Complicações do diabetes.

Desfavor Convidado é a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na República Impopular. Se você quiser também ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para desfavor@desfavor.com.

Complicações do diabetes.

Há muito tempo escrevi um texto aqui no desfavor contando sobre como é conviver com diabetes. Hoje complemento com esse texto contando sobre possíveis complicações que a doença pode provocar a longo prazo, incluindo aí um relato pessoal meu.

Lembrando que essas complicações não são causadas necessariamente por mau controle, mas pelo simples fato de ter a doença a longo prazo. Conheço casos aí de pessoas que viveram bem com a doença a vida inteira, teve um bom controle, mas chegou aos 80 anos e a coisa desanda, os problemas aparecem. É uma espécie de “bônus” que temos que lidar, não tem jeito!

Segue o fato de que a diabetes pode acabar com teu corpo inteiro, existem inúmeras complicações decorrentes dela, mas nesse texto vou citar apenas quatro, que são bem conhecidas por aí: retinopatia diabética, nefropatia, neuropatia e glaucoma.

A começar pelo glaucoma (vou tentar ser bem didático no texto, sem usar todo aquele jargão da medicina), esse ocorre quando há o aumento de pressão dentro do olho. Sim, dentro do nosso olho correm fluídos pra lá e pra cá, e quando a pressão aumenta, pode “explodir” teu olho, por assim dizer. O que acontece mesmo é que danifica a córnea, a retina, e o principal, o nervo óptico, que é a coisinha que liga o olho ao cérebro. Se não tratado pode causar cegueira irreversível. Junte essa pressão alta do olho com sangue grosso cheio de açúcar e veja só o que acontece… O problema maior mesmo é tu conviver longos períodos, meses, anos, com a glicemia elevada no sangue, daí só acelera mais ainda o processo de piora da doença.

Tem tratamento? Tem sim! É geralmente feito com colírios, medicamentos via oral, e cirurgia a laser. Mas quem determina isso, obviamente, é o médico, feitos os devidos exames diagnósticos.

Falando em olhos, passemos para a próxima: retinopatia diabética. Essa eu tenho lutado contra por algum tempo e aqui vai, em partes, meu relato pessoal. De maneira bem simples, essa ocorre quando pequenos vasinhos de sangue começam a crescer na retina, daí acabam se proliferando. Também pode vir acompanhado do chamado “edema degenerativo de mácula”, que é quando um edema (aumento de líquido, bem resumidamente) cresce nessa região responsável pela visão nítida, pela visão central, pelo foco etc.

Essa é uma complicação silenciosa, devo dizer. Porque ela começa e você nem percebe nada, não apresenta nenhum sintoma, e se você não vai ao médico, fica difícil saber e diagnosticar. Em um estágio mais avançado da doença, começam a aparecer os sintomas: vista cansada, vista embaça na região central, dificuldade para enxergar coisas e objetos com nitidez (tipo a ponta do teu dedo, de perto. Fica parecendo que há uma mancha no meio da imagem, ou que foi tirada uma foto e a câmera simplesmente perdeu o foco!), dificuldade em ler no celular, no computador ou mesmo em livros, mesmo que esteja ampliado, moscas volantes (pontinhos transparentes voando no meio da imagem), floaters (algo parecendo uma serpentina ou uma cobrinha, voando também no meio da imagem).

Além disso tudo, tem também a sensação estranha de que há um flash se apagando ou uma luz de neon vermelha acesa quando tu fecha o olho, e altíssima sensibilidade à luz, também conhecida como fotofobia. Muita gente acha que é só frescura com luz clara, mas o que muitos não sabem também é que a pessoa realmente tem dificuldades em enxergar no horizonte, isso porque os raios solares estão entrando de maneira intensa e distorcida na retina. A pessoa enxerga uma névoa branca ao longe, como se fosse uma foto tirada com balanço de branco alterado em 3+, e o ISO alto.

É simplesmente horrível tu sair na luz do sol, de dia na rua, e não conseguir enxergar de longe, apenas o que está próximo de ti, e ainda assim com dificuldades, embaçado. Já houve vezes em que tropecei na rua e caí em pequenos buracos na calçada por não ter enxergado direito o que estava na minha frente.

O tratamento? Consiste basicamente em aplicações de laser (fotocoagulação a laser) e injeções no olho (intravítreas). Quem determina isso é o médico, através de exames diagnósticos feitos previamente, a saber, mapeamento de retina, angiografia com contraste, e tomografia ocular (OCT). A tomografia é um procedimento bem simples, enfiam tua cara num aparelho lá e fica piscando uma luzinha num preto infinito. Já a angiografia é um pouco mais chatinha, tem que tomar um contraste intravenoso antes, esperar uns minutinhos e ir para uma máquina que tem uma luz extremamente forte e irritante.

Quanto às injeções, por mais aflitivas e agoniantes que pareçam, são tranquilas, uma picadinha boba que tu nem sente direito, já que toma anestesia local e ainda tem aquele colírio anestésico que paralisa teu olho. O procedimento é feito em centro cirúrgico, com os devidos cuidados assépticos: acompanhante não pode entrar etc, colocam um plástico no teu olho, luvas, máscara, enfim… O incômodo mesmo fica por conta dos 10 minutos depois da aplicação, que aí sim começa a arder pra caramba, como se fosse um colírio super forte. Mas uma hora passa.

Se esse procedimento é suportável, o mesmo não posso dizer tanto da fotocoagulação a laser. O procedimento aqui é mais simples, enfiam tua cara num aparelho, posicionam bem o olho e uma luz começa a piscar. Essa luz pode ser verde, amarelo ou azul, depende da frequência utilizada e do comprimento de onda, cada uma serve pra uma coisa. Mas o fato é que, quando a luz começa a piscar, dói pra caralho! Não só arde como dói, bem lá no fundo do nervo, dói no teu cérebro, é uma sensação horrível como se tivesse rasgando, passando fogo por lá. E, depois disso, a pessoa tem que ficar em repouso, evitar luz clara, usar óculos escuros e os olhos ficam doendo aí uns 2 a 3 dias depois. Isso implica dizer que tu fica simplesmente impossibilitado de fazer as coisas, porque não dá! Não dá pra andar, dirigir, ler, nada! Acaba que ficando dependente dos outros para te ajudar a fazer as coisas. Complicado!

Lembrado também que as vezes não é bem só uma aplicação, mas sim seis, dez ou até mais, a ser determinado pelo médico. Depois são feitos os exames diagnósticos novamente para conferir se os vasinhos secaram e tudo voltou ao normal.

A parte chatinha disso tudo, devo dizer, é se você depende do SUS para esse tratamento. O SUS é muito bom pra muita coisa, mas para outras, tem horas que peca, viu? Digamos que, neste caso, você está fodido e vai ter que enfrentar uma puta dor de cabeça a longo prazo, e depender da sorte e da boa vontade de outrens…

Segue o fato de que alguns exames e tratamentos não são disponibilizados pelo SUS. A fotocoagulação e a angiografia é ok, agora a tomografia a laser e as injeções intravítreas (que são procedimentos muito caros, cada injeção custa em torno de 2mil reais!) não são disponibilizadas, daí você vai ter que enfrentar toda a burocracia e dor de cabeça de juntar o resultado dos exames, laudo médico, documentos pessoais, enfim, toda a papelada, ir na defensoria pública, choramingar e fazer um barraco pra dizer que é um caso urgente, que você pode perder a visão de maneira irreversível, enfim, tudo isso, e cruzar os dedos pra ter sorte que tu consiga um bom defensor que apanhe bem o teu caso e um juiz que defira sem maiores complicações isso.

O que eu critico, se me permitem, é justamente essa falta de tato com as pessoas no serviço público nos pais. Ainda mais agora, em tempos de pandemia, em que os órgãos públicos estão fechados, só atendem por meios eletrônicos (whatts, email), é simplesmente um horror tu ter que ficar em cima, se humilhando, fazendo showzinho, pra simplesmente fazerem pouco caso de tua queixa e apenas receber um email automático sem nem informar direito em que pé está o seu processo. Enquanto isso, os dias vão se passando, os sintomas cada vez mais piorando, e o desespero batendo. As coisas poderiam ser tão mais simples num sistema que supostamente se propõe gratuito e feito para todos!

Passemos agora à nefropatia. Nefro tem a ver com rins, logo… Diabetes simplesmente ataca os teus rins e ele para de funcionar. O que acontece mesmo é que teus rins param de filtrar o sangue decentemente, daí aumentam os níveis de albumina na urina, e logo em seguida os níveis de creatinina, causando aumento da pressão sanguínea, inchaço nos tornozelos e pés, perda de apetite, náuseas e vômitos, até a coisa desandar de vez e causar insuficiência renal e o paciente precisar de diálise ou mesmo de transplante. Essa complicação ainda não me afetou, ainda bem! Mas, diagnosticada cedo, é reversível com utilização de medicamentos controladores de metabolismo, aliado a um bom controle glicêmico.

Por fim, a neuropatia diabética: “neuro” tem a ver com neurônios, sistema nervoso, então… Sim, a diabetes pode atacar também os teus nervos e, num estágio avançado, pode até causar lesão neural irreversível. Mas, antes de chegar nesse ponto, tudo começa com uma leve sensação de formigamento nos pés, que aparentemente tu nem liga direito. Disso, evolui para sensação de queimação, como se tivesse passando fogo nos pés e pernas, ou como se tivesse passado uma lâmina de depilar e a pele ficasse ardendo. Além disso há a sensação de choques, fincadas na pontinha dos dedos e no osso do pé, no calcanhar, tornozelo, enfim, até que vai subindo para os nervos da perna, e tu se sente bem incomodado na canela, joelho, ciático, lombar…

Para além desses sintomas pode haver também alteração de sensibilidade, seja ela vibratória, de dor, de toque ou de temperatura. Já vi casos mais avançados em que a sensibilidade da pessoa fica tão alterada que ela não consegue sequer por o pé no chão direito, de tanta dor, ou mesmo colocar determinada roupa porque o tecido, em contato com a pele, incomoda.

Recentemente eu também tive essa complicação com sintomas iniciais, apenas um formigamento nos pés que eu achei que era normal devido ao calor a noite. Só depois me toquei que poderia ser problema causado pela diabetes. Também cheguei a sentir umas fincadas nos dedos dos pés e ossos, bem ali na “maçã do peito” do pé, coisa bem chata. Mas logo tomei as providências.

O tratamento disso é feito geralmente com remédios que aliviam a dor temporariamente, e remédios específicos que “limpam” os nervos periféricos da pessoa. A depender do caso e da situação, daí tem que ter acompanhamento médico multidisciplinar, que contempla angiologista, fisioterapeuta, reumatologista, ortopedista, neurologista, e endócrino.

É por essas e outras que muito dizem por aí que diabético tem que prestar atenção a seus pés, e qualquer machucadinho simples merece grande atenção, já que pode evoluir para complicações maiores. É importante sempre ter em mente essas possíveis lesões, saber cortar as unhas direito, sem encravá-las ou inflamá-las, manter a pele hidratada e tudo mais. Por incrível que pareça, nem todo mundo sabe disso, ainda mais pessoas mais humildes. É por isso que tem gente especializada nos postinhos para dar esse tipo de informação tão essencial ao diabético.

Bem, finalizo esse texto com aquele clichê moralista de sempre: quando tu tens uma doença crônica desse tipo, e que não há cura, procure sempre seu médico e não deixe de seguir o tratamento à risca! Pois a conta uma hora vem, e ela pode ser bem cara! O que aconteceu comigo, embora tenha sido em partes erro meu, poderia ter sido evitado se eu tivesse prestado mais atenção em detalhes mínimos. Mas foi aquela coisa – imagino que muitos passam por isso, então vou relatar aqui: tu resolve fazer um doutorado, sem bolsa, daí tem que ralar pra trabalhar e pagar as contas e ainda por cima fazer uns extras pra dar conta de tudo. Nem tua pesquisa faz direito, quem dirá arrumar tempo pra ir ao médico de vez em quando, ver se está tudo bem. Daí tu vai deixando de lado, tem um controle glicêmico mediano, mede poucas vezes ao dia e não repara se tem momentos de hiperglicemia, deixa de prestar atenção na alimentação, afinal, mais importante é o aluguel estar em dia, não? E, enfim, tu vê a merda feita depois de um tempo.

Não pode, tá errado! Diabético tem que ter uma boa alimentação e um bom controle glicêmico, e isso custa um pouco caro. Não me refiro nem aos produtos diet no mercado, que são caros por si só, mas sim uma boa alimentação contendo fibras, cereais, verduras, frutas e legumes. Eu sei que o SUS disponibiliza fitas de medição apenas para três medições ao dia, mas o ideal mesmo seria 5 a 6 medições, o que sai caro do teu bolso. É o que eu sempre falo, diabetes é o tipo de doença de rico, porque haja gastos, viu? Mas essa, ao que parece, é a sina que todos temos que passar…

Por: Ge

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas:

Comments (10)

  • Tenho um tio chucro que descobriu que tinha isso lá pelos 45 anos. Reação dele? “Foda-se”. Continuou vivendo como se não tivesse nada, inclusive ingerindo toneladas de açúcar: ele era tarado por refrigerantes e doce de leite.

    Viveu relativamente bem até os 51 – dizia que não sentia nada de diferente, continuava comendo açúcar como uma formiga, mas começou a ficar neurótico com machucados. Uma bela manhã, ele acorda praticamente cego. A conta chegou. E num espaço de quatro meses, ele perdeu dois dedos do pé, teve um problema dentário que o forçou a extrair vários dentes, e pra terminar, teve um infarto e não consegue mais falar direito. Hoje tem 62 anos e precisa de uma cuidadora.

    • Puxa vida, Anubian… Já vi outros casos assim, incluindo alguns vizinhos. Com saúde não se brinca e os sinais que o corpo nos dá não podem ser ignorados.

    • Poxa Anubian, que foda isso! A conta realmente chega pra todos uma hora, e chega ainda mais cedo pra quem não se cuida. É só quando o perigo iminente bate à porta mesmo que a pessoa toma aquele choque e reflete sobre o real valor da vida. Complicado!

  • Tenho um tio que perdeu uma perna por conta dessa merda. E olha que considerando o conjunto de complicações que poderia ter dado, é só uma amostra do que o diabetes mellitus pode causar na pessoa.
    Quando teve um professor meu comentando que estava tomando muita água (5 litros de água por dia) e que tinha sido desaconselhado pelo médico a seguir nessa rotina por conta da perda de metabólitos, eu já falei de cara pra ele fazer um exame de glicemia. Não deu outra.
    O mesmo deu uma medição de 620 mg/dl, uma alteração extrema que poderia ter redundado em sérias complicações, sendo que teve gente comentando que com tal medida, o mesmo poderia ter ficado cego por conta da glicemia completamente descontrolada.

    • Salvou a vida do cidadão.

      Esse também é o maior pavor: ficar cega e perder as duas pernas como minha avó ou morrer de insuficiência renal como uma tia esse ano. Mas esse medo sucumbe facilmente a um éclair ou um cannoli…

    • Nossa, chegar ao ponto de perder a perna é porque passou muito tempo sem cuidar! É realmente uma merda mesmo, por mais que tu cuide, uma hora as contas pesadas chegam e tu tens que lidar de um jeito ou de outro.
      E no primeiro sintoma que aparecer, o ideal seria mesmo medir a glicemia e tomar as providências, por que se deixar pra depois pode ser tarde demais.

      • Isso é o normal em se tratando de brasileiro médio. Deixar a coisa descambar pra só depois ir correr atrás de tratamento.
        Inclusive tem o caso de uma tia minha (irmã desse tio que perdeu a perna) que faleceu por conta de câncer de mama. E olha que diziam aos quatro ventos que ser mãe reduz o risco de desenvolver esse tipo de câncer, sendo que essa tia teve um monte de filhos e faleceu em decorrência do câncer aos 49 anos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: