Respire fundo.

Aqui no Desfavor a gente tem que andar numa linha bem fina entre falar sobre a verdadeira gravidade da pandemia que o brasileiro parece ignorar e não promover medo pelo medo. Analisando os comentários dos últimos dias por aqui, eu senti que um ano de pandemia já está pegando pesado no psicológico de muitos de nós. Talvez seja a hora de parar e respirar um pouco.

Não costumo fazer muito isso, mas vou dar um exemplo pessoal: há pouco tempo, eu tive um susto com saúde. Não foi Covid, mas na hora a coisa me deixou suficientemente impressionado para buscar ajuda. Na prática, foi só um susto mesmo, meus exames voltaram todos “limpos”. Mas aquilo colocou uma semente maldita na minha mente.

E ela não demorou muito para germinar: nos dias seguintes, eu me peguei sentindo tudo de novo algumas vezes, começando a temer algo sério que poderia causar danos ao meu corpo a qualquer momento. Foram dias preocupantes. Foi aí que eu comecei a usar as ferramentas que tinha ao meu dispor. No meu caso, a visão mais científica da realidade e o conhecimento geral acumulado por décadas de nerdice.

Comecei a analisar os fatos de forma mais fria: meus sintomas diminuíam na medida em que eu me aproximava de outras pessoas e quase desapareciam quando eu finalmente me decidia que tinha que ir até o hospital. Uma vez pode ser coincidência, duas menos e lá pela terceira ou quarta eu já havia percebido um padrão. Era medo. Todo mundo tem medo, eu que não seria diferente.

Medo de fazer a coisa errada, medo de não tratar com seriedade alguma coisa que podia me fazer mal. Quando eu estava fazendo alguma coisa para me proteger, os sintomas passavam. Quando estava relaxado, eles voltavam com força. Foi um tanto assustador “pagar para ver” se era psicológico da primeira vez, mas depois de feito uma vez, é como se eu tivesse me curado daquele problema.

Isso quer dizer que ignorar sintomas é a solução? Claro que não! Isso quer dizer que se você perceber um padrão por alguns dias e tiver estudado o suficiente para formular uma teoria sobre o caso, depois de ouvir de médicos que seus exames estão bons, pode fazer o que eu fiz. Não é uma dica direta de saúde. O que funcionou pra mim depende muito de como minha cabeça funciona.

É apenas um exemplo de como sua percepção impacta diretamente o mundo ao seu redor. Eu precisei montar um pequeno experimento científico e ler sobre medicina para encontrar um estado mental pacífico o suficiente para lidar com o que estava sentindo, mas tem gente que resolveria isso sentando a bunda no chão e meditando em um décimo do tempo. Algumas pessoas evitariam isso totalmente com confiança cega no médico, outras teriam se distraído com muito mais facilidade… cada pessoa vai ter seu jeito. Acredito até que muita gente na minha situação teria sucumbido ao psicológico nessa hora e ficado em estado de pânico.

É muito comum que nessa hora de medo da pandemia, te digam várias formas de lidar com o sentimento. Filosofias das mais diversas que funcionaram com as mais diferentes pessoas. São inúmeras opções. É complicado descobrir qual a melhor, não? Bom, se serve de consolo, provavelmente não existe uma melhor. Provavelmente você pode escolher entre uns vinte caminhos diferentes e ainda sim chegar num estado mental mais saudável.

Eu dei o meu exemplo porque ele fala sobre o que funciona para pessoas que se sentem seguras no campo da racionalidade. O que nem quer dizer que seja um caminho de “gente inteligente”, na verdade, eu derivo mais prazer que o cidadão médio da ideia de controlar sentimentos com fatos frios e informações específicas. Não sei se é motivo para me orgulhar, mas é parte do meu ser.

O ponto desse texto não é vender o meu método de lidar com o medo, é vender a ideia geral de que ele não pode correr solto. Eu não sei qual é o seu método, não sei nem se você já percebeu se tem um, só sei que é extremamente importante que as pessoas que souberam ler o mundo ao redor e não tratar a pandemia como uma conspiração ou mesmo uma frescura temos que nos cuidar nesse campo também.

Ficar preso em casa e abdicar de muito da socialização é um peso para o ser humano médio. Mesmo gente antissocial como eu sente isso. Eu já preferia ficar na minha antes de tudo isso, mas tem algo de perverso em não ter mais a opção de sair e se misturar por aí. Ou, ter que abrir mão de tudo o que você sabe que é certo para poder ter essa opção de volta. Ainda mais no Brasil, onde você não joga uma pedra sem acertar uma pessoa que simplesmente não quer saber de tomar qualquer precaução. Às vezes, dentro da sua casa.

A mente pode até parecer que está como sempre esteve, mas tem algo deteriorando lá dentro. O próprio senso de realidade começa a ficar nebuloso: nos pegamos pensando como é possível que tanta gente não veja o que estamos vendo? Que precisamos pensar no conjunto para melhorar nossa vida pessoal. Será que nós estamos malucos?

Bom, fazer a coisa certa sempre foi um lugar com pouca companhia. Num país de “espertos patológicos” como o Brasil então… quase sempre uma sentença de solidão. Você se sente maluco quando fala a verdade, quando obedece as regras, quando se preocupa com o outro… é parte do processo. Eu imagino que muitos de vocês estejam sofrendo com isso também: essa sensação de deslocamento, mesmo que tenham confiança na decisão que tomaram de fazer a coisa certa, é muito estranho ver todo mundo escolhendo a outra opção. A mente humana tem uma certa alergia a se diferenciar do bando.

E talvez isso seja um fator que influencie o fato de alguns de nós estarem mais desgastados com essa pandemia. Já é muito complicado abdicar de uma forma de viver por mais de um ano, imagine só fazer todos esses sacrifícios e ainda lidar com a sensação terrível de estar fora do grupo? Não é personalidade, é genética: neurônio não gosta de ver todo mundo fazendo uma coisa diferente da que você faz. Neurônio manda soltar hormônio ruim.

E é aqui que eu amarro o meu exemplo com a situação que vivemos coletivamente: uma parte do medo e do desconforto que você está sentindo pode ser um instinto de proteção funcionando contra a sua racionalidade. O racional sabe que não é para ir pra rua e baixar a guarda contra o vírus, mas o irracional pode estar correndo solto se perguntando porque você, macaco pelado nº 182989112, não está fazendo as mesmas coisas que os outros macacos pelados que estão por aí.

Não odeie seu instinto, ele vive te salvando dos perigos, mas ele tem seus limites. Eventualmente ele erra, mesmo que tenha a melhor das intenções: te manter viável como ser humano. Há milhares de anos atrás, talvez fosse melhor mesmo ficar junto com o grupo e encarar uma doença do que se afastar por alguns meses. A chance de sobrevivência do macaco pelado isolado era nula, então qualquer doença ainda era melhor.

Mas os macacos pelados fizeram um longo caminho desde então. Inclusive na parte de duvidar um pouco mais desses instintos: eles são poderosos e tem sua função, mas não deu tempo deles se familiarizarem com a nossa tecnologia. Você tem que saber que eles estão lá, você tem que saber escutar esse inconsciente primal, mas no século XXI, isso precisa ser interpretado. O meu instinto, por exemplo, não sabia que podia baixar as armas com as provas técnicas dos exames médicos, e simplesmente os ignorou até eu conseguir trabalhar isso na mente.

Porque é claro que ia ignorar. Assim como muitos de nós temos que lidar com um medo extra de estar fazendo as coisas diferente de uma maioria inconsequente, mesmo sabendo que essa maioria é inconsequente. Escolhemos o caminho mais seguro, o caminho que aumenta nossas chances de sobrevivência, mas isso só fica claro num campo mais racional. E por mais que me incomode, o campo racional é só uma minúscula parcela da mente humana.

O irracional precisa ser reconhecido e até mesmo valorizado. Obrigado pela preocupação, instinto! Mas, você não está enxergando tudo o que precisa. Este macaco pelado não está fazendo o mesmo que os outros por um bom motivo. Se você ignorar o que essa parte enorme da sua mente está te dizendo, vai ficar cada vez mais estressado(a) com o passar dos meses. A vacina ainda vai demorar e tem muita coisa que pode dar errado.

“Mas eu não estou desesperado(a) para sair de casa e fazer besteira, sua teoria não vale pra mim.”

Eu não disse isso. Eu disse que é quase certeza que tem uma parte da sua mente dizendo que “não parece seguro fazer diferente da maioria”, e isso vai acumulando medo na cabeça sem chamar muita atenção. Quando você vê, o isolamento está te comendo vivo, mesmo que racionalmente você esteja confiante na função dele. Eu só consegui evitar que minha mente me fizesse entrar num ciclo terrível de medo quando aceitei que tinha muito mais coisa acontecendo nela do que eu estava ciente.

E eu tenho certeza que pelo menos para alguns de vocês, este texto vai ser uma forma de abrir essa porta da mente. Tinha alguém batendo sim. Vai lá atender. Provavelmente não com o melhor dos conselhos nesse momento, mas o inconsciente às vezes só precisa ser ouvido para acalmar e te dar um pouco mais de paz. “Sim, inconsciente, eu sei. Mas vamos ter que segurar esse tranco juntos.”

Macaco pelado não gosta de ficar longe do bando. Macaco pelado não gosta de lidar com coisas que não pode enxergar. Macaco pelado não gosta de não entender as coisas. É muito importante que não nos esqueçamos do que realmente somos.

Para dizer que não entendeu e ficou mais nervoso(a), para dizer que macaco pelado precisa beber mais, ou mesmo para dizer que a solução é nadar até a Nova Zelândia: somir@desfavor.com

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Comments (16)

  • Somir, você me deu uma idéia espetacular para um projeto de pesquisa com esse texto. Vou colocar o desfavor nos agradecimentos do trabalho. Um grande abraço!

  • Não foi pandemia que me deixou doido, eu sempre fui. Estou adorando ninguém mais me olhar feio porque nunca saio de casa, esse novo normal sempre foi meu normal, sempre odiei festas de trabalho, não ia e falavam mal de mim. E pra terminar a confissão, estou adorando ver BRs morrendo em série. Chega de procriar e lotar tudo, morram também!

  • Interessante. Eu só queria saber por quê nosso cérebro gosta tanto de nos sacanear assim. Por exemplo, toda vez que vou no supermercado comprar comida (na minha cidade está impossível fazer delivery) sinto dores horríveis no corpo todo, parece que meus músculos endurecem de tanta tensão, fico com uma dor de cabeça tão forte que dá até tontura e vertigem. Aí, quando chego em casa começo a espirrar e bate aquele desespero danado. No fim das contas não era nada, somente ansiedade e crises de pânico. Mesmo tomando todos os cuidados e, assim como muitos, não preciso sair de casa para ganhar dinheiro e não curto uma socialização, não consigo ter controle sobre esse medo inconsciente.

  • Não sou do tipo que deseja o mal dos outros pra provar um ponto. Que bom que a letalidade do corona não é grande, até porque iria respingar na gente também. (trocadilho não intencional)
    Enfim. Povo adoece muito, morre muito, tem cada vez menos filho, infraestrutura medíocre, economia de bosta… Acho que só intervenção divina explica este país ainda existir.

  • Uma pergunta sobre o outro lado: é claro que os comerciantes não querem o lockdown. Você acha que haveria alguma forma de entrar em acordo? Criando um grupo, alguma coisa que nos ajude a chegar num consenso? Sinto muita vontade de fazer isso. Nós deixamos muito a responsabilidade nas costas dos governantes.

    • Bem complicado resolver isso. Porque agora estamos pagando o preço pelas medidas anêmicas do ano passado. Os comerciantes estão todos falindo e desesperados, o custo de não ter controlado a doença em 2020 foi de um ano merda pra eles e tudo de novo em 2021.

      Eu sinto que estamos diante de uma limpeza mesmo. O mercado tem que aceitar a pancada uma hora ou outra e desabar. Vem uma crise daquelas pela frente…

      Às vezes a única solução é deixar tudo quebrar para reconstruir de novo. Triste.

  • Somir… obrigada. Era tudo que eu precisava ler. Como eu disse no último desfavor da semana, estou num grau de ansiedade que nunca senti. Na primeira crise pensei que fosse pontual, uma crise. Mas com o passar dos dias isso se mostrou mais como um “estado” de ansiedade. Voltei a morar com a minha família, e inclusive tomei uma bela enrabada da minha mãe me pedindo pra me recompor. Estou tentando. Mas a sensação é essa mesmo – quanto mais tempo passa nessa situação, maior a sensação de quem tem algo sendo corroído dentro de mim. E olha, sou uma super privilegiada. Trabalho de casa, ninguém da minha família ficou mal por COVID… mas estamos lidando com loucos, Somir. Sou de Campinas, assim como você, e a situação aqui já chegou ao limite. Meus pensamentos não me deixam em paz, são bombardeios diários de dúvidas de “será que um dia sairemos disso?”. Acho que nem estou conseguindo concatenar minhas ideias corretamente. O meu medo me paralisa, literalmente. Fui pro hospital semana passada, os músculos atrofiados de tensão. Sentindo falta de ar. Achando que estava com essa merda de vírus… no fim não era nada. Obrigada pelo texto.

    • Fico feliz que o texto ajude. Nada como sentir algo parecido para poder falar melhor do tema. Cada pessoa tem o seu jeito de encarar esse problema, mas existe uma base parecida na aceitação de que muita coisa acontece na nossa mente fora do nosso controle. É normal sentir medo, é normal que pareça muito forte (o instinto não entende o que é contexto, só berra).

      Isso também passará. Estamos nos cuidando, e isso já ajuda MUITO.

  • Governantes deveriam tratar das outras epidemias do Brasil (doenças tropicais, crime, insegurança alimentar, suicídio) antes de cobrarem dos brasileiros medidas contra o covid. Passam décadas tratando o povo feito bicho, só dando o mínimo pra não morrer e continuar pagando impostos e agora ficam de conversinha “vamos nos unir”. Fala sério…
    Quem sabe se o governo investisse dinheiro em um welfare decente (ou redução de impostos pra sobrar mais dinheiro pro cidadão) e melhor educação de base em vez de lagosta, não haveria brasileiros desesperados pra voltar ao trabalho. Pra muitos, um dia a menos de trabalho faz muita diferença no final do mês. Pra muitos, poder sair e ir pra uma biblioteca é a única forma de conseguir estudar sossegado.

    Sim, outros países tão ou mais pobres quanto o Brasil tiveram mais sucesso nas medidas de isolamento, mas comparar muda o quê? A não ser que estejam analisando pra replicar as ações desses países.

    • É meio que nem o argumento de que não se deve investir em exploração espacial enquanto tem gente passando fome… é uma falsa escolha. Como se fosse possível resolver 100% uma coisa antes de ir para a outra. Se fosse para ficar paralisado esperando o governo resolver as coisas, a gente nunca teria feito nada na humanidade. O povo precisa aprender alguma medida de cooperação social, senão acontece o que aconteceu no Brasil (e nos EUA).

      A gente sempre toma o cuidado de dizer que pra muita gente não existe escolha pela questão financeira, porque realmente não tem. Mas… será que são os brasileiros indo para a biblioteca que estão causando esse aumento violento no número de casos e mortes? Eu e você sabemos que não.

  • Seu texto veio numa excelente hora. Parece que meu cérebro viciou em sentir medo, mas não é um vicio bom como comer chocolate, é um vicio de sobrevivência que não me deixa em paz. Parece que meu cérebro não consegue ficar de boa. Está sempre procurando alguma coisa pra eu ficar preocupada 100% do tempo.
    Eu tive um resfriado faz 3 semanas, meu cérebro já ficou em paz que não era corona, por N razões racionais que eu trabalhei, mas agora parece que a garganta não está 100% e se isso piorar e na hora que eu precisar de um hospital não vai ter porque vai estar entupido de doentes de corona, mas se eu for agora, corro o risco de pegar corona lá. Mas eu sei que é neura porque eu só penso nisso quando eu estou ociosa, quando eu fico muito ocupada trabalhando eu não penso nisso. Enfim, meu cérebro viciou em sentir medo. Até parei de ler noticias, pra ver se dá uma acalmada.

    Isso quebeu tenho já deve ter sido catologado pela psicologia, se algum impopular souber o nome, fico grata.

    • Não entendo de psicologia para dar essa resposta exata, mas tenha certeza que você não está sozinha. O instinto não sabe medir o grau de perigo real, então coloca tudo no máximo. Isso começa a gerar efeitos físicos por causa do estresse, vira uma bola de neve… mas assim que você consegue perceber o que está dando errado nesse processo, fica mais fácil dialogar com esse instinto e deixar a pressão baixar.

    • Oi Daniele… saiba que vc não está sozinha. Me vi no seu relato. É uma sensação de medo e tensão o tempo todo, dia e noite. Se cuide ao máximo, e tente sempre conversar, por pra fora seus medos. Torcendo aqui pra que você fique bem

      • Obrigada pelas palavras Amanda. Também tenho o privilégio de poder ficar em casa, ainda bem.
        Uns com tanto medo e outros com tão pouco medo. Tem uma parte da minha familia que está lotando um carro pra ir bundear em outro estado, inclusive 2 idosos.

        Deve ser falta de perspectiva de uma vida plena e confortável que faz essas pessoas não terem medo de morrer. Vão aproveitar o agora e foda-se.

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