O fim do mundo é previsto desde que o mundo… é mundo. Se está próximo ou distante, Sally e Somir não sabem, mas na hora de discutir o culpado por uma possível extinção da humanidade, sabem muito bem que discordam. Os impopulares colocam um ponto final na história.

Tema de hoje: a raça humana será extinta por ato próprio ou por desastre natural?

SOMIR

Se eu tivesse que apostar, apostaria nos humanos. A natureza já provou que pode ser devastadora, mas a humanidade está cada vez mais próxima de jogar pelas próprias regras. Sally tem certeza que a nossa extinção é inevitável, mas eu não estaria tão confiante assim. Se a humanidade realmente acabar, provavelmente será por uma besteira que fizermos.

Eu sei que minha opinião não é a mais comum, e sei também o que muitos de vocês pensam: uma espécie que não consegue lidar direito com uma gripe turbinada não tem muitas chances contra a natureza. Vão dizer que já viram gente burra demais para confiar na humanidade, que provavelmente merecemos acabar, etc. Todos pontos razoáveis em outros contextos, mas irrelevantes para esta discussão. A realidade pouco se importa com sua ideologia.

Na prática, o ser humano é uma praga progressivamente mais difícil de ser exterminada. Mesmo que não tenhamos, nem de longe, a história mais longa de sobrevivência neste planeta, é a única que aponta para a direção evolutiva certa. Dinossauros dominaram o mundo por milhões e milhões de anos, por exemplo, mas nunca colocaram esse tempo em mecanismos de sobrevivência a desastres naturais. Bastou uma pedrada bem dada em Yucatán…

Por muito mais sorte que juízo, o processo evolutivo humano nos deu ferramentas sem paralelos ou precedentes para domar a natureza. Polegar opositor, excelente regulação de temperatura e um cérebro absurdamente sedento por energia quebraram regras de bilhões de anos de vida no planeta para gerar um animal como nenhum outro. E isso é tão verdade que você provavelmente pode estar esquecendo que mesmo a pessoa mais estúpida e limitada que você já viu é pelo menos cem vezes mais inteligente que qualquer outro animal no planeta.

A diferença é tão gritante que o ser humano criou sua própria linha evolutiva. Faz alguns milênios que não seguimos mais boa parte das regras de seleção natural: não é mais sobre a lei da selva, é sobre a lei do humano. As mutações que geraram pessoas capazes de descrever e alterar a natureza com a profundidade que conseguimos são resultado de aprimoramento consecutivo de capacidades intelectuais e coesão social. O que por si só é uma subversão da ordem natural. As regras do planeta deixaram de valer faz tempo.

E olha que a natureza tentou exterminar a praga que escreve e lê este texto. Por muitas vezes a humanidade passou por grandes apertos, estima-se que a humanidade já tenha passado por um funil de apenas dez mil pessoas em tempos pré-históricos, logo depois de uma imensa erupção vulcânica na Indonésia (onde mais?). Mas o ser humano se aguentou e continuou sua jornada. Organização social, tecnologia, conhecimento, comunicação… até chegar num ponto onde não era mais a natureza nossa principal fonte de preocupação com a vida. No começo do século passado, a Primeira Guerra Mundial ficou pau a pau com a Gripe Espanhola no número de mortos. Foi a última vez que uma ação da natureza conseguiu competir com ações humanas num espaço curto de tempo.

E digo curto porque essa é chave da nossa sobrevivência: desde que a pancada não seja forte o suficiente para matar virtualmente toda a humanidade em pouco tempo, conseguimos nos recuperar. Se o ser humano pré-histórico se virou com pouco mais de dez mil pessoas e acabou com alguns bilhões milhares de anos depois, o ser humano moderno já começa de uma posição muito mais privilegiada. Com raras exceções, desastres naturais não inviabilizam toda a vida num planeta. E por pior que seja o problema, bastam algumas espécies comestíveis vivas que o ser humano dá o seu jeito com o passar dos anos.

Quando eu concedo o ponto de que existem ações da natureza que podem acabar com a humanidade, estou falando de uma colisão de asteroide que derreta toda a superfície do planeta ou de um raio gama de longa duração que frite o planeta todo (se pegar só de um lado, o outro sobrevive). Porque são coisas que podem acontecer antes do ponto de não-retorno da espécie humana: a colonização espacial. Estabilizou uma colônia autossustentável em outro planeta, lua ou asteroide? Foi mal, natureza, mas a chance de você acabar com a humanidade tende a zero.

Posso estar errado sobre a minha hipótese que o século XXI é o último no qual corremos o risco de extinção, mas dificilmente estou errado por muito. Expansões rumo ao espaço podem acontecer de diversas formas, mas a natureza humana sugere que assim que pegarmos o gosto, vamos sair “infectando” tudo o que pudermos alcançar. Não precisa de tecnologia de filme para colonizar a galáxia toda em alguns milhões de anos, basta interesse. Quando a humanidade estiver em diversos lugares diferentes da galáxia ao mesmo tempo, acabou de vez a chance da natureza. A entropia deve vencer a batalha no final das contas, mas o número de anos até ela conseguir isso tem uma quantidade inimaginável de zeros, não conta nesse tipo de discussão.

Mas, se o Paradoxo de Fermi nos sugere alguma coisa, é que alguma coisa deve acontecer com espécies capazes de colonizar galáxias, afinal, já deveríamos ter visto algum sinal ou mesmo ter sido visitados por aliens a essa altura do campeonato. É tudo muito especulativo, claro, mas é o que se chama de Grande Filtro Tardio: algo que dificilmente é natural, afinal, quem morreu por causas naturais obviamente não avançou suficiente em sua tecnologia. E esses filtros tardios me parecem ser o principal risco que a humanidade deve enfrentar no futuro. Das duas uma, ou teremos que ser os primeiros a enfrentar, ou os primeiros a vencer.

Inteligência artificial pode acabar com a humanidade, não faz muito sentido agora, mas é meio óbvio que não sabemos todas as implicações ainda. Uma tecnologia como “gosma cinza”, micro robôs fora de controle transformando toda a matéria que enxergam em cópias deles mesmos; uma descoberta científica que gere um evento de falso vácuo e elimine o universo todo; algo mais banal como um avanço rápido no desenvolvimento de armas de destruição em massa e uma guerra estúpida; a criação de uma arma biológica incontrolável… podemos fazer muita coisa que a natureza não é capaz. Pra fazer alguma coisa na escala necessária para eliminar uma humanidade interplanetária precisa de mais que matéria prima, precisa de intenção e engenhosidade.

Mas se você quer ver o fim de tudo, não se desespere, ainda dá tempo enquanto estivermos limitados à Terra. Cada vez menos. Dado o nosso histórico, é bem provável que sobrevivamos a mais essa era, e mesmo com alguns percalços no meio do caminho, ainda temos algumas centenas de milhões de anos neste planeta antes dele se tornar inabitável para seres primitivos, e bilhões até ele não existir mais.

A natureza trabalha em escalas de tempo muito grandes, quem tem pressa é o ser humano.

Para dizer que discorda de mim porque não gosta de algumas pessoas, para dizer que seu amigo imaginário vai intervir, ou mesmo para dizer que quer mais detalhes sobre como o ser humano pode acabar com a humanidade: somir@desfavor.com

SALLY

A raça humana vai ser extinta por uma catástrofe natural ou por um ato único da própria raça humana?

Bem, na postagem de hoje temos uma discordância forte. Quando sugeri o tema para o Somir ele me respondeu dizendo que SE acontecer, vai ser por um ato humano.

Eu sou do time QUANDO acontecer. O ser humano é só mais um de muitos animais que passaram pela superfície do planeta e, como vieram, irão. Não é o rei do planeta, não é uma espécie imprescindível e, como qualquer outro ser vivo, tem prazo de validade. É QUANDO, não “se”.

E, justamente por essa insignificância que eu vejo no ser humano, acredito que sua extinção vai ser causada por uma catástrofe natural. Acreditem, se o ser humano fosse assim tão poderoso, já tinha se extinguido faz tempo, pois é burro e irresponsável de doer. Não sabe, não tem recursos e/ou não tem culhões quando chega a hora H para fazê-lo.

A natureza, por sua vez, já provou que tem sabem, tem recursos e culhões para extinguir o que ela quiser – e já o fez inúmeras vezes. Se você tem alguma dúvida da grandiosidade e superioridade da natureza quando comparada ao potencial humano, ou você é negador ou é arrogante.

Na vida existem regras e, de vez em quando exceções. A tendência óbvia é que a regra aconteça, apostar na exceção é apostar nas menores chances. Se observarmos a história do Planeta Terra veremos que a regra é a natureza se encarregando de grandes renovações. Não foi uma cagada dos dinossauros que acabou com eles.

Some-se a isso o fato de que o ser humano é uma praga evolutiva e sempre tem um ou dois que conseguem se refugiar, fugir, sobreviver e repovoam a porra toda. Vai ter que ser um trabalho muito bem feito e, acima de tudo, um trabalho surpresa.

Quando um ser humano sabe que vai apertar um botão e causar uma danação, a notícia se espalha e sempre tem meia dúzia de filho da puta que sobrevive. Além de tudo, o ser humano é um fofoqueiro de merda. Se não for pego totalmente desprevenido, sempre vai sobrar alguém.

Com todas as espécies extintas do planeta foi assim: em algum momento a natureza as eliminou. Mas não, o ser humano, esse pequeno alecrim dourado, é diferente de tudo e ele mesmo vai determinar seu fim? Sinto muito, mas o ser humano, esse alecrim mofado, vai pra vala como todo o resto dos seres vivos cujo prazo de validade expirou. Não somos tão especiais.

Pensa na quantidade de cagada que o ser humano já fez. Desde o mau uso da energia nuclear até conduções desastrosas de pandemias. Tudo que podia ser feito para contribuir com nossa extinção já foi feito e… nada.

Se não conseguiu se eliminar quando nem penicilina tinha, não será agora, com uma ciência muito melhor, que vai todo mundo morrer. Se as armas de destruição em massa aumentaram, também aumentaram junto os recursos para se proteger delas.

Quando você é o autor do desgraçamento, você obviamente se protege do desgraçamento. O filho da mãe que vai apertar um botão vai se proteger, vai proteger sua família e seus amigos. E mesmo assim, sempre vai ter algum outro filho da mãe em algum lugar do planeta que vai conseguir se proteger também e escapar. O ser humano é o piolho do mundo, sempre sobra um e reinfesta.

Porém, se a autoria do desgraçamento for a natureza, o ser humano vai ser pego de calça arriada, sem aviso, sem preparo, portanto, vai ficar mais vulnerável ao que quer que seja. Sem contar que a natureza pode promover uns eventos realmente impactantes, com maior potência do que a ação humana e, cá entre nós, eu tenho a impressão de que ela quer se livrar da gente. E está coberta de razão.

Vou além, e talvez vocês me achem louca por isso: da mesma forma que a natureza tira, a natureza dá. Depois das inúmeras cagadas humanas, coisas como Chernobyl, é um milagre que estejamos aqui. Só estamos pela capacidade de regeneração da natureza, que há muito tempo lida e limpa nossas cagadas. Mas, essa capacidade de regeneração tem limites, ela vem em ciclos. De tempos em tempos tem uma grande limpa e a coisa recomeça. Nossa hora vai chegar, quando o ciclo terminar.

Quando isso vai acontecer? Não sabemos. Mas sabemos que é a regra, pois vem acontecendo periodicamente desde que se tem algum registro do Planeta Terra. Nada me leva a crer que nós seremos a gloriosa exceção, aqueles que, por um ato próprio, selaram seu destino. Vamos para a vala por um motivo de força maior, o qual desconhecemos e não controlamos. Lidem com isso.

Eu sei que dói pensar/lembrar da própria insignificância. Eu sei que dói pensar/lembrar que não tem um amigo imaginário com poderes acima da natureza para te salvar, mas esse é o esquema deste mundo. São ciclos de vida e extinção que se alternam desde a inauguração do planeta, então, a menos que você acredite em algo além, é assim que as coisas são.

E, se você acredita em algo além, provavelmente não vai aceitar que o ser humano seja extinto de uma forma trágica, seja pelo próprio humano seja pela natureza, então, este texto é irrelevante para você.

Não tenham tanta fé no ser humano, nem mesmo para destruição ele tem competência.

Para dizer que este texto foi deprimente, para dizer que prefere não pensar no assunto ou ainda para dizer que o mundo vai acabar por um ataque alienígena: sally@desfavor.com

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Comments (8)

  • A maior probabilidade é que esta extinção da humanidade ocorra bem depois de virarmos pó. É muita pretensão para um humano imaginar que vai ter a sorte de presenciar um evento tão magnifico. Temos uma curta passagem de 80 anos pelo Planeta Terra com seus 4.500.000.000 anos.

  • A humanidade é bem capaz de se extinguir por culpa das suas próprias cagadas, mas acho que a natureza é quem vai se encarregar de acabar conosco um dia. O ser humano se acha grandes coisas, mas é insignificante quando se olha para o quadro geral. Do mesmo jeito que a natureza nos pôs aqui, ela também nos tira, e contra isso, não há o que fazer.

    • Concordo. Já disse antes e vou repetir: “O ser humano está para o planeta Terra assim com as pulgas estão para um cachorro. No momento em que a humanidade incomodar demais, o planeta simplesmente ‘dará uma coçadela’ para se livrar de nós”.

  • Não é SE, mas QUANDO! Agora se vai ser o próprio ser humano se matando ou inventando máquinas pra matar uns aos outros ou se vc tá de boas na sale e repentinamente booom, um asteroide detonando tudo é empate técnico!

  • Os mecanismos de diplomacia atuais nos previnem de nos autodestruirmos, e nas ocasiões onde estivemos próximos disso, conseguimos reconstruir tudo depois. Logo, apostaria na natureza.

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