“Acabou o oxigênio de toda uma unidade de saúde. Tem muita gente morrendo! Pelo amor de Deus!”. O clamor feito pela psicóloga Thalita Rocha em um vídeo gravado em frente ao SPA (Serviços de Pronto Atendimento) de Redenção, em Manaus, mostra a situação dramática que vivem os hospitais da cidade em virtude do aumento de casos de covid-19. Assim como ela, médicos e familiares entraram em desespero e usaram as redes sociais relatando a falta de cilindros de oxigênio para atender pacientes internados em diversos hospitais, vítimas do novo coronavírus. LINK


Dava para fazer um Semana Desfavor só sobre as notícias de Manaus nos últimos dias… Desfavor da Semana.

SALLY

Quando eu falo que esse papo de “acontece em todos os países” é balela, sempre vem um se doer. Me digam, ao final deste texto, se há relatos ou registros de algo semelhante ao que está acontecendo em Manaus acontecendo em algum outro país.

Desde 1918 que se sabe que epidemias/pandemias de vírus respiratórios têm uma segunda onda, que chega meses depois da primeira, e é muito mais letal. O Brasil tinha essa informação. E mesmo que não tivesse, o Brasil viu a Europa se foder e se refoder. Era fato que em algum momento a segunda onda chegaria forte. O país se preparou? Óbvio que não. Mas o que aconteceu em Manaus vai muito além do despreparo.

Manaus protestou pelo fechamento do comércio. Manaus se recusou a fechar. As pessoas se recusaram a ficar em casa. Outros estados parabenizaram Manaus por reabrir e ignorar a orientação de especialistas. O tempo que demorou para essa bomba explodir? 18 dias após a reabertura.

E cada filho da puta ignorante que fez protesto pela reabertura tem sua cota de responsabilidade por tudo que está acontecendo agora. Ainda tem postagem em rede social de políticos comemorando a reabertura e Manaus “não ter se rendido à histeria”. Taí o resultado.

Como todos devem saber, vários hospitais de Manaus ficaram sem oxigênio para dar aos pacientes. Isso não afeta apenas as vítimas de covid, mas a todos aqueles que precisam desse item, desde bebês prematuros, até pessoas que sofreram acidentes de carro ou algum traumatismo muito grande. Não tem oxigênio para ninguém. Pessoas estão morrendo asfixiadas, sem conseguir respirar.

Qualquer pessoa que já teve alguma experiência com falta de ar ou problemas respiratórios tem uma vaga ideia da agonia que deve ser morrer sem conseguir respirar. Aos poucos, o brasileiro está perdendo o básico do básico: não tinha acesso a boa educação, não tinha direito a esgoto ou água encanada… e assim lhe foram sendo tirados direitos, até chegar ao ponto de perder o básico do básico: não pode nem respirar.

O que aconteceu em Manaus não foi uma fatalidade, foi um mix de incompetência, corrupção e ambição. E não foi só culpa do Governo não. Não adianta ficar xingando o Bolsonaro de “genocida”, tudo isso só aconteceu pelo descaso da população com as medidas de isolamento.

A nova cepa de coronavírus (que está sendo chamada no mundo como “o vírus brasileiro”, olha que prestígio) é muito mais contagiosa. Adoram dizer que ela não é mais letal, mas, como nós desmentimos aqui algumas semanas atrás, ela é mais letal sim, não pelo vírus, mas pelo número de casos que gera, que colapsa o sistema de saúde, levando a resultados como os de Manaus: alas inteiras de hospitais morrendo sem ar, como peixes fora d’água.

Então, não é uma questão de “comprar a quantidade certa” de oxigênio ou ser cuidadoso na reposição. Não existem cilindros de oxigênio disponíveis no mundo para atender a um contágio 70% maior. Assim como aconteceu em Manaus, pode acontecer na sua cidade ou no seu Estado, por mais bem aparelhado ou rico que ele seja. A incompetência foi não fazer uma prevenção, para não deixar chegar nesse ponto.

É por isso que a Europa entrou em lockdown (e assim permanece) ao primeiro sinal da nova cepa. É isso ou colapso do sistema de saúde. É por isso que o país onde eu estou, mal havia acabado de abrir fronteiras, fechou tudo novamente quando detectou a entrada de uma pessoa “com o vírus brasileiro”. Não dá para deixar correr solto, em duas semanas a coisa sai do controle. Entendam: o vírus mutou, as medidas que o continham no ano passado não são suficientes este ano.

Mas a população de Manaus foi protestar pedindo para reabrir. Essa “variante brasileira” do vírus nem deveria existir, ela só conseguiu existir pelo número de contágios: quanto mais o vírus circula, maiores as chances dele sofrer mutações.

Como o povo é imbecil, não acredita na letalidade do vírus, acha que existe tratamento preventivo (kit cloroquina, ivermectina, azitromicina e outros remédios que já se provou não serem eficazes contra coronavírus) ou simplesmente acha que tem que sair “pela sua saúde mental”, as pessoas estão circulando mais no Brasil, dando mais oportunidade que ocorram mutações. Parabéns, ferraram com o Brasil e com o mundo todo. Essa porra de variável brasileira já se alastrou por diversos países.

Na parte técnica também vimos atrocidades. Teve empresa escondendo oxigênio para vender depois mais caro, teve o maravilhoso governo federal elevando o imposto de importação sobre os cilindros usados no armazenamento de gases medicinais, teve hospital fazendo corpo mole e deixando oxigênio acabar para comprar em regime emergencial, sem ter que fazer licitação, pagando um preço superfaturado para embolar dinheiro.

Teve até pedido de socorro enviado com quase um mês de antecedência ao Governo Federal, avisando que o aumento de casos estava muito alto e que Manaus não teria insumos suficientes para lidar com isso. Como resposta, o Ministro da Saúde mandou dar Cloroquina, como tratamento preventivo, para que os casos parem de aumentar. Sem sacanagem, o Brasil deve ser o único país do mundo que ainda insiste na Cloroquina, não importa o quanto dê errado.

Quando a coisa apertou (e as pessoas começaram a morrer), o DesGoverno tentou mandar oxigênio para Manaus, mas o avião que o levaria quebrou. Curioso que um dos maiores aviões de carga da Força Aérea Brasileira, foi enviado aos EUA, no meio de uma pandemia, para treinamento, e fica fora do Brasil até fevereiro.

E, por falar em avião, o avião que ia à Índia buscar doses de vacina, atrasou sua partida pois estava sendo “adesivado” com propaganda do Governo Federal. Prioridades. Mas tudo bem, o avião não partiu, pois, como a gente havia adiantado aqui, a Índia não vai dar vacinas ao Brasil agora. Ela deixou isso muito claro, só não entendeu quem tinha problemas cognitivos.

Na carta que o Governo enviou ao primeiro-ministro da Índia pedindo pela vacina, foi colocada uma justificativa mentirosa, alegando urgência para implementação do Programa Nacional de Imunização. Quando a Índia descobriu que o Brasil tinha milhões de doses da CoronaVac prontas, disse que não era caso de urgência porra nenhuma, que o Brasil tinha vacina e que só enviaria depois. Fuén. O resultado foi um avião adesivado à toa e parado, que poderia estar ajudando Manaus.

Deixaram chegar num ponto onde pessoas faleceram em massa por falta de oxigênio. Isso é gravíssimo, eu não tenho palavras para descrever o que está acontecendo. Deixo a descrição a critério de um profissional avalizado. Segundo o pesquisador Jesem Orellana, (ILMD/Fiocruz Amazônia), “a situação de Manaus é uma das maiores tragédias da saúde pública já documentadas na história recente” e “a nova variante é uma grande ameaça não só para o Brasil, mas para a humanidade”.

Muita gente morreu. Alas inteiras de hospitais. E os que não morreram provavelmente vão ficar com sequelas cerebrais permanentes. Repito: não são apenas doentes de covid, são todas as crianças, bebês, adolescentes e adultos que, por qualquer motivo, precisavam de oxigênio.

Hoje acabou o oxigênio, amanhã serão outros insumos. Quando o número de contágios aumenta em 70%, as necessidades dos doentes também aumentam. O nível de anestésicos, por exemplo, está baixo. Isso quer dizer que não poderão colocar pessoas no respirador, mas também quer dizer que não poderão fazer cirurgias. Colapso no sistema de saúde é isso: uma simples apendicite te mata. E não há nem sombra de ajuda do Governo Federal.

Sabe quem ajudou Manaus? Nicolás Maduro. A Venezuela, que, assim que soube do ocorrido, disponibilizou oxigênio dizendo que independente de rivalidades políticas o mais importante era “ajudar o povo irmão do Brasil”. Manaus é um curral eleitoral do Bolsonaro, imagina quantos bolsonaristas não tiveram a vida salva pela Venezuela, que eles tanto criticam. Sim, uma merda ter que ser grato a um ditador (o fato dele ajudar o Brasil não apaga o fato dele ser um ditador), mas até ele se provou melhor do que o Bolsonaro.

Se fosse o inverso, será que Bolsonaro mandaria ajuda para Maduro? Ou tripudiaria dizendo que nisso que dá votar num governo de esquerda? O Brasil e o brasileiro se tornaram um povo pequeno, mesquinho, egoísta.

Daqui pra frente, cada vez que um brazuca falar que “A Argentina vai se tornar a Nova Venezuela”, vou entender que a Argentina está socorrendo o Brasil com cilindros de oxigênio. Por sinal, em vários países da América Latina, inclusive na Venezuela, as pessoas já estão usando o país como referência negativa, dizendo que é preciso estar atento ao combate ao covid “se não o país pode virar um novo Brasil”. Karma is a bitch. A referência negativa na América Latina não é nem a Venezuela nem a Argentina. É o Brasil.

Vários famosos e influenciadores também resolveram ajudar, doando dinheiro para a compra de material em Manaus. Que bom, que legal, mas são os mesmos que até ontem estavam postando fotos em passeio de barco, em festa, em hotel. O que gerou tudo isso, desde a variante do vírus até o colapso do sistema de saúde, foi as pessoas (que podiam) se recusarem a ficar na porra das suas casas, fazendo isolamento social. Então, se a consciência pesa menos doando dez cilindros de oxigênio, bom para o influencer. Para mim, continuam sendo uns escrotos.

Vocês estão cientes que família rica de Manaus, quando pega covid, toma um voo (mesmo sabendo que estão contaminados) para se tratar no Sul e Sudeste do Brasil, né? Vocês estão cientes de que essa “variante brasileira” já já chega na porta de vocês e que não adianta dinheiro, plano de saúde ou um hospital bem administrado, não vai ter oxigênio para todo mundo?

Se estão cientes, façam lockdown, que é a única forma de conter essa cepa. Se Procurador de Manaus deu entrevista chorando por seu filho estar morrendo sem oxigênio no hospital, é sinal de que a questão transcendeu classes sociais. Se em 2020 a gente falava que “fodeu”, em 2021 estamos te dizendo que “fodeu muito”. A situação é 70% pior. Não saiam de casa a menos que seja questão de sobrevivência.

Eu vou repetir, pois aparentemente o brasileiro anda com um bloqueio mental para entender as coisas: NÃO HÁ OXIGÊNIO NO MUNDO SUFICIENTE para amparar a quantidade de infectados dessa nova cepa se não fizerem lockdown. Você pode ser rico, pode ter o melhor plano de saúde do mundo, nada vai te salvar, a não ser uma vacina, e aí, é um novo problema.

A única salvação possível vem sendo escrotizada e divulgada como um “fracasso”. Vamos fazer texto sobre isso na semana que vem, entrando em detalhes, só vou deixar registrado aqui um dado muito importante: a eficácia da Coronavac em casos graves é de 100%. Isso quer dizer: pode até ser que você pegue, mas não vai morrer. Quem acha isso pouco é um retardado.

Todos, eu disse TODOS os que tomarem a Coronavac podem ter a certeza de que não precisarão de internação em CTI nem de respirador, que é o que faz colapsar o sistema de saúde. Era para vocês estarem comemorando isso como a conquista do século, em vez de politizar vacina e reclamar dos 50% de eficácia contra infecção.

Mas o brazuca quer vacina para ir pro barzinho e retomar um normal que nunca mais existirá, como a Coronavac não impede o contágio, não serve para retomar a vida social e isso deixou o brasileiro com beicinho. Seus idiotas, é uma notícia maravilhosa que mais ninguém morra de covid!

Resuminho rápido e didático sobre a eficácia da vacina, pois entraremos em detalhes na semana que vem:

– Se você tomar a Coronavac, você tem 50% de chance de não ser infectado
– Se você for infectado, tem 78% de chances de não sentir nada
– Se você for infectado e apresentar sintomas, tem 100% de chance de não morrer.

Se vocês acham isso pouco ou um fracasso, vão tomar no meio do cu. A única solução para o Brasil agora é vacinar, vacinar rápido, vacinar em massa. Todo mundo tem que tomar vacina.

Como a vacina não tem eficácia imediata, todo mundo tem que fazer lockdown enquanto isso. Vai acontecer? Não. Mas você pode se cuidar e fazer seu isolamento social rigoroso por sua conta. Olhe à sua volta, parece alarmismo nosso ou da mídia? Ou tem realmente uma tragédia se concretizando?

Nem em ditaduras violentas e burras como a de Lukashenko na Bielorrússia (aquele falou que covid se curava com vodca e sauna), nem em país pobre africano, nem na porra da Indonésia, o país que mais se ferra no mundo tem algo parecido acontecendo. Muito pelo contrário, já estão aplicando a vacina. O que aconteceu em Manaus não acontece em todos os países. Tem um grau de descaso com a vida humana que é exclusividade brasileira. Aceitem que vocês são os fodidos da vez, assim fica mais fácil arregaçar as mangas e tentar mudar.

Se não perceberam, a gente informa: a Nova Venezuela são vocês. Fiquem em casa, vai morrer muita gente quando essa nova cepa se alastrar e quando bater a conta do réveillon.

Para dizer que preferia não ter lido este texto, para dizer que somos alarmistas ou ainda para dizer que medida preventiva eficiente teria sido o Adélio rodar a faca: sally@desfavor.com

SOMIR

Recebemos críticas de tempos em tempos por não bater o suficiente no Bolsonaro, relativizando sua culpa na bagunça ainda maior que o Brasil se transformou desde o começo da pandemia. Ele com certeza é um dos principais culpados por falhas grotescas no planejamento de crise pela sua postura anticientífica, afinal, pauta a escolha de ministros pela subserviência, e subserviência apenas. Pazuello não tem a menor ideia do que está fazendo, apenas fazendo propaganda de Cloroquina a mando do chefe como Ministro da Saúde. E se qualquer membro do Governo Federal começar a fazer um bom trabalho e chamar atenção, sabe que será demitido por ciúmes.

Então, claro, Bolsonaro não só é incompetente como é uma força de incentivo à incompetência, especialmente na crise de saúde pública que vivemos. Agora, quando começamos a falar do mau exemplo que dá ao rejeitar as medidas de distanciamento social, máscaras e até mesmo o discurso antivacina, já estamos lidando com uma área mais cinza da sua culpa pelo o que acontece no país. Sim, não ajuda nem um pouco se recusar a dar exemplo e fazer discursos frequentes rejeitando o conhecimento científico, mas ele não tem o poder direto de forçar alguém a sair de casa.

Sempre fazemos essa ressalva, e vou repetir mais uma vez: quem sai de casa porque a alternativa é ficar sem dinheiro nenhum e passar fome nunca vai merecer crítica. O Brasil é um país de muitos pobres e poucas redes de proteção social. Completamente compreensível que uma boa parcela desse povo não tenha o luxo de fazer uma quarentena que já vai durar quase um ano. Dito isso, nem todo mundo está à beira de perder tudo, e com certeza ninguém está sob o risco de colapso completo de seu modo de vida por deixar de sair para tomar uma cervejinha.

O que estamos vendo em Manaus e no resto do país é uma espécie de segunda onda brasileira, espécie porque não dá para dizer que a primeira acabou de verdade antes do aumento considerável de casos das últimas semanas. Esse é o preço que se paga pelo brasileiro achar que a doença tinha acabado nos últimos meses de 2020. Avisamos aqui, como quase todo mundo que estudou minimamente sobre o assunto avisou também: as festas de final de ano iam cobrar caro no começo de 2021. A conta chegou. E essa foi só a primeira parcela.

Pra falar a verdade, eu acho que até com um presidente menos maluco o Brasil estaria passando por apertos, porque o povo não é muito capacitado para encarar uma pandemia, e seus representantes locais normalmente não são escolhidos por competência. Provavelmente menos aperto, mas aperto do mesmo jeito. O brasileiro é teimoso e não consegue enxergar muito além do próprio nariz. Como já escrevi antes, um efeito colateral de viver num país tão desigual e corrupto. Pergunta Tostines: o brasileiro é egoísta porque o sistema não funciona ou o sistema não funciona porque o brasileiro é egoísta?

Seja lá a resposta, o resultado é visto em Manaus. O povo protestou pelo direito de viver um colapso no sistema de saúde, e conseguiu! Claro que não podemos ser tão cínicos ao ponto de achar que sabiam exatamente o que estavam fazendo, mas há de se preocupar com o fato de que faz quase um ano que estamos convivendo com a covid-19 e muita gente parece completamente imunizada contra aceitar a verdade. Não tem atalho, não tem jeitinho, não tem depender da sorte: a doença é perigosa em largas escalas e já está circulando por todos os lugares do país, especialmente nas maiores concentrações populacionais.

E aí, Bolsonaro pode ser visto como um termômetro desse povo negacionista: quando não está morrendo muita gente, dizem que é só uma gripezinha, quando está, dizem que fizeram tudo o que podiam mesmo tendo agido contra o tempo todo e se voltam para reclamar da vacina. Quem tenta sustentar um modelo de realidade tão distorcido na cabeça é obrigado a ficar saltando entre posições indefensáveis sem aprender qualquer coisa no caminho. Se a pessoa acreditar por um segundo que a pandemia é um problema sério, não consegue mais se enganar achando que tudo vai ficar bem sem sacrifícios.

E é disso que muita gente não quer abrir mão: da ilusão que não vai ser difícil, de que vai passar logo. Estamos prestes a ver mais um problema acontecendo em larga escala: mesmo quem se vacinar tende a achar que está liberado para fazer tudo como fazia antes assim que tomar a primeira injeção… é uma recusa patológica de escutar as regras básicas de combate a essa doença.

A minha teoria é que faltou impacto na desgraça que a doença causou na humanidade para ativar o “modo guerra” do ser humano médio. Quando a pessoa acha que está prestes a tomar uma bomba na cabeça, aceita uma série de limitações e esforços extras, até porque começa a ver sua comunidade fazer o mesmo. Mas, no caso de uma pandemia como a de covid-19, é um jogo de probabilidades que não funciona bem na cabeça da maioria das pessoas. Acham que é a mesma coisa que deixar de sair de casa por medo de levar um raio na cabeça, que é só mais uma daquelas probabilidades minúsculas que ignoramos para poder tocar a vida. Não é. É uma probabilidade sobre a qual temos uma boa dose de controle, e é muito mais letal que isso. Especialmente para grupos de risco como idosos e pessoas com outras doenças. Civil por civil, uma pandemia relativamente leve como a que vivemos é até mais perigosa que uma guerra.

A não ser, é claro, que tratemos isso como uma guerra. Evidente que não existe controle absoluto nessa vida, mas o grau de poder que o cidadão médio tem sobre sua segurança em relação ao covid-19 é muito grande, desde que leve a situação com a seriedade que ela pede. O brasileiro trocou a segurança real de agir de acordo com as indicações dos especialistas pela segurança imaginária de não pensar na doença. O resultado está aí.

Incompetência, falta de planejamento e eu tenho certeza que corrupção fazem parte do caos em Manaus (que pode acontecer em diversas outras cidades do país, que fique claríssimo), e isso é a cara do Brasil há séculos, mas o fato novo desse “negacionismo digital” que se espalha como uma comorbidade torna tudo ainda mais complicado que o habitual.

O Brasil respira com ajuda de aparelhos.

Para dizer que prefere o meu texto porque o da Sally tem tanto fato horrível que deprime o dobro, para dizer que não é mais o pulmão do mundo, ou mesmo para dizer que é frescura até acontecer com você: somir@desfavor.com

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Comments (26)

  • Quem se adapta mais rápido sobrevive. Em um dos textos sobre covid, a Sally falou algo sobre isso. Ela tem razão. O ônus da consciênciaa respeito do problema é medo iminente de se contaminar. Isso é extremamente estressante. Por outro lado, negar o óbvio ululante é por o pescoço para testar guilhotina. Parafraseando alguém: “a gente pode até negar a realidade, mas nunca as consequências de negá-la”. No mais, gostaria de falar que a Sally é chatona falando mal do Brasil e que nega a bestialidade dos outros povos. Mas não dá. O que está acontecendo pora aqui ultrapassa todos os limites, é o sumo do descaso. É de chorar. A variedade brasileira chegou ao Japão, muito provavelmente, já está circulando na nossa vizinhança. Por fim, Bolsonaro representa bem o brasileiro, um povo egoísta e irresponsável, que adora pagar de fodão e zoar de quem anda na linha. Ser correto é motivo de deboche. Se só quem aglomerou pegasse, eu não ia me importar se morressem. Menos um fdp no mundo. Mas morre também os profissionais que salvaram milhares de vida, idosos que estavam desde março em quarentena, pessoas com a imunidade comprometida…

  • Atualmente estou em Manaus e posso dizer que a população tem sua parcela de culpa. Claro que tem pessoas que não tiveram escolha, precisavam sair para trabalhar, mas quem podia ficar em casa optou por viver normalmente. Desde o ano passado todos os shoppings lotados, restaurantes abertos, escolas funcionando, e ninguém parecia preocupado. E vocês acham que não vai chegar nos outros lugares? Teve um colega do meu trabalho que viajou recentemente pra fazer intercâmbio no Japão!! Eu queria saber como diabos o Japão permitiu a entrada dele no país com esse caos que estamos vivendo (vcs viram que a variante já chegou lá). E teve uma outra colega minha que foi para o Canadá (também recente) dizendo que ia sair de Manaus pois não é seguro permanecer na cidade. Acho errado viajar agora sem estar vacinado, mesmo que seja pra fugir do brasil, isso vai ter consequências negativas. Gente saindo de férias e postando fotinho na praia… Não sei como estão conseguindo viajar normalmente, mas logo logo essa merda vai se espalhar pra outros lugares.

  • Vou mandar esse texto pra minha mãe, pra ver se ela entra em razão. Semana que vem vai ir na praia com uma amiga. Eu aqui na Argentina, longe dela faz mais de ano e ela querendo ir na praia. Tem 60 anos. Tudo o que eu digo entra por um ouvido e sai por outro. Eu falando com meu irmão, argumentando e os dois dando risada da minha cara, me chamando de dramático. Minha mãe pode morrer e eu não pude fazer nada. É triste!

  • Oi, posso fazer uma pergunta de FAQ? A minha madrinha falou que vai tomar a vacina na clínica particular quando tiver e vai custar 500 reais. Esse preço procede? E vai ter mesmo em particular ou pode ser golpe? Como saber?

  • “A minha teoria é que faltou impacto na desgraça que a doença causou na humanidade para ativar o “modo guerra” do ser humano médio.”

    É bem o que penso. Talvez fosse mais “fácil” tirar o vírus de circulação se fosse um daqueles vírus de filme catástrofe que tem o mesmo efeito mortal em qualquer pessoa, porque aí é mais provável que todo mundo se trancasse em casa espontaneamente. Como covid é quase que loteria, não tem o mesmo impacto na população.

    • O ser humano é muito ruim de probabilidade. É um ponto cego no funcionamento do cérebro médio mesmo. Ou treina isso muito bem na escola, ou a pessoa vai chegar na vida adulta sem a menor noção do que a maioria dos números práticos da nossa sociedade significa.

  • Essa postagem de hoje simplesmente acabou com o meu dia. Tive vontade de chorar ao ler o texto da Sally! Fiz o que estava ao meu alcance, espalhando o link daqui para o máximo de pessoas possível. Eu só não sei se isso vai adiantar para alguma coisa… Isto aqui é um eterno pesadelo! As tragédias nesta pocilga se acumulam, cada vez maiores, por séculos, e não há sequer um mínimo sinal de “luz no fim do túnel”. O Brasil acabou. Já não há sentido em ter esperança quando se vive em um país que deixa as coisas chegarem a esse ponto…

  • E a oposição que deveria estar no pescoço do governo por causas dessas presepadas fica preocupada em fiscalizar fantasia de índio e linguagem neutra…
    (Bolsonaro vai tomar essa vacina escondida de qualquer jeito mesmo)

  • E essa demora da Anvisa em aprovar as vacinas????
    Precisa mesmo de tantos dias? Quantas horas por dia essas pessoas tão trabalhando? Obviamente a situação exige que se vire a noite trabalhando.
    Já faz vários dias que a Coronavac tá disponivel, os estados falaram que tem seringas, tão esperando o que???
    BR sempre consegue surpreender negativamente.

    • Olha, ainda que libere aqui em SP, a vacina só vai ser fornecida num primeiro momento a profissionais de saúde indígenas e quilombolas e logo depois escalonada para os idosos. Menores de 60 anos, mesmo que possuam doenças crônicas que possam implicar em complicações por conta do Covid estão de fora.

  • Mas se cada estado foi autorizado a agir de forma independente pelo STF, qual a lógica de culpar a autoridade que menos tem poder?
    Sim, o Bolsonaro faz e fala muita merda, mas o Brasil é desorganizado pra qualquer coisa. Território imenso, coesão social zero, instituições burocráticas, corruptas e ineficientes. etc. Mesmo que o presidente quisesse fazer um lockdown decente, não iria rolar. Qualquer que fosse o presidente, ia dar a mesma merda.

    • A decisão do STF foi para impedir que o Bolsonaro proibisse a quarentena. Ele estava indicando que ia decretar a suspensão das quarentenas, e a ação da OAB foi justamente para evitar que ele tivesse esse poder. Sério que já esqueceu disso? Não faz nem um ano…

      Muito curioso que quem venha discutir nossa lógica aqui ache que a decisão que tirou o poder do Bolsonaro de acabar com quarentenas seja a responsável pela falta de quarentenas.

        • Sim, o povo brasileiro é mais arredio que muitos outros povos, e isso contribuiria de qualquer jeito.

          Mas bandalheira completa só é possível com conivência do Estado. E como dissemos no texto, de cima a baixo do Estado teve gente contribuindo com essa zona.

  • A nova cepa de coronavírus (que está sendo chamada no mundo como “o vírus brasileiro”
    China tentando tirar o seu da reta…

    • Surgiu no Brasil, graças à irresponsabilidade do brasileiro de circular muito em meio a uma pandemia. Esse filho é brasileiro.

  • Moro em Manaus e a situação aqui é desesperadora. Toda hora anúncio de pessoas próximas que não resistiram e mais e mais pedidos angustiantes de ajuda que não temos como auxiliar…

      • Apoio essa ideia, Sally. Eu também gostaria de ler o relato de alguém que está “no olho do furacão”, mesmo sabendo que, provavelmente, vou me sentir mal de novo…

    • Também apoio! E depois é tratar de fazer o texto circular. O leitor médio do Desfavor está bem informado sobre a pandemia. Precisa fazer chegar em quem não vem até aqui.

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