Líder da pandemia.

Já sabemos que o Brasil é o pior país do mundo no combate à pandemia, mas Sally e Somir discutem quem foi menos parecido com o país. Os impopulares tomam suas medidas.

Tema de hoje: Qual chefe de Estado melhor lidou com a pandemia?

SOMIR

Xi Jinping. O ditador chinês teve que lidar com uma pandemia num país com mais de um bilhão de pessoas, num dos quatro países do mundo com mais território que o Brasil. Alguém aqui ouviu falar sobre colapso do sistema de saúde chinês? Ou algum problema econômico sério?

É claro que eu admiro a escolhida pela Sally, uma das atuações mais perfeitas do mundo, mas precisamos entender a questão sob um ângulo mais amplo: é mais fácil cuidar de um cachorro ou de dez? É mais fácil lavar o chão de um quarto ou lavar o chão de uma fábrica? Com uma pandemia dessas, escala conta.

E a escala com a qual o líder chinês lidou coloca no chinelo praticamente todos os outros países do mundo. É muita gente numa área muito grande com uma economia absurdamente diversificada. Só os EUA têm condições minimamente parecidas no mundo, e os EUA já bateram meio milhão de mortos.

Mas não dá para acreditar em nada que vem da China, certo? Calma, nada é tão simples assim. São uma ditadura de uma cultura que prefere a morte a passar vergonha, mas não se esqueçam que vaza informação até da Coreia do Norte hoje em dia. Estamos em 2021, é basicamente impossível esconder tudo o que acontece no seu país, ainda mais com mais de um bilhão de fofoqueiros potenciais.

No começo da pandemia, a China foi escrota tentando esconder a doença, e não conseguiu: antes mesmo de chegar na Itália, já estávamos acompanhando escândalos de tentativa de supressão da verdade por conta do governo chinês. A China pode conseguir maquiar muitos dos seus dados, mas não conseguiria esconder milhões de pessoas morrendo por falta de ação do governo.

A solução chinesa foi rápida e violenta: lockdown com toda a força nas primeiras semanas, isolando regiões inteiras. Hospitais de campanha construídos em dias, recursos infinitos para produção de vacina, tudo o que foi necessário para salvar a economia. Pode não ter sido a escolha que eu faria, mas eles escolheram algo e fizeram acontecer.

Porque é importante ressaltar esse ponto: você não precisa acreditar em ditadura ou querer isso para você para perceber como a China deu conta do recado, basta reconhecer que o caminho deles funcionou. Pode-se fazer melhor do que isso de um ponto de vista ético? Claro. Mas nem tanto quando falamos de resultados práticos numa situação como a chinesa.

Mas se você olha para um país como a China, sabe que não adianta trabalhar com o conceito de mundo ideal. É tudo menos ideal. Países muito grandes com populações muito grandes exigem um esforço gigantesco para conseguir qualquer coisa. Os chineses tinham funcionando um sistema autoritário que é horrível para quase tudo, menos para casos como esse: onde era necessário forçar o povo a respeitar algumas regras básicas.

Só tem uma coisa pior que viver sob uma ditadura: viver sob uma ditadura incompetente. Com todos os defeitos de Xi Jinping e seu partido comunista, na questão da pandemia a coisa funcionou. Morreu muito mais gente que eles estão deixando a gente saber? Claro que sim. Mas não foi nada que destruísse a ordem no país. Nada que impedisse o país de continuar sua jornada rumo a tomar o lugar de maior economia do mundo.

Foi o que eu disse há alguns meses: nada contra priorizar a economia, mas para priorizar a economia, a população não pode ficar doente. Os EUA vacilaram nesse ponto e deixaram muito da sua economia perder força durante o ano passado. Os chineses foram trancados em casa, em alguns casos até com a porta chumbada para não saírem, e um ano depois, a verdade é que funcionou.

Se algum líder de país grande e democrático tivesse conseguido um resultado minimamente parecido, eu teria colocado na frente. Mas nenhum conseguiu. Era hora de controlar o povo, mas o povo não foi controlado. Países pequenos com pouca gente são o lugar ideal para se conseguir bons resultados quando é necessária muita cooperação da população, e se seu país pequeno for uma ilha então… lembrem-se que até Cuba tem índices de desenvolvimento humano altos em várias categorias. E eles estão com o pior sistema de governo já criado pela humanidade! Quando a China estava com o mesmo sistema, matou centenas de milhões de fome…

Não dá para comparar quem tem que lidar com bilhões de pessoas em milhões de quilômetros quadrados densamente populados com quem tem que lidar com poucos milhões numa área pequena basicamente vazia. São categorias separadas. A China tinha o segundo maior desafio do mundo (o maior eram os EUA, por causa da população negacionista), e vai sair da pandemia mais forte do que entrou.

Sim, a China sacaneou o resto do mundo escondendo a doença pelo tempo que escondeu, mas estamos analisando quem foi o melhor chefe de Estado, e para o Estado chinês as coisas acabaram funcionando relativamente bem. Se a discussão for quem foi melhor para o mundo, Xi Jinping cairia muitos e muitos degraus. Mas como não é, fica aqui minha análise: apesar dos pesares, a China deu conta do recado.

E tirar nota 5 na China é o equivalente a tirar nota 11 em qualquer outro país pequeno desse mundo. Tamanho importa.

Para dizer que eu sou comunista, para dizer que a solução é sempre a porrada, ou mesmo para dizer que o melhor é o Bolsonaro que mata brasileiro: somir@desfavor.com

SALLY

Que chefe de estado lidou melhor com covid?

JACINDA, SUA LINDA!

Nessa pandemia não teve ninguém melhor do que Jacinda Ardem, a Primeira-Ministra da Nova Zelândia. A mulher deu e está dando um show sobre como conduzir não apenas um país, mas também uma nação na pandemia. Soube seguir à risca o que a ciência prega, mas humanizou essas regras ao comunicá-las ao povo. Ela foi consistente, foi coerente e foi firme sem ser grosseira, bélica ou ditatorial.

E antes que alguém diga que é muito fácil pois é um país pequeno e rico, gostaria de lembrar que tem país pequeno e rico com sistema de saúde colapsando e tem país populoso e pobre com casos controlados. O buraco é bem mais embaixo. Sim, ser pequeno e rico ajuda, é uma boa vantagem, mas não garante nada.

Não à toa a Nova Zelândia está em primeiro na lista de melhores lugares para se estar na pandemia (aquela em que o Brasil está em último). A Primeira-Ministra Jacinda Ardem não só tomou as medidas corretas no tempo correto como ainda passa confiança e calma à população a cada pronunciamento. A mulher é o equilíbrio em pessoa, sorri diante de um terremoto e continua sua linha de raciocínio como se nada.

Jacindão não teve medo e meteu um confinamento rigoroso e precoce, quando o país tinha apenas cem casos confirmados e zero mortes. Foi duramente criticada por isso, mas, adivinha? Lockdown, quando bem-feito e acompanhado de outras medidas, é muito eficiente para conter o coronavírus. Também foi rápida ao fechar as fronteiras, algo que fez toda a diferença.

Nessas horas sempre tem quem diga “Ah, mas é uma ilha, aí fica mais fácil”. Olha, tem muita ilha sem controle da pandemia. Além disso, quando você fecha as fronteiras, pouco importa se você é uma ilha ou um país que faz fronteira com outros cem países: não entra ninguém, independente de geografia.

Todas as medidas foram comunicadas de forma eficiente à população: foi explicado de forma clara o que estava sendo feito e os motivos. Além disso, não foi imposto em um tom ditatorial e sim em um tom “precisamos de vocês, estamos todos juntos”. Ela se comportou com simplicidade e proximidade, dando entrevistas coletivas diariamente e se mostrando calma e transparente.

Com isso se consegue muito mais adesão e colaboração. Além disso, ela soube explicar que os efeitos do lockdown demoram a aparecer, portanto, não causou expectativas frustradas. Jacinda foi coerente do começo ao fim e manteve o povo a par de tudo que estava sendo feito e dos motivos pelos quais estava sendo feito. Ela conquistou todo o país, fazendo com que as pessoas decidam colaborar e aderir aos seus projetos. Se isso não é o maior mérito de todos, eu não sei qual é. Faz tempo que não vejo um Chefe de Estado que consiga a adesão massiva da população dessa forma.

Mesmo quando a curva de casos achatou, ela não reabriu imediatamente. Traçou um plano escalonado de modo a que se algo desse errado, pudessem reagir antes de que tudo saia do controle. Além disso investiu pesado em testes e rastreio de contatos, fazendo com que novos casos fossem rapidamente contidos, antes que se espalhem para mais gente.

Essa, até agora, vem sendo a fórmula de sucesso em quase todos os países: lockdown + fechamento de fronteiras + testes + rastreio de contatos, ou seja, quando surgem casos novos fecha tudo, entra em contato e testa todo mundo que pode ter estado com as pessoas contaminadas. “Ah mas dá trabalho, impossível fazer em um país populoso”. Pergunte ao Vietnã se é impossível.

Além disso, Jacindão tomou decisões difíceis de forma pensada e não de forma impulsiva. Quando seu Ministro da Saúde furou a quarentena para ir à praia ela foi a público dizer que, em situações normais, ele seria demitido, mas que não poderiam se dar ao luxo de fazer isso no meio da pandemia. Então, mesmo muito irritada, ela foi racional e deu uma rebaixadinha no status (e no salário) dele, tirando algumas funções.

Graças a essas atitudes não-bélicas, centradas, equilibradas, ela não apenas conteve a pandemia como também se tornou a Primeira-Ministra mais popular da Nova Zelândia em um século. Transparência, carisma e coerência são qualidades difíceis de se reunir em um político. Ela conseguiu ganhar o povo e sua confiança, fazendo com que todos joguem no mesmo time, não por medo, mas pelo genuíno desejo de colaboração.

Vai ter quem diga que com povo culto e educado é fácil. Não é não. A Europa está passando por maus momentos e até seus países “top”, como a Alemanha, estão com dificuldades. Não é apenas o povo, Jacinda tem seu mérito em saber fazer valer suas ordens sem precisar de ameaças, de medo e de gritos. Uma mulher que conseguiu liderar com graça e elegância sem precisar se comportar feito um homem e sem precisar se comportar de forma ditatorial.

Essa coisa de que “tem que ser na porrada” é um círculo vicioso: quanto mais na porrada você trata um povo, mais bicho ele fica. Porrada é último recurso, quando o povo faz algo inaceitável que coloca em risco a vida alheia. Antes da porrada é indicado tentar a via da verdade, da consistência, da transparência.

Sobre a China, duas coisas: 1) não é uma democracia, não sabemos bem o que acontece lá dentro, portanto, não sabemos bem se de fato eles controlaram o corona de forma eficiente e 2) eles enfiam swab no cu das pessoas, francamente, ninguém que faça isso lida bem com a pandemia.

Para dizer que o cotonete no cu certamente é critério de desempate a favor da Jacinda, para dizer que bom mesmo foi o Bolsonaro que deixou morrer um monte de brazuca ou ainda para dizer que bom é quem paga o maior auxílio: sally@desfavor.com

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Comments (16)

  • Considerando que o governo chinês, lá no começo da pandemia, mandou destruir amostras do vírus, e prendeu o médico que alertou sobre a existência do vírus e seu potencial epidêmico, obrigando-o a assinar um termo em que assumia que estava “propagando desinformação”, além de outras medidas escabrosas que culminaram neste desastre global que estamos vivendo, o que nos impede de presumir que esse aparente domínio da situação é falso?

    “Alguém aqui ouviu falar sobre colapso do sistema de saúde chinês?”

    Seria estranho se o governo chinês deixasse essa informação circular. Lembremos que você não pode ser jornalista na China sem ser filiado ao Partido Comunista, e as redações dos jornais são obrigadas a seguir as determinações do governo sobre o que pode ou não ser publicado. A casa pode estar caindo com força na China, e o governo de lá jamais nos deixaria saber

  • A Jacinda ocupou um lugar que achava que seria da Merkel no começo da pandemia, quando fez um pronunciamento sensato, austero na TV (acho que era o terceiro pronunciamento durante seus anos na liderança, se não me engano), afirmando que a Alemanha passava pela pior crise desde a Segunda Guerra, aconselhando a população a seguir as medidas, dizendo que o país dispunha de infraestrutura para lidar com os doentes…só que parou por aí…

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    Paulista de Macaé

    Fico com a Sally. existem particularidades entre os países (e interesses), mas a forma que a Jacinda Arden lidou com a situação com transparência, explicando os motivos das medidas ajudou bastante. Ela soube conscientizar a população, e uma população ciente da situação tende a colaborar mais.

  • ” (…) até Cuba tem índices de desenvolvimento humano altos em várias categorias. ” no mundo árabe costumava ser assim, antes dos ocidentais começarem a bombardear tudo. É quase como se ter liberdade pra mostrar as tetas ou dar a bunda numa “manifestação” no meio da rua não seja a única métrica de qualidade de vida…

    • Impressionante a velocidade com que a China consegue fazer as coisas. Eles podem ter um monte de defeitos, mas sabem como fazer acontecer.

  • O que se sabe da China é o que o ditador pederasta do swab anal peemite saber. Aqui logo de início era pra ter cancelado o carnaval, mas quiseram faturar com a gringalhada e o Drauzio Varella, que foi o primeiro a chamar de gripezinha, o Bozo só replicou, o mesmo méRdico que fez campanha pro povo ir votar. Agora não tem mais jeito e se foderam porque nunca mais vão ter carnaval. O vírus acabou mesmo na Nova Zelândia? Vc poderia fazer um texto de como é morar aí , só pra nos fazer inveja mesmo, sou masoquista.

  • Não acompanho muitas notícias do exterior, mas pelo que entendi a Jacinda foi basicamente uma “mãezona”. Bem melhor do que ficar dando surra de cassetete em vendedor ambulante morto de fome. A Sally está certa quando disse que porrada é um círculo vicioso.

  • Sudeste asiático é pequeno, populoso (e povo majoritariamente pobre), abriga os portos mais movimentados do mundo, e mesmo assim foram bem. Melhor pensarem em outras desculpas…

    Concordo com Sally porque minha mentalidade liberal e democrata se recusa a dar o braço a torcer pra ditaduras.

      • Oceania é um pouco mais pro lado (Austrália, Nova Zelândia e aquele montão de ilhas). Mas como usam esses argumentos de “lugar populoso”, “lugar pobre” e “lugar movimentado” pra justificar incompetência nas medidas de isolamento, usei o sudeste asiático como contra exemplo. Singapura, Vietnã e Tailândia estão no ranking de melhores lugares pra se estar na pandemia, e os dois últimos passam longe de serem países ricos.

        • Tamanho do território e condições sócio-econômicas não são determinantes para o sucesso ou o fracasso no enfrentamento da pandemia. Competência, transparência governamental e colaboração da população, sim.

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