Mamihlapinatapai é uma palavra que vem da língua Yagan, o povo que originalmente habitava a Terra do Fogo, também conhecida como Patagônia, no Sul da Argentina. Eu já respeitaria este povo pela habilidade de sobreviver com pedras e gravetos em um frio abaixo de zero, mas esta palavrinha me fez gostar ainda mais deles. Pena que estão extintos.

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E se você pudesse tomar um comprimido que te deixasse mais inteligente? E se naqueles dias com sono, cansado, que não rendem muito bem, uma pílula pudesse te dar disposição e rapidez mental? E se você pudesse trabalhar 60 horas seguidas sem sentir qualquer desconforto? Desfavor Explica: Nootrópicos.

Nootrópicos são drogas para tratar determinadas doenças que, quanto utilizadas por pessoas saudáveis, como efeito colateral, melhoram o rendimento intelectual atacando em diversas frentes: deixam a mente mais alerta, mais rápida, melhoram o poder de raciocínio, concentração, de dedução e a memória.

Na definição original, criada na década de 70, os Nootrópicos seriam substâncias que, apesar de potencializar as capacidades cognitivas, não seriam tóxicas, viciantes ou provocariam efeitos colaterais significativos. Só que muita coisa mudou da década de 70 para cá, hoje estas substâncias podem sim ter efeitos colaterais devastadores e viciar. Porém, muita gente usa nootrópicos, apegada à definição original, acreditando que são inofensivos e sem efeitos colaterais, sem saber que essa definição não se adequa mais aos medicamentos modernos, que mal existiam naquela época.

Via de regra, essas drogas atuam diretamente no cérebro. O ato de pensar, raciocinar envolve a comunicação entre as células do nosso cérebro, os neurônios. Um neurônio transmite “informação” para outro neurônio através de “pontes” que os ligam (papo técnico: sinapses). O aumento de algumas substâncias chamadas “neurotransmissores” (papo técnico: dopamina e norepinefrina, por exemplo) faz com que os neurônios consigam se comunicar mais rápido e melhor. Isso, em uma visão macro, nos torna mais “inteligentes”, na verdade, mais capazes de entender, memorizar, deduzir e raciocinar de forma imediata.

No geral são remédios pensados para quem sofre de déficit de atenção, hiperatividade ou epilepsia. Como efeito colateral, quando usados por pessoas saudáveis, acabam aumentando a atenção, a concentração, facilitando a memória a curto prazo e até o aprendizado. Porém, isso tem um preço, que a maioria dos usuários desconhece.

Nenhum desses remédios e brincadeira. Não são inofensivos. Na melhor das hipóteses, estamos falando de efeitos colaterais como ganho de peso, insônia, diarreia e náuseas. Mas, na pior das hipóteses, podemos cogitar ataque cardíaco, AVC, arritmia, alucinações, coma e morte. Isso sem falar na dependência que podem causar.

Como cada organismo vai reagir é um mistério, uma roleta russa química. Mesmo a Modafinila, que durante muito tempo foi vendida como “sem efeitos colaterais significativos”, pode ter efeitos devastadores, como por exemplo, desencadear uma doença chamada Síndrome de Stevens-Johnson, que pode até matar. Então, é importante desfazer essa definição ultrapassada da década de 70: Nootrópicos podem sim desgraçar sua vida.

Mas apesar dos efeitos colaterais, não é nenhuma novidade usar estimulantes para turbinar o cérebro, Freud usava cocaína com esta finalidade e até mesmo no Brasil não era raro o uso de anfetaminas para trabalhar mais e melhor. Porém, por causa da alta demanda do mercado e competitividade insana, o que antes era um uso pontual (antes de uma prova importante ou para entregar um trabalho de urgência), está se tornando regra. Cada vez mais gente usa, o que faz com que cada vez mais outras pessoas “tenham que” usar, para conseguirem se manter competitivas no mercado e correr com a manada. A exigência do mercado de trabalho está criando uma demanda constante por Nootrópicos e esta epidemia é silenciosa. Precisamos conversar sobre o assunto.

Essa gracinha começou com força no Vale do Silício, nos EUA, suposto berço das mentes mais criativas e empreendedoras do mundo. Os Nootrópicos ganharam um apelido carinhoso: “Smart Drugs” (algo como “Pílulas da inteligência”) e, rapidamente, todo mundo estava usando. Isso colocava quem não usava em uma situação muito desagradável. É como competir com atletas anabolizados sem usar nada, só que com o agravante de que não vai haver antidoping, você simplesmente vai render menos que todo o bando e isso vai ficar na conta da sua incompetência ou falta de capacidade.

Junto com essa febre empreendedora/criativa, o uso de Nootrópicos foi se espalhando pelo mundo. Mesmo quem não é empreendedor vem sendo esmagado por jornadas exaustivas em grandes empresas ou em duplas jornadas de trabalho. Nos últimos anos, a venda de psicoestimulantes (principalmente a Ritalina) cresceu muito no Brasil (cerca de 25%) e isso é apenas no mercado oficial. Segundo dados da OMS, 20% dos remédios consumidos no Brasil são falsificados ou contrabandeados, então, provavelmente este número é ainda maior.

Você pode estar se perguntando por qual motivo nunca ouviu falar disso, afinal, o brasileiro não é muito de esconder quando se entorpece. Como eu disse, é uma epidemia silenciosa. É que os Nootrópicos não são drogas de uso recreativo, são drogas que potencializam o rendimento mental, ou seja, não são muito boas para esse processo de ficar se gabando. Ninguém quer admitir que é esperto ou rende muito por estar recebendo uma forcinha química.

Some-se a isso a falta de fiscalização, pois nenhum empregador tem interesse em convencer seus empregados a desestimular o uso de uma droga que lhes gera mais lucro. Então, somando estes dois fatores (brasileiro tem horror a parecer burro e patrão brasileiro explora absurdamente seus empregados), temos um terreno fértil para que os Nootrópicos se alastrem sem fazer alarde. É um pacto social de silêncio, não convém a ninguém falar nisso.

A coisa fica ainda mais séria quando falamos do uso por universitários e/ou adolescentes, pois estas Smart Drugs agem em uma área do cérebro que pode não estar totalmente formada antes dos 30 anos de idade, causando problemas sérios no seu desenvolvimento. E fica ainda mais preocupante se levarmos em conta um estudo publicado pela revista Nature diz que pelo menos 25% dos universitários fazem uso desse tipo de remédio para turbinar o cérebro. Então, sinto muito, o assunto não é agradável, mas é hora de conversar sobre isso, pois mesmo que você não use, seu filho pode estar usando.

“Mas Sally, se ele estivesse usando, eu saberia, certo? Teria sintomas?”. Às vezes não de imediato. Outro problema enorme envolvendo Nootrópicos é que esta utilização como up cerebral é relativamente recente, então, ainda não se tem estudos conclusivos sobre o uso contínuo sem necessidade por longos períodos. Até hoje, só há estudos a longo prazo em animais, e os resultados não são muito legais: surgiram novos neurônios defeituosos que causaram tipos terríveis de epilepsia, danos à parte do cérebro responsável pela memória (papo técnico: hipocampo) em função de sono insuficiente, depressão, ansiedade e, acreditem, perda da capacidade cognitiva.

“Mas Sally, se meu filho ficar anos sem dormir eu vou perceber, né?” Um pequeno spoiler: sono é sagrado. Uma privação de sono de três dias já é o suficiente para produzir alterações estruturais no cérebro e causar algum dano. Dias sem dormir ou dormindo pouco podem embananar a química cerebral e desembocar em consequências bem ruins e difíceis de reverter. Agora imagina isso por anos.

Então, por mais que seja tentador criar um filho ou até um exército hiper-inteligente de humanos na base do comprimido, no final das contas podem se converter em um bando de idiotas burros após anos de privação de sono ou de desregulamento da química cerebral. Para decidir o que vai botar pra dentro do seu organismo não basta levar em conta os efeitos imediatos, é preciso pensar nos efeitos após um longo prazo.

Além disso, existe a questão ética: seria justo que uma pessoa “pura” compita com uma pessoa que usou estimulantes químicos para estudar e para fazer a mesma prova, por exemplo, em um concurso público? Seria justo promover um funcionário que trabalha movido por esses remédios e acaba produzindo mais do que outro que não faz uso de nenhuma química? Eticamente falando, seria mais justo fazer um exame antidoping intelectual, mas provavelmente não vai acontecer, pois o mercado não quer justiça, quer gente que trabalhe insanamente, não importa o preço para sua vida pessoal.

Tenham em conta algo para a vida: mexer com a química do cérebro é sempre um risco. Estamos falando de um equilíbrio delicado que, uma vez descacetado, dificilmente fica impune. É muito comum gente tomar antidepressivo para parar de fumar, tomar remédios desnecessários, apenas para facilitar um processo. Não façam isso, o risco é enorme e podem abrir portas que não se fecharão nunca mais. Para de botar fluoxetina para dentro só porque a vida está difícil, só tomem se realmente for indispensável.

Existem outras formas naturais de turbinar seu cérebro, que não te colocam em risco. Coisas fáceis como ler algum conteúdo que seja desafiador intelectualmente ou conversar com uma pessoa que te traga novos pontos de vista e que te acrescente. Conversar com pessoas “padrão”, que pensam sempre igual e repetem sempre as mesmas coisas é considerado chato pelo nosso cérebro por algum motivo: o cérebro busca longevidade, por isso ficamos encantados com quem nos é um “desafio” intelectual, pois de alguma forma o cérebro sabe que aquela pessoa faz bem e recompensa com sensações de bem estar quando interagimos com esse tipo de pessoa. São as chamadas pessoas “interessantes” ou “nutritivas”.

Uma dieta equilibrada, prática de atividade física e horas de sono suficientes também ajudam a melhorar o seu rendimento. Algumas técnicas de concentração como ioga e meditação já mostraram bons resultados em exames de imagem, avaliando a reação do cérebro humano durante a prática. Controle emocional e autoconhecimento também são fundamentais, ter a habilidade de se acalmar, se perceber seus pontos fracos e contorna-los e até de reduzir seus batimentos cardíacos e a frequência da sua respiração podem ajudar de forma significativa no seu rendimento.

Algumas formas de arte também melhoram muito a memória e a capacidade de atenção e rendimento do cérebro. Dança, por exemplo, vem se mostrando uma das formas mais eficazes de manter a mente longe de doenças degenerativas. Tocar instrumentos e até atuar em peças de teatro também rendem ganhos secundários interessantes. Eu poderia listar diversas atividades que dão esse up mental, mas o melhor conselho é que vocês mesmos identifiquem o que lhes faz bem. Observem como reagem a cada atividade e como fica seu rendimento intelectual depois dela. Cada um de nós funciona melhor com uma atividade, você vai saber, seu cérebro vai enviar sinais.

E, cá entre nós, às vezes nem precisa praticar a atividade. Um experimento conduzido pela Escola de Medicina de Harvard observou o efeito no cérebro de voluntários que treinaram piano duas horas por dia, durante uma semana. Ao escanear seus cérebros, perceberam que a área responsável pelos movimentos dos dedos havia crescido. Depois, pediram a um outro grupo que apenas imagine estar tocando piano: o resultado foi idêntico ao do primeiro grupo, ou seja, sua mente cria realidade. O cérebro do segundo grupo aumentou de tamanho na mesma proporção que o do primeiro apenas por mentalizar a atividade. A mente tem a capacidade de criar resultados concretos.

Já estão sendo testadas drogas com a finalidade exclusiva de turbinar o funcionamento cerebral. Elas prometem ser mais seguras, pois são desenvolvidas para essa finalidade específica. Na verdade, existem companhias farmacêuticas inteiras sendo criadas para esta finalidade específica, como a americana Helicon. Até agora, ninguém conseguiu aprovar nada, mas acredito que estejam tentando com empenho, o primeiro a lançar esse tipo de medicamento vai ficar rico.

E aí surge uma nova questão ética: mesmo que desenvolvam o comprimido perfeito, que te deixa inteligente sem qualquer dano colateral, vamos concordar que não vai ser barato? Teremos então um mundo onde quem é rico vai ser mais inteligente do que quem é pobre. Não precisa ser vidente para prever o caos social que isso vai criar, certo? Além de um abismo social e estético, teremos também um abismo intelectual, quase que um sistema de castas de inteligência. Sinceramente, eu dispenso.

Para terminar, um adendo importante que quase ninguém fala sobre: ao tomar estes remédios, as pessoas ficam focadas, disciplinadas, trabalhando por horas a fio e cumprindo suas tarefas. Elas têm concentração para passar dias e mais dias focadas em trabalho e assim o farão, pois vai lhes render muito dinheiro. Porém, ao não ficarem ociosas, ao não precisarem desse período de descanso para recarregar o Sbrubles perderão em muito sua criatividade. Na boa, não adianta de nada um mundo inteligentíssimo sem criatividade. Também dispenso.

Em resumo, Nootrópicos, como qualquer droga, podem ter um efeito muito legal em um primeiro momento, mas, via de regra, a conta final é cara demais e não vale a pena. Pense mil vezes antes de usar e duas mil vezes antes de se omitir a respeito do uso. O mundo vai virar um lugar pior se o uso for socialmente aceito em larga escala.

Para dizer que ninguém tira a hegemonia do seu café, para dizer que você não vai usar, apenas vai dar para o seu filho calar a boca e ficar quieto ou ainda para dizer que já fez por onde morrer aos 40 por isso vai usar sem medo: sally@desfavor.com

Como vocês sabem, estamos em uma semana patrocinada pelo MIJO (Missão Informativa dos Judeus Online), onde exaltaremos (mediante remuneração) as maravilhas da cultura judaica. O cheque ainda não bateu, mas já estamos treinando um Pastor Alemão, caso seja necessário cobrar a dívida. Não faz mal, mesmo sem pagamento, estamos cheios de gás!

Hoje eu os presenteio com um dos rituais mais interessantes deste povo. Não é todo dia que uma religião resolve mexer no pênis alheio, sobretudo no de uma criança (bem, talvez no catolicismo…). Desfavor Explica: Circuncisão.

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Antes de mais nada, permitam-me chover no molhado: cachorro é bicho, não é gente. Apesar de uma maioria neurótica insistir em humanizar o coitado do animal, ele não pensa como um ser humano. Portanto, se você está em qualquer situação de tensão envolvendo um cachorro, não se paute por comportamentos humanos. Não adianta ficar dizendo ao cachorro que você é amigo, não adianta gritar, não adianta chorar.

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