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Neuralink

Pedido da Manu (ou do Manu, vai saber…). Eu evitei entrar nesse assunto anteriormente por motivos de Elon Musk. Sou fã do que ele faz pela ciência no imaginário popular das pessoas e pela empolgação de fazer logo as coisas que sonhamos, mas sei que tem muita bravata e “melhor fazer de qualquer jeito que não fazer” nas inúmeras empresas e projetos capitaneados por ele. Então, o que é o Neuralink, e mais importante, é só mais uma maluquice do Tio Elão?

Para te responder isso, eu vou dar mais atenção ao “pré-artigo” lançado em 2019 do que o vídeo de atualização de 2020. Faço isso, novamente, por motivos de Elon Musk. Apresentações são mais focadas em animar o público e atrair investidores do que propriamente explicar a lógica da coisa. Então, sem mais delongas, o que é o Neuralink?

A ideia é criar uma interface entre computadores e o cérebro humano. Um chip que é aplicado na pessoa e pode não só ler como interpretar os sinais vindos dos neurônios. Isso não foi inventado recentemente, as primeiras pesquisas começaram nos anos 70 na Universidade da Califórnia, e de forma bem limitada, já existem alguns produtos no mercado que trabalham com esse conceito no campo da medicina desde os anos 90. O Neuralink se destaca pelo grande investimento e os objetivos ousados. Elon Musk saiu contratando alguns dos melhores estudiosos da área, deu dinheiro e prazos para eles, basicamente.

Mas como um computador pode interagir diretamente no cérebro? Bom, a vantagem é que ambos utilizam sinais elétricos para transmitir informações. O que não quer dizer que exista uma forma de comunicação direta ainda, mas ler sinais elétricos é algo que a nossa tecnologia já faz muito bem. Existem vários estudos e experimentos um tanto quanto exotéricos nessa área, mas já está provado que o cérebro pode ser lido enquanto faz o seu trabalho cotidiano de disparar sinais entre neurônios.

O grande desafio é traduzir os sinais elétricos cerebrais. E para isso, precisamos ter duas coisas bem definidas: a precisão da leitura desses sinais e o significado deles em tempo real. A precisão da leitura ganha muito com a implantação de um chip diretamente dentro do crânio da pessoa (ou animal), reduzindo muito a chance de interferências externas, mas, ao mesmo tempo, você está inserindo um novo elemento que funciona a base de eletricidade no lugar onde quer analisar sinais elétricos.

Até alguns anos atrás, a tecnologia não ajudava muito nessa área. Foi só com o avanço considerável da eficiência energética em chips e processadores que pudemos ter algo do tamanho e potência necessárias dentro da cabeça de uma pessoa para começar a fazer esse trabalho. O que nos leva ao segundo ponto: depreender os significados.

Cada cérebro humano tem sua linguagem de programação própria: para mexer um braço ou pensar numa maçã, existem sequências de disparos de sinais neurais mais ou menos repetitivas. O cérebro é orgânico, mas obedece as mesmas leis da física que qualquer outra máquina: processos mais eficientes tendem a ser preferidos. Numa tangente rápida, é basicamente o motivo de ser tão difícil mudar de opinião sobre um tema depois de muito tempo, os caminhos do cérebro ficam tão otimizados que é complicado pensar algo muito diferente sem um esforço extra.

Então, uma das funções mais importantes do Neuralink é avançar o processo de compreensão desses sinais. Como não dá para fazer um mapa generalizado de qual sinal faz o quê, lembrando que são bilhões e bilhões de neurônios agindo ao mesmo tempo, a melhor alternativa é ter um microchip poderoso o suficiente dentro da cabeça que consiga ler todos os sinais e começar a atribuir significados para eles.

A equipe da Neuralink começou seus estudos em ratos e recentemente evoluiu para porcos. O que não é pouca coisa, apesar dos dois mamíferos serem mais parecidos com humanos que a maioria de nós está disposta a admitir, porcos são ainda mais compatíveis: dá para extrair órgãos dos suínos e colocar em pessoas! Além disso, o cérebro do porco é muito mais complexo que o do rato. Até argumentaria que só faltou um polegar opositor para os porcos evoluírem para uma espécie como a nossa, mas seria tangente demais até para um texto meu.

E os resultados nesses animais é animador sim: o sistema consegue analisar em tempo real o funcionamento de algumas funções do cérebro desses animais. Tempo real é a expressão-chave aqui: de nada adianta ter um implante cerebral se precisa de uma sala de computadores para depreender o que o cérebro pretendia fazer horas ou dias depois. A tecnologia avançou o suficiente para que chips minúsculos consigam realizar a tarefa, e não é só questão de poder de processamento, é a otimização do processo. Com o avanço dos estudos em inteligência artificial, ficamos bem melhores em realizar esse tipo de tarefa.

A pesquisa para inteligência artificial começou a trabalhar com processamento paralelo, ou seja, usar todo o potencial do processador de uma só vez, testando milhões de possibilidades ao mesmo tempo e descartando rapidamente as que não levam ao resultado desejado. Com esse mix de peças mais poderosas, com menor consumo de energia e programas que conseguem extrair muito mais dessas peças muito mais rápido, finalmente temos uma análise complexa em tempo real do que os neurônios estão fazendo.

O que o sistema capta são sinais elétricos, que vem em ondas de acordo com a ativação de cada neurônio a cada momento. Você não precisa saber exatamente qual neurônio fez o quê, e sim depreender do sinal uma intenção. Se o sinal captado tem um pico em tal lugar e dois em outro, você pode presumir que são três grupos de neurônios agindo enquanto os outros estão quietos. No próximo sinal, se você vir um pico nos mesmos lugares, consegue fazer a conexão: são esses grupos que definem essa ação, nesse ritmo.

O exemplo da última apresentação foi com a porca Gertrudes, que teve o seu Neuralink configurado para acusar estímulo no focinho. Os pesquisadores cutucavam o focinho dela e o sistema começava a apitar. Tudo isso apenas com um chip no cérebro. Os padrões do focinho tinham sido aprendidos pelo sistema e agora eram reconhecíveis imediatamente. Muita gente veio falar que eram resultados decepcionantes, mas só em relação às promessas de Elon Musk. Como pesquisa, é um excelente avanço, não pela captação do sinal (que já é feito há décadas), mas pela enorme complexidade deles sendo processada em tempo real.

A pesquisa está avançando. Mas antes que você caia no site oficial e fique empolgado demais com a promessa de treinar o seu Neuralink com um app no celular para fazer seu carro autônomo vir te pegar na porta de casa com um pensamento, é importante lembrar que estamos falando de um sistema minúsculo que consegue ler e entender o seu cérebro sem nenhum atraso perceptível. Evidente que há uma grande distância entre a empolgação de Elon Musk e a realidade do que pode ser feito.

Pessoalmente, eu acredito que esse é o caminho do futuro mesmo. Um chip que funciona como uma interface com toda a tecnologia ao nosso redor movido por pensamento. É o passo que nos muda de categoria como espécie de vez, com todas as vantagens e os perigos relacionados. A partir do momento que um sistema como o Neuralink conseguir implantar impulsos no nosso cérebro, estamos falando de realidade virtual perfeita, tratamentos médicos precisos acabando com quase todas as doenças, conhecimento praticamente infinito e instantâneo.

As implicações são de explodir a cabeça, mesmo quando falamos de ceder a mente intencionalmente: uma prostituta pode realmente estar apaixonada pelo cliente pelo tempo do programa, amigos de aluguel serão realmente amigos pela duração do contrato, a pessoa pode modificar o cérebro para gostar muito de um trabalho durante oito horas por dia, você pode comprar a habilidade de lutar jiu-jitsu do campeão mundial da categoria segundos antes de começar uma briga… o que é possível de acontecer num cérebro vai poder acontecer em todos.

O que nos leva aos riscos: se um agente mal-intencionado assumir o controle do chip, diga adeus ao livre-arbítrio. Mas, ainda não estamos sequer próximos desse tipo de possibilidade. Na melhor das hipóteses, interfaces entre máquina e cérebro conseguem movimentar próteses mecânicas. O que já é motivo suficiente para correr atrás dessa tecnologia. É claro que vão te vender a versão “do app” do Neuralink para gerar interesse popular, mas na prática, são as aplicações medicinais e de acessibilidade que vão gerar os grandes benefícios para a humanidade.

Só não se esqueça: atualmente, o Neuralink consegue registrar se alguém está cutucando o focinho da porca Gertrudes, melhor que qualquer outra tentativa até aqui, mas na prática, é isso. Não me atrevo a colocar uma data para a interface realmente começar a mexer com a vida da humanidade, porque vai depender de uma singularidade tecnológica no meio do caminho. E, por definição, não se prevê singularidades tecnológicas. O Neuralink é uma boa notícia para quem depende de próteses articuladas, talvez membros robóticos realmente responsivos estejam bem próximos (já existem alguns bem avançados), mas para a maioria de nós, ainda é um dos sonhos do Elon Musk.

Que ele continue sonhando e colocando sua fortuna nessas coisas, precisamos começar em algum lugar.

Para dizer que continua não entendendo, para dizer que ficou decepcionado(a), ou mesmo para dizer que o futuro vai ser bizarro (sempre é): somir@desfavor.com

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Comentários (8)

  • O futuro pode ser bem promissor e entusiasta com essa tecnologia! Mas ao mesmo tempo pode ser assustador pensar nas consequências. Isso me fez lembrar bem por alto aquela série antiga, Chuck, embora lá a coisa funcione um pouco diferente: inventam de implantar um “HD” no cérebro do sujeito e ele passa a saber tudo sobre tudo, inclusive a lutar pra se defender, ou mesmo cozinhar pratos chiques, enfim.

    • É aquela frase feita: nada é de graça nessa vida. Com o lado positivo, vem o negativo. Acabei nem colocando no texto, mas um dos argumentos do Elon Musk para criar o Neuralink é se preparar para a inteligência artificial, segundo a lógica dele, quanto mais nos tornarmos máquinas, mais fácil vai ser combater uma Skynet da vida…

        • Não, harém eu monto no dia que finalmente desistir de levar esse mundo a sério e começar um culto.

          E nada de Tinder para impopulares: vocês vão ter que se apaixonar pelas opiniões horríveis uns dos outros.

  • “Um chip que funciona como uma interface com toda a tecnologia ao nosso redor movido por pensamento.”
    Excelente pra pessoas que colocam comida pra assar no forno, sai pra fazer compras e volta correndo pra casa quando se lembra, mas ao chegar tudo já virou carvão.

    Não fui eu, foi uma amiga.

    • Melhor: o forno já vem com uma função para tirar foto antes de queimar e postar na rede social, assim ninguém fica sabendo que deu errado…

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