Vida em Vênus?

O boato já corria na comunidade científica um pouco antes, mas foi explodir com a publicação na Nature Astronomy: moléculas de fosfina foram encontradas na atmosfera de Vênus. O hidreto de fósforo (fosfina) é uma substância que até o momento só se sabia formar na quantidade encontrada em planetas rochosos a partir de atividade industrial humana ou por alguns microrganismos. Então, vida em Vênus confirmada?

Provavelmente não. Se os seus algoritmos de seleção de notícias foram bem treinados, você já deve ter recebido alguma informação sobre o caso. Muito embora seja uma manchete boa de escrever (tão boa que eu repeti aqui) a publicação original não está dizendo que achou vida em outro planeta, apenas que detectaram uma substância na atmosfera venusiana que até o momento se pensava não ser possível ser produzida em uma escala como a encontrada sem intervenção de algum ser vivo. E como a fosfina é suscetível à radiação ultravioleta, é difícil imaginar que não tenha algo renovando os estoques do planeta.

Uma das explicações possíveis é que existam pelo menos alguns microrganismos vivendo nas nuvens de Vênus que produzem fosfina. E francamente, não culpo quem se empolga com essa ideia, é de longe a mais interessante e a única que vai gerar cliques numa matéria. A questão aqui é que entre a possibilidade da gente nunca ter descoberto como uma substância tão pouco conhecida se forma naturalmente em planetas rochosos (nos gasosos como Júpiter é mais comum) e a possibilidade da vida ter surgido em outro planeta, a primeira ainda parece mais provável.

Vida em Vênus desconfirmada? Calma, também não é assim. Existem bons argumentos em prol da opção da vida extraterrestre: a descoberta da substância foi feita através de uma análise bem confiável, diminuindo bastante a possibilidade de algum erro no processo, e num volume que torna quase impossível que tenha vindo de fontes como o Sol, atividade vulcânica ou descargas de raios, que teriam produzido quantias absurdamente menores que as detectadas. A fosfina também provavelmente teria desaparecido se não houvesse algo produzindo mais constantemente.

E como conseguiram detectar uma substância na atmosfera de outro planeta? Através da luz! Com os dados de um telescópio potente, os cientistas analisaram o espectro da luz coletada em Vênus, analisando o que estava no caminho entre a luz e a lente. A luz interage com a matéria: ela bate e muda de direção, afinal, não fosse isso, seríamos todos cegos. Gases dificilmente param a luz, mas sempre geram algum padrão de absorção: isso é, o quanto da luz é desviada ou engolida pela matéria. Cada substância tem uma composição única de átomos, e por isso, cada substância mexe com a luz de uma forma diferente.

Analisando a luz que bate em Vênus e chega até aqui, podemos comparar o que se esperaria sem nada no caminho com o que é detectado. E nessa comparação, saber o que estava nesse caminho. Os gases esperados estavam por lá, como o gás carbônico, mas também havia a assinatura do fosfino dessa vez. Como Vênus é relativamente perto, os equipamentos utilizados são confiáveis e até agora não se detectou nenhum erro claro na análise, há um grau de confiança considerável nesses resultados. Se há vida ou não no planeta podemos discutir livremente, mas se encontraram mesmo o fosfino nem tanto.

Mas, Vênus tem uma superfície que passa dos 400 graus de temperatura, e chove ácido sulfúrico! Os russos mandaram duas sondas para pousar por lá, e elas derreteram em questão de horas. Bom, quando falamos de Vênus, não se pode esquecer da densa camada de nuvens que circunda o planeta. Quanto mais você se afasta da superfície, menor a temperatura (mas ainda está cheio de ácido). Em alturas específicas, a temperatura venusiana pode ser até agradável para um ser humano. E quando falamos de microrganismos como bactérias, essa faixa de conforto pode ser muito maior.

Em Vênus, a atmosfera é composta basicamente de gás carbônico. Mas oxigênio (ou a falta dele) não é problema para esse micro público-alvo, até mesmo aqui na Terra o que não falta é bactéria que não precisa dele para sobreviver. Mas aí você pode se perguntar: como é que algum ser vivo pode morar nas nuvens? Ele não cairia? Pra começo de conversa, a qualquer momento você pode achar zilhões de microrganismos flutuando em quase todas as camadas da nossa atmosfera, quando você é tão minúsculo, o vento pode te carregar facilmente. E considerando como a atmosfera de Vênus é densa, não é impossível que um grupo de microrganismos tenha encontrado um nicho estável de vida flutuante.

A única forma de ter certeza que o fosfino foi mesmo criado por seres vivos é ir até Vênus e coletar material da atmosfera, e mesmo assim, nada garante que isso resolva a questão se não encontrarem microrganismos: podem ter dado azar de não pegar nenhum naquela missão, podem estar na altura errada, no lugar errado… vai demorar para alguém conseguir provar que existe ou não vida em Vênus fazendo o teste in loco. Ainda mais considerando que boa parte da comunidade científica já tinha desistido de dar muita atenção para Vênus, preferindo explorar Marte em busca de sinais de vida. Os planos para nosso vizinho mais próximo são poucos, o que talvez mude com essa descoberta.

Vênus já foi um planeta muito mais habitável do que a fornalha ácida que é hoje, existem bons indícios que o planeta já foi coberto por oceanos e se tornou o que é hoje há menos de um bilhão de anos. Como não existem placas tectônicas por lá, é possível que a pressão gerada pelas camadas inferiores tenha se acumulado por toda o tempo desde que a crosta se formou, explodindo de uma só vez e acabado com o que quer que estivesse se formando na superfície. Eu já estou entrando em terreno puramente especulativo aqui, mas talvez Vênus tenha produzido vida, talvez até vida complexa antes mesmo de qualquer humano estar aqui para apontar um telescópio. Um evento catastrófico como transformar a superfície toda do planeta em vulcões provavelmente eliminaria qualquer evidência de vida, mas como já disse, microrganismos são muito leves: podem ter se formado nos oceanos e sido colocados nas nuvens pela atividade geológica venusiana. Os melhores adaptados à vida área podem estar lá até hoje.

Eu posso ser ainda mais especulativo: e se a vida de lá for a vida daqui? Não é incomum achar materiais de planetas mais distantes do Sol do que o seu na superfície. Da mesma forma como algumas pedras de Marte acabaram aqui viajando rumo ao Sol, não é tão bizarro assim pensar que alguma pedra da Terra acabou em Vênus fazendo o mesmo caminho. Se quiser um grau de insanidade ainda maior: talvez os russos não tenham limpado tão bem assim suas sondas que pousaram no planeta. Bactérias conseguem sobreviver em condições inimagináveis para a maioria dos seres mais complexos como nós.

Ou, o mesmo conjunto de cometas e asteroides que podem ter trazido a vida para a Terra fez algumas paradas por lá também. Não é obrigatório que o até então incompreendido processo de abiogênese (criação de vida através de não-vida) tenha acontecido independentemente em Vênus. Seja como for, se a existência de vida em Vênus for confirmada, seriam dois casos num pedaço minúsculo do espaço. Não sei se o mundo dos terraplanistas e Qanonistas ainda tem capacidade de pensar nisso de forma mais profunda, mas seria algo para rever quase todas as noções sobre vida e inteligência que temos. Duas num sistema solar? Vida provavelmente seria algo muito comum. O que só complicaria o Paradoxo de Fermi: então o problema é chegar até a inteligência? Ou realmente tem um filtro de vida inteligente inescapável? Estamos próximos dele?

O tema pode ir longe, mas é razoável esperar mais um pouco pela revisão de outros especialistas. Probabilidade por probabilidade, é de se esperar que um erro no processo ou uma explicação independente da existência de vida em Vênus para a concentração da fosfina sejam encontradas antes de algo aparentemente tão difícil como a existência de vida num lugar tão inóspito como Vênus. Vamos acompanhar o desenrolar dessa história, é fácil se empolgar, o difícil é provar.

Mas que fique registrado: eu já tinha falado de viver nas nuvens de Vênus antes do assunto se tornar popular. Nerdice hispter!

Para dizer que quer se empolgar, para dizer que só descobriram mais um veneno por lá, ou mesmo para dizer que podem ficar com a fosfina porque o nióbio é nosso: somir@desfavor.com

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Comentários (6)

    • Olha, o ser humano não é flor que se cheire, mas Vênus já estava bem destruído antes de sequer sabermos que ele estava lá.

    • Você brinca, mas bactérias (e talvez até vírus) podem ser os verdadeiros nanorobôs do futuro. Algumas estratégias para terraformar outros planetas incluem a inserção de bactérias para fazer a transformação de elementos no solo e na atmosfera.

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