Sucesso por esporte.

No dia a dia, eu gosto de assistir futebol, basquete e vôlei. Normalmente o interesse passa por fases, nesse último ano eu vi muito mais basquete do que qualquer outra coisa, mas agora que estamos nas olimpíadas, vôlei passa a ser meu esporte preferido. Estou vendo até reprises, por causa dos horários invertidos da competição no Japão. E talvez a coisa mais impressionante, a versão feminina do vôlei é a que mais me anima…

Porque eu preciso ser sincero, esporte feminino normalmente não causa esse efeito. Especialmente nos meus outros dois esportes preferidos. Futebol feminino é um arremedo de esporte, os melhores times do mundo jogam pior que as mais baixas divisões da versão masculina. Basquete feminino não fica muito atrás, embora não tenha o mesmo efeito “formigas numa folha de papel” que nem o futebol, falta muita força física para o esporte ser minimamente interessante.

Eu tentei. Eu juro que eu tentei. Coloquei na cabeça que podia ser preconceito e fui assistir jogos de futebol feminino e até mesmo a WNBA, mas simplesmente não dá. Sim, todas elas são atletas melhores do que eu jamais vou ser, fazem coisas que eu jamais faria, mas ainda sim não chega a um padrão de entretenimento minimamente aceitável, não se você tem as versões masculinas na memória.

É lento, é confuso, acontecem erros bizarros… mesmo vendo as melhores atletas do mundo em atividade, simplesmente não dá. Eu não consigo imaginar quem assista a essas atividades e se sinta entretido. O que não quer dizer que sou contra mulheres praticarem os esportes, só quer dizer que eu entendo porque é difícil encontrar plateias e patrocinadores. Homens jogando no mesmo nível dessas mulheres não teriam também.

Já no vôlei, a coisa muda completamente de figura. Mesmo conhecendo a versão masculina, a feminina só parece um pouco mais lenta, o que no caso pode até ser um ponto positivo: vôlei masculino é muita pancada e ponto rápido, o feminino tem mais disputa porque dá para defender as bolas e fazer disputas mais longas por ponto. E como o esporte foi mudado para dar mais dinamismo há algumas décadas, mesmo assim ainda é algo animado.

E quando eu digo que gosto de ver o esporte, eu estou falando sobre assistir vários jogos, e jogos que não são de times ou seleções para as quais eu torço. No futebol, eu vejo jogo de dois times ingleses aleatórios, no basquete eu vejo times da NBA que a maioria das pessoas nem sabem o nome, e no vôlei, quando acho, vejo até campeonato turco. É importante ressaltar essa diferença porque a minha opinião não é de quem só vê jogo da seleção brasileira por cinco minutos, eu realmente gosto de assistir esses esportes, entendo as regras, sei os nomes das posições, conheço muitos atletas e tenho uma boa noção do nível de qualidade de diferentes times.

Quando eu digo que futebol e basquete femininos são muito fracos, digo com propriedade de espectador envolvido. Você espera algumas jogadas, noções táticas, competitividade… o que costuma ficar faltando nesses dois esportes quando são as mulheres que estão jogando. Não é raro ver times de completas amadoras sendo esmagadas por profissionais nos maiores torneios, o que é muito sem graça de ver. Já no vôlei, eu sei que a diferença não é tão séria assim. Não tem as pancadas e a velocidade alucinante, mas a versão feminina tem equilíbrio entre atletas de alto nível, especialmente entre as seleções, e a lógica técnica e tática do jogo se sustenta muito bem, obrigado. Algumas jogadas muito bonitas como largadas e fintas inclusive são mais comuns no vôlei feminino. E tem sim pancada, bloqueios cruéis e bolada na cara para completar o cardápio.

Talvez vôlei seja um esporte que por sorte funciona melhor para os corpos femininos? Talvez. Explosão muscular sempre ajuda, mas como as atletas ficam em lados opostos da quadra, não há como alguém muito mais rápido ou forte alcançar uma vantagem absurda (como uma corrida ou trombada), e as coisas se resolvem rápido, dando tempo pra dar uma respirada aqui e acolá. Pra quem tem o pulmão menor, deve fazer uma diferença.

Mas tem uma diferença essencial entre os esportes. No futebol e no basquete feminino, as mulheres jogam nas mesmas condições dos homens. O campo de futebol e as traves são do mesmo tamanho, muitas vezes fazendo com que as jogadoras não tenham pique para ocupar todos os espaços, se embolando em faixas pequenas do campo com muito espaço livre para jogar bolas aleatórias. No basquete, a cesta fica na mesma altura! Mulheres são vários e vários centímetros mais baixas que homens na média, o que significa que enterradas são uma raridade até mesmo na liga americana profissional. As dimensões da quadra são as mesmas, o que quer dizer que elas têm que jogar uma bola pesada com braços menores e menos músculos numa distância enorme a cada tentativa de pontuação.

Já no vôlei, a quadra é pequena e bem ocupada por seis pessoas de cada lado, independentemente do tamanho. O importante é a rede, que para as mulheres é quase 20 centímetros mais baixa que a dos homens. Isso faz uma diferença absurda. Se a rede fosse da mesma altura, o jogo provavelmente seria um festival de jogar bolas preguiçosamente sobre a rede até alguém errar. Seria um jogo chatíssimo, onde apenas uma minúscula minoria das mulheres seria capaz de fazer algo interessante de se ver. Quase nenhum país conseguiria montar times capazes de jogar.

Você não vai sentir falta de agressividade e dinamismo no vôlei feminino, a rede mais baixa bate certinho com a média de altura das mulheres mais altas. Elas conseguem subir e enfiar pancadas na bola. Elas conseguem colocar uma parede de braços sobre a rede para fazer bloqueios. Elas conseguem dar saques poderosos que explodem na recepção adversária. Tudo isso porque alguém olhou para a rede que os homens jogavam e achou que não fazia sentido ter a mesma altura para as mulheres.

E as jogadoras não reclamaram. Elas foram lá e começaram a sentar a porrada na bola para deixar o jogo divertido de ver. Outro dia desses, eu me peguei assistindo Quênia contra República Dominicana nas Olimpíadas, um país sem tradição nenhuma, o outro um time mediano em decadência, e posso afirmar que fui entretido o tempo todo, mesmo com o nível técnico não sendo grandes coisas. O jogo é divertido de ver, mesmo o time mais fraco não é bizarramente fraco, e as coisas se movem numa velocidade decente. Se quiserem me mostrar propaganda durante um jogo desse, eu vejo numa boa.

Agora, nem o melhor jogo entre as melhores seleções de basquete ou futebol feminino consegue um resultado parecido. Como disse antes, podem ser excelentes atletas muito mais capazes do que eu jamais sonharia em ser, mas estão perdidas em campos e quadras gigantes, com goleiras perdidas entre traves que jamais sonhariam em proteger ou tentando acertar uma cesta que não alcançariam nem com um foguete. Se você está achando que é sacanagem com as mulheres não querer mudar as dimensões para melhor acomodá-las, saiba que são justamente as atletas femininas dessas modalidades que não querem.

E é aqui que entramos em outro ponto, menos esportivo e mais… psicológico da coisa. As jogadoras de vôlei usam uniformes apertados que valorizam sua beleza, estão quase sempre maquiadas e com cabelos muito bem arrumados. Eu nem vou falar sobre beleza natural, porque apesar do vôlei feminino atrair sim um número imenso de mulheres bonitas, pode-se perceber claramente que há uma vaidade muito maior no esporte. Mulheres que não são obrigadas a aparecer bem arrumadas, mas que o fazem pelo ego ou pelo espetáculo. Compare isso com o futebol e o basquete feminino, e você vai começar a ver a diferença também.

Nas duas modalidades, as atletas querem usar os mesmos uniformes que os homens e ai de quem sugerir qualquer mudança, e qualquer menção à beleza das atletas é considerada ofensa e desrespeito ao esporte. Sim, as atletas do vôlei, com razão, não querem ser tratadas como modelos, mas como não tem mimimi com a parte de serem consideradas bonitas, o assunto nunca toma conta do noticiário. Falamos das jogadas, dos resultados, a beleza está lá para quem quiser ver. Um dos melhores esportes femininos do mundo não tem polêmicas sobre aparência das jogadoras, já os piores…

Não é coincidência. Você vai ver atletas do vôlei feminino falando sobre seu esporte e quando fora das quadras, agindo como bem entenderem. Você vai ver atletas do futebol e do basquete (especialmente as americanas) lacrando sem parar, colocando o esporte em segundo plano e trazendo toda atenção para cima delas com discursos altamente politizados. O esporte não funciona porque acham que é demérito não jogar com as mesmas regras que o masculino (ou seja, dizem por tabela que homens são superiores), dizem que qualquer tentativa de falar de beleza é demérito com o esporte que praticam mal por causa da teimosia original, e para completar o pacote, quando é hora de falar, falam de tudo menos do seu esporte.

Não é à toa que ganham menos e não tem uma fração do interesse das versões masculinas do esporte. No vôlei, são mulheres jogando o melhor que podem, no futebol e no basquete, são objetos jogadores não identificados te chamando de machista, racista e misógino por não querer ver o que elas fazem. É fácil cair na armadilha de achar que o vôlei funciona porque as garotas são bonitas, mesmo que isso ajude (ajuda em tudo na vida), é algo que vai além disso: no vôlei feminino você tem a impressão que é bem-vindo como espectador. No futebol e no basquete, parece que você está cumprindo uma obrigação.

Eu não preciso de mulher com shorts curtos e apertados para achar vôlei um bom esporte, mas se tem esse bônus, muito obrigado! Todas bem arrumadas e bem cuidadas ainda por cima? Não precisava, mas eu agradeço. O quê? Baixaram a rede para que as jogadoras pudessem fazer as jogadas mais violentas que eu, como homem, adoro? Muito bem! O quê? Vocês não fizeram nada disso para me agradar? Foda-se! O resultado final é o que importa.

E essa é a lição que os outros dois esportes deveriam aprender com o vôlei, mas provavelmente não vão aprender. E digo mais, não se assuste se as jogadoras de vôlei começaram a ser substituídas por mulheres mais e mais lacradoras, exigindo uniformes mais largos, rede mais alta… tudo vai depender do sucesso do esporte. Quando as coisas vão bem, a barreira de entrada para gente que está pouco se lixando para o esporte vai ficando menor. Futebol e basquete começaram tão mal que não tinham força para resistir. O vôlei ainda tem, ainda é um esporte de vencedoras.

Talvez um dia não seja mais… enquanto isso, vou aproveitando um dos poucos esportes delas que me recebe de braços abertos. E fica a dica: mesmo que você ache esporte feminino um saco, vôlei é uma das exceções. Dá um suporte se puder, porque pode ser a diferença entre vida ou morte.

Para dizer que foi muito papo pra dizer que gosto de ver bunda, para dizer que uma hora vai encher de trans (tomara, vai ser hilário), ou mesmo para dizer que achou que eu ia falar da levantadora de peso da Nova Zelândia: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

Etiquetas: , ,

Comments (14)

  • Eu não sou de acompanhar esportes na TV, mas mantenho a opinião “polêmica” de que existem modalidades em que homens se saem melhor que mulheres e vice-e-versa (por mais que zé lacrinho esperneie no Twitter, isso nunca vai mudar).

    Futebol feminino já tem a fama de ser uma merda, com muié fazendo discurso politizado sobre isso então… É pedir pra foder de vez com a pouca reputação que o esporte tem. Até a cara da Marta me desperta aquele ranço.

  • Paulista de Macaé

    Somir, entendo perfeitamente o que você disse, acredito que diminuir as dimensões do campo e das traves do futebol seria contraproducente, devido que muitas equipes femininas jogam em estádios/arenas, que também são utilizadas pelo futebol masculino, talvez desencorajando investimentos na categoria. No basquete seria viável a diminuição da altura cesta. Antes da lacração eu até gostava de acompanhar algumas partidas do futebol feminino.

  • O seu pensamento sobre esportes femininos é parecido com o meu, Somir. Concordo com basicamente tudo o que foi dito no texto, mas eu, ao contrário de você, não tenho o costume de acompanhar de perto basquete e vôlei nem nas suas versões masculinas; o que possivelmente até me descredencie um pouco para dar uma opinião abalizada sobre esse assunto.

    Quanto aos uniformes, historicamente falando, já houve aqui e ali tentativas não muito bem-sucedidas de se fazer roupas de futebol e de basquete exclusivas “para elas”. Até onde eu sei, no entanto, essas tentativas são mais lembradas por controvérsias que geraram mesmo em tempos “pré-lacração” do que por qualquer outra coisa. No caso do futebol, camisas e calções menores, com formatos “um pouco mais femininos”, existem há algum tempo. Mas essas mudanças são bem sutis e de ordem meramente prática, sem a mínima intenção de “sensualizar”. Tais peças surgiram para evitar o desconforto das atletas, que, antes, usavam uniformes largos demais e ficavam parecendo crianças usando roupas dos pais ou dos irmãos mais velhos. E já houve quem se manifestasse a favor do uso de uniformes “mais sexy” – sendo, é claro, rechaçados como “porcos chovinistas” – e também quem reclamasse da demora de entidades como a CBF em criar trajes mais adequados ao futebol feminino.

    No basquete, lembro que a federação da Austrália tentou lançar moda substituindo os tradicionais conjuntos de regatas e calções largos por uma espécie de “macaquinhos” justos. Pelo que andei lendo, essa peça, apesar de ter dividido opiniões antes, ainda foi mantida por mais alguns anos e relançada com visual mais moderno para os Jogos Olímpicos deste ano. Ao que parece, as jogadoras aprovaram o tal do “macaquinho”, alegando que têm mais liberdade de movimento em quadra. Tem quem diga que “um pouco de sex appeal não faz mal nenhum ao esporte” e também há detratores que chamam esse uniforme de constrangedor porque “expõe” demais as atletas, com bundas e “capôs de fusca” ficando desnecessariamente em evidência.

  • “para dizer que uma hora vai encher de trans (tomara, vai ser hilário)”
    Pior que já tem umas feministas aborrecidas com os LGBTQIEPAWHATEVER+ invadindo os espaços das mulheres e não raro cometendo abusos sexuais.
    A questão é bem simples, tem uma competição com um ou dois homens vestidos de mulher nos times femininos, se as mulheres, que são maioria, não aceitarem não vai time nem jogo. Isso tá na mão delas mesmo. Mas se o medo de serem “canceladas” por meia dúzia de adolescentes twitteiros é maior que serem agredidas ou abusadas, aí eu não posso me importar menos.

  • Ah, com certeza vão dar um jeito de estragar, a pandemia tornou essa geração ainda mais insuportável, invejosa e amargurada. Alguém aí lembra que no começo tinha toda uma mensagem de positividade “vamos todos nos unir contra a doença” “estamos juntos nessa”?

    Mas é divertido ver essa esquizofrenia de liberdade sexual x supersexualização. Acho que até 2030 os lacradores vão militar por roupas modestas e sexo depois do casamento, só precisa de um termo moderninho descolado em inglês.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: