Gigantes.

Matias apoia as costas numa parede de concreto, uma das poucas ainda de pé no centro da cidade enquanto o som de tiros, explosões e gritos desesperados preenche o ambiente. Seu rifle de pulsos energéticos acusa baixo nível de bateria. Ele respira fundo, preparando-se para o pior.

Mas os sons da guerra começam a diminuir. Primeiro os tiros, depois os gritos. Ele se abaixa e tenta olhar rapidamente para o que acontece no campo de batalha. Percebe soldados aliados e inimigos apontando armas uns para os outros, mas ninguém atira. Parecem confusos. Até os gigantes dos dois exércitos estão parados.

Ele dá alguns passos para fora da cobertura. Outros soldados se entreolham, como se estivessem esperando alguma instrução sobre o que fazer. Numa posição central ao seu batalhão, o gigante Furion está inerte: a cabeça abaixada sobre o corpanzil, nenhum movimento. A imensa corrente laminada, formidável arma que tomou a vida de incontáveis inimigos, permanece escorrida no chão.

Do lado oposto, é a gigante Solara que não se move. Quatro metros de altura, mas muito menos imponente sem o brilho dos cabelos flamejantes e as orbes de energia que costumavam flutuar ao redor de si. Os soldados do exército inimigo demonstram o mesmo grau de confusão. Não havia hierarquia nos exércitos humanos, todos eram iguais, apenas os gigantes tinham o poder de tomar decisões.

O comunicador dispara ao mesmo tempo para todo o exército, com o aviso de que ao redor do mundo, os relatos são os mesmos: os gigantes pararam. Desde sua chegada há quatro anos atrás, eles iniciaram uma guerra sem precedentes na Terra. Naves colossais pousaram nas maiores cidades do mundo, com milhões de armas e equipamentos de guerra para equipar a humanidade.

Duas facções de gigantes disputavam o controle do planeta, mas ninguém sabia o porquê, cada pessoa apenas seguia o time do equipamento que recebia, afinal, dissidência era punida com a morte. Mesmo assim, centenas de milhões pereceram.

Matias abaixa sua arma, o que acaba sendo repetido por centenas de outros soldados nos minutos seguintes. Talvez a guerra tivesse terminado. Alguns começam a fugir dali, mas ele se aproxima de Furion. O gigante permanece estático, até mesmo quando Matias o toca. Sua pele está fria. Soldados aliados e inimigos começam a se misturar, alguns tomam coragem de comemorar o fim da guerra. Logo o clima se espalha, e uma grande festa começa no que antes era um sanguinário campo de batalha.

Em poucas horas, já se pode ver os corpos dos gigantes decorados com panos coloridos e rabiscados por um grupo cada vez maior de ex-soldados bêbados. Mulheres e crianças começam a voltar, dançando ao som de músicas animadas. Matias se senta num canto, finalmente processando o choque de ter a família morta numa explosão meses antes. Ele entorna uma garrafa de vodca barata apoiado numa coluna, observando a comemoração.

Já é noite. Fogueiras iluminam o ambiente, a música não para. As informações que chegam pelo rádio sugerem que no mundo todo o clima é parecido, apenas alguns grupos continuam a disputa, especialmente em regiões onde já havia conflito antes da chegada dos gigantes. Uma bela jovem se aproxima de Matias, agora já completamente anestesiado pelo álcool. Ela sorri, e estende a mão, chamando-o para dançar. Ele nega. Ela insiste. Ele considera por alguns momentos, e assim que se força a levantar, ouve um estrondo vindo dos céus.

Gritaria. A jovem olha para cima e começa a correr. Uma nave aparece por entre as nuvens, descendo rapidamente. Matias faz um esforço para se levantar enquanto procura sua arma, mas está muito bêbado para tamanha coordenação. Ele perde o equilíbrio e desaba, batendo a cabeça na pilastra. Tudo fica escuro.

A primeira coisa que percebe é a forte luz que incomoda os olhos. A imagem começa a se definir: uma mulher de meia idade, olhos impossivelmente azuis, sorri de forma terna. Ele está numa cama de hospital, o corpo enfraquecido demais para reagir ao instinto de proteção. Ela se aproxima de seu rosto, e joga uma luz sobre seus olhos. Ele pergunta o que está acontecendo. Ela responde:

“Você teve uma concussão. Nós te trouxemos para cá, porque infelizmente destruíram a infraestrutura hospitalar da sua região. Mas foi uma boa coisa, o dano foi severo demais para a tecnologia do seu povo. Você teria morrido. Mas fique tranquilo, está tudo bem agora, você vai ficar bem.”

“Você não é humana?” – Matias pergunta.

“Não, mas estamos utilizando formas humanas para reduzir o grau de estresse do seu povo. Você sente dor?” – Ela responde enquanto interage com uma espécie de sistema holográfico projetado pela cama.

“Não. Dor não. Mas me sinto fraco…” – Matias tenta erguer o braço, mas ele mal se move.

“Você está sedado. Muitos dos seus ficam agressivos aqui.” – Ela continua sorrindo.

“O que aconteceu?”

“Descanse. Depois explicaremos melhor. Seu povo está seguro agora.”

A mulher se afasta enquanto Matias começa a sentir um sono incontrolável. Sem ter muita noção de quanto tempo se passou, ele acorda novamente, sentindo-se muito melhor. Está agora numa espécie de galpão, cercado por camas por todos os lados. Algumas vazias, mas boa parte ocupada por homens e mulheres em diferentes estados de consciência. Médicos e enfermeiras circulam pelo ambiente. Ele se levanta, ajeita o avental médico e segue em direção a uma grande porta sinalizada como saída em diversas línguas. No caminho, uma enfermeira se aproxima e pergunta como ele está se sentindo. Tudo bem. Ela aponta a saída e se despede.

Do lado de fora do galpão, céu aberto, parece um grande acampamento rural cercado por montanhas e florestas. É dia. Pessoas vestindo uniformes escuros com símbolos que nunca vira antes o direcionam para filas seguindo para várias tendas onde pode se alimentar, tomar banho e trocar de roupa. Todos muito educados, mas avessos a responder qualquer pergunta que não seja sobre sua função. Matias joga conversa fora com outros pacientes durante a tarde, mas ninguém demonstra ter muito mais informações que ele. Alguns ficam agitados pedindo para encontrar familiares e amigos, mas logo são retirados dali pela equipe cuidando do local.

Mais tarde, Matias é guiado para um galpão diferente junto com centenas de outras pessoas. Lá dentro, um palco e um telão estão diante de fileiras e mais fileiras de cadeiras. Eles são instruídos a se sentar. As luzes são reduzidas, e o telão começa a exibir imagens sobre a Terra e a guerra dos últimos anos. Uma bela mulher, vestindo um uniforme parecido com o dos trabalhadores do campo, entra no palco e rapidamente começa a falar:

“Povo da Terra, a guerra dos seres chamados por vocês de gigantes não existe mais. A partir de agora, vocês contam com nossa proteção. Nós viemos de muito longe para corrigir essa injustiça, e lamentamos profundamente por aquele perdidos nessa batalha cruel. Para tentar compensar um pouco seu sofrimento, nós iniciaremos um projeto de reconstrução do seu planeta, com transferência de recursos e tecnologias pacíficas pelas próximas décadas.”

Alguns começam a bater palmas, e a maioria segue. Matias continua em silêncio.

“Para isso, separaremos o seu planeta em 120 mil regiões, gerenciadas por nossos enviados, temporariamente, é claro. Cada região terá uma economia otimizada para o clima e o tipo de terreno. Sabemos como é difícil reerguer uma sociedade que sofreu tanto como a sua, mas acreditamos que se trabalharmos em conjunto, conseguiremos superar tudo!”

Mais palmas. Matias fica com uma expressão pensativa.

“As regiões com maiores resultados serão beneficiadas. Caso algum de nossos enviados não consiga alcançar o padrão de qualidade que desejamos para vocês, será substituído por outro. Os enviados poderão formar alianças e adquirir regiões menos produtivas para estimular uma competição saudável. Para vocês, apenas o melhor!”

Matias levanta a mão.

“Você tem alguma dúvida?” – a mulher pergunta de forma entusiástica.

“Se eu não gostar da minha região, posso ir para outra?”

“Vocês serão enviados para as regiões mais propícias para suas habilidades, baseado no nosso banco de dados.” – o sorriso dela diminui.

“Continuando… para estimular ainda mais a produtividade, de tempos em tempos enviaremos pacotes de recursos especiais com base nos resultados de cada…”

Matias levanta a mão de novo.

“Pois não?” – a mulher está com uma expressão de incômodo.

“Jogos de guerra não são mais tão divertidos para vocês?” – Matias pergunta, cara fechada.

A mulher arregala os olhos. Várias pessoas da plateia começam a se entreolhar, como se estivessem pensando em algo ao mesmo tempo.

“Não… não entendi… não entendi a pergunta, você pode falar com nossa equipe que vai te ajudar… por favor…” – a mulher aponta para Matias na plateia. Logo três seguranças da equipe retiram Matias dali.

Matias nunca mais foi visto.

Para dizer que não entendeu nada, para dizer que estava torcendo pelos gigantes, ou mesmo para dizer que topa: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas:

Comentários (6)

    • Quanto tempo eu puder esticar a minha hora do almoço no dia.

      O que é ruim porque sempre acelera muito o final da história, mas é bom porque não me faz escrever dez páginas só com o começo da história e nunca terminar como sempre faço quando cismo de escrever no final de semana…

  • Matias é de um tipo de pessoa cada vez mais raro: o que não aceita as coisas sem questionar, ainda que tenha que pagar caro por isso em meio a uma legião de conformados e obedientes. E mais: quando algo parece ser bom demais para ser verdade, geralmente é porque é mesmo…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: