Por décadas ele salva famintos do mundo todo, sejam eles sem tempo, em condições adversas ou apenas preguiçosos. Virou referência em refeição instantânea e não pode faltar no armário de nenhuma cozinha. Desfavor Explica: Miojo.

O miojo é fruto da Segunda Guerra Mundial, no Japão. O país estava em ruínas, com 3 milhões de mortos, economia destroçada, indústria falida, produção agrícola destruída. Basicamente, estavam passando fome. No meio deste cenário catastrófico, um homem chamado Momofuku Ando via mais um negócio falir (uma tecelagem que não aguentou a crise pós-guerra) e buscava uma forma de se reerguer.

Este homem não teve muita sorte na vida. Perdeu os pais ainda criança, viveu duas guerras mundiais, viu seu país ser bombardeado e passar fome. Tentou vários trabalhos e “falhou” em todos eles: foi diretor de escola, abriu uma empresa de carvão, outra de tecelagem e nada deu certo. Em 1957, com 47 anos, ele declarou falência. Mal sabia ele que estava prestes a emplacar um sucesso mundial.

Um dos alimentos mais populares do Japão era o lámen, um macarrão fresco, servido geralmente como ensopado. Graças à crise que o país enfrentava, se tornou muito difícil produzir e distribuir o lámen para todo o país, uma vez que a agricultura passava por uma de suas piores crises. A solução encontrada pelo governo para que as pessoas não morram de fome foi produzir pão, com a farinha de trigo que era doada por outros países, uma vez que o pão tem durabilidade maior e pode ser transportado com mais facilidade.

Porém, a iniciativa teve uma rejeição enorme. O povo não tinha o hábito de comer pão e, apesar da fome, rejeitou o alimento. Queria lámen. Como faz para levar ensopado para um país inteiro, estando ele em ruínas? Momofuku percebeu a oportunidade e começou a pensar numa forma de fazer com que o lámen fosse tão prático e fácil de distribuir quanto o pão. Começou a fazer testes e tentar desenvolver um novo produto.

Era um homem obstinado e dedicado. Construiu uma cabana nos fundos da sua casa e se isolou, determinado a encontrar uma solução. Ficava lá 20 horas por dia pensando e experimentando uma forma de levar um alimento que era altamente perecível para um país inteiro faminto.

Depois de muita tentativa e erro, finalmente ele conseguiu desenvolver um método de desidratação por fritura rápida em gordura que cumpria os requisitos necessários: retirar a água do macarrão e acelerar o modo de preparo na casa do consumidor.

Ele teve um insight de como deixar o produto fácil de preparar vendo sua esposa cozinhar Tempura, uma espécie de comida empanada japonesa. Ele percebeu que ao fritar o alimento nessa massa ele ficava mais seco instantaneamente, aumentando sua durabilidade. Foi para sua cabana e começou a fazer testes fritando alimentos e avaliando sua durabilidade. Acabou percebendo que isso também reduzia o tempo de preparo do alimento.

O mecanismo é simples: água e óleo não se misturam. Por isso o óleo “expulsa” as partículas de água do macarrão. Em seu lugar, fica só o espaço onde a água estaria (papo técnico: microcavidades). Depois desse processo de fritura, a perda da água faz com que o miojo fique duro. Esses buraquinhos que ficam depois da retirada da água, são preenchidos novamente quando você coloca o miojo em contato com água quente. Obviamente, quando o macarrão é “preenchido” com a água, ele volta a ficar mole.

Finalmente Momofuku havia conseguido seu objetivo: uma forma de levar lámen conservado para os famintos de todo o Japão. Porém, há um pequeno detalhe: o produto foi lançado no dia 25 de agosto de 1958 (que virou Dia Mundial do Miojo) e nessa data já não havia mais fome no Japão.

Em 1955 o Japão vivenciou o chamado “milagre econômico”, conseguindo um aumento significativo do PIB. Então, quando o lámen industrializado chegou às prateleiras do supermercado, não havia mais aquela demanda específica causada pela crise, e, o que era pior: pelo processo de preparo do produto, chegou com o preço maior do que o do macarrão fresco. Custava seis vezes mais caro. Tinha tudo para não dar certo… mas deu.

Não havia mais falta de comida, mas, por causa dos esforços para reerguer o Japão, havia outra falta importante que abriu as portas para a criação de Momofuku: a falta de tempo. As pessoas trabalhavam muito, mal tinham tempo para almoçar ou para cozinhar um jantar quando chegavam em casa ao final do dia. Um macarrão que fica pronto em três minutos caiu como uma luva. Atirou no que viu, acertou no que não viu. Começava um longo reinado do miojo, que dura até os dias de hoje.

O nome da empresa que produzia o macarrão instantâneo foi escolhido por ele: “Nissin”, que significa “milagre”. De fato, naquela época, criar um alimento não perecível que fique pronto em três minutos era mais ou menos isso. O nome do gênero de macarrão é lámen. Fala-se “lámen” porque a língua japonesa não distingue os sons de R e L (como podemos observar quando eles tentam falar poltuguês), mas a grafia original usa a letra R no nome. No Brasil e em outros países, adotou-se o L para acompanhar o fonema, caso contrário todos pronunciariam “Ramen”.

A empresa Nissin Food Products cresceu rapidamente. Em cerca de dois anos tinham uma linha de montagem totalmente automatizada em uma fábrica de 15 mil metros quadrados, com capacidade de produzir 100 mil blocos de lámen pré-frito por dia. O sucesso estrondoso deste macarrão influenciou, inclusive, na cultura de marketing do país: o produto foi um dos primeiros a consolidar anúncios na televisão e investiu em vending machines (aquelas máquinas onde você coloca o dinheiro e o produto cai em uma portinha) contribuindo em muito para que essas máquinas seja difundidas por todo o Japão.

No ano 2000 fizeram uma enquete no Japão perguntando qual invenção do século XX eles acreditavam ser a mais importante. Não, o karaokê não venceu. Nem a Hello Kitty. O primeiro lugar foi pro miojo. O macarrão enche de orgulho o país até hoje. Talvez tenha sido a primeira forma de levar comida oriental para todo o mundo.

Daí você deve estar se perguntando, por qual motivo o macarrão chegou por aqui com o nome de “miojo”. A resposta é simples: pela canalhice humana. Como todo produto de sucesso, o lámen da Nissin começou a ser copiado, inclusive por uma empresa chamada Myojo Foods. Está chateado com o plágio? Não fique. Copiaram os copiadores: um empresário chinês copiou o produto da Myojo e lançou no Brasil.

Em 1965, o Brasil recebeu a cópia da cópia. Como toda “falsificação” que se preze, ganhou um nome parecido com o “original” que o inspirou: em vez de Myojo, virou Miojo. O brasileiro não tinha nenhuma noção de culinária japonesa naquela época, então, não bastava dizer que era lámen, ninguém entenderia nada. Por isso, fizeram uma lambança danada tentando explicar ao consumidor do que se tratava na embalagem: “spaghetti vitaminado instantâneo tipo yakissoba com tempero sabor galinha”.

Não demorou para o miojo emplacar no Brasil também. Ele virou refúgio de mochileiros, de pessoas sem tempo, de pessoas que não sabiam cozinhar e de muitos outros grupos que precisavam se alimentar em três minutos sem nenhuma demanda mais complexa do que água quente. Tanto é que o no Brasil, “miojo” virou sinônimo do produto (assim como “cotonete” virou sinônimo de hastes flexíveis e “bombril” virou sinônimo de esponja de aço).

Anos depois, a Nissin expandiu seus negócios até chegar à América do Sul e comprou a marca, fazendo uma justiça cara: o macarrão instantâneo voltou para as mãos do seu criador, que pagou caro por ele. A primeira providência foi renomear o produto, que passou a se chamar “Nissin Lámen” (Nissin = nome da empresa e Lámen = tipo de macarrão), mas, até onde eu sei, o novo nome nunca pegou e as pessoas, ao menos as mais velhas como eu, continuam chamando de “miojo”.

Hoje, a Nissin Lámen é responsável pela venda de 50% de macarrão instantâneo no Brasil. O país consome mais de 2 bilhões de porções de macarrão instantâneo por ano, colocando o país no segundo lugar em consumo deste produto fora da Ásia. O sabor é adaptado de acordo com o gosto do consumidor de cada país. No Brasil, o sabor favorito é Galinha Caipira. O primeiro colocado em consumo fora da Ásia é os EUA, inclusive o produto é o mais vendido nas prisões americanas, ultrapassando os cigarros.

Quando a gente insere a Ásia na conta, avaliando o consumo mundial, os números ficam impressionantes: são consumidas mais de 3 mil porções de miojo por segundo no mundo. Quando olhamos para a demanda global, o maior consumidor é a China, responsável por 40% do consumo mundial, mas o país que mais consome por habitante é a Coreia do Sul.

Além dele, temos seu primo sofisticado, o Cup Noodles, que também é criação de Momofuku. Quando ele foi aos EUA, observou que os hábitos ali eram completamente diferentes. Ele percebeu que as pessoas quebravam o miojo com as mãos, os jogavam em um copo de plástico, enchiam de água quente e comiam com um garfo. Nada de tigela e hashi. Ao constatar que o formato japonês não era tão confortável para os ocidentais, ele criou um novo modelo.

Ele teve e a ideia, inspirada na forma como os japoneses transportavam atum, de passar a vender o lámen em um copo de isopor, que seria bom para conservar a temperatura do alimento e, ao mesmo tempo, protegeria a mão das pessoas de queimaduras. O papel de alumínio que cobre o copo foi inspirado na embalagem de macadâmias que deram para ele em uma viagem de avião.

Na hora de fabricar em larga escala, surgiu uma nova dificuldade: era complicado conseguir máquinas que colocassem o macarrão dentro do copo e mantê-lo estável. A solução também veio de Momofuku. Ele resolveu fazer o contrário: colocar o copo no macarrão já empilhado, sem empurrar até o fundo. Como o macarrão é mais largo e denso que o copo, ele fica travado do lado de dentro sem ocupar a parte do fundo nem balançar na embalagem. Assim, mantendo um espaço vazio embaixo, se garantia que a água quente chegaria até o fundo, cobrindo todos os macarrões. É por isso que o Cup Noodles cozinha inteiro por igual.

Por fim, ele deu mais um grande passo: adicionar outros alimentos ao lámen: pedaços de carne, legumes e até camarão. O desafio era como conservá-los de modo a que durem muito e, ao mesmo tempo, fazer com que amoleçam rapidamente com água quente.

A solução que ele encontrou foi um processo complexo (papo técnico: liofilizar a comida) que consistia em desidratar o alimento através de congelamento à vácuo. A técnica não era comum no Japão, então ele criou uma empresa exclusivamente para fazer isso. Hoje temos Cup Noodles com vários complementos graças a essa técnica. No Brasil, o miojo de saquinho sempre foi e continua mais popular, mas eu outros países, como nos EUA, o de copinho vende muito mais.

Por fim, o último grande feito do criador do miojo foi, aos 91 anos, criar um macarrão instantâneo que pudesse ser consumido no espaço. O projeto foi concluído em 2005, dois anos antes da sua morte. Com algumas modificações que permitiam o consumo do espaço, esse novo macarrão alimentou os tripulantes da Estação Espacial Internacional.

Obviamente foi um grande evento, não é todo dia que uma empresa de alimentos deixa o planeta Terra. Não é todo dia que alguém cria uma sopa que pode ser comida em gravidade zero. O cosmonauta japonês Soichi Noguchi experimentou, em uma transmissão ao vivo, com uma audiência enorme. A invenção ganhou o nome de “Space Ram”, um trocadilho com o filme “Space Jam”.

Miojo é sensacional para te salvar de um aperto, mas não é uma comida saudável. Muito se vilaniza aquele saquinho com o tempero, pela quantidade de sódio que ele possui (e de fato é absurdo: equivale ao sódio de cem latinhas de refrigerante!), mas o macarrão em si é igualmente nocivo: possuí uma grande quantidade de gordura saturada por pacote. Essa junção de muita gordura e muito sódio pode gerar problemas cardíacos, obesidade, diabetes e outros. Então, que fique claro: é para te salvar de um aperto, não para comer toda semana.

Fica um incentivo para todos: Momofuku Ando passou metade da sua vida “fracassando” em todas as suas empreitadas, mas quando acertou, com quase 50 anos, nem o céu foi o limite.

Para dizer que você comia sempre sem colocar o saquinho de tempero e achava que assim não fazia mal, para dizer que é conhecido como Nissin Lámen no Brasil ou ainda para dizer que só o desfavor para abordar em uma mesma semana pandemia, estupro e miojo: sally@desfavor.com

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Comments (28)

  • Miojo pra comer todo dia é comida do mal mesmo, pelamor! Eu já conhecia o lamem antes por conhecer um pouco da culinária japonesa. Aliás, saindo do miojo, um bom lamem bem preparado com verduras, olha… muito bom!

  • Miojo é a comida universal q vc compra em qualquer lugar: farmácia, posto de gasolina, conveniência, mercadinho de bairro. Fácil de fazer e dá pra comer sem grandes dificuldades quando a mandíbula da uma travada ou quando o aparelho ortodôntico causa dores insuportáveis.

    • Sim, miojo como SOS é sensacional. Te salva de qualquer aperto. O problema é quem usa miojo como principal fonte de alimentação.

  • Nossa, eu vivia de miojo durante a faculdade…. agora, não posso nem olhar para ele. Comprei outro dia para matar as saudades, e quando comi, me perguntei: por que eu comia isso mesmo? Acho que nós não temos paladar quando somos jovens, apesar das pesquisas dizerem que o paladar é mais funcional quando somos mais novos….

    Eu discordo. De vocês lembram dos sucos de feira (que vinham naquelas embalagem em forma de brinquedinhos), das balas Mirim-Mirim (acho que era esse o nome), jujubas e paçoca rolha, vão ver que criança tem paladar de aspirador de pó…. yucks!

  • Putz, teve uma fase da minha vida que eu era viciado nisso e comia até dois por dia. Pelo menos, eu fazia (faço) 0 miojo de uma maneira um pouco diferente, misturando o pozinho com a água ao ferver, e depois de cozido, jogo a maior parte da água fora.

    Mas sódio de cem latas de refrigerante… Jesus.

    • É menos pior comer pouco pó, mas mesmo assim, a quantidade de fritura que o macarrão tem… não recomendo comer todos os dias.

  • Miojo é uma das tantas comidas que eu comia alucinadamente quando era criança, mas que hoje não consigo nem botar na boca. Mas deixo aqui minha reverência a esta iguaria que, como o texto bem disse, já me salvou de vários apertos na infância/adolescência.

    O miojo da Turma da Mônica e o Cup Noodles de bolonhesa eram bons demais!

    • Acho que todo mundo já foi salvo alguma vez, por motivos financeiros, de preguiça, de falta de tempo ou de falta de infraestrutura pelo miojão.

  • Nem imaginava que era coisa de japa. Pensava que era de americano. Se for pra me envenenar eu como logo com tempero! Miojo sem tempero é igual os idiotas que tiram a gema que é o melhor do ovo e comem só clara sem gosto.

  • Quando estava na faculdade, um colega me relatou que, durante as férias de final de ano, passou uma semana com um grupo de amigos em um apartamento alugado em Santos e a única coisa que sabiam fazer era miojo. Como a grana era pouca – gastaram tudo antes da viagem com o aluguel do apartamento, o miojo e a cerveja – , eles ficaram sete dias comendo a mesma coisa. Depois, essa trupe ficou um bom tempo sem conseguir sequer olhar para miojo.

  • Desde que me conheço por gente, o tempero do miojo – também sou velho e não consigo chamar de lámen – sempre foi considerado pouco saudável. Tanto que, na minha adolescência, vários colegas de escola chamavam esse pozinho de “morte lenta”.

  • “só o desfavor para abordar em uma mesma semana pandemia, estupro e miojo” FALTOU O CU!!!

    Achei fofo o último parágrafo, mas hoje em dia parece que tudo já foi inventado…
    Falando em invenções, o Google Patents pode render um texto. Tem muita pérola por lá.

  • A palavra “lamen” parece estar popular entre os mais jovens, principalmente os que possuem mais contato com coisas da Ásia. Mas é um nicho e não vai substituir “miojo” tão cedo, creio eu.

    Miojo Turma da Mônica sabor tomate <3

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