Foco na cabeça.

Cada dia que passa, eu vejo mais e mais notícias e comentários sobre os preconceitos envolvidos no que se chama de padrão de beleza vigente. Não sem méritos, realmente há muito preconceito envolvido, mas… será que tem algum objetivo prático?

Muito embora nunca tenha visto um segundo de BBB, sou bombardeado pelas notícias dele a cada visita a um portal de notícias. E no mundo que vivemos, isso significa uma polêmica por dia. É o que gera cliques. A polêmica do dia é sobre padrões de beleza e racismo. Mais especificamente o cabelo Black Power de um participante que aparentemente foi criticado por outro. Amanhã vai ser outra, é claro.

Mas enquanto estamos nela, eu pude verificar um pouco do tratamento dado ao tema, especialmente por aqueles que se dizem aliados da causa da justiça social. Acreditam que é muito importante fazer o negro se sentir bonito naturalmente. E por isso, usam vários exemplos de pessoas que tem muito orgulho das suas características naturais.

Dizem que é uma forma de lutar contra o preconceito. Dizem que os brancos acham os negros feios por um racismo internalizado e que isso tem que ser mudado. Como eu disse antes, essa versão tem seus méritos: o ambiente cultural no qual nascemos e crescemos não foi desenvolvido para dar exposição igual para quem desviasse muito do padrão de aparência europeu. É impossível que isso não tenha nos influenciado de alguma forma.

Mesmo a pessoa branca que casou e teve filhos com uma pessoa negra deve ter alguma dessa influência na cabeça. Lembrando que o mundo onde povos começaram a se integrar é muito recente: o ser humano médio histórico raramente via gente muito diferente de si durante a vida. As novas gerações parecem cada vez menos chocadas com a variedade imensa de cores e características nas quais o ser humano vem, e isso deve ser a tendência daqui pra frente.

Então, eu entendo esse aspecto de democratizar o que se considera beleza padrão, pelo menos no contexto étnico. Todo mundo provavelmente tem algum grau de estranhamento internalizado ao ver peles, corpos e cabelos que não estivessem amplamente representados na mídia de massa que consumiu durante sua vida. E você não perde nada se livrando desses preconceitos: só aumenta o número de pessoas bonitas no mundo!

Mas aí, é importante prestar atenção em algo por trás disso tudo: enfrentar o padrão de beleza vigente não é uma forma de reforçar a ideia de padrão de beleza? De que ele é parte do que forma a autoestima de uma pessoa? Porque a forma como tudo isso é dito, especialmente na mídia, gera a impressão que o grande problema é que algumas características foram deixadas de fora desse padrão, não com o padrão em si.

E sutilmente, instaura-se a ideia de que não é sobre o preconceito de achar o que não é europeu feio, é sobre a exigência de ser incluído nesse padrão. O erro do sistema é não beneficiar a pessoa, não beneficiar pessoas por características físicas em primeiro lugar. É quase que como se fosse pelo direito de colocar vaidade em primeiro lugar.

Ok, vá lá. Algumas pessoas só vão ter isso na vida mesmo. Gente vazia que só tem beleza temos aos borbotões, que os negros vazios que só têm beleza tenham a possibilidade de se beneficiar do sistema também. Mas, se a conversa é essa, se é sobre gente sem autoestima querendo ser reconhecida na vida por causa do que fez ou não fez no cabelo… podem me manter fora disso?

Porque é um saco ficar lendo sobre racismo institucional baseado nessas futilidades todas, e pior: ainda ser cobrado por um posicionamento. Discussão sobre sistema injusto está relacionado a economia e a direitos fundamentais do ser humano. Receber elogio pelo cabelo não é uma coisa nem outra, é polêmica de Reality Show.

Eu estou cagando e andando para o que as pessoas acham que é moda, que roupa usam, que adereço é considerado bonito, qual é brega… e isso se estende a formatos de corpo, estilos de cabelo e todas essas outras bobagens. Enquanto o nível da “discussão racial” brasileira for polêmica sobre elogio ou crítica a cabelo crespo, é tão útil quanto site de fofoca.

E pra ser honesto, o que eu mais vejo por aí é gente que ou não tem profundidade nenhuma pra falar do tema ou só está nessa porque é financeiramente atrativo. A pessoa não lançou uma empresa que vende maquiagem para pele negra porque quer mudar o mundo, lançou para lucrar. Não estão escrevendo textões para conscientizar o povo, estão escrevendo para ganhar biscoito (e cliques). Porque se o seu foco honesto sobre o tema for pedir para entrar no padrão de beleza da mídia, você é só mais um explorador.

Como disse antes no texto, eu entendo que existe uma questão mais profunda aqui e que a humanidade ganha se não levar mais tão a sério esse padrão de beleza criado por empresas americanas e europeias. Mas foco em não levar tão a sério. Chorar na rede social porque não estão te colocando no clubinho é bater palma para essa indústria podre. Se a pessoa entrar, está tudo bem? Azar de quem ficar de fora depois?

O ângulo da beleza é o ângulo mais furado de todos para combater racismo, porque se parte do princípio de aceitação num padrão que não foi criado para os negros, está dizendo que o único erro do padrão é esse. E aí, se equipara ao dos gordos, o movimento de justiça social mais ridículo de todos! Então tudo bem que as pessoas sejam fúteis ao ponto de querer imitar a celebridade ou o influencer da forma mais superficial possível, desde que a pessoa famosa não seja mais tão parecida com a “beleza europeia” enfiada garganta abaixo do resto do mundo há séculos?

Medida de sucesso na vida e igualdade social é número de seguidores? É esse vazio absoluto do mundo das celebridades do século XXI? “Tem gente elogiando o cabelo crespo da influencer que só sabe dançar na frente do celular? Viva! A sociedade está evoluindo!” Façam-me o favor. Quem quer derrubar padrões de beleza não mendiga aceitação nele. É uma autoestima de criança, guiada pela percepção rasteira do outro, que pode ser demolida na primeira crítica.

E daí que seu cabelo é de um jeito ou de outro? O que isso tem a ver com seu mérito como pessoa? O que isso quer dizer sobre sua personalidade? A pessoa quer um atalho para se valorizar, algo que exija meia hora de trabalho. Quer aceitação de rede social porque dentro da cabeça ainda tem todas as inseguranças de uma criança que não sabe fazer nada direito e depende dos outros instintivamente.

E é essa gente que acaba indo pra frente da discussão de um tema realmente sério como racismo. Gente que acha que está enfrentando o sistema por causa da roupa que usa, ou sendo exemplo de alguma coisa positiva posando para uma foto! Essa é a mesma porcaria de sempre, não adiciona valor real na evolução social. Ou será que esses lacradores acham que foi confete dado pela mídia que criou as vantagens que os brancos têm?

Quem adiciona valor verdadeiro para o mundo raramente se destaca pela aparência, pelas roupas. Ganham dinheiro sim, mas deixam o mundo tão pobre quanto conheceram. Se as pessoas acharem seu cabelo bonito te basta, você provavelmente não vai gerar riqueza e estabilidade suficientes para seus descendentes terem vantagens. Em tese, era até uma vantagem extra para quem estava fora desse padrão: podia se concentrar em outras coisas que realmente geram valor continuado geração após geração.

Mas não é esse o caminho, não? Meio como sempre falei sobre a suposta revolução feminista recente: a luta pelo direito de ter os mesmos defeitos que os homens. Estão conseguindo, mas basicamente só os defeitos mesmo. Quem acha que está enfrentando qualquer forma de preconceito focando em futilidades como aparência só está lutando pelo direito de ser sugado para esse mundo vazio de celebridades e aspiração do superficial.

Repito: tudo bem que num mundo justo todos tenham direito de ter merda na cabeça e viver sorrindo pra foto porque não tem mais nada a oferecer, mas se a luta por inclusão for baseada nisso, eu me reservo o direito de não dar a mínima para o sofrimento de um público pelo qual eu tenho zero empatia. Eu fico chateado de verdade quando um cientista negro perde a chance de desenvolver seu potencial pelo preconceito, mas quero que o último influencer morra enforcado nas tripas do penúltimo.

Saiba diferenciar papo furado de gente fútil de discussão verdadeira sobre as mazelas que atrapalham a vida de quem é marginalizado pelo preconceito que existe sim em nossa sociedade. Se o ativista da vez estiver lutando para ser considerado mais bonito, não se sinta culpado de ignorá-lo solenemente. Isso é problema de quem quer viver nesse mundo de estupidez, e eu não quero viver nesse mundo.

Eu fico feliz quando vejo mais nerds negros, porque isso sim é evolução e redução da desigualdade. Um Neil deGrasse Tyson vale mais que um milhão de atores e modelos negros sendo elogiados por causa do cabelo. Da mesma forma que os filósofos, professores, cientistas, engenheiros e grandes empresários brancos que geraram valor para o resto dos brancos, vão ser os filósofos, professores, cientistas, engenheiros e grandes empresários negros que vão ajudar a resolver o problema da desigualdade. Influencer é o bobo da corte do século XXI. Eles que se explodam em suas fotos cheias de filtros no Instagram.

Enquanto for sobre a aparência, não é sobre a pessoa, é só papo de Reality Show que todo mundo esquece amanhã.

Para me chamar de racista (ler é para os fracos), para dizer que não sente culpa por mais nada, ou mesmo para dizer que é negro(a) e fútil e ficou ofendido(a): somir@desfavor.com

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Comments (18)

  • “Eu estou cagando e andando para o que as pessoas acham…” Está mesmo? Se realmente estivesse, não conseguiria mulher nenhuma, pois elas estão cada vez mais fúteis e obcecadas por enquadramentos estéticos.

  • “Quem quer derrubar padrões de beleza não mendiga aceitação nele. É uma autoestima de criança, guiada pela percepção rasteira do outro, que pode ser demolida na primeira crítica.”

    Exatamente!

    Em tempo: li você falando do Neil DeGrasse Tyson e lembrei da Nina da Hora, uma cientista da computação negra e da Baixada Fluminense com um trabalho muito bacana sobre algoritmos. Vale a pena conhecer.

  • O foco do texto é aparência física, mas esse papo de “autoestima” como um todo fez um mal enorme pra sociedade. Isso cria monstros de ego inflado. A pessoa aprende a se amar “por quem ela é”, ou seja, mesmo ela ser um bosta, um inútil, não ter nada admirável, ela se ama simplesmente por ser ela. Que eu saiba isso é uma característica do narcisismo.
    Não acredito em amor próprio ou autoestima, se tem alguém que sabe todo o pior de uma pessoa, é ela mesma. Você pode escapar do julgamento alheio, mas nunca escapa da sua própria consciência.

    Acredito que a melhor palavra seria autoconfiança, aprender a se amar por quem você pode ser.

    • A pessoa precisa se amar no sentido de querer se manter bem e ter ânimo para buscar melhorias, não esse amor de “pai ausente” que tenta compensar com presentes.

  • Bem, considerando a tendência de automatização ou desaparecimento de diversos empregos, só vai sobrar ser programador ou influencer mesmo. Faz sentido estarem buscando um espaço, rs.
    Mas na real, não faz muita diferença. A cara desses influenceres (seja homem ou mulher) é tudo igual. Bochecha funda, narizinho triangular, boca de prolapso anal, maquiagem com contorno marcado, sobrancelha de vilã da Disney e iluminador parecendo o homem bicentenário. E isso que só falei do rosto, mas o corpo também é tudo igual, lipo, silicone nos músculos e sei lá mais o quê. Não é nem mais um padrão europeu, é um padrão Instagram mesmo. Parecem clones do Handsome Squidward.

  • A Kardashian mais nova (Kylie só existe a Minogue) ficou bilionária (em dólares) graças a esse mundinho futil. O que ela mais faz é postar foto com a cara rebocada de uma massa corrida que é uns 5 tons mais escuros que a cor real da pele dela.
    Cada vez que eu lembro disso perco um pouco da fé que ainda tenho na humanidade.
    Você já tinha dito num texto antigo: não é sobre acabar com privilégios, é brigar pra fazer parte do clubinho privilegiado.

    • Toda vez que vejo uma dessas supermaquiadas eu tenho vontade de jogar um balde de água na cara dela pra ver a maquiagem caindo.

    • Aquelas mulheres todas parecem bonecas infláveis. Se é o sonho delas, que se divirtam. Mas fazer movimento social para fazer mais gente aspirar a isso não só é cruel (1 em milhões chegam nesse ponto) como não resolve nada do problema social…

  • Frase do próprio texto que já o sintetiza: “Quem quer derrubar padrões de beleza não mendiga aceitação nele.” Pessoas que realmente mudam o mundo e combatem discriminações e injustiças sempre o fazem é com idéias, atitudes, posições e propósitos; em qualquer época e lugar; e independentemente da aparência que tenham.

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