Comemorações de 12 anos encerradas. Luto oficial em toda a nação por tempo indeterminado.

Tenha fé.

Acompanho com uma curiosidade quase mórbida a reação dos defensores de Trump aos resultados (cada vez mais inegáveis) da derrota nas urnas. É uma teimosia que não parece ter fim, mas o pior é que esse nem é o principal problema, o que mais preocupa são as bases cada vez mais frágeis da esperança dos trumpistas de verem seu presidente reeleito. O que não impede uma enxurrada de desinformação…

Há tempos que eu digo que o cenário ideológico da política no Brasil é basicamente uma versão com fuso-horário do cenário ideológico americano. Direita ou esquerda, tudo o que acontece por lá acaba achando um jeito de vir parar por aqui, com algum tempo de atraso. Muito por isso eu não fico esperando sair a versão dublada: para ter uma noção do que fatalmente vai ser discutido por aqui em alguns meses, basta acompanhar a política americana.

Veja bem, não quer dizer que na prática o que acontece nos EUA se repete no Brasil, muitas de nossas peculiaridades subdesenvolvidas alteram o resultado real das políticas discutidas, mas a parte do “em tese” é só uma tradução mesmo. Se a esquerda americana se embrenha em políticas identitárias para definir o mundo todo como opressores e oprimidos, a esquerda brasileira esquece que não tem nem rede de esgoto por aqui e vai discutir representatividade em novela; no sentido oposto, quando a direita americana resolve que a revolução comunista vai ser realizada pela elite e suas megacorporações, lá vai a direita brasileira brigar contra o uso de máscaras e a vacinação.

É uma versão tosca, uma espécie de cospobre das discussões realizadas nos EUA, mas é o que tem pra hoje. Entenda o que se discute por lá e em questão de no máximo alguns meses você já sabe qual vai ser a discussão aqui no Brasil, mesmo que falte muito… recurso… para o brasileiro médio se preocupar com esses problemas de primeiro mundo. Seja como for, analisar o que está acontecendo nos EUA pode nos dar uma visão (pessimista) sobre o que nos espera no campo ideológico além de todos os problemas que já temos.

Desde que Trump foi eleito, uma figura misteriosa começou a ganhar destaque nas redes sociais, Sally já escreveu um texto inteiro sobre as conspirações do já infame QAnon, mas ao invés de me concentrar nos detalhes, eu quero usar o exemplo dessa figura para falar sobre uma nova característica da política moderna: o baixíssimo foco de atenção do cidadão médio e a nova mecânica de manipulação em massa sendo testada diante dos nossos olhos. Ao invés de mentir para o povo em grandes escalas por muito tempo, parece que funciona bem melhor pulverizar as baboseiras em doses muito menores para aproveitar o fluxo insano de informações da internet atual.

QAnon se popularizou por soltar mensagens crípticas sobre os supostos bastidores do poder americano. Mas mais do que a esperança de estar recebendo informações privilegiadas sobre o presente, o seguidor de Q também acreditava receber série de previsões sobre acontecimentos futuros. Durante praticamente quatro anos, Q sugeriu, algumas vezes de forma velada, algumas vezes com data e hora, que Trump começaria um processo de limpeza na política mundial, prendendo os líderes do grupo satânico/pedófilo que controlam o planeta. Só nas mensagens do Q, a Hillary Clinton ficou de ser presa umas dez vezes “na semana que vem”.

Eu até admito que nas primeiras vezes é uma reação humana natural dar o benefício da dúvida, afinal, quem não acharia divertido ver figurões da política, monarquia e grandes empresas sendo presos por participar de uma seita maligna? Não atende muitos dos requisitos de expectativas racionais, mas que jogue a primeira pedra quem nunca deixou a empolgação anuviar seu bom-senso. Eu nem estou batendo em quem se deixa levar por uma conspiração saborosa dessas por algum tempo, como eu disse, acho algo muito natural se deixar levar por essas expectativas.

Agora, tudo tem limite nessa vida. Como diz uma expressão americana famosa: “se você me enganar uma vez, a vergonha a sua; se você me enganar duas vezes, a vergonha é minha.” Os seguidores de Q tiveram muitas oportunidades de pular fora depois de ler uma previsão furada atrás da outra, mas não só não perderam o ânimo como acabaram convertendo milhares de outras pessoas (medo de serem milhões) e tornando essa personagem famosa o suficiente para aparecer na grande mídia.

Era de se esperar que depois de falar bobagens fáceis de checar e errar previsões seguidas vezes alguém perdesse toda a credibilidade, mas analisar a situação por um ângulo racional estava errado. Há uma correlação muito grande entre religiosos fervorosos e conspiracionistas de direita, e não é à toa. A mecânica de funcionamento é muito parecida: não são as grandes alegações milenares que sustentam a fé das pessoas, são as pequenas interações de validação.

Explico: é meio complicado sustentar uma crença baseada numa história muito grandiosa, a maioria das pessoas simplesmente não consegue lidar com a ideia de um deus que age de forma realmente misteriosa, precisam muito da esperança que ele aja em pequenas escalas e escute preces. O conceito do deus pessoal é de longe o elemento mais popular da maioria das religiões do ocidente, especialmente cristianismo e islamismo. São deuses participativos que interferem num chute ao gol ou numa dor de dente. E isso vaza para as relações interpessoais dentro da religião: tão importante quanto a crença nessas micro intervenções é a validação social proporcionada pela fé compartilhada no grupo. A pessoa não perde a crença porque tem mais pessoas ao seu redor que acreditam na mesma coisa. O ser humano é um ser social, e o cérebro recompensa concordância.

O que não deveria ser o caso numa discussão política… a não ser que você organize a coisa como um culto. Aí, deixa de ser sobre fazer sentido e passa a ser sobre sustentar uma crença, não importa o que aconteça. O exemplo do QAnon é perfeito porque demonstra muitos dos elementos comuns com religião: a ideia do deus pessoal está lá com a sugestão de que há pelo menos uma pessoa dentro do governo que se importa e está escutando. Entidades públicas são muito impessoais, o cidadão médio não costuma acreditar que seus governantes prestam atenção no que dizem. QAnon, em tese, é uma pessoa poderosa (ou com acesso a uma pessoa poderosa) que está lendo e ouvindo o que o “Joseph of Kales” está dizendo na internet. Assim como os deuses mais tradicionais, as pessoas até aceitam não serem atendidas, mas precisam muito da crença de que estão sendo notadas.

Além disso, é claro, a parte da socialização. Assim como uma religião consegue se sustentar com a validação gerada por um grupo com pelo menos uma crença homogênea, o culto político moderno usa as redes sociais para saciar o desejo de participação do cidadão médio. QAnon cresceu de forma exponencial desde seu humilde começo numa das chans mais baixaria da internet porque começou a ficar cada vez mais fácil achar outros “cultistas” e se validar. Sem socialização, nenhuma religião ou culto conseguem crescer.

Mas, Trump perdeu a eleição… as previsões do QAnon se mostraram furadas, muito furadas. Bom, até dia 20 de janeiro, dia da posse do novo presidente, ainda existem promessas de uma virada de jogo. E essas promessas são todas do mesmo nível das que juravam que metade das elites mundiais seriam presas a qualquer momento por uma rede de pedofilia. Não sei que tipo de informação a maioria das pessoas recebeu aqui no Brasil sobre as alegações do time Trump, mas mesmo eu que quero ver o circo pegar fogo não consigo me empolgar: são análises matemáticas sugerindo fraudes que não se sustentam quando analisadas por matemáticos e estatísticos de verdade; são testemunhos chocantes de pessoas que desaparecem quando chamadas para depor; são evidências de “mortos votando” derrubadas caso a caso visitando as pessoas e comparando os dados reais dos votos…

Nada está colando, mesmo que tenha acontecido uma fraude na eleição, os trumpistas (não estou falando republicanos porque já tem gente do partido renegando ele) simplesmente não conseguem colocar uma prova sólida na mesa. O tempo está acabando. Mas a fé parece intacta: ainda se vê muita gente com certeza que Trump ganhou e logo logo vão provar. Isso é resultado direto da estratégia (consciente ou não) da direita conspiratória americana de lançar uma nova acusação por minuto, seja lá o grau de confiabilidade dela. Estamos vendo uma clara preferência por quantidade sobre qualidade. É a quantidade que mantém a fé desse culto. Uma atropelo de informações, muitas vezes desencontradas, que vai dando sobrevida à esperança de muita gente.

Mas nada é de graça: para manter os cultistas satisfeitos, vão quebrando a própria credibilidade. Talvez se surgir uma pepita de ouro no meio desse lamaçal, ninguém perceba. A tática do mundo das redes sociais de usar muita informação para confundir cobra o preço quando você precisa passar uma mensagem importante. Nem digo que é só a direita faz isso de transformar política em culto, mas o mecanismo deles se provou o mais poderoso para gerar um grupo de fanáticos no curto prazo. A transformação da política identitária de esquerda em religião aconteceu num período bem mais longo. E se a internet nos ensina algo, é que a versão mais rápida acaba sendo adotada, mesmo que tenha muito mais falhas.

A minha preocupação é que o culto da vitória de Trump não tenha o mesmo destino de outros cultos com data marcada. Uma coisa é passar anos prometendo o fim do mundo para um dia específico e perder totalmente a credibilidade quando não acontece, outra bem diferente é se basear numa sequência quase que infinita de promessas que não se cumprem (como a religião organizada vive fazendo), contando que com o tempo as pessoas se apeguem a outros elementos que não a capacidade daquela história se concretizar. Elementos como a ilusão de ser ouvido e validação do grupo.

Essa “evolução” dos cultos digitais já pode ser percebida no seu estágio inicial no Brasil, mas eu aposto que a velocidade da insanidade vai aumentar e muito nos próximos meses e anos. Especialmente se o culto ao Trump resistir nos EUA.

Para dizer que eu fui pago pela elite pedófila, para dizer que o outro lado também é ruim (não muda muita coisa), ou mesmo para dizer que ainda está rindo do cospobre: somir@desfavor.com

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Comentários (6)

  • Notícias nada boas para o Laranjão:

    RECONTAGEM DE VOTOS NO ESTADO DA GEÓRGIA NÃO FAVORECE TRUMP, QUE TEM CADA VEZ MENOS CHANCES DE REVERTER SUA DERROTA NAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DOS EUA:
    https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2020/noticia/2020/11/19/trump-encara-provavel-reves-em-contagem-na-georgia-e-ve-chances-encolherem.ghtml

    POR 5 VOTOS A 2, TRUMP É DERROTADO EM AÇÃO JUDICIAL NA PENSILVÂNIA, COM A SUPREMA CORTE ESTADUAL DECIDINDO QUE OS OBSERVADORES REPUBLICANOS TIVERAM ACESSO ADEQUADO À CONTAGEM DAS CÉDULAS:
    https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2020/noticia/2020/11/18/donald-trump-perde-uma-das-acoes-na-justica-da-pensilvania.ghtml

  • “Não sei que tipo de informação a maioria das pessoas recebeu aqui no Brasil sobre as alegações do time Trump (…)”

    Recebi um vídeo do tipo “Tik Tok” de alguém se filmando preenchendo dezenas de supostas cédulas a favor do Biden uma atrás da outra, como prova do roubo nas eleições.

  • Bacana tua análise, Somir, mas ainda questiono: será que essa vibe de “cultos digitais” (aliás, que absurdo, a que ponto chegamos!) se sustenta por muito tempo?

  • Compare o modo como a Ásia lidou com a pandemia, sobretudo Coréia, Japão e os países da ASEAN, e a bagunça ocidental. Lá não teve negacionista, turma anti máscara, treta com quarentena e já estão funcionando mais ou menos bem. Não fossem as taxas de natalidade baixas desses países, eu até concordaria com os que dizem que o futuro é asiático.
    De todo o modo, o que chamam de ”Civilização Ocidental” faliu é óbvio, a questão é tão somente descobrir o que vai entrar no lugar, qual vai ser o novo centro econômico, cultural e intelectual do mundo.

  • Ótima análise, Somir. É tragicômico esse apego dos trumpistas à esperança de ainda verem, sabe-se lá de que forma, o laranjão conseguir se manter no poder. Também achei pertinente a sua observação de que tudo o que acontece lá acaba sendo reproduzindo por aqui, só que com atraso e sem ter nada a ver com a nossa realidade. Brasileiro, vira-lata como ele só, adora copiar americano em tudo, princialmente nas merdas que o americano faz… Sabendo disso, será que, caso o Bolsonaro também não consiga se reeleger em 2022, nós poderemos ver essa história de acusações de fraude e esse festival de boataria online se repetindo no Brasil?

    • Dezulivre, W.O.J, esse é o cenário que eu não quero ver! Chega de boataria e de polarização, ninguém aguenta mais isso. E bem, seguindo a premissa de que se acontece lá, acontece aqui, bem que podia mesmo Trump perder e Bozo perder.

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