FAQ: Coronavírus – 4

Semaninha cheia de notícias truncadas, tendenciosas e nocivas sobre coronavírus. Parece que a imprensa decidiu jogar contra. Vamos revisar as últimas novidades e separar o joio do trigo?

16) Que vacina russa é essa que vai estar pronta em duas semanas? Ela é segura?

Nenhuma. Não existe nenhuma vacina que estará pronta em duas semanas. Se alguém te oferecer para vender ou para aplicar qualquer vacina russa pronta em duas semanas é mentira, vire as costas e vá embora.

Eu sei que a mídia divulgou isso, mas ou foi um erro de tradução ou foi uma mentira descarada da Rússia, que agora, quando confrontada fala um “veja bem, não é bem assim”. Depois de ser confrontada de forma quase que ameaçadora ela já diz que a vacinação ao grande público deve começar em outubro – SE a sua vacina se mostrar eficaz.

Como já explicamos em outros textos, não dá tempo de desenvolver uma vacina de forma tão rápida. Por mais que a Rússia tivesse usado de espionagem para obter informações do que funciona e do que não funciona em vacinas que já estavam em estudo (ela está sendo acusada disso), ainda assim, seria impossível que coloquem uma vacina no mercado ainda em agosto, a menos que joguem a vacina sem fazer a testagem necessária, o que eu acho que não farão, pois as consequências internacionais seriam muito desfavoráveis.

Já explicamos em outras postagens sobre as fases da vacina, então, vou presumir que todos aqui sabem do que estamos falando. A fase que avalia se uma vacina é segura, ou seja, causa efeitos colaterais, a Rússia de fato concluiu. Nessa fase a vacina é testada em menos pessoas, portanto, é mais “simples”. Usam poucas pessoas justamente por não saberem o que pode acontecer, pelos riscos serem maiores (já aconteceu de testarem medicamento em seis pessoas e cinco morrerem). É apenas essa fase, a da segurança, que está terminada.

Depois que se verifica que uma vacina é segura, não causa problemas à saúde, se testa se ela realmente funciona para seu objetivo final: se gera imunidade à doença. É nessa fase que a vacina russa está entrando. Eles afirmaram que vão começar a vacinar as pessoas em duas semanas, mas se referiam aos testes desta fase, que já estão sendo realizados no Brasil também. Fizeram um baita alarde que deu a entender que possuíam uma vacina efetiva, mas não, eles possuem uma vacina que migrou de uma fase de teste para outra fase de teste.

Para verificar se essas pessoas vacinadas desenvolveram ou não imunidade à doença, duas semanas não bastam. É preciso acompanhá-las por um período maior, é questão de meses, não de semanas. Então, sem chance alguma que em duas semanas essa vacina seja lançada oficialmente no mercado. Nem no mês de agosto. A porcaria da vacina está apenas entrando na fase 3 de teste.

E mesmo que na fase 3 ela se mostre protetora, não é no dia seguinte que se vacina a humanidade. Existe um escalonamento, uma evolução progressiva, vacinando grupos cada vez maiores, até que ela seja liberada de forma irrestrita.

Por isso a gente bate sempre nessa tecla: desapeguem da esperança em vacina como salvação da lavoura. Pode ser que as vacinas não sejam protetivas e falhem nessa última fase e, mesmo que sejam, estamos falando de um processo de logística de produção e distribuição que pode durar anos.

A mídia está fazendo um tremendo desfavor com esse oba-oba em torno de vacina, falando de muitas como se já fosse confirmada sua eficácia. Muita coisa pode dar errado ainda, e se der, vai minar ainda mais a credibilidade da ciência.

As pessoas vão achar que está tudo uma bagunça, que “aprovaram” uma vacina que “falhou” e coisas ainda piores. Então, por mais que não seja o que as pessoas querem escutar, não temos vacina, não temos previsão de quando vai ter vacina. As vacinas atuais estão em teste e podem ou não “dar certo”. E se derem, serão distribuídas aos poucos, tanto pela logística de produção e distribuição, como também por questões de segurança, avaliando progressivamente seus efeitos em grupos cada vez maiores.

E mesmo quando tudo isso for superado, as vacinas que chegarem ao seu país irão primeiro para os trabalhadores de serviços essenciais. Provavelmente, depois irão para pessoas em grupo de risco. Então, pode tirar o cavalinho da chuva, que o fato de uma vacina entrar oficialmente no mercado não quer dizer que em pouco tempo você vai ter acesso a ela. Pode ser que seja necessário amargar mais um ou dois anos de cuidados e quarentena.

Para quem não quer mais ser enganado sobre o estágio de cada vacina, recomendo uma fonte que até agora se mostrou confiável para acompanhar o estágio de cada uma delas. Clickbaits nunca mais!


17) Li que, evolutivamente, não faz sentido o coronavírus matar o ser humano, pois matar seu hospedeiro não é um bom negócio para um vírus e que, por isso, ele vai ficar mais “fraco” com o passar do tempo e deixar de causar mortes. É verdade?

Não, não é verdade. O raciocínio estaria perfeito, não fosse por um pequeno detalhe que o gênio que elaborou a teoria esqueceu: para cumprir sua missão de vida, o corona não precisa que nós permaneçamos vivos.

Os sintomas do coronavírus (que podem levar à morte) aparecem depois que a pessoa já transmitiu o vírus para todo mundo que tinha que transmitir, ou seja, a missão do vírus já foi cumprida, não há a menor utilidade em conservar aquele hospedeiro. E, por sinal, quem costuma matar o ser humano é o próprio organismo e não o covid-19, através de uma tempestade inflamatória, como já explicamos em outras postagens. Além disso a letalidade é de 1%, não é como se ele fosse dizimar a raça humana.

O auge da transmissão do coronavírus ocorre alguns dias depois que a pessoa foi infectada, quando ela ainda costuma estar assintomática (por sinal, esse é o grande problema: a pessoa não percebe que pode estar contaminando alguém).

Ali o vírus cumpriu sua missão de vida. Pouco importa o que vai acontecer com o ser humano dali para frente. É como se você roubasse um carro para assaltar um banco e concluísse o assalto: pode largar o carro em qualquer lugar, ele já cumpriu sua função.

Esse raciocínio é ótimo para parasitas, que, para se manterem vivos, depende que os hospedeiros se mantenham vivos. Uma lombriga talvez respeite essa lógica, o corona não.

A natureza busca sempre a reprodução. Para que uma lombriga se reproduza, ela precisa que o humano que a hospeda se mantenha vivo. Para que o corona se reproduza, ele só precisa de uma hospedagem temporária, por alguns dias. Depois disso, ele já se reproduziu e não tem qualquer ganho em manter um humano vivo. Então, não, a letalidade não vai cair por questões estratégicas para o vírus, pode esquecer essa bobagem que te falaram. E pare de escutar teoria de leigos, é perda de tempo.


18) Todo mundo fala que animais de estimação não são vetores de contágio de coronavírus por não carregarem uma carga viral alta, mas aquele cachorro que pegou covid-19 morreu, sinal de que ele tinha bastante vírus no organismo. Posso pegar covid do meu cachorro?

Como já respondemos em outra postagem, pets podem te contaminar, mas não como portadores da doença e sim por trazerem o vírus em suas patas, seus pelos, etc. É a mesma coisa que sair com um casaco na rua, sentar em um lugar onde alguém espirrou, tossiu ou passou a mão contaminada e levar o vírus para dentro de casa “colado” no casaco. Com o plus que animais se coçam e lançam o vírus no ar.

Até onde se sabe, é raro, mas animais de estimação podem ser infectados por covid-19. Porém, novamente, até onde se sabe, a carga viral que carregam não basta para contaminar um humano. Isso quer dizer que se você tem coronavírus, melhor não chegar perto do seu pet, para não correr o risco de que ele adoeça. Mas, se ele adoecer, não será capaz de te contagiar.

Sim, aquele cachorro que virou notícia por estar contaminado, um Pastor Alemão chamado Buddy (falamos dele em outra postagem), de fato faleceu. Mas o que não se conta é que o coitadinho tinha outra doença, ao que tudo indica, linfoma (um tipo de câncer). Então, acho que não dá para botar essa na conta do coronavírus. Muito pelo contrário, talvez ele só tenha sido contaminado por sua situação peculiar, com o sistema imunológico comprometido pela doença. A confirmar.

Até o dia de hoje, a única transmissão comprovada de um animal criado pelo homem para um ser humano é entre visons (aqueles bichinhos que criam para fazer casacos), que você dificilmente vai encontrar no Brasil. Nenhum outro caso foi confirmado. Pela quantidade de infectados com covid-19 pelo mundo, acho que já teríamos percebido caso pets passassem a doença para seus donos.

Eu sinceramente não entendo o que uma pessoa tem na cabeça para lançar essa notícia dessa forma, dando a entender que pode haver transmissão de cães para humanos. Como se o número de abandono de animais durante a pandemia já não estivesse alto. Não, não pode. Seu pet não pode passar covid-19 para você por estar infectado. Muito pelo contrário, é mais provável que você possa passar para ele.


19) Saiu uma notícia dizendo que ¾ dos casos de transmissão ocorrem dentro de casa. Isso quer dizer que não é seguro nem ficar em casa? É mais seguro ficar na rua?

Mais uma merda causada pelo clickbait. Não, não é mais seguro ir para a rua. Ficar em casa é o mais seguro. Se você ficar em casa e não sair, não receber ninguém, tomando todas as medidas de segurança e higiene com os produtos que vem de fora, você praticamente zera as chances de ser infectado.

O que essa informação quer dizer, na verdade, é que mais focos de transmissão ocorrem dentro de residências, ou seja, nas residências há um número alto contágios, pois as pessoas saem, se infectam e levam o vírus para dentro de casa, contaminando as outras pessoas que não saíram.

É uma pá de cal naquela imbecilidade de deixar só idosos e grupos de risco em quarentena, chamada “isolamento vertical”, mostrando que adianta de porra nenhuma, pois quando mora todo mundo junto, se um sai contamina os outros que estão de quarentena. Também mostra o quanto as pessoas estão sendo relapsas com a saúde de seus entes queridos, levando o vírus para dentro de casa.

Tem tanto contágio dentro de casa não por ser mais perigoso dentro de casa e sim pela conduta perigosa das pessoas: passar na casa dos pais só para um “almoço rápido” mas tomando “todas as precauções” (spoiler: não tem precauções, a menos que você não respire), jantarzinho com casal de amigos ou reuniãozinha com poucas pessoas “em nome da saúde mental” (a física vai pro saco) e tantas outras imbecilidades que as pessoas fazem achando que se tomarem “todas as medidas de segurança” vai dar certo.

Não vai. O contágio é pelo ar. Pode ter coronavírus na sua roupa, no seu cabelo, em qualquer objeto que, quando tocado, é lançado no ar e respirado pelas pessoas da casa. “Ah, mas eu chego, tiro a roupa e tomo banho”. Pois bem, quando você tira a roupa, pode estar jogando covid-19 no ar. Quando andar e balançar o cabelo pode estar jogando covid-19 no ar. Não tem jeitinho, o vírus não liga para as suas teorias. Ele está no ar e pode voltar para dentro da sua casa das mais diversas formas.

Em resumo: esse dado não é sobre ambientes, é sobre pessoas. Não existe forma segura de sair e depois conviver com pessoas dentro de casa sem correr o risco de contaminá-las.


20) Li que mesmo depois dos testes de segurança, é possível que a vacina cause problemas na fase seguinte, quando se testa a imunização. Quero ser voluntário, mas estou com medo. Corro algum risco?

Corre. Como já explicamos na primeira pergunta, os testes de segurança não são feitos em larga escala, justamente pelos riscos que envolvem. Poucas pessoas são testadas. Pode ser que quando a vacina seja distribuída em grandes quantidades, alguns efeitos indesejados aconteçam.

É pura lei da probabilidade: tem coisas que só acontecem com uma entre cem mil pessoas. Quando você testa em mil, ela provavelmente não vai acontecer, mas quando você testa em 500 mil, ela vai acontecer cinco vezes. Infelizmente tem coisas que só aparecem com o uso massivo.

Então, sim, tem problemas que podem só surgir nessa fase onde se avalia se a vacina de fato imuniza, em função da quantidade de pessoas que são vacinadas. São probabilidades muito, mas muito pequenas, mas não dá para dizer que o risco não existe.

O teste de segurança é para detectar efeitos nocivos grotescos, descarados, generalizados. Casos isolados só se descobrem na prática e, dependendo da incidência do problema, pode ser necessário vacinar mais de um milhão de pessoas para que venha à tona.

Isso não é uma exclusividade das vacinas. Vale para qualquer remédio e até para outras doenças. Por exemplo, uma gripe comum pode deixar a pessoa com uma doença seríssima chamada Guillain-Barré. Não é algo comum, pois é preciso que muitas pessoas fiquem gripadas, pelas estatísticas, para que isso ganhe visibilidade.

Como a vacina vai ser aplicada em mais de sete bilhões de pessoas, esse número vai fazer saltar aos olhos todas as exceções. Se sete bilhões de pessoas ficassem gripadas ao mesmo tempo, todo mundo saberia que uma gripe pode desencadear Guillain-Barré, pois o número de casos seria grande e ganharia notoriedade.

Então, graças à imensa quantidade de pessoas que serão submetidas à vacina, sim, é possível que surjam complicações que não eram detectáveis em grupos de estudo pequenos. Mas, é um cálculo programado: se a vacina foi lançada no mercado, pode ter certeza de que as chances de ter um problema grave sem tomar a vacina são maiores do que tomando a vacina.

Mesmo vacinas extremamente seguras como a Sabin, para poliomielite, tem seus riscos (já falamos sobre isso em outro texto). Mas os riscos de não vacinar são muito, muito maiores.

Ninguém vai botar no mercado uma vacina que represente um risco maior do que não se vacinar, pode ficar tranquilo e tirar da sua cabeça qualquer teoria conspiratória sobre a “indústria farmacêutica”. Acredite na ciência. É quem não acredita na ciência que está morrendo, ou provocando mortes de terceiros.


Para dizer que logo se nota que eu não moro no Brasil pois não existe mais a hipótese de alguém ficar em casa e não sair, para dizer que continua torcendo para a covid-19 ou ainda para dizer que o Brasil está tão merda que se o Desfavor fosse Ministro da Saúde seria melhor: sally@desfavor.com

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