Comemorações de 12 anos encerradas. Luto oficial em toda a nação por tempo indeterminado.

Vacina compulsória.

Com alguns países prometendo começar a vacinação neste ano ainda, podemos ter uma boa e uma má notícia mais cedo do que o esperado: uma forma de combater o coronavírus e a provável reação bizarra dos antivacinas. Sally e Somir discutem a melhor forma de lidar com a resistência. Os impopulares aplicam sua dose de opinião.

Tema de hoje: caso um grupo se recuse a tomar a vacina contra o coronavírus, qual o melhor caminho, impor sanções ou vacinar as pessoas à força?

SOMIR

Multe a pessoa ou faça com que ela tenha dificuldades de ganhar dinheiro. Eu sei que muitos de nós já estamos ficando de saco cheio dessa nova onda de obscurantismo e negação científica que assola o mundo, mas o timing para forçar pessoas a tomar uma vacina já passou em 2020. No século passado você ainda podia tentar algo do tipo, mas a sociedade já mudou tanto nesse meio tempo que boa parte das estratégias de saúde pública já caducaram.

Se eu fosse com meu coração, diria que o certo é forçar a vacinação e enfiar a porrada em quem se recusasse, pelo bem da própria pessoa e do grupo no qual ela está inserida. Mas o coração caiu em desuso no século XXI. Gostando ou não, estamos numa era de palavras e ações cada vez mais controladas, você deve pensar mais no que vai dizer ou fazer considerando que pela primeira vez na nossa história, quase toda a humanidade está sendo observada o tempo todo.

Da última vez que o Brasil resolveu forçar pessoas a tomar vacina, no mínimo dava tempo de imunizar vários outros estados antes da notícia das revoltas e abusos cometidos por agentes sanitários chegar aos ouvidos da maioria. A informação fluía de forma mais controlada, e mais gente podia pensar em como contar uma história pelo “ângulo correto” antes dela se espalhar sem controle. E, pra falar a verdade, não por falta de inteligência, mas por falta de acesso aos dados, as pessoas do século passado não tinham muita noção do que estava acontecendo fora da sua vida cotidiana na maioria absoluta das vezes.

Sem contar que era gente que viveu os perrengues de uma humanidade sem acesso às melhores práticas da medicina e viu em primeira mão os horrores de doenças correndo soltas no mundo. Vacinas pareciam muito mais com uma bênção caída diretamente dos céus do que uma memória vaga de um boneco branco e agulhas. Não é necessariamente uma coisa ruim, mas o ser humano moderno (acima da linha da miséria) pode ser considerado mimado pela medicina e ciência em geral. Parece que é algo que sempre vai estar lá para salvá-lo se as coisas apertarem.

É por isso que eu falo de timing: uma Revolta da Vacina em 2020 seria algo muito mais perigoso do que no começo do século anterior. E se você acha que não teríamos algo parecido com vacinação compulsória (de verdade), não está acompanhando o mundo atual. Ao invés de pobres furiosos com a brutalidade de agentes de saúde, teríamos um grupo considerável de pessoas de todos os níveis sociais divulgando todas suas teorias conspiratórias sobre vacinas para plateias cada vez maiores, e pior: de forma muito mais convincente que qualquer boato rodando por cortiços cariocas em 1904.

Eu já tive a curiosidade de ver os argumentos dos antivacinas, e me assusta como eles podem ser poderosos para quem não tem conhecimento prévio de ciência. Não meça o povão pela régua de alguém que vai estudar sobre um tema quando fica confuso, e sim de quem já não confia num sistema que o trata mal dia após dia. Terraplanismo funciona porque a informação sobre o planeta ser redondo nunca foi importante para a maioria das pessoas, o movimento antivacinas só existe porque o cidadão médio tem na melhor das hipóteses um conhecimento minúsculo sobre biologia e sistemas imunológicos. O que essa gente sabe é que marcar uma consulta no SUS é uma provação e que a tia morreu num corredor de hospital por falta de leitos. Fica fácil desconfiar das intenções de uma vacinação obrigatória.

Pessoas sendo vacinadas à força daria o combustível ideal para todas as baboseiras dos antivacinas assumirem o controle da narrativa para o cidadão médio. “Se fosse bom, não teriam que te forçar”. Milhares de vídeos de pessoas apanhando (porque no Brasil o agente público não é treinado direito) e relatos de abusos de autoridades tomariam conta da internet, caindo diretamente no WhatsApp da parcela mais vulnerável à desinformação no país. A Revolta da Vacina 2020 seria uma certeza e o saldo seria uma multiplicação do número de antivacinas vomitando mais e mais informação podre sobre uma população sem defesas contra isso.

Não dá, o mundo não deixa mais isso acontecer. O jeito é estabelecer a necessidade de tomar a vacina e gerar incômodo para quem se recusasse, mas sem dar “vídeos perfeitos” para quem quer espalhar desinformação. Cada ano sem tomar a vacina gera uma multa pesada direto no imposto de renda. Carteira de vacinação em dia ou não pode renovar documentos e ter acesso aos programas sociais do governo. Não pode votar, não pode abrir empresa… pode ser um maluco, mas desiste de ser um cidadão no processo. Estaríamos mantendo a pressão sem colocar tanta lenha na fogueira da negação científica.

Se você conseguir que a parcela mais pobre da população tome a vacina por pura pressão econômica (a maioria das pessoas não pode se dar ao luxo de ficar um mês sem bolsa-família), consegue fechar a porta para os antivacinas atingirem massa crítica para começar uma revolta popular. Como são punições difusas em períodos de tempo maiores e não geram impacto imediato na liberdade do cidadão, boa parte dos argumentos de opressão não conseguem colar. Vai ter gente falando absurdos na redes sociais ou em eventos da sua família? Vai, mas esse trem já partiu. O obscurantismo voltou com força e vai demorar para ser controlado. A solução é ir reduzindo o seu impacto na qualidade de vida que já conquistamos e deixar que se afundem sozinhos.

Tem horas que mesmo que o certo pareça ser brigar de peito aberto para passar a mensagem de importância, o que realmente funciona é não escalar a situação e engolir um sapo ou outro para ter o melhor resultado final. Eu vou ficar muito puto se alguém próximo não quiser tomar a vacina, mas assim que você o força, ele vira mártir para mais dois que estavam em cima do muro. E sinto te dizer, mas gente que está em cima do muro sobre fatos comprovados cientificamente por simplesmente não entender do que o assunto se trata é a maioria. Sanções resolvem o problema de forma mais lenta, mas evitam efeitos colaterais ainda mais horríveis.

Para dizer que eu já cheguei no Nirvana de pensar pouco dos outros, para dizer que se for vacina russa não vai tomar (eu também vou esperar para ver que bicho vai dar), ou mesmo para dizer que somos ignorantes sobre a pseudociência bizarra de conspiradores: somir@desfavor.com

SALLY

Caso surja uma vacina contra o coronavírus e um grupo se recuse a tomar, qual seria a medida mais adequada: impor sanções ou vacinar as pessoas à força?

Vocês já devem saber o que eu vou responder, né? Amarra que nem o Hannibal Lecter e vacina à força. Se resistir, aplica no nervo do olho a injeção.

Tem uma linha muito bem definida do que me faz perder a civilidade: colocar em risco a minha vida ou a vida das pessoas que eu amo. Faça isso e eu, conscientemente, por escolha, ciente de estar fazendo o que eu acho correto, cruzarei todas as linhas, inclusive as da lei. Eu sou bem babaca, bem tolerante, mas não recomendo tentar matar as pessoas que eu amo.

Em um país civilizado, gerido por pessoas capazes de pensar, planejar e sobretudo executar sanções eficientes, obviamente eu defenderia esta opção. Mas no Brasil? Um país que não consegue nem manter um vagão separado em trem e metrô para mulheres, onde homens continuam ejaculando na perna de adolescentes durante o trajeto para o trabalho? Desculpa, bicho a gente trata como bicho. Não dá para pretender um tratamento planejado para um povo civilizado para um país onde as pessoas nadam no esgoto. É óbvio que não vai funcionar.

Eu já vi o que acontece quando se tenta inserir uma regra de país civilizado nessa selva mal parida que vocês chamam de Brasil. Olha o sistema penitenciário! Lindo em tese, ressocializar em vez de punir. Alguém sai ressocializado da cadeia? Não, apenas sai mais cedo, mais brutalizado e tem um dos maiores índices de reincidência do mundo. Repito: não dá para encaixar um quadrado no buraco que seria para um círculo. O brasileiro é bicho, é involuído, é sem educação. Não se aplica sanção a bicho. Bicho não entende sequer a relação de causa e efeito.

Além disso o Brasil não tem estrutura para estipular qualquer sanção coercitiva que seja em larga escala e fiscalizá-la. Ou vocês acham que o Governo leva de boas que todo mundo sonegue imposto? Simplesmente não tem como controlar todo mundo, pois além do país ter dimensões continentais, áreas de difícil acesso, do povo se reproduzir feito coelho, quem fiscaliza é extremamente incompetente e/ou corrupto. Não existe forma de compelir essa fauna que é a população brasileira a tomar a vacina. Mesmo que se crie uma sanção eficaz, não tem efetivo, mão de obra, para colocá-la em prática.

Isso sem contar o mau-caratismo. Se estipular multa, vai ter quem pague de bom grado para não tomar. Se estipular alguma restrição vai ter quem pague advogado e entre com um processo alegando ser inconstitucional e periga ganhar e não se vacinar (se alegar violação ao direito de liberdade religiosa, por exemplo, certeza que algum juiz permite). O brasileiro é uma máquina de burlar o sistema, é o estelionato como modo de vida. Não dá, gente, não dá. É um grau de desonestidade, malemolência e jeitinho que só atitudes drásticas controlam. Tem que amarrar as quatro patinhas tipo gado e vacinar.

Uma pessoa que se recusa a tomar uma vacina, na minha concepção, se equipara a um animal (apesar de que, meu cachorro toma vacina de boas). Você dialoga com um animal? Quando você quer algo de um animal, impõe castigos caso ele não te obedeça? Você barganha com um animal? Não. Se você sabe que o animal está fazendo algo que o coloca em risco de vida, você vai e coloca em segurança, quer ele queira, quer não.

É o preço que se paga por viver em um país com um povo burro, ignorante, desempoderado, que acredita que a vacina foi mandada por alienígenas reptilianos para Bill Gates, com um chip que será inserido nas pessoas para controlar suas mentes em meio a células de bebês abortados. Gente, não tem conversa nesse grau de entendimento, é latir para poste. São inimputáveis. Não tem medida coercitiva que possa descer a esse baixo nível intelectual do brasileiro, a menos que a coerção seja “vou te dar uma surra com um gato morto até o gato miar”.

TEM QUE tomar e acabou. Vai acontecer? Óbvio que não, o Governo não consegue obrigar as pessoas nem a darem dinheiro para eles, pagando direitinho todos os impostos, imagina se vai obrigar algo que sequer lhe interessa. Periga inclusive do Presidente apoiar um boicote à vacina se ela vier da China. Publicamente. Não sou inocente, sei que o que eu defendo aqui nunca vai acontecer, mas, em tese, acredito que seja a melhor opção.

Democracia tem limite. Quando, para exercer suas liberdades você coloca outros em risco de morte, há uma linha a ser traçada. Quase um terço da população não vai poder tomar a vacina, pelos mais diferentes motivos (alergias, doenças autoimunes, quimioterapia etc.). Para proteger essas pessoas, todo o resto tem que estar vacinado. E, como eu já disse em outro texto, qualquer um de nós pode, a qualquer momento, passar para esse grupo que não pode ser vacinado. Defensa a vacina obrigatória, se não amanhã quem pode morrer é você ou alguém que você ama.

Imunidade coletiva é uma necessidade cientificamente comprovada, não é algo passível de opinião ou debate. Vacinas são efetivas e não causam danos (e quando causam algum dano, o que é muito raro, as chances de não se vacinar geram uma probabilidade de dano muito maior). A eficácia da vacina é um fato científico, não está aberto a opinião ou debate. Esse trem já partiu, no século passado. Se o brasileiro ficou parado no século passado, bem, terá que ser tratado como um inimputável.

Quem discute validade de vacina é ma-lu-co. E com maluco a gente não conversa, a gente interna. Maluco não tem querer, maluco toma seus remedinhos para não causar danos a terceiros querendo ele ou não. Pode tomar de boinha, pode tomar com três enfermeiros segurando e enfiando goela abaixo, mas vai tomar. Chega de ficar cheio de medos, tratando maluco como cidadão comum, por medo de ser tachado de intolerante. Não. Uma pessoa que não raciocina tem que ser obrigada a não causar danos a terceiros.

Existindo uma vacina comprovadamente eficiente e segura, tem que tomar. Nem que seja amarrado. Nem que seja imobilizado. Nenhum direito individual se sobrepõe ao direito à vida, ainda mais quando coletivo. Foda-se o que vão falar, foda-se o chororô sobre ditadura, opressão e o caralho a quatro. Vão tudo pra puta que pariu, falem o que quiserem, façam textão, xinguem muito em rede social, no dia em que alguém se deixar intimidar por isso, vira refém de maluco histérico.

Tem que tomar. Se precisar arromba a casa com auxílio de força policial. Imobiliza com taser, com dardo para apagar rinoceronte, com soco na cara. Não me importa os meios, tem que tomar. Inocentes não podem morrer pelo fato do Poder Público estar batendo palma para ignorante dançar.

Para dizer que eu sou fascista, para dizer que eu sou nazista ou ainda para dizer que eu sou ciclista: sally@desfavor.com

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Comentários (16)

  • Concordo com o ponto de vista do Somir de que os BMs em geral só cumprem regras que lhes doam no bolso e acho a idéia dele muito boa, mas, como tudo por aqui acaba tendendo mesmo é para a esculhambação, eu fico com a Sally nessa. Brasileiro é bicho xucro demais e ainda precisa ser domesticado, mesmo que seja na base da porrada! Infelizmente, o que já não faltam no Brasil são maneiras para driblar a lei e não pagar multas e, como essa cambada de metidos a malandro é especialista em burlar qualquer norma, é de se esperar que neste caso também haja safadeza.

  • Tem que usar supositório GGG em quem não quer vacina, para largar de ser trouxa… se bem que podem gostar, novos tempos e tals…. enfim, concordo com a Sally, idiotas não tem querer, ainda mais quando a opinião deles vale menos que a dos meus gatos, que reclamam, mas tomam as vacinas deles. Aliás, é mais fácil treinar um cachorro que um brasileiro, Sally… ou um gato… ou uma minhoca… brasileiro é um bicho teimoso feito uma mula, burro feito uma porta e que se acha pra cacete. Péssima combinação.

    Aliás, tem demente falando que a ‘vacina russa’ sai em setembro ou outubro. Vocês acreditam nisso?

  • Sally tem toda razão, se tratando do Brasil, mas A opção do Somir de perder benefícios do governo, não poder votar, não poder renovar documentos e etc., é mais viável e vai acabar sendo isso mesmo.

  • Eu acho que tem que obrigar a tomar sim. Concordo com a Sally: se me oferece risco, eu vacino a força mesmo. Eu até iria além. Faria linchamento social. Não quer tomar vacina por que é coisa de gente querendo controlar a mente das pessoas? Beleza, tiro uma foto e escrevo bem grande “Essa pessoa não tomou vacina! É um risco a sua saúde, ela pode te infectar!”.

  • Perfeito, pode acrescentar a necessidade de apresentar a carteira de vacina para continuar no emprego ou será demitido por justa causa. Quero ver neguinho tomar no cu por ser teimoso.
    “Cada ano sem tomar a vacina gera uma multa pesada direto no imposto de renda. Carteira de vacinação em dia ou não pode renovar documentos e ter acesso aos programas sociais do governo. Não pode votar, não pode abrir empresa… pode ser um maluco, mas desiste de ser um cidadão no processo. Estaríamos mantendo a pressão sem colocar tanta lenha na fogueira da negação científica”

  • Foi como disseram ontem, o macaco médio só usa máscara por causa de multa. No Brasil, o macaco médio não tem onde cair morto, qualquer centavo a menos dói no bolso dele. Ricos? Ah, esses vão subornar em qualquer uma das situações apresentadas no texto. Logo, prefiro a opção do Somir por afinidade, não curto políticas invasivas.

  • Me lembro de um texto da Sally, algumas semanas atrás (não lembro mais o título, foi mal), em que ela diz que estamos à mercê dos idiotas pra combater a pandemia. E é isso aí mesmo, não tem outra forma de idiotas aprenderem se não for pela força. E digo mais, direito ao voto só deveria ser liberado pra quem paga impostos em dia, tem mais de 25 anos e não está sugando o Estado sendo funça ou parasita de assistencialismo. Pobre vende seu voto por qualquer coisa, funça sempre vai votar por mais Estado e jovem nem deveria ser ouvido.

  • Se a pessoa não tomar a vacina, quem pode morrer é ela mesma, então pra que gastar energia e fazer esse tipo de pessoa ficar viva, se o mundo está lotado? Quem não quiser morrer de corona se vacina, do contrário, vai pro inferno! Eu que não ficaria de babá alheia!

    • O problema é que o idiota é um vetor e vai espalhar o vírus para quem não pode tomar a vacina por N fatores distintos. E vai acabar matando quem não tem nada a ver com a imbecilidade galopante dele. Se não fosse por isso, tinha que deixar tossir os pulmões mesmo.

  • Sally raiz <3
    Mas não me convenceu, vou ficar do lado das multas porque quem tem dinheiro, tem medo. E o dinheiro traz uma reação em cadeia: se não tiver dinheiro, não dá pra comprar bugigangas pra se exibir, bebida e fazer baile funk ou festa ostentação. Sem bebida e festa, sem aglomeração pra espalhar doença.

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