Sonhos Lúcidos

Pode acontecer de, no meio de um sonho, você ter a consciência de que está sonhando e, ao perceber que se trata de um sonho seu, passar a comandar o que acontece dali pra frente. Não é paranormalidade, não é sobrenatural, é algo perfeitamente normal. Desfavor Explica: Sonhos Lúcidos.

A maioria das pessoas tem o sonho interrompido ou até mesmo acorda quando o cérebro percebe que se trata de um sonho. Mas, em alguns casos excepcionais, pessoas conseguem ter a percepção de que estão sonhando e se manter no sonho. Não apenas se manter, mas escrever o roteiro dele em tempo real. Essa “habilidade” parece vir de fábrica para algumas pessoas, mas também pode ser trabalhada e desenvolvida.

Não há necessidade de fantasiar, divinizar ou mistificar. Não é seu espírito incorporando porra nenhuma, não é sua alma saindo do corpo, não é nada sobrenatural e muito menos relacionado à paranormalidade. É um fenômeno natural, conhecido e explicado pela ciência. Não, você não é um floquinho de neve especial e cheio de mediunidade por ter sonhos lúcidos. Acontece todos os dias, com assassinos, com freiras, com mendigos, com jogadores de futebol. É uma condição inerente a seres humanos.

É muito comum que as pessoas confundam sonho lúcido com sonho vívido. O sonho vívido é aquele que parece ser real, muitas vezes deixando a pessoa em dúvida se ela sonhou ou de fato aquilo aconteceu. O sonho lúcido é aquele onde ela tem a consciência clara de estar sonhando e pode, eventualmente, controlar o sonho, por mais surreal que ele seja. É possível ter um sonho lúcido onde você está voando, por exemplo.

O sonho lúcido é mais comum do que se imagina. No Brasil, cerca de 75% dos brasileiros alegam que já tiveram ao menos um sonho lúcido na vida. Porém, ele não costuma ser frequente. Na maior parte das vezes é um evento que acontece de vez em quando na vida da pessoa. E ainda não se entende muito bem o que o desencadeia.

Sabe-se que há uma predominância de sonhos lúcidos em crianças, ao que tudo indica, por elas serem mais vulneráveis a pesadelos, evento que tem mais poder de despertar a parte do cérebro responsável pela lucidez durante o sonho. O susto ou a angústia do pesadelo faz a parte consciente do cérebro entre em alerta, isso inclusive pode acontecer com adultos também.

Em tese, a ciência se divide em duas correntes: uma que diz que os sonhos lúcidos não são sonhos (ou são sonhos, ou são lúcidos, as duas coisas não podem coexistir), e outros que dizem são sonhos sim (é possível ter algum grau de consciência sem que isso descaracterize o sonho). O único consenso é que os sonhos lúcidos existem, eles não são fruto da imaginação.

Quem diz que o sonho lúcido não é sonho, acredita que o que acontece nesse momento não é um sonho e sim um novo estado de consciência, diferente de tudo que conhecemos. A pessoa estava dormindo, sonhando e quando faz essa transição de perceber que está sonhando e se manter ali, sai do sonho e passa para um estado de consciência que poderia ser comparável a aquele acessado por pessoas que usam drogas alucinógenas ou de pessoas que entram em estado meditativo profundo.

Para justificar essa teoria, alegam que, em exames de imagem feitos em pessoas durante sonhos lúcidos, o padrão cerebral que aparece é diferente do que aparece em um sonho comum. Portanto, não seria correto chamar de “sonho”, pois o comportamento do cérebro não é o de um sonho. Não é total consciência, mas também não é sonho.

Outro argumento a favor dessa teoria é a nossa percepção de tempo nos dois eventos. Se no sono comum podemos sonhar que estávamos esquiando por horas em uma soneca de cinco minutos, no sonho lúcido nossa percepção de tempo corresponde à realidade. Por isso acham que pende mais para o lado da consciência do que para sonho.

Quem defende que é um sonho, costuma se basear em um estudo feito no ano de 2000 pelo psicofisiologista Steve LaBerge, um dos maiores especialistas sobre o assunto no mundo. Ele monitorou voluntários que alegavam ter sonhos lúcidos enquanto eles dormiam. O objetivo era tentar se comunicar com eles para saber se estavam lúcidos ou não.

Como os sonhos lúcidos só acontecem no quinto e mais profundo estágio do sono, o REM, no qual o corpo está totalmente paralisado (para te proteger, de modo a que você não caia ou não se machuque fazendo movimentos) o único movimento possível é o das pálpebras. Por isso ele pediu que os voluntários mexessem os olhos em um determinado padrão durante os sonhos.

Os voluntários foram monitorados e se comprovou que eles estavam dormindo. Quando chegaram no estágio REM, de fato eles repetiram a instrução do pesquisador e movimentaram os olhos no padrão que lhes foi pedido. Isso mostraria que sim, estavam sonhando pois estavam comprovadamente no estágio 5 do sono REM (ainda que o padrão cerebral fique diferente, o estágio REM seria sono) porém estavam no comando do que estava acontecendo.

A verdade é que o sonho lúcido é um meio termo, meio barro, meio tijolo. Parece estar na divisa entre o sonho e a consciência e ninguém sabe muito bem para que lado da fronteira classificar. Há uma parte do seu cérebro (papo técnico: córtex pré-frontal) que é totalmente desligada durante o sono REM e fica totalmente ligado quando você está consciente. Mas, durante o sonho lúcido, essa parte “liga” parcialmente.

Então, fica muito difícil bater o martelo se fato era um sonho na concepção clássica da palavra ou se a pessoa estava em um estado de vigília muito profundo. Enfim, este texto não tem a pretensão de te dar respostas, apenas de te apresentar o sonho lúcido. Ele existe, ele é real e tem sua utilidade. E se te interessar, tem muito material bacana sobre o assunto disponível de forma gratuita na internet. Vale uma boa pesquisa.

Como dissemos lá no começo, é possível usar algumas técnicas para tentar desenvolver sonhos lúcidos. Talvez você esteja se perguntando por qual motivo investiria tempo ou dinheiro para controlar seus sonhos. Em alguns casos, pode melhorar a qualidade de vida da pessoa.

Pode ser muito útil, por exemplo, para quem é atormentado por pesadelos recorrentes. Não ser condenado a sofrer todas as noites melhora a qualidade do sono e qualidade de vida da pessoa.

Além disso, estudos recentes mostram mais um benefício tentador: imaginar ou sonhar que está fazendo alguma atividade pode fazer com que seu corpo interprete que de fato você a está fazendo e isso pode melhorar suas habilidades nela. Um atleta que escolhe treinar em um sonho pode render melhor. Uma pessoa que escolhe fazer abdominais em um sonho pode ficar com a barriga mais tonificada.

Existem diferentes motivos para tentar entrar em um sonho lúcido, então, vamos às técnicas que supostamente podem te ajudar.

A primeira estratégia é conseguir provar para sua mente que você está em um sonho, te tirando daquele estado confuso e de torpor. Para isso, a melhor técnica seria condicionar a sua mente a distinguir sonho de realidade usando uma tática parecida à do filme “A Origem” (Inception): fixar na mente indicadores da realidade, chamados de “âncoras” que podem ser consultados durante o sonho, para que você perceba se está em sonho ou na realidade.

O exemplo clássico é o do interruptor, você sabe que se ligar o interruptor a luz acende na vida real. No sonho, entretanto, qualquer coisa pode acontecer. Então, durante o dia, cada vez que você acender uma luz, em vez de fazê-lo de modo automático, faça de modo consciente, reforçando na sua mente que a relação direta entre apertar o interruptor e a luz acender é um indicativo de realidade. Pergunte-se mentalmente antes de acender a luz: “Estou sonhando?”. Pressione o interruptor. Quando a luz acender, pense “não estou sonhando, a luz acendeu”.

Vale fazer essa dinâmica com qualquer coisa: se beliscar e ver se sente dor, jogar um objeto para cima e ver se ele cai, olhar para suas mãos e ver se elas têm dez dedos… fica a seu critério. Desde que você repita a atividade várias vezes por dia com a consciência de ser uma verificação: “Estou sonhando?”. Quando o resultado normal esperado acontecer, você analisa e responde mentalmente “não, não estou sonhando”.

Se você fizer disso uma atividade recorrente e consciente, existe uma boa chance de que você repita esse padrão no sonho: cedo ou tarde você pressionando um interruptor é algo que vai aparecer nos seus sonhos, e, guardando a referência da realidade de forma clara na sua mente, você pode fazer o “teste” durante o sonho: se apertar o interruptor e aparecer um elefante rosa, você saberá que está sonhando.

É esse teste de realidade, feito durante o sonho, que te permite ter a consciência de estra sonhando e que vira a chave e o transforma de um sonho comum para um sonho lúcido. Ele acorda a sua consciência sem te acordar do sonho.

Outra técnica que se mostrou eficaz é fazer um “diário de sonhos”. Pegue um caderno e todos os dias, ao acordar, a primeira coisa que você vai fazer é anotar tudo que conseguir se lembrar sobre seus sonhos. Mas tem que ser a primeira coisa mesmo, as lembranças mais completas dos nossos sonhos duram poucos segundos depois que você acorda, se deixar para anotar depois, vai perder muita informação valiosa.

Ao fazer este diário, você aprende um pouco mais sobre seus sonhos, seus padrões e sobre como seu inconsciente conversa com você enquanto você dorme. Ensinar ao consciente como o inconsciente se comunica pode ajudar o consciente a reconhecer quando o inconsciente estiver falando. Plus: é muito bom para quem faz terapia, pois em quase todas as linhas os sonhos são uma ferramenta de trabalho valiosa.

Existe uma técnica de se forçar a acordar várias vezes durante a noite com um despertador, mas eu sinceramente sou contra qualquer recurso que comprometa seu descanso. Sonho lúcido seria para aumentar sua qualidade de vida, não para reduzi-la.

Por fim, existe um gadget que promete induzir a sonhos lúcidos chamado “Aurora”. É uma máscara facial que pisca cores em um padrão específico que, de acordo com o fabricante, induz sonhos lúcidos mais facilmente.

E dá para ir além: você pode tentar determinar o tema do seu sonho lúcido. Se, logo antes de dormir, você se concentrar em um tema, há boas chances de que sonhe com ele. Também funciona se você estiver tentando resolver um problema ou em busca de uma solução criativa: pense no assunto até o último segundo antes de adormecer, é provável que seu cérebro continue focado naquilo “no embalo” e a solução, resposta ou o tema se apresente no sonho.

Também dá para fazer no susto, no instinto de sobrevivência. Você está no meio de um pesadelo, sendo perseguido por um tigre gigante que vai te devorar. Se, na fuga, você conseguir perceber algo que destoe do padrão e que te faça realizar que aquilo é um sonho, na mesma hora você pode transformar esse tigre em um filhote de gato. O segredo está em virar essa chave: em se agarrar a alguma informação que te faça entender ser um sonho.

Usar o sonho lúcido como recurso eventual pode ser muito útil, mas é preciso ter cuidado com excessos. Não é para se tornar o maníaco do sonho lúcido e usar suas noites de sono como um “second life” para viver tudo que não conseguiu na vida real. Sonho lúcido é um recurso para te dar uma forcinha naquele pesadelo horroroso ou para, quem sabe, te ajudar a solucionar uma questão na qual você está empacado. Tentar controlar seus sonhos toda santa noite pode até ser nocivo.

Por mais que ainda não se entenda 100% a função e o funcionamento dos sonhos, se sabe que eles são importantes para nossa memória e uma forma de comunicação com o inconsciente. Controlar isso é fechar uma porta de “diálogo” importante. Sonhar é uma parte importante do funcionamento do cérebro, não queria ter total controle de algo que você não entende por completo.

Para finalizar, alcançar um sonho lúcido requer bastante treino. Não desanime se em uma ou duas semanas você não conseguir, isso não significa que você nunca vai ser capaz. E as dicas que demos aqui não são o único caminho, pode ser que para você seja mais fácil chegar lá de outra forma. Não tem jeito: treino, teste, tentativa e erro.

Para dizer que está aliviado pois sempre achou que era maluco por controlar os sonhos, para se espantar ao saber que não são todos que controlam os sonhos ou ainda para se entristecer pois você se achava um floquinho de neve especial médium: sally@desfavor.com

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Comentários (12)

  • Uma vez sonhei que estava num barco, mas ele virava e eu caía no mar. Fiquei desesperada porque pensei em afogamento e morte. Depois me dei conta que estava sonhando, porque seria impossível manter a respiração de baixo d’água. Fiquei tranquila. Quando me dei conta de que estava sonhando, acordei. Às vezes, o sonho lúcido vem acompanhado também de paralisia do sono. Já tive alguns episódios, os primeiros são os mais chocantes, mas depois que se aprende a dominar a aflição, não assusta mais. Uma coisa que eu percebo é que desde quando passei a dormir com a barriga pra cima, meus sonhos passaram a ser lúcidos e também tive mais episódios de paralisia do sono. O uso de remédios para dormir também influencia, porque a sedação não deixa a pessoa entrar no REM.

    • Tem vários Ted Talks sobre o assunto, além disso tem muita informação escrita e em vídeo no Google e no Youtube

    • Eu não diria que é “louco”. Diria que é apenas algo que a maioria das pessoas ainda não compreende muito bem…

  • Eu e minha irmã temos sonhos lúcidos, e algo mais que não sei se pertence ao mesmo contexto: quando somos acordadas no meio de um sonho, geralmente conseguimos voltar para o mesmo sonho (caso a fonte disrruptiva do sono não persista, claro). Muito engraçado, e muitas vezes agradável.

    • Isso é muito comum entre as pessoas que tem sonhos lúcidos, Esther. Se a pessoa voltar a dormir logo depois de ser acordada, ela pode retomar o mesmo sonho.

  • Uhn… nos meus sonhos lúcidos eu mando parar tudo e refazer, porque não estava do meu gosto… como um diretor de cinema antipático. E ainda reclamo ‘o sonho é meu, essa joça vai ser como eu quiser, todo mundo de volta para seus lugares!’

    Algumas pessoas dizem que remédios de uso psiquátrico (alprazolam, scitalopram, topiramato e afins) podem aumentar a incidência desse tipo de sonho, mas não li nada científico sobre isso. Será que afetam mesmo?

  • Sally, até onde eu sei, eu nunca passei por uma experiência de sonho lúcido. Isso é normal ou eu é que não lembro direito ou nem prestei a devida atenção? E também já faz muito tempo que eu não tenho tido nem pesadelos e nem sonhos vívidos.

  • Comigo acontece o seguinte (quando me lembro): Se no meu sonho eu ou alguém próximo de mim estiver em uma situação de perigo ou sofrer uma fatalidade, eu consigo dizer para mim mesmo que eu estou sonhando, geralmente eu acordo nessa hora e vejo se está tudo bem. Outra, que acontece com frequência é sempre que eu sonho que estou dirigindo SEMPRE acontece um acidente comigo, nessa hora também “me aviso” que estou sonhando.

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