FAQ: Coronavírus – 7

Já tem alguma vacina pronta para ser comercializada?

Não. As vacinas mais avançadas estão na Fase 3, ou seja, já se sabe que a vacina é segura, mas ainda não se sabe se elas são de fato protetivas nem por quanto tempo.

O que se sabe é que, para ser comercializada, a vacina tem que ter pelo menos 50% de proteção, ou seja, é com essa margem mínima que se trabalha. E pode ser que a proteção não dure muito tempo e tenhamos que reaplicar a vacina de tempos em tempos.

Pode parecer uma gambiarra tosca, mas é o que acontece com a gripe. Em anos bons, a vacina da gripe gera uma proteção em torno de 60% contra a doença e todos os anos precisamos reaplicar a vacina. Pode ser que com o corona aconteça o mesmo e, nesse caso, não tem aquela utopia de “tomei a vacina, voltou a vida normal”. Sair será uma roleta russa com metade das balas no tambor, só isso.

Talvez a sua pergunta seja motivada pelo recente anúncio da Pfeizer. Ela divulgou que sua vacina teria 90% de eficácia e geraria proteção pelo período de um ano. Lindo, mas é um estudo preliminar, não dá para afirmar que estes dados serão confirmados. Estudo preliminar não é resultado definitivo, então, muita calma nessa hora.

E tem um porém: até outubro, o Governo Federal estava ignorando a proposta de compra da vacina da Pfizer. Segundo o CEO da Pfizer Brasil: “a Pfizer fez uma proposta formal de fornecimento da vacina ao Brasil, sujeita à aprovação regulatória, claro. Essa proposta permitiria vacinar milhões de brasileiros e especificava um prazo para o nos responder. Mas nós nunca recebemos uma resposta formal do governo brasileiro”.

Ele ainda disse que “Pelo interesse da companhia de tentar fechar um acordo com o Brasil, após ter vencido o prazo, o CEO global da Pfizer mandou uma carta ao presidente Jair Bolsonaro e ao ministro da Saúde retomando a proposta e enfatizando a importância da companhia trabalhar com com o Brasil. Tampouco recebemos resposta.” Então, mesmo que a vacina da Pfizer fosse a oitava maravilha do mundo, o Brasil parece não ter interesse. Não contem com ela, ao menos não em breve.

Se supõe que entre novembro e dezembro já comecemos a ter respostas definitivas sobre a eficácia das vacinas que estão em Fase 3 de teste, lembrando sempre que ainda existe uma Fase 4 a ser cumprida, como já falamos na última publicação sobre o assunto.

Então, não se pula da Fase 3 para vacinação da população. Antes disso alguns grupos específicos serão progressivamente vacinados (como os profissionais da saúde) e, só depois de avaliada a reação desses grupos às vacinas é que nós, reles mortais, começaremos a ser imunizados.


Distribuem iPhone para o mundo todo em pouco tempo, será que é tão difícil distribuir uma vacina?

O iPhone não precisa de refrigeração. Vacina precisa, e algumas precisam de uma temperatura bizarra, papo de 40° negativos. A maioria das vacinas tem compostos que são sensíveis à temperatura, ou seja, se elas não estiverem na temperatura certa perdem sua eficácia.

Para transportar e armazenar essas vacinas é preciso uma infraestrutura chamada “cadeia fria” de armazenamento e transporte. Em todos os momentos, desde sua fabricação até sua aplicação, ela tem que estar sempre na temperatura certa, caso contrário, perde sua eficácia.

Imagina ter que transportar essas vacinas para locais distantes, onde muitas vezes sequer há um aeroporto perto e precisar conservar um carregamento de vacinas em temperaturas baixíssimas, sem oscilação. Nem precisa pensar em países pobres, como alguns países africanos, para se ter uma noção do problema. Aí no Brasil já se percebe a dificuldade que será.

Tirando o fato que tem estado ficando sem luz por dez dias, existem habitantes que não possuem energia elétrica na sua cidade ou município. E, mesmo que possua, nem sempre vai ter um posto de saúde com capacidade para refrigerar a vacina na temperatura em que ela tem que estar. E, mesmo que exista um local para armazená-la na temperatura adequada, pode ser que só seja possível chegar lá após muitas horas de viagem de barco.

E, o que mais preocupa no Brasil nem é a impossibilidade de refrigerar e sim a seriedade com a qual esse transporte será tratado. Obviamente, não é o cientista que desenvolveu a vacina que vai transportá-la, é um jagunço que pode não ter a menor ideia de como a ciência funciona. Se der um problema e a vacina ficar 5 minutos sem refrigeração, eu sinceramente duvido que o Zé Transporte diga “oh, o material está danificado, perdi um zilhão de dólares em vacinas, vou reportar isso para o meu chefe e levar um grande esporro”.

É muito mais provável que ele faça de conta que nada aconteceu e que milhões de pessoas tomem uma vacina que já não imuniza mais, pois foi exposta a uma temperatura inadequada. E nem precisa ser no meio do mato, eu vejo isso acontecendo com tranquilidade no Rio de Janeiro, por exemplo.

Ninguém vai querer ser demitido por ter cagado um grande carregamento de vacinas e nenhum laboratório tem gente suficiente para fiscalizar entregas em todo o Brasil, portanto, pode ser que milhões de doses de uma vacina ineficiente sejam aplicadas por problemas de temperatura no deslocamento ou armazenamento da vacina.

É justamente por esse motivo que nenhum veterinário sério vai permitir que você dê uma vacina nacional contra raiva para o seu pet: quando fica a cargo do brasileiro manter algo refrigerado, ele não costuma dar conta. Com as vacinas importadas os cuidados são maiores, a fiscalização é maior.

É Brasil, um país quente e desorganizado. Quais são as chances que, desde a fabricação até a Tia do postinho injetar a vacina em você ninguém tenha feito uma besteira, não tenha acontecido um imprevisto ou não tenha dado qualquer problema que tenha exposto a vacina, por cinco minutos que seja, a uma temperatura inadequada?

Então, fora das grandes capitais, vai ser um pesadelo distribuir a vacina. No dia em que iPhone precisar de refrigeração para funcionar bem, garanto que poucas pessoas no Brasil vão conseguir ter um.


Meu tio morreu de câncer e deram um documento dizendo que era “morte suspeita de covid”, mas ele não tinha coronavírus. Fazem isso para inflar o número de casos?

Não, fazem isso para proteger as pessoas.

É protocolo sanitário colocar todas as mortes como “suspeita de covid” para que sejam tomados todos os cuidados para evitar contágios. Tanto é que qualquer morte ocorrida na pandemia é tratada como coronavírus: você pode ter morrido engasgado com uma batata frita que, ainda assim, não há velório, o caixão tem que estar fechado, e outros cuidados que prefiro não detalhar, pois podem ser dolorosos para quem perdeu um ente querido.

O importante a saber é: suspeita de covid não entra na contagem de casos de coronavírus do país. No Brasil, só entra para a contagem os casos confirmados. Os casos suspeitos são desconsiderados e apenas obrigam a que se tomem medidas para evitar o contágio em enterros, afinal, quem garante que a pessoa que morreu engasgada com uma batata frita não tinha covid-19 e estava assintomática?


O que aconteceu para a segunda onda demorar tanto para chegar na Europa? Ela vai chegar aqui? Quando?

Existe uma coisa chamada “sazonalidade”. Sazonalidade significa que algum fator externo interfere no resultado. Ao que tudo indica, uma série de fatores externos contribuem para essa segunda onda, pior do que a primeira. Ainda não se sabe o quanto a sazonalidade (fatores externos) influencia, mas se sabe que ela influencia de alguma forma.

O principal fator parece ser o inverno, ao que tudo indica a sazonalidade do corona é similar à da gripe. É típico de vírus respiratório o aumento de contágios no inverno: as pessoas são obrigadas a ficar em ambientes com menos circulação de ar, portanto, o risco de contaminação é maior. Talvez no Brasil não seja tão grave, pois na maior parte do território nacional não faz frio de verdade, mas o descaso com o vírus ainda pode dar um segundo susto no brasileiro.

Em países realmente frios, não tem como não ficar em um lugar fechado. Quando está nevando lá fora é impossível abrir a janela, e não tem como não usar calefação, que gera o mesmo efeito que um ar-condicionado: leva o vírus por toda da tubulação, para todos os ambientes. O mesmo ar contaminado fica recirculando.

O tempo frio e seco não é apenas melhor para o corona, ele também deixa o organismo humanos mais vulnerável: o muco do nosso sistema respiratório seca mais rápido, tornando mais difícil que nosso sistema respiratório jogue a sujeira para fora de forma eficiente.

No calor o vírus de propaga menos. Ele não é imune ao calor como se dizia no começo da pandemia, mas o calor gera algumas dificuldades para o corona: em períodos quentes há maior umidade do ar, simplificando absurdamente, o vírus “cai no chão mais rápido”, ele não viaja tão longe pelo ar, ele é destruído mais rápido, durando menos tempo nas superfícies.

Mas isso não é motivo para relaxar, pois o Brasil tem outras condições que o fazem ser mais propenso ao contágio: excesso de contato físico, excesso de proximidade, ambientes lotados, alta densidade demográfica de uma série de cidadãs, hábitos de higiene questionáveis e até empecilhos para uma higiene completa (tem gente que não tem água em casa para lavar as mãos).

Então, sim, mesmo sem um inverno rigoroso, o país pode ter uma segunda onda e já se sabe desde 1918, com a gripe espanhola, que segunda onda de vírus respiratório costuma ser mais letal do que a primeira. Resta torcer para que o Brasil veja o que está acontecendo na Europa e se prepare.


Qual foi o problema com os visons na Europa? Isso pode afetar a vacina?

Como já falamos em outra edição desta coluna, os visons (também chamados de “mink” ou “marta”) são um dos poucos animais que podem ser contagiados pelo coronavírus e desenvolver a doença. Não só carregam o vírus como também adoecem por causa dele, é horrível de ver como os bichinhos tossem.

Justamente por contraírem a doença de demonstrarem os sintomas, criadores de visons perceberem que os bichinhos estavam com problemas respiratórios e eles foram submetidos a testes. Estavam com covid-19.

Tudo indica que esses bichinhos têm um sistema respiratório parecido com o nosso, no sentido de que eles têm as células do sistema respiratório com o mesmo tipo de receptor para o vírus que os humanos. Já aconteceram casos de criadores passarem covid para visons em outros países, como EUA e Holanda, mas neste caso, que aconteceu na Dinamarca, tem um plus, que o torna mais importante.

Nos visons da Dinamarca o vírus parece ter sofrido uma mutação depois que já estavam dentro do organismo dos bichinhos. E não foi qualquer mutação. Foi uma mutação em um dos piores lugares que poderia ter acontecido: nas proteínas de fora, ou seja, na primeira parte que nosso sistema imune encontra, na parte em que o sistema imune utiliza para reconhecer o coronavírus.

É como se existisse uma chave (no covid) e uma fechadura (nosso sistema imune). A vacina ensina que quando a chave tal entrar na fechadura, é preciso atacar pois é um inimigo. Se a chave muda, a fechadura não detecta um invasor.

Por questões de segurança, ao perceber que houve uma mutação, a Dinamarca tinha decidido sacrificar 17 milhões de visons, mas não o fizeram a tempo, pois vários humanos já foram infectados por essa mutação. Ainda não se tem certeza do quanto isso vai ser prejudicial, mas certamente teria sido bem melhor que isso não tivesse acontecido.

Então, pode ser (não é certeza, mas pode ser) que uma nova cepa esteja vindo por aí, para a qual não foi fabricada uma vacina, pois, na data do desenvolvimento da vacina essa mutação ainda não existia. Existe o risco (não a certeza, um risco) de fazer uma vacina para o vírus antigo e, ainda assim, as pessoas vacinadas serem infectadas por essa nova versão “vison”.

E se você está chateadíssimo com a notícia, hora de ressignificar. Poderia ter sido muito pior. Sacrificar todos os visons de um país ou do mundo é triste, mas o máximo que acontece é ter que usar um casaco sintético. Imagina se o vírus pula para algum animal essencial, como porco, vaca ou galinha? Já pensou? Ter que sacrificar todos eles? Ou pior ainda, se por alguma mutação o corona começar a afetar os animais domésticos. E aí? Sacrifica todos os cães e gatos?

As chances de tudo isso acontecer são muito pequenas, não é para ninguém se preocupar com isso. Só estou dizendo para que vocês não reclamem do que aconteceu com os visons, tem que glorificar com as mãos para o céu, pois podia ter sido muito, muito pior.

Infelizmente ainda não se sabe o quanto essa mutação pode afetar um vacina, mas sempre é possível desenvolver uma nova versão da vacina para lidar com essa mutação, se for o caso. Tomara que não, tomara que não seja preciso ter mais esse trabalho.

Para reclamar que eu nunca dou boas notícias, para dizer que está com pena dos visons ou ainda para dizer que vai rolar casaco a R$ 1,99: sally@desfavor.com

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Comments (18)

  • Tem sido um grande desafio seguir em frente com receio de vir essa segunda onda e te pegar com as calças nas mão de novo. Acho que pra 2021, os planejamentos precisam ser a curto prazo.

    • O ideal é não resistir ao que vier, a resistência gera dor e sofrimento. Concordo totalmente com você: planejar é tentar controlar, quem fizer planos a longo prazo para 2021 corre um sério risco de se frustrar, pois não temos o menor controle dessa situação. Mas, viver em um mundo assim é assustador, então, metade das pessoas está contando com uma vacina como algo certo e a outra metade está afirmando que o vírus não é tão grave assim. Haja sanidade mental para sobreviver no meio de tanta gente que está ruim de cabeça.

  • Apesar da boa vontade uns e do alarmismo de outros, a verdade é que essa pandemia de Coronavírus ainda está longe de terminar. Só nos resta ter – ainda mais – paciência…

  • Sally, eu receio que, para resolver essa questão complicada de manter as remessas de vacinas utilizáveis desde a fabricação até chegar em quem precisa, infelizmente, só haja uma maneira: torcer para que em breve alguma empresa consiga desenvolver um recipiente para transporte que seja “100% à prova de brasileiro”. Por mais absurdo que pareça, talvez seja mesmo preciso criar uma embalagem que não somente tenha propriedades térmicas para manter as vacinas na temperatura adequada, mas que também seja resistente e inviolável. Com o Brasil sendo a zona que nós conhecemos bem, é de se esperar que os pacotes sejam abertos no meio do caminho para que seu conteúdo seja vendido clandestinamente; ou que sejam descuidadamente atirados de mão em mão ao serem embarcados e desembarcados; ou que simplesmente os deixem cair repetidas vezes durante o trajeto.

    • Certa vez, visitei uma distribuidora de medicamentos.
      Galpão imenso, todo climatizado.
      Temperatura absolutamente controlada.
      Vistorias constantes de vigilância sanitária, bombeiro e o escambau a quatro.
      Ai, diante da minha admiração, o gestor me informa que eles só podem operar se seguirem protocolos rígidos de armazenamento, principalmente para garantir que os medicamentos estejam em perfeitas condições. (Principalmente, temperatura, para que não corra o risco de alterações nos produtos).
      MAS,
      Para o transporte, não há essa exigência.
      Então, os medicamentos entram em um baú de alumínio com temperaturas de 80 graus e rodam por dias em nossas estradas.

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