Saúde incerta.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reagiu nesta terça-feira, 18, às notícias sobre a megafesta de sábado na cidade chinesa de Wuhan, onde a covid-19 surgiu no final de 2019, afirmando que cenários semelhantes têm sido registrados em outros países.

“Não devemos culpar as pessoas por quererem viver suas vidas, todos nós queremos viver nossas vidas, todos queremos voltar ao que era ‘normal’. Acho que só precisamos ter certeza de que a informação que está chegando, principalmente aos jovens e às crianças, é que eles não são invencíveis”, afirmou a epidemiologista Maria van Kerkhove, do Programa de Emergência em Saúde da OMS. LINK


De que lado vocês estão, OMS? Da ciência que não parece. Desfavor da semana.

SALLY

Vamos estabelecer uma premissa antes de começar o texto? Se eu, Sally, quiser desqualificar de qualquer forma uma opinião técnica a OMS por um achismo meu, é simplesmente patético. Eu não tenho experiência, conhecimento ou formação para contestar a Organização Mundial da Saúde. E quem o faz com base em achismo é simplesmente um arrogante patético. Até onde eu sei, existe apenas um leitor aqui que se criticar a OMS com base em sua opinião eu abaixo a cabeça, escuto e respeito, pois trabalha com isso e sabe mais do que eles.

Nós leigos podemos achar o que quisermos, mas não se refuta nada com base no achismo. Porém, quando quem contesta são pessoas avalizadas, com estudos revisados por seus pares e publicados em revistas científicas de renome, a coisa muda de figura. Quando cientistas do mundo inteiro refutam uma orientação da OMS, muita gente fica confusa, sem saber o que fazer. Este texto é para te dizer: dê as mãos para a ciência sempre, mesmo que isso signifique virar as costas para a OMS.

Repito pela milésima vez o mantra desta pandemia: se você quer estar bem informado e ter acesso à verdade, não pode permitir que nada nem ninguém se sobreponha à ciência. E, para ter certeza de que você está escutando o que a ciência tem a dizer, a única forma é priorizar estudos sérios, revisado e publicados por entidades sérias. Nada nem ninguém que se oponha a estes estudos científicos merece ser sequer escutado.

Cloroquina funciona? Isolamento vertical funciona? Imunidade de rebanho funciona? Água com alho funciona? Nem se dê ao trabalho de ouvir. Quem vai de encontro ao que foi devidamente estudado pela ciência, com método científico, seguindo as regras e comprovado, não merece seu tempo. Ciência, cientistas, estudos sérios que seguiram os rigores do método científico, eles têm que ser o seu norteador da pandemia. Não político, não religião, não YouTube, não organizações. Abrace a ciência.

E, ao que tudo indica, a OMS parece um pouco em descompasso com a ciência. Vimos várias pisadas de bola, inclusive uma delas foi até tema de um Desfavor da Semana sobre a forma lamentável como a OMS se comunica (sim, se comunicação nós temos know-how para falar). Mas, para mim, nesta última o caldo entornou. Como eu não sou uma completa débil mental arrogante, nem ouso dizer o que move esse tipo de atitude (incompetência, ganância, parceria com a China ou o que for). Vamos aos fatos.

O pano de fundo do Desfavor da Semana de hoje é a reação da OMS a uma rave realizada na cidade de Wuhan, onde supostamente surgiu o coronavírus. Uma megafesta onde se vê pelas fotos que as pessoas não estão cumprindo nenhum distanciamento social, onde estão sem máscaras, onde violam todos os preceitos para o combate à pandemia.

A imagem correu o mundo e, obviamente, despertou revolta. Quando questionada, a opinião da OMS não poderia ser mais merda: “Não devemos culpar as pessoas por quererem viver suas vidas, todos nós queremos viver nossas vidas, todos nós queremos voltar ao que era normal”.

Era preferível ter pedido licença para cagar e saído correndo. Podiam dizer que lá a situação está controlada e por isso podem se dar ao luxo de correr esse risco. Poderiam dizer que não é indicado fazer aglomeração sem máscara pois o vírus pode voltar. Poderiam dizer qualquer coisa, menos endossar isso de forma genérica.

Releiam a frase merda que a OMS falou. É basicamente um “pode fazer merda à vontade, é compreensível”. Isso justifica qualquer cagada feita em qualquer país no trato com a pandemia. Obviamente explodiram críticas de médicos, infectologistas e cientistas do mundo todo. A postura bunda-mole da OMS vai totalmente de encontro ao que diz a ciência. Não, não dá para voltar para a vida antiga, e quem o fizer vai prejudicar todos à sua volta.

E não foi a primeira vez. Pouco tempo atrás a OMS jurava que o coronavírus não era transmissível pelo ar. Cientistas do mundo todo gritaram por bastante tempo, desesperados dizendo que era. A OMS continuou dizendo “pega nada não” e afirmando que não era transmissível pelo ar. O desespero foi tanto que um grupo de 239 pesquisadores de vários países enviou uma carta para a OMS alertando que vírus pode permanecer no ar sim e publicaram um estudo com provas mais do que suficientes disso.

Se Jeferson, professor de música, morador de São Tomé das Letras, que vai para rede social dizer “Hey, NASA, are you sure?” fala um negócio desses, eu chamo de palhaço desempoderado e sigo minha vida. Mas quando 239 cientistas do mundo todo estão aos berros pedindo para você revisar uma afirmativa, acho que, no mínimo, merece atenção. A OMS perdeu tempo precioso batendo o pé, contra a ciência, negando a transmissão pelo ar do vírus, até que finalmente cedeu e concordou.

Assim como, poucas semanas atrás, em 12 de agosto, disse que não deveríamos culpar os jovens pelas novas ondas de contágio. Choveu estudo provando que os jovens estavam se descuidando e sim, eram eles quem estavam levando covid para os mais velhos. No dia 19 de agosto a OMS se referiu aos jovens como “a nova ameaça”. Tá ficando difícil. A credibilidade foi embora, foda-se o motivo, a OMS está jogando contra a ciência em várias ocasiões.

A própria declaração de pandemia foi tardia. Cientistas do mundo todos berravam e provavam por estudos de caso e números que a coisa era muito mais grave do que se dizia, entretanto, a OMS demorou muitas semanas depois disso para declarar a pandemia. Quando acontece uma ou duas vezes, você dá um desconto, afinal, é um vírus novo, ninguém sabe muito bem como funciona. Mas porra, quando acontece sempre e com estudos científicos desmentindo, é hora de começar a desconsiderar a OMS.

Disseram que assintomáticos tinham poucas chances de contaminar alguém e agora, no mês de agosto, admitiram que assintomáticos tem uma carga viral altíssima. O mesmo aconteceu no que diz respeito a crianças. Para mim já deu, a OMS está se posicionando repetidas vezes contra a ciência e eu não acho que ela mereça credibilidade. Uma rápida visita ao site deles basta para constatar informações desatualizadas e informações, que, à luz da ciência, estão incorretas, como por exemplo, recomendar que se faça qualquer atividade física sem máscara.

Se fosse eu, Sally, com base no meu achismo ou em alguma teoria sobre interesses escusos metendo o pau na OMS, seria absolutamente patético. Tá bom que eu, uma zé ninguém, terei todos os elementos necessários para formar essa convicção! Eu posso apenas supor com base na mísera informação que chega a mim pela mídia, o que seria vergonhoso.

Mas não sou eu, Sally, metendo o pau na OMS com base no meu achismo. São os estudos científicos sérios, revisados, publicados, feitos da forma correta, respeitando o método científico, provando uma afirmação que a desmente. A Organização Mundial que deveria nos proteger, nos guiar e ser o farol de luz e conhecimento para combater a pandemia, sabe-se lá por qual motivo, está perdida, errada ou jogando contra. Tem desfavor maior do que esse?

Então, cruzando os dados, você vai ver que a OMS, não importa o motivo, não é uma fonte confiável. Continuem no caminho da luz, no caminho da ciência: a fonte de informação sempre tem que ser estudos revisados e publicados por pessoas sérias. Tudo aquilo que for de encontro a eles, joguem-no lixo. Até mesmo a OMS.

Mantenham-se na luz, na lucidez, na ciência. Não consumam nada além disso, o cérebro não precisa ser sobrecarregado de informações erradas e achismos.

Para perguntar quem é o único impopular capaz de refutar a OMS, para tecer alguma teoria conspiratória entre a OMS e a China ou ainda para cantar “Ei, Tedros! Vai tomar no cu!”: sally@desfavor.com

SOMIR

Talvez você nunca tenha ouvido falar em Efeito Dunning-Kruger, mas com certeza convive com inúmeros casos. Ele é um fenômeno que leva indivíduos com pouco conhecimento sobre um tema a ter uma confiança exagerada sobre sua capacidade de falar sobre o assunto. É quase como se a pessoa entrasse num estado eufórico e acreditasse piamente que já descobriu tudo o que tinha que descobrir sobre aquele tema. Ninguém está imune a passar por essa fase enquanto aprende sobre algo, mas a cura é relativamente simples: basta continuar se esforçando para aprender que logo logo a pessoa cai na real e perceber que como na prática sempre tem muito mais coisa para aprender.

O problema é que aparentemente a maioria das pessoas fica muito confortável nesse auge de confiança e acaba não dando os próximos passos. Boa parte da internet atual é resultado de gente travada nesse ponto de euforia do Efeito Dunning-Kruger: entenderam tudo sobre o seu assunto querido e estão prontas para desafiar o mundo todo baseadas na sua visão das coisas. Evidente que tanta gente nesse estado mental vai acabar tornando tudo num festival de brigas e conspirações sem fim.

Parafraseando a OMS: é compreensível. Não é agradável descer do pico da montanha da confiança – de onde você parece finalmente ser capaz de entender o mundo – até o assustador vale do aprendizado real, onde você percebe que nada é simples na realidade. E a única forma de sair dessa vale é estudando bastante ou descobrindo fontes seguras de informação. O que normalmente é bem mais chato que “desafiar o sistema” achando que sabe mais que todo mundo.

Mas infelizmente, muitas das coisas que gostamos não são saudáveis. Não tem jeito: se você não tomar muito cuidado com essa euforia do falso domínio sobre um tema, o Efeito Dunning-Kruger pode te colocar em situações perigosas, especialmente se o tema que você resolveu acreditar que domina tem a ver com medicina. Achar que entendeu tudo sobre a relação entre homens e mulheres no máximo vai ferir sua vida sexual e afetiva, mas achar que entendeu tudo sobre uma doença… bom, isso pode te matar. Ou para muitas pessoas, pior ainda: matar alguém querido.

É por isso que entidades como a OMS não podem falhar na luta contra a epidemia de Efeitos Dunning-Kruger que assola o mundo ao mesmo tempo que o coronavírus. Cada pessoa que se perde na euforia arrogante de acreditar que pode decidir sozinha como o mundo deve agir no combate a uma doença é um foco de contaminação novo. A responsabilidade de ser uma espécie de ministério mundial da saúde é pesada, mas é uma vitória da humanidade que tenhamos isso, uma rede de segurança extra baseada no conhecimento de todos os países.

O que ela diz é tão válido quanto os estudos científicos feitos da forma correta que cita. Mas quando ela abre mão de se basear neles por questões políticas, injeta muita confiança naqueles que estão vivenciando a arrogância da certeza sem estudo, e complica muito a vida de quem estava contando com os especialistas para ajudar a entender como agir. Se a OMS vacila, quem sofre com o Efeito Dunning-Kruger faz o oposto, na verdade, ficam ainda mais confiantes e começam a disputar a atenção do grande público com sua desinformação bizarra.

Não sabemos o que gera essas bobagens da OMS, se é excesso de diplomacia, se está amarrada a burocratas ou se é pressão de países como a China… mas o resultado é o mesmo: informação desencontrada que precisa ser confrontada por cientistas do mundo todo para ser corrigida, às vezes tarde demais. Em dado momento, a maioria de nós achou que bastava escutar a OMS que estaríamos seguros, mas as coisas vão mudando à medida que aprendemos mais. De uma certa forma, saímos da montanha da confiança sem comprovação e estamos descendo o vale da incerteza, tendo que aprender mais sobre o vírus e políticas de saúde pública ao mesmo tempo que procuramos pelas melhores fontes de informação.

O que é muito difícil. O cidadão médio não pode ser obrigado a fazer isso, até porque a maioria não vai ter sequer condições de tentar. Estudar sobre algo que você pouco conhece é um caminho cheio de armadilhas, ainda mais com tantos charlatões aproveitando esse vácuo de poder para vomitar suas teorias conspiratórias e bizarrices anticientíficas livremente. Se não há um ambiente seguro para deixar o cidadão médio fazer esse caminho rumo ao vale da incerteza, o certo é entregar informação consistente e muito bem defendida por estudos científicos constantemente. Tem cientista sério o suficiente nesse mundo para fornecer esses dados, é só querer.

Quer dizer, é só querer se você não quiser outra coisa com mais vontade: contemporizar com diversos países e agradar todo mundo ao mesmo tempo. A ONU é uma entidade diplomática, mas é também a defensora da declaração universal dos direitos humanos. Diplomacia vai até onde os diretos humanos começam a ser violados. Desinformação e aceitação “bovina” de péssimas atitudes dos governos que pagam suas contas é uma forma de ir contra a premissa básica da entidade. Para agradar um dois líderes, estão deixando todos nós na mão. Se for para fazer isso, acho que vou concordar com o Trump: não precisam ser pagos.

Para dizer que agora só está mais confuso(a), para dizer que assumimos que é uma conspiração (não), ou mesmo para dizer que só o seu amigo imaginário sabe o que é verdade (não): somir@desfavor.com

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Comentários (10)

  • Posso dizer, sem medo de errar, que a OMS é uma grande “repartição pública”, onde tem gente demais (todos muito especializados em suas áreas), burocracia desgraçada demais, e muito rabo preso político pela própria forma como a oms funciona: ela é uma espécie de onu da saúde. Digo com visão de insider (tenho trabalhado de perto com um grupo de lá como consultor, e acompanhado de perto, e de dentro, muita decisão importante, e pesquisas importantes, em uma outra área que não a de doenças infecciosas). Não acho que a oms hoje funcione efetivamente. Ciência não pode ser tão afetada por política… Senão dá merda.

  • De que lado a OMS está? Estão do lado do balde e do rodo, passando pano pra China e o diretor nem médico é, já começa por aí.

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    Adolfo Dias Suamana

    A OMS é uma organização política, de enfoque globalista e com forte influência de países de esquerda. A Ciência é um modo de produzir/ testar conhecimentos. Porém, Ciência custa caro e é financiada, seja pelos governos, seja pela iniciativa privada – incluindo aí todo tipo de investidor, mas com destaque para laboratórios farmacológicos e fundações ligadas a sujeitos bilionários. Isto faz diferença em quem consegue e quem não consegue publicar, pois periódicos científicos são nichos e os pares que revisam os estudos -mesmo com o suposto anonimato – sabem direitinho pelo teor quem apresentou aquela pesquisa.

    Isso não é invenção, é um dado facilmente comprovável olhando os patrocinadores das pesquisas. Não faz parte de nenhuma conspiração entre maçons, extraterrestres e o Conde de Saint Germain, como a falácia do espantalho sugeriria.

    Seja por cagada, seja por coincidência, o vírus surgiu onde surgiu; a OMS sempre foi tendenciosa e passou pano para quem quis passar. Há estudos científicos pendendo para tudo quanto é lado e só sabemos o que chega até nós, passando pelo filtro que for. Então o que sabemos com alguma chance de confiabilidade é que o vírus vai continuar contaminando quem tiver contato com pessoas contaminadas ou superfícies com secreções de gente contaminada. A máscara não barra o vírus como filtro, mas segura as secreções de quem espirra ou tosse. O face shield também. Lavar as mãos ajuda; no caso de não ter água e sabão, álcool gel ajuda. Pessoas chutam o balde e fazem merda, seja poque vidas negras importam, seja porque não são disciplinadas como monges do deserto.

  • Eu sou “team science”, mas não sou tonto de achar que todo cientista é honesto e nunca houve nenhum suborno com motivação política/partidária/empresarial. O mesmo vale pra jornalistas, professores, organizações internacionais e qualquer outro grupo. Não estou afirmando que é o caso da OMS ou dos pesquisadores do covid, mas é sempre bom lembrar disso. Recomendo este texto aqui: https://ceticismo.net/2020/08/21/divulgador-cientifico-tem-que-acabar-educador-financeiro-tambem/

    E na moral? Foda-se vírus, política, guerra cultural, economia e o caralho a 4. Não acredito em nada, tudo é mentira, tudo é comprado, tudo é forjado, nem tenho mais certeza se eu mesmo existo e quero que tudo vá pro inferno.

  • Sobre o domínio chinês: Não é teoria conspiratória, é um fato. Um monte de lojinhas de chineses nos centros das cidades, imposição do idioma e dos valores chineses em escolas africanas, base chinesa na Argentina, monopólios de empresas etc. Tudo sustentado pelo Partido Comunista Chinês.

    Mas quando a humanidade perceber, vai ser tarde demais…

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