Maradona

Um ano louco, aleatório e recheado de imprevistos pede uma comemoração do aniversário do blog louca, aleatória e recheada de imprevistos. Desfavor está cancelando suas celebrações de aniversário, pois algo maior aconteceu. Ou vocês realmente acharam que o blog de uma argentina ia ignorar a morte do Maradona?

Se você é muito jovem talvez não lembre dos pontos altos do Maradona. Futebol? Sim, ele teve uns bons anos, mas não foram os pontos altos. Ele fez melhor: ele proporcionou diversão, conteúdo de qualidade, infinitos barracos e tretas. Ele é o Rafael Pilha do meu povo. A gente ama com todas as forças pessoas que nos divertem e nos mostram até onde o ser humano pode chegar. Maradona matou no peito e bancou ser quem ele era, bancou suas escolhas e fez piada com tudo e todos, inclusive com ele mesmo, até morrer.

Na Copa do Mundo do México, em 1986, surgiu o primeiro indício de sua personalidade fascinante: em uma partida contra a Inglaterra (ainda com cheiro de merda no ar, pela Guerra das Malvinas), ele foi disputar uma jogada aérea com o goleiro da Inglaterra, Peter Shilton, um gigante com mais de um metro e oitenta de altura. Obviamente, do alto dos seus pouco mais de um metro e sessenta de altura, Maradona ia perder a bola.

El Diego não pensou duas vezes: fez o jogador de vôlei e meteu discretamente a mão para alcançar a bola e saiu um gol. Ao assistir a repetição do lance dá para ver claramente que ele meteu a mão na bola, mas Maradona apresentou seu argumento: fez o gol de cabeça com a ajuda da mão de Deus. Tem como não amar? Em uma mesma frase ele debochou das regras do jogo, negou uma verdade óbvia e ainda se chamou de Deus.

Ao longo de sua carreira, El Diego contribuiu para desacreditar a igreja católica. Quando jogou na Itália, um país predominantemente católico, despertou tamanha adoração na torcida que picharam no muro de uma igreja “Deus não existe, o que existe é Maradona”. E quando foi pego em um exame antidoping, disse que a culpa era de uma hóstia que tinha comido em uma igreja, que os fdps da igreja sacanearam ele, colocando algo nela. Assim era Maradona: afrontoso, merdeiro, treteiro, sempre proporcionando entretenimento muito além dos gramados.

Na Copa do Mundo de 1990, na Itália, em um jogo Brasil x Argentina, o jogador Branco, que era o cobrador oficial de faltas, pediu por uma garrafa de água. Imediatamente Maradona se prontificou e ofereceu uma garrafa da seleção argentina. Branco matou a sua sede com a garrafa oferecida, o que ele não sabia é que Maradona tinha colocado uns remedinhos na água, para deixá-lo incapacitado.

Além da falta de fair play de dopar um colega, Maradona ainda colocou em risco a carreira de Branco, pois se ele tivesse sido designado para fazer um antidoping tomaria uma suspensão grande. Mas era possível ver os jogadores argentinos apontando para Branco e rindo de seu andar errático. O próprio Maradona contava essa história rindo, com zero arrependimento. Maradona não tinha compromisso com nada, apenas com a diversão hard, sem limites. Ele desafiava todas as regras, todas as leis, todas as normas que podia e ainda saía por cima.

Já vazou vídeo dele batendo na namorada (um nível de loucura acima do Pilha, que, quando o fez, ao menos não se deixou filmar). Tratava as mulheres da sua vida feito lixo, chegou a tatuar “perra” (cadela, em espanhol) como uma “homenagem” a uma de suas ex-namorada e sempre que podia tripudiava das feministas. Alguém acha isso correto? Claro que não, mas ele não enganava ninguém: deixava bem claro que era aquilo ali, casou com o Maradona quem topou o pacote.

Maradona fazia o que queria, e por isso eu o aplaudo. Jornalista aparecia na porta da sua casa enchendo o saco? Ele pegava um rifle e, como ele mesmo dizia, “os botava para dançar” atirando nos pés deles, para quem fiquem pulando e se esquivando dos tiros. Usava todo tipo de droga, bebia feito um porco e sua corrente sanguínea tinha todos os elementos da tabela periódica. Ele virou um pária? Não. O motivo? Seu bom humor, competência e carisma faziam com que ele continue brilhando, não importa a quantidade de cagadas que fizesse com sua vida.

Maradona nunca quis ser exemplo para ninguém. Menino pobre, com uma infância desestruturada, era previsível o caminho que acabaria tomando. Só que a maioria que envereda por esse caminho é se porta de forma decadente, incapaz e patético. Maradona não, Maradona era uma força da natureza, mesmo drogadaço, mesmo acabado, ainda fazia gols, fazia piadas, brincava de tiro ao alvo com jornalistas em seu quintal e ria disso.

Uma frase sua sobre Pelé mostra claramente a diferença entre ambos: “Se Pelé é Beethoven, eu sou Ron Wood, Keith Richards e Bono, todos juntos”. Esse era Maradona, um lunático, com muita autoestima. Uma pessoa de excessos. Era bom pai ou bom marido? Óbvio que não, mas ninguém aqui casou com o Maradona, para o que a gente quer, que é alguém que nos divirta, que nos faça rir, que subverta as regras de bom comportamento, ele era um rei.

Durante algum tempo teve um programa de entrevistas na TV argentina, um talk show chamado “La Noche del 10”, onde entrevistou pessoas mundialmente famosas e… a ele mesmo. Sim, fizeram um efeito de computação gráfica onde, de um lado, Maradona fazia perguntas e, do outro, Maradona respondia às perguntas de Maradona. Não consigo imaginar mais ninguém (além do Pilha) que chegue a esse patamar.

Nessa auto-entrevista ele disse a frase que queria ver escrita em sua lápide. Agradecimentos à família? Aos filhos? Ao país? Não, ele gostaria que fosse escrito “Obrigado, bola”, e, ao que tudo indica, de fato vão realizar este pedido.

El Diego não tinha limites para falar sobre os outros, principalmente sobre os colegas. Sem freio total. Já falou altas barbaridades sobre Pelé (não sem motivo). Por exemplo, uma vez, Pelé disse que Maradona não era um bom treinador (verdade) e, em resposta, Maradona disse que Pelé ficava falando dele pois não trabalhava (verdade) e não tinha nada para fazer (verdade), que era um inútil que deveria ir para um museu (verdade)”.

Certa vez, quando Pelé mencionou o vício de Maradona, ele disse que sim, que deu um passo errado na vida, mas que ao menos criou seus filhos bem e eles não eram viciados, em uma alusão ao filho de Pelé, preso por problemas com drogas. Em outra ocasião, perguntaram do que Pelé era capaz que ele não era (em tese, sobre futebol) e ele respondeu que Pelé era capaz de ter sua primeira relação sexual com um rapaz.

Com Maradona era assim: bateu, levou. E levava dez vezes mais forte do que a pancada original. Ele nunca teve limites no que falava. Mas falava com tanto carisma e bom-humor que divertia. O cérebro tinha virado patê pelo abuso de drogas e álcool? Sim, tinha. Ele chamava Cuba de “democracia”, defendia Lula e muitas outras atitudes de quem tem um severo retardo mental, mas ninguém aqui queria o Maradona para mentor político. Ele nos divertia, e disso sentiremos falta.

Ele não tripudiava só de Pelé. Fazia piada com todos. Quando perguntado sobre o que achava de Cristiano Ronaldo, respondeu que “esse faz um gol e te vende um shampoo” (em alusão ao excesso de publicidades). Sobre Messi, disse que é inútil querer fazer um líder de um cara que vai 20 vezes ao banheiro antes de um jogo.

Até com o Papa ele brigou. Foi ao Vaticano, a convite do Papa João Paulo II e disse que ficou indignado quando viu o teto de ouro. Quando o Papa disse que a igreja se preocupava com as crianças pobres, ele mandou o Papa vender “a porra do teto da igreja” e ajudar as crianças com o dinheiro. Foi expulso do local.

Em uma partida na Argentina, ele disse que faria dois gols no goleiro do time adversário (Gatti). O goleiro tripudiou e disse que ele não conseguiria, pois estava gordinho. Maradona chamou a imprensa e disse que pretendia fazer apenas dois gols, mas, por ter sido chamado de gordinho pelo goleiro, agora iria meter quatro gols nele. Dito e feito: o time de Maradona ganhou de 5×3 do Boca Juniors, com quatro gols de Diego. Mesmo todo errado, ele entregava. Mesmo entorpecido, era competente.

São inúmeras frases hilárias, disparadas contra qualquer um que cruzasse seu caminho. Um jornalista perguntou se iria para o banco (de reservas) por estar fora de forma e Maradona disse que só ia ao banco de fosse para sacar dinheiro. Abordado quando foi eliminado de uma competição por doping, mesmo chateado, ainda conseguiu dizer “hoje tenho menos palavras que um telegrama”. Perguntado sobre os dirigentes do Boca Juniors, disse que são “mais falsos que um dólar azul”.

Maradona sabia que era todo errado, ele nunca teve a pretensão de ser exemplo para ninguém. E, mesmo todo errado, mesmo drogado, mesmo sendo a personificação da bagunça humana, foi um dos melhores no que fazia. Mesmo fazendo todo o esforço do mundo para se destruir, ele ainda era bom, muito bom, bom pra caralho. Ele mesmo disse: “Graças a minha doença, dei uma colher de chá para todo o resto, vocês têm ideia do jogador que eu teria sido se não usasse drogas?”.

É isso aí. Você pode não concordar com as escolhas de vida dele, eu mesma não concordo, mas Maradona era bem resolvido. Se assumia. Se aceitava. Ele era um usuário de drogas convicto que aproveitava a vida ao máximo, dentro da sua escolha. Nada de mimimi, nada de conflito de tentar se adaptar ao papel que a sociedade esperava dele. Batia no peito e tinha a coragem de ser muito louco e bancar essa escolha, sem tentar brincar de bom pai de família e fracassar na tentativa.

Era tão bom que conseguiu durar 60 anos nesse ritmo autodestrutivo frenético. Ele não era um drogado covarde, que vai e vem, que choraminga que vai parar e recai. Ele era um drogado convicto, que mergulhava de cabeça no seu vício. Eu concordo com essa escolha de vida? Obviamente não, mas posso respeitar quem escolhe e vai, sem medo, sem receio, sem freio. E ainda consegue entrar para a história, deixar sua marca no mundo, mesmo totalmente prejudicado pelo seu estilo de vida. Quer fazer merda? Quer levar uma vida louca? Seja muito, muito competente, para morrer como um ídolo e não como um merdinha.

Você conhece alguém que seja viciado em drogas, tenha feito cirurgia bariátrica e mesmo assim seja obeso? Maradona era um ponto fora da curva para tudo. Como ele mesmo disse: “Eu posso ser branco, eu posso ser preto, mas cinza eu nunca vou ser”. Se é para ser uma pessoa de extremos, que seja uma pessoa de extremos bem-sucedida, mundialmente conhecida e aclamado e admirado pelo seu país.

Eu avisei ao Somir sobre tudo isso? Não. Ao que tudo indica a madame estava ocupada demais com trabalho para falar sobre a morte da Mão de Deus. Então eu apenas enviei o texto, comunicando que as celebrações pelos 12 anos de Desfavor foram suspensas.

Fica aqui o aviso: quando eu abrir este blog hoje, quero ter a sensação de que o Maradona vomitou nele. Quero El Diego por todos os cantos. Não se brinca com o ídolo de uma nação. Quero pompa e honrarias. Uma pessoa tão debochada, tão sarcástica, que a vida toda remou contra a maré (e venceu, naquilo em que se propunha) tem que ter um lugar no Desfavor. Uma pessoa que escrotiza o Papa e é expulso do Vaticano merece estampar a bandeira do Desfavor.

Acho até que Maradona merece mais. Não uma homenagem qualquer, El Diego é praticamente o Rafael Pilha da minha nação, ele merece algo grande, ele merece ser canonizado e virar o primeiro santo do Desfavor. Sim, sim, me parece perfeitamente razoável que um blog ateu canonize Maradona. É a última afronta que El Diego merece…

Para dizer que eu surtei, para dizer que Somir vai surtar ou ainda para dizer que passou a gostar do Maradona depois deste texto: sally@desfavor.com

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Comments (24)

    • Olhando para o que o Maradona fez com a sua vida, dá tristeza, dá pena, dá compaixão da forma como ele se destruiu e destruiu sua família.

      Olhando para o que o Maradona fez com a minha vida, é só alegria.

  • Eu achei fantástica a ideia de Maradona como o primeiro santo da RID. Mas pq não aproveitar o ensejo e criar logo a Santíssima Sagrada Trindade da RID? Pilha como o Pai? Maradona como o Espírito Santo? Quem seria o Filho? Já imagino rituais e semanas de intensa meditação. Todo um calendário oficial. Me comprometo a trabalhar duro fazendo proselitismo para a única religião que realmente fará sentido atualmente.

  • EL DIEGO!!!! eu ri horrores dele sendo expulso do vaticano, ninguem teria coragem de fazer o que ele fez dentro do fuck vaticano e sair ileso. rs Obrigada Sally por este texto, Somir que lute.

    • Não gostaria de ter Maradona como pai, marido ou filho mas como pessoa pública gerador de entretenimento ele é show!

  • Lembro de uma história durante a Copa de 1994 contada pelo Mancuso, um de seus ex-companheiros de seleção e que foi seu assistente técnico: o técnico da Argentina (Alfio Basile) queria realizar mais um dia de treinos. Aí Maradona apareceu, morrendo de sono mas vestido para sair, com uma bolinha de tênis na mão, e propôs: “se eu fizer cinquenta embaixadinhas agora com essa bola, a gente vai pro shopping fazer compras, combinado?”

    O técnico topou o desafio. E ficou com cara de bosta quando Maradona disse “47, 48, 49…50. Muchachos, a las compras!”

    E só ele mesmo para continuar viajando para a Itália, mesmo devendo um valor estimado de quase 40 milhões de euros em impostos. Aí o máximo que conseguiram dele foi apreender um Rolex e um par de brincos de diamante. Agora a dívida morreu com ele…

    Por fim, curioso como os grandes craques são de Escorpião: Pelé (23 de outubro), Garrincha (28 de outubro), Maradona (30 de outubro), Van Basten (31 de outubro) e Gerd Müller (05 de novembro). 04 deles campões do mundo e dois deles, três vezes campeões europeus por seus clubes.

    • Olha só, não sabia essa da bolinha de tênis!
      A última trollagem do Maradona foi startar a segunda onda de covid na Argentina

    • Lembro de ter lido sobre essa história da bolinha de tênis em uma entrevista que o Mancuso deu para a revista Placar quando jogou por aqui. Digam o que quiserem, mas o Maradona só fazia tudo o que queria porque tinha coragem para bancar as suas idéias e opiniões – ainda que essas não fossem nem de longe as mais louváveis – e também porque sabia que os times em que atuou não teriam a menor condição de vencer sem ele.

  • Nosso “”””rei””” tem o que chamo de síndrome de Homelander.
    Maradona foi um gênio nos campos.
    Que ele encontre (talvez) um pouco de calma no meio do caos.

    Obs: Reconheco apenas dois reis:
    Elvis
    Godzilla
    O resto é resto.

  • Maradona fez o que grande parte dos brasileiros sensatos gostariam de fazer, que é colocar o “rei” no seu devido lugar de pessoa de merda que ele é.

    • Sim. Maradona não se importava com protocolos, com política da boa vizinhança ou com aparências. Era uma metralhadora.

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    Wellington Alves

    Maradona esculacha com as regras até depois de morto. Acabou de fazer o presidente da agentina enfiar o lockdown no cu. Espera-se que mais de 1 milhão de pessoas passem pelo seu velório na casa rosada. Até a Sally deverá passar por lá. kkkk

  • Mais uma dele: em 1986, consagrado como campeão do mundo e estrela máxima do Napoli e da seleção de seu país, Maradona disse a seu agente Guillermo Coppola que gostaria de ter uma bela Ferrari Testarossa – um luxuosíssimo carro esportivo objeto de desejo de todos os multimilionários da época – e ainda exigiu que fosse preta. O problema é que a fábrica italiana produzia esse modelo somente na sua tradicionalíssima cor vermelha. Então, Corrado Ferlaino, que era o presidente do Napoli, deu lá um jeito e pagou bem mais caro para que a Casa de Maranello abrisse uma exceção e entregasse um exemplar único, pintado como Diego queria. Ao receber seu “presente”, o “Rafael Pilha de Chuteiras” mirou e remirou a máquina por todos os lados até que perguntou “e o rádio?” Guillermo Coppola respondeu que a Ferrari era “um carro de pista” e que, por isso, não tinha nem rádio e nem ar-condicionado. Maradona então disse: “Então podem metê-lo no cu!”

    Mais detalhes dessa história aqui:

    https://www.aquelamaquina.pt/noticias/actualidade/detalhe/morreu-maradona-recorde-a-historia-de-quando-el-pibe-pediu-um-ferrari-e-recusou-o-mal-o-viu.html

  • E quando ele aceitou treinar um time de futebol em fucking Sinaloa?? a Disney da coca. Tem um documentario que mostra essa fase da vida dele, os jornalistas locais surtavam com essa manchete pronta. Afinal né, falar todo dia de cartel, apreensão de droga, guerra de gangues, gente degolada… uma hora fica monotono. Melhor falar do Maradona.

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