Ninguém pode…

O presidente Jair Bolsonaro disse nesta segunda-feira (31) que ninguém pode ser obrigado a tomar vacina, em resposta a uma apoiadora que aparentemente pediu que o governo federal proíba a vacinação contra a covid-19, em meio a uma corrida global por um tratamento para a doença causada pelo novo coronavírus. LINK


Esse tipo de declaração é um erro em tantos níveis que só mesmo fazendo dela o Desfavor da Semana.

SALLY

Bolsonaro resolveu dizer que o Estado não pode obrigar o cidadão a tomar vacinas. Isso é bastante equivocado, sob diversos pontos de vista. Vacina não é uma escolha pessoal e não interessa a sua opinião sobre o assunto, pois, como eu cansei de dizer, nem a ciência nem a lei se importam com que você pensa.

Vejo muita gente defendendo a não-obrigatoriedade de vacinas com um argumento raso no estilo “se não tomar e quiser morrer, problema do gado. Vou achar bem-feito”. Esse tipo de coisa só pode sair da boca de pessoas que não tem a menor ideia de como a ciência e o corpo humano funcionam.

Vamos tirar a cabeça de dentro do próprio umbigo por um segundo e entender como funcionam as vacinas? Quando você se vacina, o faz por você (para que você não contraia uma doença) mas principalmente o faz pelo coletivo. Existem muitas pessoas que, por motivos variados, não podem se vacinar, como por exemplo pessoas que estejam em tratamento quimioterápico, pessoas que tenham doenças autoimunes, pessoas que tenham alguns tipos de alergia e uma série de outros grupos.

E não são poucos, estima-se que cerca de 30% da população tenha ou possa ter algum problema que as impeça de se vacinar. Para que essas pessoas estejam protegidas e para que a doença possa ser erradicada, é indispensável que todo o resto da população esteja vacinado, assim o vírus não circula e elas não correm o risco de adoecer. Então, não é uma questão individual, é uma responsabilidade que temos para com aqueles que estão em uma situação vulnerável e para erradicar uma doença.

Hoje pode não ser o seu caso, mas você não sabe o dia de amanhã. Pode ser sua mãe fazendo quimioterapia, pode ser seu filho com uma doença autoimune, pode ser você. Por isso, ainda que você seja um egoísta que não se importa com a coletividade, tem que se vacinar.

E se vacinar é apenas parte do dever ético e moral. É importante que as pessoas se unam e façam sua parte para contribuir com a vacinação de 100% das pessoas que podem ser vacinas. E isso incluí não divulgar fake news contra vacinas, não ficar espalhando teorias que provoquem medo em redes sociais, não fazer nada, absolutamente nada, que desencoraje alguém a tomar uma vacina.

Vacina não é remédio, não é algo de escolha individual, que você pode optar ou não por tomar, pois não diz respeito só a você. Vacina é um pacto coletivo e se você não quiser participar, que vá viver em outra sociedade, pois nesta, é obrigatória por força de lei, pouco importa sua opinião. É sobre erradicar uma doença do país, não sobre proteger você. É saúde pública, não individual.

“Ain, mas a Constiuição fala de direitos individuais…”. Pode parar por aí. Não sei de qual direito você está falando, mas ele certamente não se sobrepõe ao direito à vida, que a Constituição e tantas leis amparam com o máximo rigor. A regra é clara: ninguém pode ser obrigado a fazer nada se não em virtude de lei. E, olha só que engraçado, existem leis no Brasil que obrigam a vacinar, uma delas, inclusive, assinada pelo atual, presidente, prevendo a possibilidade de vacina obrigatória em meio à atual pandemia.

Então, quando o Chefe de Estado de um país diz que “ninguém pode ser obrigado a tomar uma vacina” e coloca como contraponto disso ser um tirano, ele cria uma nuance de desfavores.

O primeiro é o claro desconhecimento da lei. A Lei 13.979/20, assinada por Bolsonaro (deve ter assinado sem ler, só isso explica). A lei diz que durante esta situação de pandemia a população pode sim ser obrigada a se vacinar. Achei um pouco vergonhoso. Sugiro que o Presidente se cerque de assessores alfabetizados, que lhe informem o teor do que ele assina ou do que já assinou, para não passar esse tipo de vergonha.

Inclusive, no Brasil, várias vacinas são obrigatórias. Tem previsão legal com sanção para quem não vacina crianças e adolescentes. Então, não apenas o país pode obrigar a tomar uma vacina, como de fato o faz há tempos. Não vacinar seus filhos tem uma série de implicações. Que Bolsonaro não tem a menor ideia sobre como funciona a ciência já era óbvio, mas eu achei que ao menos sabia (ou possuía uma equipe que soubesse) quais são as regras do país que ele rege.

Além disso, é um discurso incoerente vindo de quem vem. Não que Bolsonaro alguma vez na vida tenha prezado pela coerência, mas, ainda assim, espanta que ele não perceba e não tente adequar o discurso para não passar mais esta vergonha e, com ela, perder ainda mais poder. Logo ele que tantas vezes quis obrigar tantas coisas, algumas inclusive sem a menor fundamentação científica, apenas de cunho moralista, vem falar em liberdade individual agora?

Também me dá um pouco de pena que ele ache que Presidente da República tem algum poder de mando no Brasil. Não tem. Quem manda no Brasil é o STF e, com sorte, o Congresso. Se o STF decidir que é obrigatória, a vacina será obrigatória, não importa o quanto o Bolsonaro esperneie. E longe de mim pensar que o STF é ético e guardião da saúde do povo brasileiro, o que me veio à cabeça é o interesse econômico do mercado que vai girar em torno dessas vacinas. Se for conveniente, o STF estabelece até pena de surra com gato morto para forçar as pessoas a se vacinarem.

Sabemos que Bolsonaro não se importa com quem é vacinado, ultimamente ele não se importa com nada além de evitar a prisão de seus familiares. Mas deveria se importar com esse tipo de coisa que o enfraquece. Cada vez que ele perde um cabo de guerra em público, é obrigado a dar mais e mais o cu para o centrão e menos capital político tem para livrar os filhos da cadeia. É pouco inteligente comprar uma briga que você vai perder, ainda mais quando vai perder em público.

O grande problema de desencorajar a vacinação, mesmo que exista respaldo legal para torná-la obrigatória, é que estamos falando de um país pouco sério. Quem vai fiscalizar? Quem vai punir? Como? O país não foi capaz nem de fazer cumprir uma quarentena, certamente não será capaz de garantir que toda a população seja vacinada.

Nesse caso, todos saem perdendo: Bolsonaro é desautorizado quando for confirmado que a vacina é obrigatória e o povo não vai tomar, pois, apesar de ser obrigatória, não vai ter fiscalização nem medidas que obriguem a vacina. O Presidente vira motivo de piada e perde cada vez mais poder e a sociedade é obrigada a conviver com um vírus que vai continuar circulando e infectando pessoas que não tem como se proteger por causa de uma pequena parcela de imbecis anti-vacina. Pior dos mundos.

Bolsonaro consegue a proeza de fazer mal a si mesmo e à sociedade em seus atos. Isso não é para poucos. Eu já vi político causar mal social para se dar bem, mas fazer esse tipo de desfavor sem ter qualquer benefício e ainda dar um tiro no pé? Olha, tá de parabéns. Nesse ritmo vai destruir o país antes do que eu pensava. Bem, quem sabe assim o brasileróide retardado que fica apontando o dedo para os outros e dizendo que tal país está virando Venezuela vai finalmente se dar conta de qual país está virando uma Venezuela.

No aguardo, comendo pipoca e torcendo pelo Brasil, apesar de que eu tenho certeza de que o final é feliz. Se escorraçarem esse sujeito do poder, vai ser feliz e divertido. Se o mantiverem no poder, vão passar um período ruim, mas o final também vai ser feliz, pois ele vai fazer ruir tudo e vai nascer algo muito melhor no lugar.

Segurem as pontas para eventuais tempos difíceis e não se preocupem, um dia vocês vão agradecer ao Bolsonaro por acelerar a ruína desse sistema falido e dar lugar para algo melhor brotar.

Para dizer que queria muito que vacina causasse autismo assim esse povo imbecil cala a boca, para dizer que tem que vacinar na marra e debaixo de porrada ou ainda para dizer que também pegou a pipoca e vai assistir a esse circo: sally@desfavor.com

SOMIR

Bolsonaro chegou ao poder montando uma coalizão do contra. Um país em crise vindo de quase duas décadas do mesmo governo estava pronto para fazer algo diferente. Agora, o que seria esse diferente que não ficou bem claro. O candidato, não sei se sabendo o que fazia ou por pura sorte, acabou virando a pessoa “que ia mudar isso aí” sem ser muito específico sobre o que seria “isso aí”. Cada um enxergou nele a mudança que desejava, e deu certo!

Eleito, o presidente começou a lidar com todas essas expectativas. Colocou seus superministros para trabalhar e foi cuidar pessoalmente das coisas que ele realmente queria fazer: demitir o funcionário do Ibama que o multou por pesca ilegal uma vez, aumentar o número de pontos antes de cancelarem a carteira de habilitação, liberar o porte de armas… coisas que achava divertido com seu novo poder.

Mas, eventualmente, o tempo de paz que o povo dá para o presidente recém-eleito se esgota, e Bolsonaro começou a ser arrastado de volta para a realidade. Os grupos que votaram nele esperando alguma coisa começaram a cobrar a conta e a política real bateu à sua porta acabando com a lua-de-mel entre o presidente e o poder.

E por que eu falo disso num texto sobre essa frase dele em relação às vacinas? Porque nesses últimos meses de pressões, decepções e confusões, Bolsonaro descobriu que tinha um público que podia manter tão encantado com ele como no tempo das eleições: os malucos. Não se enganem, malucos são uma parte considerável da população humana, some-se a isso a mistura profana de acesso à informação e falta de educação básica do brasileiro, e temos uma parcela considerável desse povo pronta para embarcar nas mais insanas teorias conspiratórias possíveis.

E sim, estou usando maluco de uma forma mais abrangente: não é a pessoa que sai correndo pelada no meio da rua, na imensa maioria das vezes é gente que nem parece ter um problema com a compreensão da realidade se você não estiver prestando atenção. Membros razoavelmente funcionais da sociedade que trabalham, fazem filhos, consomem… mas que nas horas vagas discutem sobre conspirações comunistas, o formato do planeta, e é claro… os perigos das vacinas.

Não confundir com gente puramente ignorante, que embora façam parte da base de apoio de Bolsonaro agora que o governo está dando dinheiro para elas, não estão interessadas em política o suficiente para saber o que presidente fala ou deixa de falar. Estou falando de quem em tese tem acesso à informação, mas busca ativamente se desinformar por achar conspirações mais excitantes. Esse público sempre existiu, mas nunca com os números que temos atualmente graças à internet. Os presidentes anteriores do Brasil tinham muito a perder e pouca a ganhar falando com essa gente, mas Bolsonaro é o primeiro que pode angariar capital político real batendo palma para esse tipo de maluco dançar.

E é isso o que ele faz. Da coalizão do contra, quase todo mundo já foi decepcionado. Os anticorrupção foram abandonados assim que as investigações chegaram nos filhos do presidente. A turma do moralismo religioso não consegue avançar suas agendas na velocidade que esperavam. O pessoal das armas está travado basicamente no mesmo ponto desde o começo do governo. O pessoal do liberalismo econômico está num processo rápido de fritura agora que Bolsonaro descobriu as maravilhas do assistencialismo. Sobraram os malucos das teorias conspiratórias. Como é um povo que não depende da realidade para funcionar, é basicamente impossível decepcioná-los, basta jogar uma migalha de tempos em tempos.

A declaração de Bolsonaro sobre vacinas não é baseada em realidade, como a Sally bem explicou, mas é lenha o suficiente para manter acesa a chama do último público que não perdeu a fé no seu presidente. Quando Bolsonaro fala essas coisas, sabe que vai ser criticado por uma parcela mais bem educada, mas que os malucos vão gostar bastante e continuar jogando ao seu lado. Eles já têm essa mentalidade de sobreviver de migalhas de informação para fazer seu senso de realidade, então não precisa fazer um discurso completo corroborando com as teorias de que vacinas causam autismo, basta dar uma piscadela dizendo que ninguém pode ser obrigado a ser vacinado que eles completam o resto.

E eu sei lá se Bolsonaro acredita nisso mesmo, talvez sim, talvez não. Um dos grandes talentos desse presidente é não se comprometer muito com uma ideologia ou outra ao mesmo tempo que parece um radical cheio de certezas sobre todos os temas. A lógica de Bolsonaro vai e volta de acordo com a necessidade, ele parece acreditar em tudo e em nada ao mesmo tempo. A única coisa consistente nessas décadas de vida pública que tiramos dele é o gosto pelos holofotes e a vontade incontrolável de se manter seguramente atrelado às tetas do Estado. O resto é negociável.

Neste momento, o porto seguro são os malucos. Os malucos não o abandonaram, e por pior que seja o resultado de sua presidência, os malucos são suficientes para colocá-lo no próximo cargo público até o fim de sua vida. Então, é para eles que ele vai falar. Custe o que custar: porque cada vez que um ignorante é convertido para maluco, o risco de revoltas e histeria coletiva com vacinas aumenta um pouco. Quem não entende nada de nada fica realmente em dúvida quando médicos dizem uma coisa e o presidente diz outra. Não sabem que o presidente está piscando para um grupo de seguidores fiéis, acham que realmente tem algo aí sobre as vacinas que não estão contando.

Esse capital político dos malucos é tentador, porque eles vão morrer acreditando em uma só coisa, e se você entrar na visão distorcida da realidade deles como um aliado, nunca mais te abandonam. O problema é que a cada ativação dessa base de aliados, as maluquices deles ficam mais próximas do povão. E o conhecimento científico médio do ser humano não é forte o suficiente para gerar imunidade contra essas maluquices.

Para dizer que a China me paga para escrever, para dizer que eu devo ter tomado muitas vacinas, ou mesmo para dizer que a turma dos que querem ver essa país explodir ainda não foi decepcionada: somir@desfavor.com

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Comentários (16)

  • A questão é um pouco mais complexa, mas cai na mesma tática doida que Bolsonaro adotou desde o início do mandato: fazer acenos aos “minions”, ainda que eles sejam completamente idiotas – e não aceitem, de forma alguma, uma vacina chinesa ou russa (tipo “só vou me vacinar se o remédio vier de um laboratório rico americano que não esteja vinculado, de forma alguma, à ‘comunista’ OMS e aos sino-sei-lá-o-quê”).

    Explicar para esses energúmenos que as vacinas que chegarão mais rápido ao público serão fornecidas pelo Estado, e que a China é a maior interessada no fim da pandemia, é fácil. Duro é convencer o cabeça-oca disso.

  • Gostei da tua análise, Somir, nos últimos parágrafos. Só quero ver até quando ele se sustenta ainda com os malucos conspiracionistas…

  • Bolsonarista médio adora defender, quando conveniente, uma liberdade e um código de leis que ele mesmo odeia, também quando conveniente. E usa dos mesmos argumentos do lado “esquerda comunixta malvadona” que ele diz combater. BM não sabe mais o que quer; até as crendices mais paupérrimas dele já estão zumbificadas por um ego que é só “ME DÁ! ME DÁ! EU QUEROOOOOO!!!”. Vi hoje mesmo um argumento bem entereçanti: “Ain você só é a favor de meu corpo minhas regras no caso de aborto, mas naum quando eu me recuso a tomar vacina! Hipocritaaaaaaah!” Ora quer defender as criancinhas interferindo na reprodução alheia ou as usando como meras posses expansionistas de seus genes decantes, outrora as coloca na reta (não se vacinando e permitindo um vírus potencialmente letal e que deixa sequelas continuar firme e forte por aí) pela tal “liberdade individual”.

  • Já esperava que o Bolsonaro fosse dar suporte aos antivaxxers. Ele se sustenta na posição dos radicais pra tentar se segurar no Planalto.
    Por outro lado, o Carluxo negociou com o Crivella vaga no partido do mesmo pra puxar uma tropa de choque pra dar suporte ao mesmo na prefeitura, só que isso vai custar caro.

  • Não sou contra vacinas mas especificamente essa foi feita nas coxas pra cumprir prazos de interesses diversos. As próprias produtoras sabem que vai dar merda e já tão querendo se isentar. Eu tomo se a dupla aí provar que tomou primeiro. Bora pro desafio?

    • Você chegou hoje no Desfavor? Esse foi primeiro texto que você leu? Porque só isso explica você desconfiar que nem eu nem a Sally vamos tomar a vacina contra o coronavírus. Mas talvez pior que isso no grau de confusão, está escrito no texto que somos favoráveis à vacina.

      Ás vezes eu acho que existe um portal interdimensional que abre na tela de algumas pessoas quando estão lendo nossos textos, mostrando material escrito numa realidade paralela… só isso explica.

    • Maldita inclusão digital…

      A matéria original que o estagiário do Valor copiou e você provavelmente nem leu também (porque está atrás de paywall): https://www.ft.com/content/12f7da5b-92c8-4050-bcea-e726b75eef4d

      According to the Vaccines Europe memo, some people are likely to suffer “adverse events” after vaccination. “Even if such events may in fact not be related to the vaccines, such occurrences combined with the sheer scale of the vaccination programme and public attention to Covid-19, could lead to numerous damage claims.”

      A proteção legal é contra golpes. Farmacêuticas são gananciosas, mas eu sempre digo aqui: não se informe por manchetes e posts de rede social.

  • A única coisa elogiável sobre esses malucos é que eles prometeram — e estão cumprindo — recuperar a mentalidade do passado. O fanatismo e a ingenuidade deles deixariam o cidadão de 1600 no chinelo.

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