo e o grupo te vira as costas, você morre sozinho e congelado. Eles sabem que a única forma de sobreviver é mantendo um grupo coeso, algo que parece estar em falta nas sociedades modernas atuais, onde as pessoas parecem ter prazer em perder seu tempo brigando e antagonizando umas com as outras.

Não há monogamia. Um homem pode ter tantas esposas quanto puder sustentar, o que nessa região inóspita, costumam ser no máximo 3. Mais: é tradição dos Esquimós ceder sua esposa para visitantes à noite, para que elas durmam com eles e os mantenham aquecidos. Um povo com um desprendimento peculiar: tudo é de todo mundo, cada um usa ou consome apenas o que precisa, pensando na sobrevivência do todo. Não acumulam riquezas nem futilidades. Podem precisar se mudar de uma hora para a outra, então, aprenderam que é preciso carregar só o indispensável.

E nessa carga em caso de uma mudança estão as crianças. As mães as carregam em suas costas, pois suas pequenas perninhas não conseguem andar direito em uma camada grossa de neve. Além disso, presas às costas da mãe elas ficam mais protegidas do vendo gelado. Realmente não dá para ficar guardando tralha quando você tem que se mudar com seus filhos nas costas.

Os filhos são considerados reencarnações dos familiares já falecidos e são tratadas com muito respeito, sem muita infantilização. Não costumam frequentar escolas, aprendem tudo que precisam para sobreviver dentro da comunidade, com os adultos. Alguns grupos tem rituais de passagem que determinam quando uma criança deixa de ser criança e passa para a vida adulta, sendo responsável pelos afazeres para manter o grupo vivo. Alguns deles são bastante assustadores. Acha vestibular ruim? Imagina ter que matar um urso branco.

Esquimós vivem em Iglus (que significa “casa”), mas, ao contrário do que se diz, eles não são feitos de gelo, e sim de madeira. Os iglus de gelo são pit stops para longas viagens, geralmente empreitadas de caça ou pesca. Os Esquimós os utilizam apenas como abrigos temporários. São construídos cortando grandes blocos de neve compactada do solo, que são usados como tijolos. Tem formato redondo para evitar que a neve se acumule no teto e colapse a construção. O “cimento” que cola esses blocos também é neve, que eles derretem e moldam para unir os blocos. Quando ela recongela, dá firmeza ao iglu.

Quando pensamos em iglus pensamos naquela unidade individual, típica de desenho animado. Mas, no geral, iglus são grandes, pois precisam abrigar vários caçadores (um homem sozinho não pega comida para a comunidade toda). Isso faz dos Esquimós gênios de arquitetura, pois apenas com neve eles são capazes de fazer rapidamente uma construção segura e com isolamento térmico que abrigue mais de 20 pessoas.

A entrada do iglu não fica na linha do solo, como normalmente vemos em obras de ficção. É cavado um buraco e se entra pelo buraco, de modo que o vento frio não consiga entrar e não esfrie o ambiente. A construção é tão bem feita que eles conseguiram o seguinte equilíbrio: fazem uma fogueira do lado de dentro, que esquenta a temperatura ambiente de uma forma que o calor interno dá uma pequena derretida no gelo das paredes, mas não o suficiente para que ele vire água, apenas para que amoleça, voltando a recongelar, reforçando mais ainda a vedação.

A divisão de tarefas é basicamente aproveitando os pontos fortes de cada um. Homens, que são fisicamente mais fortes, saem para caçar, cortar madeira e fazer as tarefas braçais. Mulheres administram o vilarejo, cozinham, costuram roupas e cuidam das crianças. Sem conflito, sem estresse. Cada um aprende a fazer as tarefas para as quais tem mais aptidão desde pequeno e, se quiser, escolhe alguma na qual queira se “especializar”, mas todos tem que saber fazer tudo dentro de suas atribuições.

Quem toca a sociedade basicamente são as mulheres, pois os homens precisam se ausentar por semanas para caçar, principalmente nas épocas de clima mais hostil. Elas mantêm a sociedade funcionando e unida, o que não é fácil com tantas restrições. Dependendo da época do ano, não é possível nem mesmo cozinhar os alimentos, é preciso defumar a carne para comê-la. Elas tiram leite de pedra, aproveitam tudo de cada bicho trazido da caça: pele para fazer roupas, ossos para fazer utensílios, etc.

Eles se vestem com peles de animais, geralmente pele de foca, urso e raposa. Para melhorar o aquecimento, as peles são voltadas para dentro. Esqueça ela imagem de esquimó com casaquinho de pele e pelos visíveis, tudo que você vai ver é o couro, os pelos estão diretamente em contato com a pele do Esquimó e só aparecem no capuz em volta da cabeça. O processo para confecção dessas roupas é um pouco desagradável, se você estiver comendo, pule o próximo parágrafo.

Pela falta de recursos, as mulheres precisam se virar com o que tem. Elas mascam o couro e o deixam curtindo na própria urina. Para facilitar a costura, são usados os tendões dos próprios animais. Em grupos mais rudimentares de Esquimós é possível ver as manchas de urina nas roupas. Quem quiser passar por essa experiência, pode procurar fotos no Google.

Normalmente, quando precisam se locomover a grandes distâncias, os Esquimós usam trenós puxados por cães. Os da região da Sibéria usam cães da raça Husky Siberiano e os da região do Alaska usam cães da raça Malamute do Alaska (um Husky maior). A relação deles com os cães é muito peculiar, pois há uma interdependência: o cão depende do Esquimó tanto quanto o Esquimó depende do cão. Por isso estas raças nem sempre são tão submissas ou fáceis de adestrar, está no seu DNA uma relação de igual para igual com os humanos.

E aqui um parêntesis rápido: se você está pensando em adquirir um cão de uma destas duas raças, pense novamente. São puxadores de trenó que correm quilômetros todos os dias e não tem uma relação de sujeição com o “dono”, que, como explicado, eles costumam ver de igual para igual. Tem certeza de que você pode dar conta de cuidar de um cão assim? Para que ele esteja confortável e satisfeito, ele precisa de muito frio, muita corrida e nunca será um cão submisso que te obedece incondicionalmente. Ter Husky ou Malamute no Brasil beira à crueldade.

Voltando ao tema… Já escutou aquela conversa de que Esquimós tem centenas de palavras para se referir à neve, tamanha sua importância na cultura local? Pois é, é mentira. Eles têm, no máximo, 5 ou 7 palavras para se referir a diferentes tipos de neve. Talvez de todas as lendas que se contam sobre eles, a única verdadeira seja a do “Beijinho de Esquimó”. De fato, eles se beijam esfregando nariz com nariz, por razões de ordem prática: um beijo nosso a uma temperatura de -45° poderia fazer a saliva congelar e deixar as duas pessoas com as bocas grudada.

Esquimós não fazem cerimônias matrimoniais, não possuem cultos religiosos como os conhecemos nem orações. Não possuem um Deus, mas acreditam em poderes superiores, em espíritos que podem controlar a natureza. Também acreditam em vida após a morte e reencarnação. Desconhecem o conceito de dinheiro: tudo é de todos e todos se adaptam para a sobrevivência da sociedade, consumindo apenas o necessário ou apenas o proporcional, para que sobrem recursos para os demais.

Sua forma de caça é muito rudimentar e requer total integração e confiança do grupo. Quando caçam ursos polares, por exemplo, um dos Esquimós se voluntaria como “isca”, para atrair a atenção do urso, que corre em sua direção, enquanto os demais atacam o urso pelas costas com lanças. É tudo no manual, até mesmo caça a baleias, que pode demorar muitas horas e requerer muito esforço.

Isso tudo, é claro, vale para Esquimó raiz. Assim como qualquer civilização indígena, muitos tiveram contato com o homem branco, acabaram perdendo parte de sua cultura, absorvendo cultura alheia e pegando muitas gripes mortais. Hoje vemos Esquimós nem tão Esquimós caçando com espingarda e rezando um Pai Nosso. Talvez por isso a população de verdadeiros Esquimós esteja diminuindo consideravelmente.

Além disso o aquecimento global os impactou muito, como vocês podem imaginar, o degelo trouxe uma série de problemas, principalmente para conseguir comida. Camadas de gelo muito finas não suportam o peso de homens. Quando os Esquimós tentam caçar nessas áreas, normalmente o gelo se rompe, eles caem em águas geladas e acabam morrendo.

Some-se a isso o fato de que muitas espécies das quais eles se alimentavam estão migrando para regiões distantes demais para eles alcancem ou simplesmente se extinguindo também.

A vida dos Esquimós não está fácil, mas um povo que sobrevive desde 5 A.C. nas regiões mais inóspitas do planeta certamente tem uma capacidade de adaptação invejável e vai encontrar uma forma de sobreviver novamente. Eles são a população originária mais bem adaptada do planeta, e provavelmente a mais inteligente também, já que fizeram as malas e foram para bem longe da civilização.

Temos algo a aprender com os Esquimós. Não se trata do clichê do “bom selvagem”, pois certamente muitos hábitos e costumes dos Esquimós seriam inviáveis ou reprováveis aos nossos olhos, mas sim de tirar algum aprendizado. Certamente temos coisas boas a aprender com eles, que foram esquecidas ou perdidas pela atual civilização, mas merecem ser resgatadas. No mínimo eles deixam a certeza de que o ser humano sobrevive a qualquer adversidade, por pior que pareça.

Para dizer que tudo que sabia sobre o tema era oriundo de suas experiências jogando Frostbite, para dizer que não tem idade para ter jogado Frostbite ou ainda para dizer que a gente sempre tem que dar um toque nerd mesmo em temas neutros: sally@desfavor.com

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