Copo meio vazio.

Jurandir já sentia dificuldade em alinhar a mão com o copo de cerveja na sua frente. O movimento precisava de toda sua atenção, ainda mais com a luz baixa e o som alto do bar ao seu redor. Feito o contato, ele toma mais um gole, muito embora já não sinta que tem muito mais de consciência para entorpecer depois de algumas horas de bebedeira.

Misturadas à música ambiente, várias vozes, risos e gritos formam uma cacofonia cada vez mais indecifrável. De tempos em tempos alguma palavra se forma, seja da canção brega estourando nos alto-falantes ou das animadas mesas ao seu redor, o suficiente para captar sua atenção. Normalmente nada que o faça esquecer o motivo pelo qual viera até ali afogar suas mágoas.

Mas dessa vez, o som da palavra é acompanhado por uma alteração no seu campo visual. Uma mulher praticamente se materializa na cadeira ao lado, Jurandir incapaz de se lembrar se ela estava lá ou não alguns segundos atrás. Suas feições não permanecem fixas por muito tempo. Ela parece estar dizendo alguma coisa.

“triste… companhia…”

Jurandir estica o pescoço em sua direção, olhos esbugalhados em busca de uma confirmação visual. Ela tem a pele bem morena, cabelos levemente encaracolados, negros como a noite. Seus olhos são grandes, cor de mel. A boca se destaca com um tom muito vermelho, e quando se mexe, deixa escapar dentes manchados de batom. Ela sorri e estica a mão em sua direção.

Ele usa toda sua experiência recente em acertar a posição do copo de cerveja para retribuir o gesto. Suas mãos se tocam. A mão dela é quente, o contato é agradável, depois de tantas horas de sofrimento solitário. O encontro das mãos é sinal para que ela se aproxime, arrastando a cadeira de plástico para seu lado. Um movimento súbito que termina com o rosto dela colado ao seu, com sua voz extremamente próxima dos ouvidos.

“Cem reais, meu amor. Tenho um quartinho aqui perto.”

Ele perde o olhar no horizonte. As luzes do lugar estão fora de foco e não param no lugar, como bolhas se formando na sua cerveja. Espera alguma resposta da própria mente, mas ela não vem. Ele se volta para a mulher, e na falta de algo melhor para dizer, apenas acena com a cabeça. Ela se levanta da mesa, e numa sequência de eventos que mal registram em sua mente, ele conversa com o garçom, paga a conta e sai do bar acompanhado.

A iluminação do bar não era das melhores, mas a rua não era muito melhor. O dia havia sido chuvoso, o chão ainda com algumas poças das quais se desviava com a ajuda de sua companheira. O céu ainda nublado escondia o pouco de luz vindo da Lua. Apesar disso, ainda conseguia ver o sorriso dela, que segurava seu braço, aparentemente se divertindo com seu estado lastimável de embriaguez.

Jurandir, talvez por instinto, resolve tomar a iniciativa de um beijo ali mesmo. Ela não oferece muita resistência inicial, mas começa a guiar seus braços para longe de seu corpo, ainda sorridente.

“A gente já está chegando, meu amor.”

Ele ri, talvez pela primeira vez no dia. Ela acompanha, mesmo que um tanto surpresa. A risada dele continua, cada vez mais alta.

“O que aconteceu?”

Ele demora mais alguns segundos para terminar o riso, e sem dizer uma palavra, busca um maço de cigarros surrado no bolso. Com dificuldade, pesca um deles, dobrado e amassado, e oferece para a mulher. Ela se nega, mas puxa uma caixa de fósforos da pequena bolsa que carregava. Com uma habilidade que Jurandir com certeza não tinha mais naquele momento, risca um e acende o cigarro que ele segurava na boca com dificuldade. Os dois seguem seu caminho.

A rua termina numa avenida, mas pouco antes uma viela oferece um caminho alternativo. Os dois seguem por ela, descendo alguns degraus até encontrarem uma rua ainda mais isolada, margeada por um córrego e muito mato. O movimento, no entanto, era bem maior que na rua anterior: diversos pequenos bares se apresentavam em sequência, com várias mulheres em diferentes graus de vestimenta ocupando suas entradas.

A mulher o guia até um sobrado, algumas casas depois do último dos bares. O lugar é escuro e o cheiro é indecifrável, um misto de perfume barato, mofo e suor que só aumenta quanto mais se aprofundam nos corredores. O som de gemidos, gritos e risadas ocupa seus ouvidos, misturado com as direções dadas pela sua companheira.

Apenas quando entram num dos quartos e ela fecha a porta que ele consegue se concentrar novamente na voz dela.

“Eu só faço com camisinha, e tem que ser das minhas. O dinheiro você coloca aí.”

Ele olha ao seu redor, o quarto tem apenas uma cama, de solteiro, ao seu lado um criado-mudo e na parede oposta, apenas uma cadeira plástica de um dos bares locais. As paredes estão descascadas de uma pintura bege, exibindo mofo verde no cimento exposto. Uma pequena lâmpada ilumina o local, piscando de tempos em tempos. Jurandir acena com a cabeça em concordância com os termos da prostituta, e logo se senta na cama.

Sem cerimônia, ela levanta o vestido que usava num movimento só, ficando apenas de calcinha. Ele finalmente presta atenção em seu corpo, mais atraente até do que estaria disposto a aceitar numa situação dessas. Ela começa a tirar os brincos e um colar dourado. Da bolsa, retira uma camisinha, que segura entre os dentes enquanto prende o cabelo num rabo-de-cavalo.

Jurandir abre a carteira, coloca quatro notas de vinte e quatro de cinco no criado mudo. Logo começa a tirar os sapatos. Após o segundo, para e suspira, cabisbaixo.

“Quer que eu te ajude a tirar a roupa, amor?”

Ele levanta a cabeça lentamente, fazendo contato visual. Seus olhos estão marejados. Ela se aproxima, sentando-se ao seu lado na cama.

“Se você quiser conversar um pouco, tudo bem…”

Ele sente um nó na garganta, que se desfaz em choro rapidamente. Ele se deixa cair na cama, costas plantadas sobre o lençol rosado. Ela se posiciona ao seu lado, de forma a segurar uma de suas mãos. Ele vira o rosto na direção dela, e fala pela primeira vez:

“Eu não queria ir embora.”

“Você vai ter que sair da cidade?” – a mulher pergunta com uma expressão genuína de empatia.

“Bem mais do que isso. Eu vou ter que ir embora desse mundo.”

“Doença?” – ela parece mais preocupada.

“Não. Trabalho.”

Ela cerra os olhos, expressão confusa. Ele olha para o teto, a luz ainda piscando, e continua:

“Eu vim de muito longe, meu trabalho é analisar vocês. Eles me deram um corpo e uma vida para seguir. Vida difícil, ao redor das pessoas mais pobres, era a forma que eles disseram ser mais eficiente para entender a… condição humana.”

“Ai moço, não fala essas coisas que eu fico assustada…” – ela afasta as mãos dele para se cobrir com o lençol, mas não sai da cama.

“Se eles quisessem fazer mal para vocês, já teriam feito. Eu sou só um pesquisador. O que não me disseram é que eu teria todos os sentimentos de um nativo. Eu fiz uma vida aqui. Eu tinha uma mulher, eu tinha duas filhas.”

“O que aconteceu com elas?”

“Elas sabiam demais.”

“Moço…” – a prostituta começa a se afastar.

“Eu não matei elas. Eu fiz elas acreditarem que eu tinha morrido alguns dias atrás, achei menos cruel do que simplesmente sumir. Ninguém me disse que acabava assim… aposto que era para não me fazer ter medo de formar relações aqui. Mas e agora? O que eu faço? Eu vou deixar elas aqui neste planeta, neste planeta perigoso, cheio de problemas… e não vou poder mais protegê-las!”

“Eu posso dar uma olhada nelas se você quiser. Meu primo é do partido, sabe? Eu digo que é para não mexerem com elas.” – a mulher já parece ter vencido o estranhamento inicial pela conversa.

“Eu agradeço, mas eu tenho certeza que daqui a algumas horas você só vai se lembrar de um cliente bêbado que não conseguiu transar e foi embora sem dizer uma palavra. Eles vão conseguir ver com quem eu falei e apagar as memórias de acordo.”

“Eu vou esquecer de tudo isso?”

“Sim.”

“Quem são eles?”

“As pessoas que me contrataram para vir até aqui. Existia a lenda de um só planeta de onde todos nós viemos. Uma religião imensa, maior que a galáxia, apostava todas as fichas na mítica Terra. A gente encontrou uma, não é a nossa, mas essa é a realidade mais parecida que descobrimos até aqui. Eu sou a única conexão entre essas realidades. Mas meu tempo está acabando. A próxima oportunidade só acontece daqui há mil e duzentos anos.”

“Eles são tipo pastor de igreja?”

“Há… sim, tipo pastor de igreja. E minha volta vai ser vista por trilhões de pessoas! Eu tenho que estar num campo aberto ao nascer do sol, eles vão conseguir finalmente mostrar a Terra para os fiéis. Mesmo que não seja exatamente a Terra que eles dizem… isso aqui é muito diferente do que eles dizem, sabe? As pessoas daqui são do mesmo jeito que no tempo que eu vivo, mas eles adoram falar sobre como o povo original era puro, inocente… eu tenho certeza que vão apagar minha memória quando voltar, para só contar as partes que interessam.”

“Então, você tem menos de uma hora antes de sumir?”

“Sim. Já deveria ter saído, mas me fez bem conversar um pouco antes, ter minha última dose de humanidade verdadeira antes do show de falsidade que vou ter que fazer para eles…”

“E se eles não te tiraram daqui nessa hora, vai demorar mil anos para poderem tentar de novo?” – a mulher se aproxima novamente, como se um plano se formasse na cabeça.

“Eu pensei nisso. Mas meu corpo pode ser desligado a qualquer momento. Se eu não estiver lá na hora certa, eu simplesmente deixo de existir em todas as realidades…”

“Meu pai era pastor, moço. Linha dura na frente da congregação, mas um mentiroso em casa. Vivia enganando minha mãe e mexendo comigo.”

“Eu sinto muito.”

“Eu também, mas quando eu entrei para essa vida, eu me livrei dele.”

“Valeu a pena?”

“Não sei. Só sei que de ficar longe dele eu nunca me arrependi.”

“Bom, obrigado pela conversa que você vai ser obrigada a esquecer. Está na minha hora.”

“Espera…” – a mulher se levanta da cama e pega o seu vestido da cadeira. “Eu vou junto.”

Alguns minutos mais tarde, no final de uma estrada de terra que terminava num pasto não muito longe da casa onde ambos estavam, Jurandir espera sentado no ponto mais alto do terreno, os primeiros raios do sol iluminando seu rosto num tom alaranjado. As nuvens da noite anterior se desfazem lentamente, exibindo um céu cada vez mais claro.

Ele começa a perceber alguns pontos de luz em formação no horizonte, eles se movem em alta velocidade, cada vez mais próximos.

“Castir Ezequiel Terceiro, você está sendo contatado pela Igreja da Alma Original. A sua hora do retorno se aproxima. Três galáxias acompanham seus momentos finais na Terra.”

Jurandir suspira, pensando na mulher e nas filhas, que ainda devem estar chorando sua morte poucos quilômetros dali. Ele olha ao redor, observando a natureza praticamente intocada da Terra, antes de milhões de mutações genéticas criadas em laboratório como as que se acostumara no mundo para o qual estava prestes a voltar.

“Levante-se, Castir! Levante-se e transfira sua consciência de volta para esta realidade decadente, e com suas palavras e ensinamentos da Terra original, ilumine o futuro!”

Ele não queria iluminar ninguém. Queria mesmo era estar em casa ouvindo sua esposa reclamar da dificuldade de pagar as contas, lidando com a bagunça que sua caçula sempre fazia quando brincava na sala e com a teimosia pré-adolescente da outra filha, que parecia cirurgicamente atrelada ao seu celular. Trocaria todas as tecnologias do futuro por mais alguns momentos com a família.

Mas não havia escolha. Se quisesse alguma chance de voltar no futuro, precisava se manter vivo. E para manter a consciência viva, não podia se recusar a voltar. Ele começa a sentir a mente ficando leve, o processo de transferência de consciência se iniciando antes de um laser vaporizar seu corpo sem deixar registros. Faltava pouco.

“ESSE MUNDO É DO CAPETA!”

Uma voz feminina invade o ambiente, era a prostituta, totalmente nua, correndo em direção a Jurandir. Ele sabia que ela assistiria a transferência, e sabia que sua memória seria apagada antes do final do processo. Mas não sabia que ela faria isso.

A mulher chega rapidamente até ele, e do jeito como veio ao mundo, se joga no seu colo. Ela começa a berrar e fazer movimentos absolutamente teatrais de sexo, Jurandir fica em choque. Especialmente depois que ela começa a dizer baixarias imensas olhando bem nos seus olhos. Seus gemidos são muito altos.

A sensação na cabeça de Jurandir passa. Os pontos de luz desaparecem do céu e tudo fica em silêncio. A mulher ainda continua fazendo seu teatro sexual, olhando ao redor.

“Funcionou? Ai! Isso! Mais forte!”

“Eu acho que sim.”

Ela começa a rir. Ele arregala os olhos.

“Eu não sinto mais a conexão. Fechou a janela de contato!”

“Meu pai perdia completamente a pose quando eu entrava na igreja dele vestida que nem puta. Ele não conseguia nem ficar bravo, a vergonha era muito grande na hora. Quem depende de fingimento não sabe lidar com sentimento de verdade.”

“Eles não conseguiram me destruir… o desespero de ver essa cena… nem apagaram nossas memórias…”

“Bom, agora você tem mil anos para pensar numa desculpa.”

Jurandir abraça a mulher com força, felicidade correndo por suas veias depois de tantos dias de sofrimento. Ela olha bem em seus olhos e diz com a maior seriedade:

“Eu vou cobrar mais uma hora.”

Os dois caem na gargalhada.

Para dizer que terminou muito melhor que a média dos contos, para dizer que pessoas normais perguntam o nome das outras, ou mesmo para dizer que bebida e prostitutas resolvem tudo: somir@desfavor.com

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