Jeff Bezos no espaço.

Foi ontem, o homem mais rico do mundo foi ao espaço num foguete construído pela sua própria empresa. Levou consigo o irmão e mais algumas pessoas escolhidas para dar uma graça publicitária e não parecer tão egoísta. O que claramente não resolveu: antes e depois do voo, recebeu uma chuva de críticas por estar torrando dinheiro para se exibir. Eu posso ser um babaca às vezes, mas graças à Gezuiz que eu não sou tão babaca quanto quem reclamou da aventura espacial de Bezos…

Mas, talvez eu possa ser um pouco mais compreensivo. Ao invés de xingar a turma do “tinha coisa melhor para gastar o dinheiro aqui em baixo”, eu vou tentar explicar porque esse argumento é furado e você deveria se sentir mal ao usá-lo. Sim, eu entendo que desigualdade é um problema sério na humanidade, que parece até estar aumentando com o passar dos tempos. Tem gente com dinheiro para mandar fazer um foguete para brincar no espaço por poucos minutos e tem gente que passa fome! Claro que isso não está certo.

Só que é importante colocar essas coisas em perspectiva. Ontem eu comprei uns chocolates amargos pela internet (eu escrevi amargo para vocês não me confundirem com um animal selvagem sem paladar) que custavam meio caro. Eu tenho plena consciência que eles não serão essenciais para a minha sobrevivência, e que eu poderia deixar de gastar esse dinheiro. Sei inclusive que poderia pegar esse dinheiro e doar para uma instituição de caridade que cuida de pessoas passando fome.

Desde o começo da pandemia, meu coração ficou um pouco mais mole com quem liga para pedir uma ajuda, eu tenho sorte por ter um emprego que podia ser realizado de casa, resolvi empenhar um pouco mais da minha renda para ajudar pessoas em maior necessidade. Só não resolvi empenhar toda minha renda não essencial nisso. Vai que eu quero comprar uns chocolates?

Será que eu sou uma pessoa ruim por não dar todo o dinheiro não essencial para entidades de caridade? Talvez esse dinheiro gasto com bobagem pudesse fazer uma diferença enorme na vida de alguém em situação de desespero. Pior: eu ainda consigo deitar minha cabeça no travesseiro de noite e dormir. Deve ter algo de muito errado comigo por gastar dinheiro com qualquer outra coisa que não seja essencial, não?

Claro que não. Ninguém pensa desse jeito.

Quando está falando do próprio dinheiro. Porque com o dinheiro dos outros, especialmente de quem tem mais que você, alcançamos o nirvana do altruísmo! Como ousa uma pessoa com mais dinheiro que você não dedicar todos seus recursos para causas nobres? “O quê? Porque eu assinei Netflix? Não muda de assunto!” Se tem uma pessoa que pode jogar essa pedra de não gastar seu dinheiro com coisas tecnicamente desnecessárias, eu duvido que ela esteja na rede social reclamando de bilionário.

É claro, quanto mais dinheiro você tem, maior a escala dos seus gastos. O meu chocolate é um carro esportivo para alguém muito rico. A quantidade de renda disponível impacta no preço do que você pode ter de supérfluo, mas a lógica é a mesma. E até falando de caridade, uma pessoa como o Jeff Bezos doa mais dinheiro para gente necessidade que todos os que reclamaram dele na internet… juntos. A sua doação de 50 reais para uma ONG que gosta é de 50 milhões para uma que ele gosta. Escala.

Em tese, é melhor que o dinheiro de um bilionário esteja dividido numa classe média do que concentrado, mas dado o problema da desigualdade, o bilionário não está quebrando o mundo por falta de doações. Bill Gates já gastou mais dinheiro com projetos públicos que muitos países no mesmo tempo. Jeff Bezos não é famoso por sua filantropia, mas isso não quer dizer que ele nada no seu dinheiro feito o Tio Patinhas. Todo mundo que tem muito dinheiro entra num ciclo interminável de doações, eventos de caridade e participações em projetos sem fins lucrativos.

Não é razoável esperar que um ser humano abra mão dos luxos que tem disponíveis para doar tudo para os mais necessitados. Alguma coisa ainda vai animar a pessoa. No caso do dono da Amazon, é ir para o espaço. Você vai para a praia, ele vai para a estratosfera num foguete particular. É a vida.

Numa análise mais histórica, durante a corrida espacial entre EUA e União Soviética, muita gente reclamava dos gastos com a NASA (talvez reclamassem na Rússia, mas não devem ter vivido para contar a história) enquanto muita gente sofria com a desigualdade. Parece algo muito lógico para reclamar: pra quem está passando fome, visitar a Lua é uma bobagem. Mas o mundo é muito mais complexo do que isso.

Não só o pouso na Lua cativou gerações e deu um senso de capacidade e propósito para muitas pessoas nesse mundo, como criou sua própria economia. Virou ferramenta de propaganda e ajudou a entrar muito dinheiro nos EUA, provavelmente mais do que foi gasto no projeto. Só de ter enfraquecido a imagem do adversário, já deve ter evitado muitos bilhões em prejuízo com guerras. Se você parar para pensar, foi um baita investimento em guerra não violenta.

Sim, muita gente passou fome enquanto se gastava os tubos com um foguete para visitar um lugar sem ninguém, mas quanta gente não ganhou a vida com tudo criado ao redor da viagem, e quanta gente não escapou de um fim violento com a guerra sendo travada no campo da propaganda? Investimento em conhecimento e tecnologia pode não matar a fome agora, mas evita mais fome no futuro. Coloca a humanidade num caminho que já se provou muito eficiente para aumentar a qualidade de vida do cidadão médio.

Assistencialismo é excelente para resolver questões pontuais, mas não gera muitos ganhos no longo prazo. O Brasil viveu um momento de euforia com maior redistribuição de renda no começo deste século, mas como não tinha investimento em mais nada, a coisa foi estagnando e muita gente pegou o caminho de volta da classe C para a D e E. É muito importante proteger pessoas de situação de vulnerabilidade, mas o mundo não pode ficar só nisso.

Alguém tem que inventar uma maluquice para animar esse povo a fazer mais com o que tem em mãos. Tecnologia é a melhor ferramenta que já encontramos para isso: a cada avanço, a qualidade de vida média aumenta um pouquinho. Muita gente ainda sofre, mas sofre um pouco menos. Parece que pegar todo o dinheiro que o Bezos gastou com o seu foguete resolveria muitos problemas da humanidade, mas novamente, é uma questão de escala.

O homem mais rico do mundo sustentaria a humanidade por algumas semanas, no máximo. Tem muita gente nesse mundo! E pra ser bem técnico, como essa riqueza está em ações, o valor real é muito menor na prática: quem vende muito de algo baixa o preço. Oferta e demanda. Se ele quisesse mesmo doar todo seu dinheiro, em minutos deixaria de ser o homem mais rico do mundo, as ações despencariam!

Esse tipo de reclamação é preguiça de pensar, ou vontade de aparecer como uma pessoa melhor do que realmente é. Se a humanidade realmente tivesse o problema de alocar recursos demais para pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, você estaria reclamando disso num vôo rápido para Saturno. Quase todo o mundo é um pântano de gente semianalfabeta que acredita em amigo imaginário.

Quem me dera o nosso problema fosse um bilionário fazendo foguete para brincar no espaço. Quem me dera que Jeff Bezos pudesse melhorar esse mundo só mudando o foco de algo que acha divertido para algo que os outros dizem que é mais útil. Mas a verdade é que na média, não mudaria quase nada. Agora, se por um acaso a sanha dos bilionários de ir para fora do planeta iniciar uma nova corrida espacial, todos podemos ganhar, e muito.

Muitas vezes tudo o que a humanidade precisa é um foco. Ter o que fazer. Se a história de dominar o espaço realmente tomar conta de novas gerações e o esforço começar a ir nessa direção de novo, várias indústrias começam a se desenvolver, uma nova economia vai se desenhando, e talvez não precisemos mais de metade da população mundial disputando atenção em redes sociais. A verdade é que estamos vivendo uma crise de propósito junto com todos os problemas habituais.

O dinheiro “esbanjado” por Bezos, Musk e outros malucos não resolve nenhum problema imediato, mas pode ser a fagulha para animar nossa espécie a continuar evoluindo. Pode parecer uma bobagem para você, mas eu digo isso com todo o carinho: se te parece uma bobagem, você não tem que estar nessa conversa. Não desperdice seu tempo: concentre-se no que acha mais importante e deixa outras pessoas tocarem outros aspectos da humanidade.

Todo mundo ganha.

Para dizer que estou sendo pago para defender Bezos, para dizer que acha uma bobagem discutir se é uma bobagem, ou mesmo para me dizer que meu chocolate é um crime contra a humanidade (só se vier estragado): somir@desfavor.com

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Comments (26)

  • Simplesmente eu penso o seguinte: o dinheiro é meu, ganhei e faço dele o que quiser, seja bancando meus pequenos luxos ou se fosse rico, minhas extravagâncias. Fácil fazer caridade com chapéu alheio, penso se a pessoa que critica seria tão generosa assim se fosse milionária.

  • Enquanto isso, em 1970, um bunda-mole choraminga:
    “The whitey on the moon”.
    Quer dizer, já choramingava.
    Adoro perguntar quanto do $ ou do TEMPO esse povo já dedicou a qualquer coisa além do próprio umbigo.
    Não sou muito popular em festinhas.

    • Eu adoraria que fosse possível resolver todos os problemas da humanidade de uma só vez, mas não é. O mais próximo disso é avançar tecnologias e conhecimento.

  • Parei de ler imediatamente depois disso:
    “(eu escrevi amargo para vocês não me confundirem com um animal selvagem sem paladar)”.
    Me senti na obrigação de comentar enquanto estou no mood.
    Vou voltar pro texto.
    Ri alto.

  • O problema é que esse dinheiro gasto no rolê espacial foi conseguido com práticas monopolistas, subsídios do governo, clientes lesados e funcionários explorados.

    • Justo, mas virtualmente todos os confortos da vida moderna foram resultado de dinheiro acumulado de forma escrota por uma minoria. O sistema que permite esse tipo de avanço tecnológico é muito problemático, mas não podemos abrir mão dos resultados dele.

  • Assim como televisão e carro já foram coisas de ricaços, turismo espacial o é agora. Hoje em dia qualquer um compra televisão e carro sem andar muitas quadras. Toda cidade tem uma Casas Bahia e concessionárias.

    No futuro, qualquer pobretano que mal tem o que comer em casa, já tem uns 7 filhos, acredita na Terra Plana e ainda por cima tem celular de última geração, vai poder parcelar turismo espacial em 900x no carnê graças ao Bolsa-Constelação e ostentar em alguma rede social “sua enveja me fortaleçe (emoji de oração)”. Não sei pra quê essa preocupação com os “pobres passando fome”, se eles mesmos não se preocupam com a própria realidade deles.

    “se esforço começar a ir nessa direção de novo, várias indústrias começam a se desenvolver…” Eu mataria para me tornar uma comissária de bordo espacial. Ok, menos, eu me contento em ser faxineira espacial. Porra, trabalhar no espaço!

    E se ofende Bezos brincando de ser explorador espacial, vamos acabar com o Mario Galaxy. Como que pode existir jogos sobre um gordo bigodudo e encanador brincando no espaço, caçando uma tartaruga gigante? Vocês já viram um encanador ter dinheiro ou qualificação para ir para o espaço? Já viram um gordo ser astronauta? E que porra é essa de bater em tartarugas? Elas estão ameaçadas de extinção!

    À propósito, Bezos… Manda uma foto da porra da Terra pra gente. Seja mais um a mostrar que ela não é plana porríssima nenhuma.

    • “Não sei pra quê essa preocupação com os “pobres passando fome”, se eles mesmos não se preocupam com a própria realidade deles.”
      Resumiu lindamente toda essa discussão. Nem pobre gosta de pobre.

    • Finalmente alguém levanta a questão do Mario. Um incompetente que deixa a terrível encanação do reino dos cogumelos do jeito que encontrou: toda desconjuntada. Só se interessa em correr atrás de rabo de saia!

      Mas em nota menos crítica, eu torço para o espaço virar uma breguice o mais rápido possível. Tecnologia pega no breu quando a pobralhada adota de coração. Sonho dourado de um dia da minha vida poder dizer “maldita inclusão espacial!”.

  • Eu não entendo qual a vantagem de subir numa nave e ir até um planeta vazio, lua ou outra coisa espacial qualquer, depois voltar e ainda gastar muito dinheiro. Só se for pra se exibir pros outros, porque satisfação pessoal nisso é muito estranho. O ser humano é estranho, por isso nunca os ETs falarão com a gente.

    • É por isso que eu termino o texto numa nota compreensiva-agressiva: justo que você não veja vantagem, e com certeza você tem seu papel nesse mundo. Mas tem gente que sonha em visitar a próxima fronteira da expansão humana, e o melhor que fazemos é não pisar uns nos pés dos outros. Deixa o maluco passear no foguete, pode não ser útil pra você agora, mas um dia vai ser.

  • Chocolate amargo de que marca, Somir?

    É engraçado como que a gente cria certas expectativas em relação à palavra do outro, né? Estava imaginando, brevemente, que tu iria dizer que agora que um civil, uma pessoa comum, foi ao espaço, outros também podem ir.

    Mas sim, sobre o texto, concordo também que estamos vivendo uma crise de propostos que parece não ter saída tão fácil, e as pessoas não parecem saber bem pra onde ir, o que fazer. Talvez o desenvolvimento tecnológico realmente ajude nisso!

    • Hershey’s porque eu tenho emprego, mas ainda estamos em crise, né?

      De uma certa forma eu disse isso, a corrida espacial que eu menciono é a privada, baseada em egos ao invés de “soft power” de duas potências em conflito. O caminho vai se abrindo quando o setor privado assume o desenvolvimento. Talvez biotecnologia fosse mais eficiente para avançar a espécie agora, mas se o espaço der conta de animar esse povo de novo para o futuro, estou aceitando de braços abertos.

      • Hershey é bom, gosto dos Lindt também.

        E eu aposto mais na biotecnologia do que nessas baboseiras quânticas que espalham por ai, não desmerecendo, claro, a verdadeira quântica com seus estudos sérios e descobertas inovadoras. Mas essa parece ser uma realidade distante ainda pra ajudar a desenvolver o progresso e tal.

        • Já provaram o 1891 da Neugebauer? É 70% cacau e bem gostoso, tem um bom custo benefício.

          *Li o texto, mas nem vou disfarçar o off topic com um comentário a respeito porque trabalhamos com cara de pau mesmo.

          *Chocolate é no mínimo 70% cacau, menos que isso nem me chamem para a degustação (embora eu tenha consumido o Hershey’s special dark 60% por um bom tempo no passado)

  • Distribui dinheiro pra todo mundo, 90% gasta com bobagem e volta pra pobreza.
    Por isso sou bem descrente a respeito da viabilidade de uma renda básica universal.

    • Mas a renda básica universal é justamente para eliminar essa pressão de saber o que fazer com o dinheiro. Não é necessariamente uma ferramenta para gerar igualdade, precisamos de muita paz, liberdade e recursos financeiros para subir o nível de vida da grande maioria da população humana, mas podemos deixar o fundo do poço um pouco menos fundo.

      Gastou com bobagem? Chato pra pessoa por um mês, mas pelo menos girou um pouco a economia.

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