Realmente melhor.

Reality Shows são um sucesso há décadas, seja lá sua premissa, a ideia de colocar pessoas diante de situações estressantes e filmar suas reações é um dos passatempos preferidos de muita gente. Sally e Somir raramente fazem parte desse grupo, mas quando o fazem, discordam sobre o melhor do gênero televisivo. Os impopulares vão para a votação.

Tema de hoje: qual o melhor Reality Show de todos os tempos?

SOMIR

Survivor. Além de ser considerado o primeiro grande Reality Show realizado, o programa também teve a melhor premissa de todas: colocar um bando de pessoas no meio do mato e filmar seu sofrimento. Eu tive que pesquisar qual foi o nome dado aqui no Brasil, porque não pegou muito por essas bandas (mais sobre isso depois), se chamava No Limite.

A primeira versão foi sueca em 1997 (bolada por um inglês), mas o sucesso internacional do formato veio mesmo com a edição americana no já longínquo ano 2000. Desde então, são 40 temporadas na TV americana (sim, fazem 2 por ano) e uma série de derivados ao redor do mundo. No Brasil, teve um relativo sucesso por três temporadas e uma quarta que deu traço de audiência em 2009.

Para quem não lembra dos detalhes, quase sempre o programa se baseia em escolher um grupo de ilustres desconhecidos e largá-los num lugar muito isolado para se virar contra os elementos, fauna e flora enquanto disputam a mecânica de eliminação semanal que já conhecemos muito bem. Boa parte da mecânica do Reality Show em geral foi concebida pelo Survivor. O próprio Big Brother é uma versão mais barata de se produzir.

A primeira coisa a se gostar é o grau de sadismo da produção: nada de colocar gente chata numa casa para ficar se esfregando ou tendo conversas horrendas em graus diferentes de sobriedade, Survivor é sobre ensinar pessoas a se virar quando quase nenhuma das comodidades da vida moderna está presente. Sim, tem muita da mentira televisiva de editar as cenas para parecer que o perrengue é maior do que realmente é, mas quase sempre sai alguém ferido ou doente desses programas.

Mas aí a gente começa a ver a graça da coisa: no Survivor a edição pode trabalhar com as reações reais de pessoas diante de dificuldades naturais, nos Reality Shows de confinamento, é quase sempre para fazer gente MUITO burra parecer que está tendo uma discussão interessante ou fazendo intrigas complexas. A edição do Survivor é para criar tensão, a edição de Big Brother ou a Fazenda é para criar qualquer coisa.

Os dois modelos são fabricações, mas pelo menos Survivor tem um pouco de realidade. As versões de confinamento são uma novela ruim: as pessoas não são daquele jeito, não falaram as coisas naqueles contextos… quase sempre é só um desfile de gente fisicamente atraente andando com pouca roupa. O que, é claro, pode ser um modelo aceitável de entretenimento, mas é comum entrar gente muito feia junto, e o apelo de ver a mesma imbecil esfregando os peitos dentro do biquini no chuveiro quarenta vezes começa a reduzir com o tempo.

O meu ponto é: Reality Shows de confinamento são ruins em tudo o que fazem. O fator humano é enfraquecido pela completa fabricação de personalidades em gente que simplesmente não tem profundidade para mais nada além de rebolar nessa vida, não tem mais novidade nenhuma porque é sempre o mesmo cenário, as provas são apenas merchandising e nem para programa de putaria serve: tirando algumas versões do Big Brother europeias, impera o pudor da programação típica do horário nobre televisivo.

Survivor, especialmente depois de 40 edições, já mostra uma fórmula muito cansada, como não poderia deixar de ser, mas pelo menos o cenário muda. Os desafios naturais vão variando, e como a relação humana entre os participantes não é a única coisa no programa, mesmo com a invasão do merchandising, ainda há algo de valor nas provas regulando os recursos disponíveis. Uma coisa é deixar uma pessoa com comida sem graça dentro de uma casa confortável, outra completamente diferente é fazê-la dormir ao relento num lugar inóspito caso falhe na prova.

A ideia de colocar o ser humano contra a natureza é tão boa que gerou inúmeras variações. Se você for acompanhar mesmo, o Discovery Channel é um canal de versões do Survival que faz uma semana especial sobre tubarões uma vez por ano. O ser humano moderno tem um interesse especial em ensinamentos sobre a vida na natureza, algo que não faz mais parte da criação da grande maioria de nós.

E talvez meu ponto preferido desses Reality Shows homem contra natureza: o espaço para lacração é muito limitado. Não tem essa de pregar empoderamento de mulheres, gordos, deficientes… toda vez que tentam isso, sai pela culatra. Não dá para criar “grupo das mulheres” num Reality Show do tipo Survivor, não sem muita ajuda da produção. A lei da selva não liga para suas hashtags. Já tivemos vários exemplos dessas tentativas, e mulheres sozinhas raramente conseguem se virar nessas situações. São muito moles ou muito incapazes de trabalhar em equipe. Os homens também passam vergonha, mas o pouco a mais de força e resistência ajuda a segurar o tranco.

Gordos sempre sofrem horrores. A parte mais fantástica de Lost foi o balofo sobrevivendo, porque nesses programas, mesmo com um esforço enorme da produção, a realidade cobra o preço: precisa estar minimamente em forma para sobreviver no mato. Idosos também costumam sofrer bastante. Não dá para cansar depois de dez minutos de caminhada e querer aguentar o tranco. Participantes desses realities tem que estar num estado bem decente de saúde física para não serem eliminados precocemente. E pela falta de recursos para manter sua aparência, transexuais também passam longe: uma hora ou outra a barba volta. Não tem agenda lacradora quando os problemas são tão práticos assim. A natureza é o grande equalizador.

Se é para acompanhar a vida de outras pessoas, que seja num contexto interessante, e que às vezes até te ensina coisas novas sobre sobrevivência em situações limite. Se eu quisesse escutar gente burra falar coisas burras e agir de forma escrota uns com os outros, eu seria mais presente nas redes sociais. É baixaria de grupo de WhatsApp e treta de Twitter no formato de vídeo. E como o grupo é bem limitado, nem tem a chance de ler uma piada engraçada no meio. Survivor e seus inúmeros clones podem até ser meio cansativos com o passar dos anos, mas pelo menos acontece alguma coisa diferente neles.

Não tem gentalha votando na pessoa “mais verdadeira” da casa e eliminando qualquer resquício de personalidade da casa a cada semana. Survivor e afins são filmados com antecedência e o público só descobre quem ganhou, não participa. E se você precisa de um argumento final: foram os realities de confinamento que deram certo no Brasil, os de sobrevivência duraram muito pouco. Evidente que o brasileiro médio escolheu a maior porcaria.

Para dizer que nenhum Reality Show é bom, para dizer que eu sou chato por não ter um gosto horrível, ou mesmo para me mandar ir cagar no mato: somir@desfavor.com

SALLY

Qual é o melhor reality show de todos os tempos?

A Fazenda. Nada se compara com A Fazenda. Não há tecnologia, infraestrutura, direção ou recursos que suplantem o que acontece em A Fazenda.

Eu sempre tive essa teoria maluca de que existe um grau de ruindade tão profundo que a coisa deixa de ser ruim e passa a ser boa. Imaginem um medidor em forma de círculo. Em um ponto estão as coisas boas e, à medida que você vai caminhando pelo círculo as coisas vão piorando, piorando, piorando e, quando atingiram seu grau máximo de ruindade, retornam ao marcador de coisa boa. É isso que eu sinto com A Fazenda, é tão ruim que é bom.

A Fazenda é um laboratório que te permite estudar o que há de pior, de mais nocivo, de mais sintomático, de mais doentio no ser humano sem ser chamado de nazista por fazer esse experimento cruel. Eles revestiram com um caráter lúdico uma experiência digna de Mengele, o que nos dá o aval social para assistir, rir e comentar.

Pegam pessoas desequilibradas, com doenças mentais, com problemas psiquiátricos e psicológicos, com autoestima severamente comprometida e metem o dedo na ferida por três meses. Criam um ambiente de pressão, insalubre e tóxico que desperta o que há de pior em cada pessoa, em alguns casos provocam verdadeiros surtos psicóticos nos participantes.

É um caldeirão de agressões, ofensas e baixarias, tudo patrocinado por marcas duvidosas. Uma desconstrução de ídolos (sim, muitos daqueles ignóbeis são ídolos de um monte de brasileiros). É um experimento que mostra ao Brasil a cara do Brasil.

O Brasil não é um bando de gente sarada tomando sol em uma piscina nem um bando de gente atlética competindo no meio do mato. O Brasil é essa decadência desesperada que vemos em A Fazenda. Gente com muita pose, gente com muito discurso de união e amizade que se vende por meia mariola, que, na primeira discordância vira bicho, que no primeiro atrito passa a se posicionar como inimigo do outro.

Você não gosta de assistir A Fazenda? Sinto muito, mas é um microcosmo que espelha o país em que você vive. Não chute o espelho. Para que as coisas mudem é preciso compreender o que precisa ser melhorado e A Fazenda te dá a lista de comportamentos reprováveis do brasileiro mastigadinha. Aquilo ali é puro suco de Brasil: pessoas que, em troca de mais um pouco de fama e/ou de dinheiro, renunciam à sua dignidade.

Todos os comportamentos hipócritas e escrotos do brasileiro estão ali: o auto perdão, mesmo quando fazem algo terrível, a infidelidade com uma desculpa que alivia a consciência do infiel, a corrupção relativizada, o puxa-saquismo de se manter por perto de quem se acreditar poder te beneficiar de alguma forma, a mania de detonar o outro para subir na vida…vem o pacote completo. Tudo bem que os atos são menos requintados, mas são os exatos mesmos mecanismos que vemos em empresas, em locais de trabalho e na maior parte dos relacionamentos.

A Fazenda é uma lição de Brasil, e por isso tem muito valor. Reality que exaure a parte física do participante é interessante de se ver, mas nada, eu disse nada, se compara a ter o Dinei urinando nas suas coisas, o Pilha te dando indiretas o dia todo, uma boxeadora te socando, Cumpadre Washington entupindo o vaso, Andressa Urach cuspindo em você e Theo Becker ameaçando te bater. Prefiro mil vezes carregar pedra nas costas até construir uma pirâmide.

O problema é que o brasileiro não percebe essa sutileza de que os comportamentos dali são reflexo dos comportamentos de fora. Eles acham os participantes um bando de mal educados, escrotos e malucos. Estão chutando o espelho. Poderiam aproveitar para se olhar no espelho e corrigir aquilo que não gostam, começando por eles mesmos. Mas não, preferem sentar e julgar, apontar e dizer que aquilo é uma “baixaria” e que eles tem um nível alto demais para se prestar a ver aquilo. Uma pena, estão perdendo uma oportunidade de ouro.

Mesmo sendo um ambiente rural, fictício e temporário, eles conseguem reproduzir todas as situações críticas e fontes de estresse da sociedade atual. Tem o acordar cedo para trabalhar (que lá é cuidar dos bichos), tem a competição constante para ficar no jogo (equiparada à do mercado de trabalho), tem a tensão de entrar ou não em um relacionamento, tem um dia de lazer com bebida que exige controle e ponderação e tem o julgamento dos que te cercam e da sociedade no geral.

E não se aprende apenas com os erros dos infelizes que estão lá dentro e se portam de forma deplorável, aprende-se também com os erros dos infelizes que estão aqui fora e votam de forma deplorável, escolhendo quem fica e quem sai. É um ótimo termômetro do que é aceito ou não pela sociedade brasileira. Eu sei que não é todo o país que vota em reality show, mas é uma parcela expressiva, dá para ter uma boa noção de como a maioria pensa.

Olhando com olhar esnobe, A Fazenda é um reality decadente recheado de baixarias. Olhando com um olhar antropológico, é aprendizado que não acaba mais. Tudo depende da forma como você vai escolher olhar. É muito mais cômodo olhar com ar de superioridade e criticar, mas é muito mais produtivo olhar com olhar de aprendizado.

Talvez em alguns anos esse tipo de programa, nesses moldes, seja proibido. Se a gente parar para pensar com bastante calma, é explorar as fragilidades das pessoas até fazê-las surtar e isso não é muito bonito. Por isso, aproveitem enquanto podem e observem o país onde vocês vivem, retratado sem maquiagem, sem hipocrisia, sem tarja preta. A Fazenda mostra exatamente onde a sociedade tem que mudar, e as mudanças começam por você.

Para dizer que o melhor reality é o de gordos que precisam emagrecer, para dizer que o melhor reality é o de cozinha ou ainda para dizer que o melhor reality é nenhum: sally@desfavor.com

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Comments (12)

  • Não sei se compete aqui, mas queria deixar uma menção honrosa ao A Prova de Tudo, algumas dicas ali, principalmente no programa que ensinava a sobreviver na cidade realmente já ajudaram. O lance de utilizar o aquecedor interno do carro, caso o motor super-aqueça, para poder rodar quase uma hora até chegar na oficina me salvou.

  • Eu acho q deveriam ser proibido , vai psicólogo /psiquiatra fazer um experimento assim hj em dia . Antiético… enfim, a hipocrisia.

  • No Limite, gostei por ter sido o primeiro e outdoor…o primeiro Casa dos Artistas achei engracado principalmente por causa do Supla.

  • Prefiro Survivor. Bem que poderiam fazem aqui algo semelhante à série 1900, na qual uma família de classe média na Inglaterra topa viver como se estivesse vivendo naquele ano.

    1900 aqui não seria tão melhor do que o Survivor hoje…

  • “tirando algumas versões do Big Brother europeias, impera o pudor da programação típica do horário nobre televisivo.”
    Verdade isso? Sempre ouvi dizer que as coisas na Europa são mais liberais, e até tinha lido uns relatos de europeus falando que as brasileiras são muito recatadas (!!!!). Se alguém puder confirmar ou refutar…

    Enfim, prefiro Survivor. Questão de afinidade, curto coisas relacionadas a mato e outdoors no geral.

    • Então, mas foi isso que eu disse: tirando as versões europeias, menos pudorentas, no resto do mundo impera a culpa cristã/muçulmana.

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