Comemorações de 12 anos encerradas. Luto oficial em toda a nação por tempo indeterminado.

Pólvora!

É o começo de 2021, Donald Trump se recusa a sair da Casa Branca e mobiliza um pequeno grupo de apoiadores e militares na área, na defesa contra uma pressão interna e externa cada vez maior para deixar o cargo. Jair Bolsonaro – único líder mundial que ainda não havia reconhecido a vitória de Joe Biden – pega todos de surpresa declarando apoio militar aos trumpistas, e milhares de soldados brasileiros são mobilizados para invadir o solo americano.

Apesar das reclamações veementes da ONU e diversos outros presidentes e primeiros-ministros ao redor do planeta, o movimento da tropa tupiniquim começa a acontecer em direção à Flórida, um dos poucos estados americanos em suporte oficial à tentativa de golpe de Trump. Ainda chocados e desorganizados, os militares americanos não sabem qual postura tomar. Até o dia da posse, uma semana depois, Trump é oficialmente o chefe das forças armadas.

Os navios brasileiros, apinhados de soldados confusos, sem um plano claro do que fazer quando chegarem em solo ianque, passam pelo Caribe sem enfrentar resistência. Ao adentrar território marítimo dos EUA, são parados por dois porta-aviões e suas armadas. As tensões não são realmente grandes, afinal, a marinha brasileira não é capaz de sequer atingir os navios americanos. Trump exige a passagem livre do exército brasileiro, é atendido algumas horas depois.

A mídia mundial cobre o evento de forma compulsiva, a internet explode em memes e brigas ideológicas intermináveis. Bolsonaro vem a público pela primeira vez desde o envio das tropas para dizer que só está ajudando um amigo com problemas domésticos. Quando questionado por um repórter se era uma força de invasão, Bolsonaro ri e diz que não havia enviado uma tropa, apenas a “turma do deixa disso”. Trump posta compulsivamente na rede social, dizendo que os inúmeros julgamentos que perdeu ao questionar as eleições foram fraudulentos. Faz então um apelo em cadeia nacional aos patriotas americanos para ajudar os soldados brasileiros a chegar até Washington.

Os “patriotas” resolvem ajudar. Já no dia seguinte, uma infinidade de caminhonetes invade Miami numa carreata quilométrica, todas prontas para carregar os soldados brasileiros Estados Unidos acima. O exército americano ainda parece em estado de choque, preso numa neutralidade que enfurece virtualmente todos os democratas do país. Os soldados sul-americanos ajudam a manter o clima tranquilo, contanto: a maioria dos brasileiros desembarcou sem munição, graças a um erro logístico antes da partida. Os únicos tiros disparados são por civis e soldados da reserva americanos formando a proteção da carreata, e na maioria das vezes, são tiros por diversão mesmo.

A caravana leva cerca de dez mil soldados brasileiros de forma relativamente pacífica pelos estados sulistas, evitando grandes cidades e se mantendo próxima da área rural. Por vez ou outra, grupos como a Antifa tentam parar a caravana de forma mais violenta, mas são dispersados por republicanos armados e polícia local, quase toda em apoio à caravana nas cidades menores. O caminho fica um pouco mais complicado nas proximidades de Washington D.C., com gigantescos protestos ocupando as ruas, exigindo a expulsão imediata dos invasores brasileiros, junto com Trump. O presidente ainda em exercício manda soldados aliados limparem o caminho para a marcha final, feita a pé.

Faltando dois dias para a cerimônia de posse do novo presidente, a Casa Branca e seus arredores são tomadas por soldados brasileiros, para absoluto choque da comunidade internacional. A pressão pelo impeachment de Bolsonaro fica enorme no Brasil, mas não consegue avançar. Inúmeros processos são abertos em cortes internacionais por brasileiros desesperados por não receber a retaliação pelo ato. A União Europeia impõe uma série de sanções econômicas ao Brasil, China, Rússia e Índia parecem muito mais neutras, se resumindo a falar que as tropas foram convidadas pelo presidente atual e não havia o que fazer.

A violência começa a escalar nos arredores da Casa Branca, mas ainda não há nenhum relato de brasileiros como agressores. Um dos maiores problemas para a mídia americana e a máquina de propaganda local é a cor da pele da imensa maioria dos soldados brasileiros: talvez propositalmente, mais de 90% deles são pardos ou negros. E, em contraste com a postura progressivamente mais irritada de Trump, a “tropa invasora” dá uma aula de simpatia em todas as oportunidades que é filmada. Muitos começam inclusive a repetir os cantos de Vidas Negras Importam para as câmeras do mundo todo que se acumulam na região.

Joe Biden discursa todos os dias de um comitê de transição montado na cidade, mas a cada dia que passa gera menos e menos atenção. Muitos analistas americanos e estrangeiros começam a discutir se a postura do candidato vencedor era fraca diante da situação. No Brasil, Bolsonaro vem a público mais uma vez comparar a situação americana com uma disputa doméstica, utilizando um desastrado exemplo de violência contra a mulher. Mas a opinião pública já está saturada depois de tanto tempo de polêmica. Nada como a perspectiva.

A Suprema Corte Americana, majoritariamente republicana, fica por decidir pelo adiamento da cerimônia de posse e a transferência da votação para o Congresso, o que apesar de chocar boa parte do mundo, estava totalmente dentro da legalidade nos Estados Unidos. Biden finalmente sobe o tom, conclamando seus eleitores a parar o país numa greve geral até que Trump saia do cargo. Os soldados brasileiros ainda não deram um tiro.

Nas últimas horas do dia 19, último de Trump como presidente dos EUA, Bolsonaro vem a TV e declara guerra contra a maior potência militar do planeta. O pânico se espalha pelo país em minutos. A internet fica lenta no mundo todo com a quantidade sem precedentes de tráfego na sequência do pronunciamento brasileiro. O exército americano é pego de surpresa, mas começa a cercar as tropas brasileiras em Washington D.C., tanques, helicópteros e caças começam a rodear a Casa Branca. Simpatizantes de Trump fazem um cordão de isolamento ao redor dos soldados.

Todas as emissoras de TV são pausadas às 23:40 do dia 19, e no lugar da programação habitual aparece um pronunciamento de Trump. Os EUA estavam declarando guerra de volta ao Brasil. Trump pausa por alguns segundos, e logo diz que os EUA estavam se rendendo ao Brasil. Trump, sorrindo, diz que era impossível garantir a segurança do povo contra o poderoso exército brasileiro, e que já havia recebido e aprovado os termos de rendição.

Os termos eram os seguintes: para garantir uma transição pacífica, o governo brasileiro exigia a manutenção de Donald Trump no cargo por mais quatro anos e a retirada em segurança das tropas invasoras. Como líder máximo do país em tempos de guerra, Trump tinha o poder de tomar decisões sem precisar do Congresso. Ele assina a declaração de rendição ao vivo e deseja uma boa noite aos americanos.

Os jornalistas ao redor do mundo demoram alguns segundos para fechar a boca em espanto antes de resumirem sua cobertura sobre os eventos. Os soldados brasileiros comemoram na frente da Casa Branca, junto com os republicanos. Joe Biden sofre um infarte fulminante e não sobrevive ao dia 20. Bolsonaro posta uma foto no Facebook logo depois fazendo “arminhas” com as mãos.

Dois meses depois Donald Trump começa a Terceira Guerra Mundial.

Vinte anos depois, quase todo o hemisfério norte é inabitável pela radiação das bombas atômicas e a população mundial não passa de 1 bilhão. O Brasil, liderado por Carlos Bolsonaro, é quarta maior economia do mundo, logo atrás do Congo.

Para dizer que ainda toparia pelas memes, para dizer que consegue imaginar Bolsonaro falando essas coisas, ou mesmo para dizer que diversidade é a nossa força: somir@desfavor.com

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Comentários (8)

    • Esse débito demora a bater, mas os tarja-preta que estão fodendo o cérebro dando overload de teorias tentando ver a verdade (somos insignificantes e nunca vamos saber nem um centésimo do que se passa) e estão estimulando em excesso certas áreas do cérebro. Uma hora isso transborda, uma hora a pessoa colapsa, não pro faniquito, é bioquímico mesmo. Aí é remedinho pro resto da vida, é cuidado em situações de crise pro resto da vida, é dano irreversível. Se cuidem, não abram essa porta.

  • Somir, esta postagem poderia se tornar um roteiro para um excelente filme – talvez um curta-metragem – em estilo “mocumentário”, a ser exibido em algum serviço de streaming! E a narração em off de tal “obra de ficção calcada em realidade” poderia ser feita com a própria leitura do texto, em um tom bem monocórdico mas que, ao mesmo tempo, também soasse sarcástico. Se tivesse dinheiro, eu financiaria um filme assim…

  • “Vinte anos depois, quase todo o hemisfério norte é inabitável pela radiação das bombas atômicas”
    Ainda está mais habitável que a América Latrina.

    • Avatar

      (orwelli)Ana(de)94

      Aí, nas décadas seguintes Brasil consegue uma mistura formidável entre Gilead de Handmaid’s Tale (em que Paulo Kogos é um dos comandantes, aparecendo em qualquer programelho de TV pra chamar as handmaids de comunistas por causa da roupa vermelha e pela socialização do útero) com um caos digno de Cyberpunk 2077.
      Hologramas do Trump vão aparecer pelas esquinas das grandes megafavelópoles brasileiras, até serem furtados das vias públicas, necessitando reposição a cada semana. “Bléssedi bi de pouerhange laranja”, enquanto o semblante risonho de Keanu Reeves, sob legenda “matrix go home” é estampado pelos muros dos bancos durante semana de pagamento de algum bolsa-esmola.

      É, e eu achando que a literatura e a ficção científica não ia ter mais futuro… Repensarei na minha carreira com livros…

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