Sim Senhora: CBM – Modo Turbo

Modo Turbo é um clipe de Luísa Sonza com participações de Anitta e Pabblo Vittar que na data que este texto é escrito, está próximo de alcançar 50 milhões de visualizações no YouTube. Estou descrevendo porque eu tenho a esperança que alguns de vocês tenham salvação nessa vida e não tenham a menor ideia do tema de hoje. Até pouco tempo atrás, eu fazia parte desse clube. Era feliz e não sabia.

Quer dizer que é tão precário assim? Não, longe disso. Percebe-se que teve muito dinheiro e padrões minimamente profissionais no desenvolvimento desse material. Não estamos falando da tragicômica pobreza das garotas do Bonde das Maravilhas ou da MC Loma (original), falta de recursos com certeza não é o problema de Modo Turbo. Quer dizer, recursos financeiros…

Porque em praticamente todos os níveis mais subjetivos, é uma ode à limitação intelectual do brasileiro médio. Mas será que eu digo isso por ser um inseguro elitista que não consegue admitir que gosta de música pop? Será que no fundo eu me sinto intimidado por “mulheres poderosas” e desconto isso com as críticas?

Bom, eu vou pegar um caminho alternativo: antes de você ver o clipe do Modo Turbo, quero que você veja o clipe de divulgação de um item cosmético do jogo League of Legends.

Música pop? Sim. Poder feminino? Sim. Estética de games? Evidente. Lembre dele enquanto estiver assistindo Modo Turbo.

Música pop? Sim. Poder feminino? Sim. Estética de games? Sim também. Em tese deveriam ocupar mais ou menos o mesmo espaço no ambiente cultural, não? Mas na prática, é como comparar uma mulher muito bem vestida numa festa chique com uma prostituta bêbada caída na calçada. Você pode até não achar a mulher bonita (pop não é meu estilo preferido, com ou sem k), mas é bem óbvio qual demonstra ter mais valor, não?

A precariedade de Luísa Sonza, Anitta e Pabblo Vittar está no fundo da alma. Não adianta maquiar o porco. E falando em porcos maquiados, vamos falar das primeiras cenas do clipe: as três entram num salão em ruínas, Pabblo parece ter três metros de altura do lado de duas anãs com a típica beleza natural brasileira: dez quilos de silicone na bunda. A cena muda para vermos que é um fliperama abandonado (excelente referência que as novas gerações vão entender na hora) e o clássico som de jogos dos anos 70 que complementa perfeitamente a alta tecnologia demonstrada nas máquinas.

Close em Sonza, que está com um combo de maquiagem tradicional e digital tão exagerado que parece que passaram vaselina na lente. Ela liga a máquina, e aos 15 segundos do clipe, já começa a chacoalhar a bunda. Depois disso, toda ideia que não esteja diretamente relacionada à bunda das três é sumariamente ignorada. Minto: aparece um boneco demoníaco, também rebolando, porque essa gente literalmente não tem mais nada na cabeça além de um cerebelo extremamente especializado em movimentar os glúteos.

Eu tenho o orgulho de dizer que nunca tinha ouvido Luísa Sonza cantar, e não foi uma surpresa descobrir como ela é ruim nisso. É uma voz forçada, sem variação, como se estivesse tentando unir voz de criança assustada com gemidos sexuais o tempo todo. Assim que Anitta aparece fazendo a mesma voz ridícula, eu não aguentei e ri. Aparentemente é isso que faz sucesso com o povo brasileiro: cérebro de criança numa bunda gigante.

E eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas Pabblo Vittar aparece para subir o nível do clipe imediatamente. Inclusive no talento vocal. Sim, é uma voz forçada, mas nesse caso específico, é a única voz possível, né? O alcance é dez vezes maior e pelo menos carrega uma melodia. As outras duas ficam o tempo todo falando pra dentro. E, porra… não é por nada não, mas Pabblo periga de ser a mulher mais bonita do clipe, porque pelo menos não parece que está com dez quilos de maquiagem na cara (embora deva estar). Não, espera, tem mais: em 10 segundos de cena, seus movimentos de dança já são mais complexos e graciosos do que das duas!

Espera! Tem mais! A única que parece uma personagem de videogame é Pabblo Vittar, com cabelo de Chun-Li, as outras duas só se importaram de mostrar a bunda e esqueceram todo o resto. Sério, homem faz tudo melhor. Lembra do clipe do joguinho coreano? As artistas mais famosas do Brasil não conseguem em três minutos cantar de forma minimamente parecida com os primeiros segundos do que até onde eu entendi, eram artistas secundárias da Coréia do Sul. Lembra quando a música brasileira era reconhecida no mundo? Nem eu.

O clipe continua com uma sequência de transformação: as três viram traveco. É… duas de três. E eu acho que rolou uma inveja da Pabblão da Massa aqui, porque depois da mudança de figurino Luísa e Anitta ficam horríveis, mas nada comparado com o layout de Xuxa do inferno que forçaram em Pabblo. Era para ser elfa, mas essa gente não entende porra nenhuma de videogame e colocaram um mar… mulhermanjo de quase dois metros para usar as orelhas pontudas. Onde já se viu elfo desse tamanho?

Eu sei que a estética de games é só uma desculpa para colocar as três em fantasias baratas de sex-shop porque o povo que consome isso nunca instalou um jogo na vida, até porque só usam o celular para mandar e receber nudes, mas ou faz ou não faz. Precisava dessa zona toda só para filmar três minutos de bunda? Não, né? Ah sim, o clipe agora é só bunda até o final. Só… bunda. As escolhas de design, efeitos e tudo mais são bem fracas, não refletem identidade de games (bonitos) e no máximo parece um daqueles jogos vagabundos chineses que instala spyware na sua máquina. Se bem que, vírus por vírus, ver esse clipe mais de duas vezes deve causar herpes…

Ah sim, só bunda. Só bunda mesmo. Em algumas cenas de relance entre as bundas, você pode ver uma espécie de luta de Sonza contra um boneco horroroso (que também rebola sem parar). Uma pena que o clipe seja tão repetitivo, a letra permitia tantas possibilidades:

Modo Turbo – letras:

Senta, senta, senta,
senta, senta, senta.

Senta, senta.

Senta, senta, senta,
senta, senta, senta.

Senta.

Senta, senta, senta,
senta, senta, senta. (69x)

Modo turbo é uma música merda e um clipe merda. Vou dizer que não tem nenhum mérito nas bundas? Tem sim, bunda é uma coisa bonita e eu não vou ser mentiroso dizendo que ignorei. Agora, se é pra ver bunda, dá para jogar no Google e ver todas as que você quiser. Não precisa aguentar três minutos dessa porcaria, não? O clipe do jogo não tem bundas, pelo menos não dessa forma explícita, mas eu veria de novo pela qualidade técnica absurda das animações e as escolhas brilhantes de composição, desenvolvimento das cenas… num clipe feito para vender roupinha de jogo.

Começam a perceber como essa proposta de cultura brasileira pós-funk é uma vergonha? Você pode até argumentar que o clipe do LoL é feito para um público diferente, não pode ter essa pegada adulta do clipe brasileiro. Mas aí eu vou discordar de você: tem que ser muito cara-de-pau para achar que Anitta, Sonza e Vittar não estão focados no público infanto-juvenil, todas essas cores e tentativa de estética de games é para unir música baixaria com elementos agradáveis para crianças. E outra, se você acha que público de jogos não reage bem à putaria, deve ter uns 80 anos de idade e ainda achar que o mercado de games são crianças jogando Pac-Man no fliperama.

Eu tenho certeza que Modo Turbo e o clipe coreano são para o mesmo público, mas o brasileiro é pornográfico por um misto de preguiça e incompetência. E estou falando que é pornográfico por causa de sexualidade? Sim, mas não. Estou usando pornográfico num sentido mais amplo: é a forma explícita e sem refinamento como uma mídia atende aos gostos mais básicos de um público. Modo Turbo é pornográfico no sentido de que abre mão de qualquer sutileza e passa o tempo todo narrando uma relação sexual com vários palavrões, porque o povão se diverte com esse tipo de baixaria. É baixo porque baixeza vende rápido. E é baixo porque ninguém se importa com o público-alvo majoritariamente pobre desse tipo de música.

Foda-se se fulaninha está “brincando de sentar” aos 8 anos de idade. Foda-se fulaninho aprende que tem que sair agarrando mulher por aí para ser macho. Foda-se a hiperssexualização de crianças e adolescentes, isso dá dinheiro e eles são muito pretos ou pardos em média para alguém se escandalizar de verdade. Só não pode fazer aborto aos 11 porque Jesus fica triste, tá?

Luísa, Anitta e talvez num nível menor Pabblo são exploradores da miséria econômica e intelectual alheia. E, francamente, acho que nem entendem isso. Em defesa das três, se não estivessem fazendo isso, outras três de bundas tão grandes quanto estariam no lugar. Essa forma pornográfica de lidar com produção cultural não é um problema por usar sexualidade, e sim porque sem nenhum freio ou escrúpulo, fica tudo preso no menor denominador comum.

Pra quê se esforçar com qualquer outra coisa? Quanto mais sexual e mais explícito, mais vende. Sem nenhuma limitação, o mercado inteiro concorre no grau mais rasteiro do interesse humano, e pouca coisa tem mais poder de atração que onde estamos chegando com a cultura pop, especialmente a brasileira. Ainda tem a barreira entre atriz pornô e diva pop, mas eu tenho certeza que vou viver para ver ela ser quebrada.

E eu não acho que muita gente esteja consciente disso, são sapos numa panela se acostumando com um ambiente cada vez mais apelativo. E a merda é que é muito complicado voltar para um grau menos explícito depois de quebrar as barreiras. Se qualquer uma das três estrelas desse clipe resolverem baixar o tom da putaria daqui a algum tempo, vão ser esquecidas e substituídas por outras estrelas mais dispostas a serem pornográficas. É uma armadilha.

Eu fiz questão de colocar o outro clipe para comparação porque perto de Modo Turbo, ele é cheio de limitações: tem que ser bem controlado no aspecto sexual, precisa passar mensagem de empoderamento feminino que não seja sentar num pinto, tem que passar mensagens edificantes (mesmo que infantilóides e bregas) para os pais das crianças não as proibirem de ver… por isso são obrigados a ter inúmeras alternativas criativas para prender a atenção das pessoas. O nível não aumenta porque sexo é automaticamente ruim e não falar disso é automaticamente bom, o nível aumenta porque você precisa de gente mais talentosa e inteligente em média para vender algo que não seja uma mera necessidade fisiológica como sexo. E, é claro, os coreanos ficaram muito famosos nos últimos anos pela sua indústria da música pop, achei relevante.

E também porque não faria sentido colocar um clipe do Rammstein ou do Radiohead para comparação. Não quero que o pop vire rock alternativo ou que se dobre para atender aos meus gostos, quero apenas que fique claro que nesse ritmo, não vai sobrar muita alternativa a não ser fazer clipe com o microfone no cu e fazer a estreia mundial no PornHub. Se é só para ver bunda… não precisa dessa palhaçada toda, minha gente.

P.S.: esse clipe me deixou puto. Eu odeio vocês.

Para me chamar de reacionário, para dizer que também achou Pabblão a melhor mulher do clipe, ou mesmo para dizer que eu estou ficando velho (ainda bem): somir@desfavor.com

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Comments (22)

  • Eu juro que não conhecia esse clipe, achei chatérrimo, nem assisti todo, mas a descrição ficou da hora. Tomara que mandem o link nas redes sociais pra eles verem ou pelo menos o fã clube de merda ficar putinho. 50 milhões de idiotas! Devem ter votado no Lula, depois no Bozo.

  • Vim esperando um monte de comentário engraçado mas no momento só achei discussões e divagações sociológicas, estou triste.

  • Fui ver os créditos da música e vi nome de 4 compositores. Sim, precisou de QUATRO fuckin’ pessoas para compor o interminável senta, senta, senta…

    E a Pablo, além de ter a voz mais diferenciada dentre as três, foi a única que não mostrou a bunda.

  • fica a reflexão: a música é assim por causa da sociedade ou a sociedade é assim por causa da música? talvez um pouco dos dois.
    geralmente eu sou de boa com a liberdade alheia, mas volta e meia meu chapeuzinho de alumínio interior pensa que essa animalização das camadas mais baixas é proposital pra dificultar/desencorajar a formação de famílias estáveis* e consequentemente impedir a ascensão social.

    *não precisa necessariamente ser tradicional, ok? me refiro a ser um adulto exemplar, com boas condutas, não importa a formação da família.

    • Também percebo isso, é uma enxurrada de músicas que só falam em beber, se drogar e não se responsabilizar por nada. E tudo naquele ritmo maçante que fica martelando na cabeça, quase uma hipnose.

  • “Foda-se se fulaninha está “brincando de sentar” aos 8 anos de idade. Foda-se fulaninho aprende que tem que sair agarrando mulher por aí para ser macho. Foda-se a hiperssexualização de crianças e adolescentes, isso dá dinheiro e eles são muito pretos ou pardos em média para alguém se escandalizar de verdade. Só não pode fazer aborto aos 11 porque Jesus fica triste, tá?”
    O que uma coisa tem a ver com a outra? O que mais tem é religioso se opondo à sexualização de menores, tentando explicar que sexo não é tudo na vida, que não é vergonhoso ser casto, tudo tem sua hora, e que vale mais a pena se esforçar pra formar laços duradouros com outras pessoas do que fazer rodízio. Mas são chamados de retrógrados, atrasados, malvados… Aí temos uma epidemia de DSTs que ficam cada vez mais resistentes aos tratamentos conhecidos. As pessoas sabem que existem doenças e maneiras de previnir elas, mas não querem se cuidar “ah, camisinha é chato”. O que os religiosos têm a ver com isso?

    E quem quer sexualizar criança é essa turminha progressista aí, tipo os exemplares do clipe. Na igreja, as crianças estão usando roupão e cantando no coral, não rebolando.

    • As coisas tem tudo a ver: esse conservadorismo religioso é papo furado, há milênios.

      1 – Se você é contra o aborto, você é parte do problema de encher o mundo de crianças sem a menor chance de ter um desenvolvimento decente. Não adianta só perceber que a menina existe quando sai a notícia que ela vai fazer um aborto depois de ser estuprada. A criança “forçada” a nascer está sob um risco imenso de não ter educação e estabilidade suficientes para quebrar o ciclo.

      2 – O método de controle da religião é baseado em repressão e ignorância: a criança e o adolescente devem ser mantidos no escuro sobre sexualidade e considerarem algo sujo e proibido até um semianalfabeto segurando uma bíblia dizer que pode. Reduz muito a chance desses jovens tomarem medidas de proteção, já que é algo estigmatizado. E quer um bônus? O que acontece com um jovem que acha que algo é proibido? Perde o interesse?

      Eu detesto macaquice de lacrador, mas detesto macaquice de religioso também.

    • “Na igreja, as crianças estão usando roupão e cantando no coral, não rebolando.” Sinceramente, as igrejas não são os lugares mais seguros para crianças. Observe a quantidade de padres que aliciam as crianças, sem contar as mulheres (incluindo freiras, pastoras etc) que traficam os coitados para outros membros da igreja em troca de grana e favores. Reprimir na verdade causa o efeito contrário, assim como a superexposição também é nociva. Teve um caso interessante nos EUA, onde um garoto foi proibido de tomar refrigerante na infância, proibido mesmo, nunca tomou. Quando ele cresceu, não conseguia beber água, mas só conseguia tomar refrigerante.
      Sobre o clipe: não consegui ver nada além de bundas. Meu cérebro deu tilt com tanta cores e estímulos visuais.

  • As mulheres estão literalmente pagando pra virarem travestis, harmonização facial deveria ser crime. Fora a maquiagem pesada que em vez de ficar bonita, acaba caindo no Uncanny Valley…
    Imagina a pele de todas essas mulheres na velhice.

  • “está próximo de alcançar 50 milhões de visualizações no YouTube”
    Assim como nos clipes de k-pop, a maioria desses views são robôs, os fãs ficam vendo em loop pra impulsionar o vídeo.

  • “Ainda tem a barreira entre atriz pornô e diva pop, mas eu tenho certeza que vou viver para ver ela ser quebrada.” Porra, Somir! Agora você me deixou deprimido, viu? Deprimido e preocupado. Geralmente, eu acho esse tipo de postagem divertida, mas, depois de ler esta de hoje, nem quis ver os vídeos. Porque já me aborreci o bastante. Não com o seu texto, claro; mas sim com o panorama que você traça para um futuro que, temo, está cada vez mais próximo. Putaria em música – explícita ou não – sempre me incomodou. E pensar que fui chamado de viado no colégio porque ousei dizer que não curtia as loiras do Tchan ralando na boquinha garrafa…

    • Chegou num ponto onde eu entendi que não tinha a ver com o aspecto sexual, que pornografia era um conceito muito mais amplo. De uma certa forma, essa música pop hiperssexualizada é meio como aquelas propagandas apelativas para crianças que foram banidas décadas atrás. Quando a sua campanha é basicamente uma criança falando “eu tenho, você não tem!” para deixar outras crianças nervosas e inseguras até os pais comprarem o produto, não dá para descer muito mais, não? Com esse tipo de música pop eu vejo algo parecido: depois que você perdeu todas as inibições, o que fazer depois?

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