Comemorações de 12 anos encerradas. Luto oficial em toda a nação por tempo indeterminado.

Quarentena – Ep. 0 – Contando com vocês.

Para comemorar a Semana Nacional do Bullying, a República Impopular do Desfavor fechou um acordo com a empresa de fachada de um governo internacional que não quer se identificar para lançar o reality show Quarentena! E são os impopulares que decidem o vencedor ou vencedora. Uma casa, dez participantes, uma doença potencialmente mortal! Quem vai adoecer? Quem vai sobreviver? O paredão será literal? A casa vai desabar por ter sido construída na areia em menos de 24 horas? Tantas dúvidas…

Um dos participantes já entra na casa contaminado pelo Favelavírus, nenhum dos outros participantes sabe quem é. Dois executivos da Bat Soup International vão argumentar sobre o direto das outras nove pessoas de saber quem é, e vocês, impopulares, decidem se elas começam essa história sabendo ou não.

Tema de hoje: devemos contar para os participantes quem está contaminado ou deixar que descubram sozinhos?

SO MIL

Não contar. So Mil acredita na ciência, e todo experimento deve eliminar fatores de influência externa. Como podemos analisar a verdadeira taxa de letalidade do Favelavírus se todo mundo souber quem evitar logo no começo? Precisamos dos dados de contaminação reais.

Afinal, escolhemos usar quase todo o elenco de brasileiros por um motivo: o Favelavírus faz o infectado ter um comportamento irresponsável, agressivo e extremamente mal educado. A verdadeira chance de testar numa população onde esse tipo de comportamento não chama muita atenção é com cobaias brasileiras. Segundo estudos da Bat Soup International, casos graves do Favelavírus são no máximo 12% mais severos que o comportamento comum do brasileiro médio. Se temos uma chance de soltar o vírus num ambiente onde ele pode se camuflar perfeitamente, é essa.

Sa Li não entende de negócios, Sa Li é mulher. Tudo bem que foi muito barato construir o experimento na República Impopular do Desfavor por causa das leis deles que desconsideram brasileiros como seres humanos, mas não é só porque não tem multa por violação de direitos que vamos fazer isso de forma preguiçosa. Não podemos contar. O vírus precisa trabalhar livre senão outros países percebem que é fácil identificar alguém com Favelavírus e nosso lucro se perde.

Se quem ver o reality show tiver medo de não conseguir descobrir quem é o infectado porque brasileiro parece sempre ter Favelavírus, medo ajuda Bat Soup International e glorioso Partido [censurado] a ganhar muito mais dinheiro! Pensa nos negócios. Quer ajudar pessoa? Não desperdiça em brasileiro.

Inclusive, So Mil escolheu seus participantes pensando em como é difícil que essa gentalha perceba rapidamente que tem vírus na casa. Gente que vai negar e negar, até que fique claro para quem assiste que a doença é muito séria e não tomar remédio e vacina da Bat Soup custa muito mais caro que nossos produtos. Escolhi esses:

Mr. Orange: o único que não é brasileiro, mas merece o título muito mais que a maioria que conhecemos. Um playboy megalomaníaco que passou a vida toda fazendo idiotas investirem em seus projetos gigantes que quase sempre terminam em prejuízo. Mas muitos brasileiros e até mesmo porcos americanos o acham um gênio. Muda de ideia a cada minuto, mas sempre parece ter certeza do que fala. Escolhemos ele porque nos ajuda a pagar menos impostos no EUA.

Jair: na verdade a gente nem queria chamar esse, mas ele estava preso no saco do Mr. Orange com tanta força que era mais fácil colocar ele no programa do que fazer uma operação para retirar. O que mais nos interessa nele é a capacidade impressionante de negar a realidade a qualquer momento, e com tanta força que consegue convencer outros brasileiros. Pode ser muito útil para manter o vírus escondido o tempo suficiente para infectar todo mundo.

Olavo: astrólogo e terraplanista, Olavo é um dos brasileiros mais inteligentes que já viveu, quer dizer, pelo menos segundos os brasileiros. De personalidade difícil e dado a ignorar tudo o que está ao seu redor para continuar empurrando as conspirações que cria a cada minuto, tem tudo para manter o grau de confusão alto dentro da casa, o que, novamente, é excelente para o espalhamento do Favelavírus.

Sara Inferno: ex-ativista feminista e atual ex-ativista conservadora, Sara é essencial para formar a massa de manobra junto com os descerebrados que colocamos no elenco. Extremamente passional sobre qualquer tema que a ajude a ganhar mais atenção masculina, Sara pode desequilibrar a balança em discussões sérias com seus berros e chiliques, além de trazer um potencial de nudez desnecessária importante para aumentar a audiência.

Rafael Pilha: não foi escolha nossa, mas sua presença foi a única forma de conseguirmos a liberação da República Impopular do Desfavor para realizar o reality show em seu território. Ex-drogado, atual lesado, passou boa parte da vida na cadeia ou na sarjeta usando drogas, passeou por toda a tabela periódica, tentou se matar algumas vezes… mas ainda achamos que ele é muito sensato e responsável para o resto do elenco.

Estamos terminando de colocar alguns suportes falsos sobre a laje da casa para dar a impressão que a estrutura é segura, então falta pouco tempo para começar! Espero que você me ajude a tornar esse expe… reality show mais emocionante repelindo a proposta de contar para os participantes quem já entra na casa infectado. Eles não podem saber, precisamos ter a experiência real de uma contaminação secreta, afinal, é assim que pretendemos fazer quando [censurado].

Votem não! Não podemos contar. Ou eu vou fazer o seu score de crédito social desabar.

Para dizer que vai acontecer algo gigantesco essa semana por causa dessa gracinha de semana temática, para dizer que já sabe quem está contaminado, ou mesmo para dizer que esse texto é racista: somir@desfavor.com

SA LI

Meus cumprimentos a todos. Meu nome é Sa Li. Sou CEO do laboratório chinês Bat Soup International e venho a esta reunião defender um ponto crucial para o sucesso do reality show que estamos patrocinando.

Como os Senhores sabem, estamos promovendo um reality show chamado “Quarentena”, onde dois grupos de cinco pessoas serão confinadas em uma casa e uma delas estará infectada com um de nossos vírus, para testar a reação e resistência do ser humano a eles. Tudo com muito controle, obedecendo a todos os protocolos de segurança, é claro.

Apesar dos nossos cuidados, enfrentamos a resistência de 99% dos países do mundo em autorizar esta empreitada. Até mesmo nosso país, a China, se recusou a sediar esta… empreitada. Felizmente, conseguimos autorização de uma republiqueta, chamada República Impopular do Desfavor, para levar adiante o experimento. Portanto, tenham em mente que é nossa única chance de realizar este tipo de estudo.

Dito isto, acredito que seja fundamental para o sucesso do experimento que os confinados saibam quem é a pessoa infectada. Estive presente na seleção dos participantes e, podem ter certeza, eles precisam de toda a informação que pudermos dar, pois inteligência não é o forte do grupo. Se queremos saber os cuidados que humanos do terceiro mundo conseguem ter diante de uma doença cruel, precisamos dar a eles todas as informações para que tenham ao menos uma chance.

Os cinco participantes que eu selecionei são de diferentes nichos, e, ainda assim, nenhum terá a capacidade de descobrir quem é o infectado, portanto, não terão todas as ferramentas para se proteger. Eles precisam dessa informação, para tentar tomar cuidados especiais ao menos na presença do nosso paciente zero, caso contrário, será um massacre.

O Youtuber Felipe Certo (esse é o novo nome dele, ele venceu uma ação judicial pela troca do nome) está totalmente focado em apontar o erro alheio, mas em questões que o promovam, basicamente questões políticas e sociais. Não tem qualquer condição de identificar sinais da doença, a menos que isso envolva um processo judicial, algo que ele está impedido de fazer, uma vez que nosso governo ainda está mantendo seu irmão em cativeiro.

A cantora Aninha apenas pensa em se promover e em baixarias no geral, mesmo que fizéssemos uma placa com a palavra “INFECTADO” e uma seta apontando para o nosso paciente zero, acredito que ela não entenderia. Me questiono se ela sabe ler e também me questiono se ela consegue ler após tantas intervenções estéticas, dada a quantidade de botox e preenchimento ocupando seu rosto.

O(a) transsexual Pabllo(a) (que insiste em ser chamado com esses parênteses no nome) só sabe gritar e se maquiar. Acredita em todo tipo de obscurantismo, coisas como horóscopo, homeopatia e florais. Além disso tem o foco de um peixinho dourado, se ficar mais de três segundos em silêncio dá um grito e começa a cantar. Totalmente sem condições de identificar o paciente zero, por sinal, totalmente sem condições de compreender o que está acontecendo, assinou o contrato achando que estava fechando um show.

O político Roubos apenas tem habilidade para invadir a casa alheia. Militante de movimentos sociais ele teve sua percepção até sobre si mesmo totalmente atrofiada após décadas repetindo as mesmas frases a exaustão de modo a justificar comportamentos criminosos. Certamente olhará para a casa e para os participantes como escadas para tentar obter algum sucesso em sua campanha política, jamais poderia identificar uma pessoa doente.

Por fim, o trainee… bem, o trainee não sabe o que faz, só entrou por aquelas questões sociais de terceiro mundo, explicadas no relatório da semana passada. Não se espera nada além de cagadas, sabem como é, trainee quando não caga na entrada, caga na saída.

Considerando que quando infectarmos os países de terceiro mundo imediatamente venderemos testes para a doença (ver detalhes no relatório sobre como aumentar o faturamento da empresa), é de se pressupor que os terceiro-mundistas saberão quem está infectado e quem não, portanto, revelar esta informação reproduzirá a realidade que eles passarão em breve.

O vídeo institucional que apresentamos aos participantes sobre o Favelavírus é muito claro e descritivo nos sintomas: uma vez contaminado pelo vírus, a pessoa começa a apresentar comportamento de pobre e esta postura vai crescendo exponencialmente. Mas, apesar disso, sabemos que o paciente zero não será facilmente identificável, por sua peculiaridade de quase assintomático.

Sabemos que nosso paciente zero, que tanto nos custou encontrar, dificilmente apresentará um sintoma relevante, uma vez que seu corpo produz anticorpos para basicamente tudo, devido à carga química à qual foi exposto durante a vida. Seria pedir demais que os participantes percebam as poucas sutilezas que levam ao diagnóstico.

Talvez alguns de vocês pensem que não importa quem é o contaminado, que as pessoas deveriam se cuidar de forma genérica. Gostaria de lembrar duas coisas: 1) estamos falando de terceiro mundo e 2) precisamos vender pelo menos 3 bilhões de unidades do nosso teste. Por isso, entendo que cabe ressaltar no programa a importância de identificar uma pessoa contaminada. Esses testes precisam ser vendidos a um preço alto e rápido, é preciso plantar essa semente nos habitantes do terceiro mundo que assistirão a nosso reality.

Sei que muitos tem a preocupação de que, cientes de quem é o contaminado, as pessoas se cuidem, ninguém adoeça e o programa não evolua. Repito meu argumento: terceiro mundo. As pessoas vão se descuidar e adoecer, fiquem tranquilos. E quando o primeiro adoecer, os sintomas repulsivos, tenebrosos, horripilantes do Favelavírus vão se encarregar de fazer a audiência do nosso reality show explodir no mundo todo, dando à doença a repercussão que ela precisa para que nossos testes e futuros tratamentos sejam um sucesso de vendas.

Por fim, relembro aos presentes da cláusula de confidencialidade que todos aqui assinaram, se comprometendo a nunca revelar ao mundo que o vírus foi colocado em contato com seres humanos de forma proposital e deliberada, com intuito de obter lucro com a venda de testes, equipamentos de proteção e uma potencial vacina. Violações a este segredo não serão toleradas e o traidor será imediatamente silenciado.

Aguardamos o parecer para dar início ao reality.

Para se perguntar por qual motivo insistimos em semanas temáticas, para utilizar seu horário de trabalho durante a semana para algo útil e votar ou ainda para dizer que estamos flertando com o crime aqui: sally@desfavor.com

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Comentários (10)

  • Não, não contem nada! Talvez assim eles finalmente desenvolvam a racionalidade necessária para que enfim se equiparem aos seres humanos normais. É uma possibilidade única de ver um avanço a níveis evolutivos de espécimes tão primitivos! Pensem na contribuição científica proporcionada por esse potencial experimento; podemos até encontrar a reversão do retardo mental!
    Pensem nos vívidos olhares curiosos das criancinhas que hão de construir o futuro das nações, ao ouvirem sobre pesquisas que explorem a boçalidade de indivíduos sobrepujados de castas histéricas, em busca de respostas para causos antes tidos como perdidos da sociedade! É muito mais que o Favelavírus: é sobre lidar com uma mazela em sua essência!
    E mesmo que casualidades aconteçam ao longo do experimento, temos de nos perguntar: o quão longe estamos dispostos a ir por um bem comum? O que você sacrificaria por um mundo melhor?
    Sim, eu sei, o mundo não entenderá tão cedo, e é compreensível hostilidade numa era em que os corações se repletam de descrença, medo e ressentimento, mas não percamos de vista a chama a iluminar o gélido horizonte da mediocracia!
    GO SCIENCE!

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