Clichê, eu sei...

Num relacionamento “minimamente” estável, imagina-se que cada uma das partes seja uma das maiores interessadas na estética da outra. Não é incomum que pedidos e exigências sejam feitas nessa área, mas não existe nenhum consenso geral sobre a necessidade dessas requisições/imposições serem atendidas.

Cada um trata o assunto de uma maneira. Sally e Somir são exemplos disso.

Tema de hoje: Até que ponto o parceiro ou parceira deve influenciar na sua estética?

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a todas as pessoas que boiaram completamente com o meu texto da semana passada. Sempre desconfiei que um texto bem planejado para o público-alvo e uma receita de bolo dariam no mesmo quando quem lê não presta atenção, e tive mais uma prova disso. Não tomem isso como uma crítica irônica, é realmente um alívio ligar o “foda-se” e escrever exatamente do jeito que eu quero a partir de agora. Afinal, quase sempre discordam do que eu nem mesmo disse…

Voltando ao assunto em questão: Eu sou da opinião que não se deve ficar atendendo muitos pedidos desse tipo num namoro. E vou mais além dizendo que uma saudável dose de rebeldia torna qualquer relação mais honesta e intensa.

Aposto que Sally vai usar o seu famoso discurso exagerado, dando exemplos de pessoas que engordam 800 quilos ou que tatuam um ânus na testa. Foi mal, Sally, mas EU vou ficar no campo da realidade. Dia-a-dia, sabe?

E uma das situações que estraga relacionamentos no dia-a-dia é algo que conhecemos de outros campos da vida, mas que dificilmente enxergamos num namoro ou casamento: Os pequenos poderes. “Pequenos poderes” é uma expressão que define uma pessoa demandando algo inútil ou excessivo numa situação simples apenas por poder. “Poder” como verbo e como substantivo. Quando um do casal sente-se no papel de ditar seus padrões, essa característica pra lá de humana vem à tona. E a pior parte disso é que nós não sabemos tão bem assim o que queremos… Sabe quando você mexe tanto numa coisa que estraga? E não sabe mais onde foi que as coisas deram errado?

Padrões de estética são problemáticos por natureza. A atração segue sim algumas regras básicas, mas mesmo essas regras acabam sucumbindo à nossa capacidade de abstração. Beleza é terrivelmente mais relativa do que as pessoas imaginam, embora o homem seja um pouco mais “purista” aos seus instintos do que a mulher nesse momento, todos nós enxergamos algo a mais. E esse algo a mais é muito difícil de se definir.

Você pode perguntar para um homem o padrão de beleza que ele sonha para sua mulher, e ele vai ter várias idéias e imagens pré-definidas para montar essa parceira ideal. Digamos que esse homem em questão queira uma mulher loira, olhos azuis, grandes seios e uma tatuagem no quadril. Além do fato óbvio dele ter uma queda por atrizes pornôs americanas, percebe-se também que essa mulher é tão genérica a ponto de não existir. Esse padrão de beleza dificilmente vai impedi-lo de se apaixonar perdidamente por uma morena de quadris largos e cabelos encaracolados. Os nossos padrões de beleza passam longe de ser uma ciência exata. (Vários estudos foram feitos sobre o assunto e descobriram coisas “inimagináveis” como homens apreciando curvas e mulheres apreciando status… Boa, campeões!)

É mais do que comum ouvir alguém dizendo que se sente atraído por uma pessoa que difere muito do padrão de beleza que ela imaginava que tinha. A atração prega essas peças na gente. O seu ideal de beleza é um ideal. E quem se prende a um ideal ao invés da realidade acaba quebrando a cara na maioria das vezes.

Toda essa explicação tem o propósito de trazer nossos ideais de beleza inconstantes para uma relação estável. Se na hora da atração costumamos levar rasteiras das nossas idéias pré-concebidas sobre beleza, faz sentido dizer que alguma coisa fica confusa quando vai se conviver e fazer sexo frequentemente com essa pessoa.

E agora eu volto para as idéias de “mexer até estragar” e os “pequenos poderes”. A maioria das pessoas vai saber definir com alguma precisão o que as fez se sentirem atraídas pelo seu parceiro ou sua parceira. Mas até mesmo as mais racionais ficam com uma sensação estranha de que não dá para explicar o que exatamente faz aquela pessoa ser a sua escolhida. É algo que está nela, te atrai, mas você não consegue apontar onde.

Eu explico: É a diferença. Principalmente a diferença entre o seu ideal e a realidade. É isso que nos “coloca” no mundo. É por isso que você se levanta da cama todas as manhãs… Suas idéias não substituem o que é real. O contraste e a relação com pessoas diferentes te fazem ser… você. Mesmo explicando não dá para definir que diferenças são essas, já que é impossível definir padrões absolutos na mente humana.

A dissonância entre ideal e realidade que ocorre na atração é repassada para a relação estável. Fica uma sensação que falta (ou sobra) alguma coisa naquela pessoa que você escolheu. E isso é muito natural. Tão natural que muita mulher fica reclamando que fulano se veste mal ou não cuida da barriguinha, tão natural que muito homem fica pentelhando sua namorada para que ela emagreça ou, acreditem ou não, engorde para ficar mais gostosa.

Algumas (poucas) mudanças ou ajustes fazem bem para a relação, mas caso ambos exagerem na sanha de transformar seus companheiros nos seus modelos de beleza imaginários, acaba a personalidade de ambos. E fica aquela sensação de que se mexeu demais e estragou ou descaracterizou o que parecia tão atraente no começo. Aprendam isso: NINGUÉM MUDA, apenas evolui ou regride de acordo com os próprios padrões.

Não nos apaixonamos por imagens, e sim por pessoas. Apaixone-se por uma pessoa idealizada, “no futuro”, e você está armando uma mina no caminho do relacionamento que vai explodir invariavelmente sob seus pés. E a questão é ainda mais complexa: A mina terrestre explode caso você exija demais, independentemente do resultado. Caso não consiga fazer aquela pessoa se conformar aos seus padrões, o desgaste vai se tornando incontornável. Caso consiga, é quase certeza que você “perde a mão” e começa a exigir coisas que nem mesmo faz questão. Além do stress de ter alguém se esforçando demais por você, a outra pessoa vai se tornando uma extensão da sua própria idealização. Afaste-se demais da realidade e as coisas dão errado MESMO. Eu garanto.

Agradar seu namorado ou namorada é uma coisa excelente, claro. Mas rejeitar alguns de seus pedidos que não tenham nada a ver com você ou sua forma de ver as coisas é um caminho tão excelente quanto para te manter atraente. “Escuta aqui, fulano(a), eu sou OUTRA pessoa, fora da sua imaginação.” Faz bem relembrar isso de tempos em tempos.

Ou abra as pernas e faça tudo o que der na telha de quem você gosta. As pessoas que trabalham com auto-ajuda agradecem pelos seus empregos.

Ah sim… Um pequeno exemplo: Minha CARA quase me esfaqueou quando eu pedi para ela ficar mais branquinha porque eu não era muito fã de bronzeados. Só estou vivo hoje porque ela se acalmou fazendo um longo discurso sobre como ela não ia deixar seu apelo “geral” em troca dos meus gostos. Na teoria as coisas são tão bonitas…

Para dizer que eu sou um machista, novamente sem nenhuma relação com o texto, para não ter seus pedidos atendidos ou mesmo para dizer que eu escrevo um monte de palavras que não fazem sentido no final: somir@desfavor.com


Até que ponto o parceiro deve influenciar na sua estética? Depende do tipo de relacionamento, do casal e principalmente das suas prioridades. Na minha opinião, muito.

Geralmente pessoas que se cuidam costumam ser mais exigentes com seus parceiros. Tudo depende do tipo de pessoa que você escolheu para estar ao seu lado. Vamos deixar de lado esse papo hipócrita de que a beleza interior é o que vale mais e que uma vez que a pessoa gosta de você ela vai te amar não importa quanto você embarangue. Deve ser bacana conseguir acreditar numa coisa dessas, mas é muito burro quem pensa que aparência não faz diferença quando existe amor. Faz sim, até porque, pode existir amor sem existir atração sexual.

É isso aí. Pode ser que a pessoa não deixe de te amar. Mas com certeza vai olhar com mais facilidade para os lados quando seu parceiro ou sua parceira embaranga. E o conceito de embarangar é muito pessoal. Pode significar engordar, pode significar não se cuidar, pode significar muitas coisas. Suponho que quando você está em um relacionamento sério, conhece seu parceiro o suficiente para depreender o que significa “embarangar” para ele. A gente sabe o que é negociável e o que não é.

Bobo aquele que pensa que nada vai mudar se a pessoa embarangar, dentro do conceito do parceiro de embarangar, claro. Sem querer ser escrota, mas cada mulher que toma um chifre deve tirar a roupa e se olhar nua no espelho. A visão é agradável? Se não for, bem, parte da culpa é sua. EU SEI, EU SEI, beleza, cuidado e vaidade não eximem ninguém de chifre, as mulheres mais belas e mais perfeitas do mundo também são chifradas… mas vocês devem concordar comigo: muito menos do que as barangas.

Eu acho que o parceiro tem o direito de exercer grande influência na nossa estética. E acho uma grande burrice e babaquice fazer disso um cabo de guerra do tipo “em mim ele não manda, eu faço o que eu quiser”. Justamente, se você quer continuar cultivando a atração física entre você e seu parceiro, o ideal é que VOCÊ QUEIRA fazer da sua estética uma coisa atraente para ele. Sem que ele sequer precise pedir. Gente que não se cuida passa uma imagem de desleixo, fraqueza, falta de força de vontade e de acomodada. Isso não é atraente, até mesmo se você é um (hipócrita) adepto do “tesão intelectual” do Somir.

Não falo de extremos. Estou supondo que todos somos pessoas de bom senso e que ninguém vai perder sua individualidade para agradar o parceiro. Só acho que não custa nada se esforçar para agradar seu companheiro do ponto de vista estético, afinal, quando vocês começaram a namorar, estabeleceram um pacto tácito. Quando se conheceram melhor e descobriram o que é importante para cada um de vocês e ainda assim decidiram ficar juntos, é porque concluíram que eram compatíveis e podiam dar ao outro o que ele precisava.

“Mas Sally, o homem que me largar se eu engordar é um babaca, fútil, idiota que só liga para aparência”. Pode até ser. Mas é o que ele é e você sabia disso (ou deveria saber) quando se envolveu com ele. Além disso, quem disse que personalidade é MAIS importante que corpo? Eu acho TÃO importante quanto. O erro reside quando o corpo passa a ser mais importante que a personalidade, isso sim é futilidade. Mas de uns tempos para cá uma corrente (gorda) intelectualóide vem impondo socialmente que corpo é futilidade. Não é não, e o sexo agradece. Personalidade sustenta o casal fora da cama e a aparência sustenta dentro. E não se iludam, ambos são igualmente importantes.

Tudo bem que um dia o corpo se vai e o intelecto é tudo que resta. Mas, puta merda, até lá tem muitos anos de sexo pela frente. Então, vamos cuidar da aparência, né? Da aparência E do intelecto. Vai pensando que intelecto, caráter e companheirismo bastam e vai acabar como amiguinha ou amiguinho oficial do sexo oposto.

Eu não pintaria meu cabelo de uma cor que desagrade meu namorado. E quando digo isso vem uma avalanche de críticas dizendo que homem manda em mim, que eu sou passiva, que eu sou machista, etc. Vejamos… isso não quer dizer que seja o homem quem vai escolher como vai ser minha aparência, apenas quer dizer que eu vou me esforçar para, dentro das minhas possibilidades de escolha, não optar por algo que ele desgoste. Porra, quem me come é ele! Não é jogo me tornar menos atraente para quem me come! Estou ficando maluca? Para isso não preciso me anular nem virar um capacho, apenas nortear minhas escolhas para o gosto dele.

Quem quiser dar uma “cago e ando”, pode ficar à vontade. Não me prejudica. Não prejudica ninguém, a não ser o seu relacionamento. Não vejo como possa compensar ficar menos atraente para a pessoa que você gosta (= que te come). Precisa mesmo? Precisa mesmo se manter em uma condição que DESAGRADE o seu parceiro?

Infelizmente é uma verdade: para manter um relacionamento é preciso manter sexo com qualidade e com freqüência. Para manter sexo de qualidade e com uma freqüência aceitável, é preciso que a outra pessoa se sinta muito atraída por você. Para que a pessoa se sinta atraída por você, é necessário que você não se sabote tornando sua aparência não-atraente dentro dos critérios pessoais do seu parceiro. Não precisa ser miss, mas porra, também não pode cair na categoria “não-atraente”. E se para isso você vai ter que abrir mão de ser loira ou vai ter que emagrecer ou vai ter que se depilar sempre, faça-o. Relacionamento é esforço. Chega desse mito imbecilóide que prega amor acima de tudo. Vai achando que se Fulano te ama ele sempre vai te amar independente do que aconteça com seu corpo, seu cabelo e sua axila cabeluda…

Para terminar quero dizer que eu não acho que adaptações físicas ao gosto do parceiro sejam submissão. Muito pelo contrário. São prova de inteligência. Saber ceder para ganhar. Tudo se arranca mais fácil de um homem na base do sexo.

Para tentar me convencer que seu parceiro é indiferente a aparência física e te ama de qualquer forma e jamais vai te trair ou te trocar, para me dizer que eu não conheço amor de verdade e para chorar as pitangas contando como depois de sete anos de namoro com tesão intelectual seu maridinho jogou seu casamento no lixo depois de quatro meses de casada por uma cachorra carioca sarada de gosto nada refinado que ele viu uma única vez na vida: sally@desfavor.com

Tenho fobia de insetos voadores. Quando era pequena, uma libélula se enroscou no meu cabelo e ficou se debatendo entre meu cabelo e minha cabeça, acho que isso me causou algum tipo de trauma. Além disso, esses insetos voadores como libélulas, cigarras e cia, são completamente desnorteados, ou são cegos ou são muito burros, porque voam de forma imprevisível, inclusive para cima das pessoas.

Isto posto, posso contar o que me aconteceu na farmácia perto da minha casa. Sim, erro número um: ir na farmácia perto da minha casa! Na verdade a farmácia fica bem em frente, não tem como não passar por eles todo santo dia quando vou trabalhar. E é daquele tipo de farmácia sem portas, aberta diretamente para a rua, ou seja, não tem como passar sem ser vista. Porque eu acho um erro frequentar a farmácia em frente à minha casa? Acho excesso de intimidade. Não acho que pessoas que podem me ver todo dia tenham que saber se eu estou tomando remédio para diarréia, supositórios ou comprando absorventes! Sempre preferi frequentar farmácias distantes, onde a pessoa não me conhece e nunca mais vai me ver!

Enfim, naquele dia infeliz eu fui tomar uma injeção na farmácia em frente à minha casa. Por ser injeçã, me levaram para um quartinho que fica nos fundos da farmácia. Entrei e abaixei as calças. O sujeito começou a aplicar a injeção (sim, essa tem que ser na bunda). Como é uma injeção muito dolorida, tem que ser aplicada lentamente. Lá estava eu, de pé, tomando uma injeção lentamente, quando o pior aconteceu.

Não me perguntem como, mas entrou uma libélula no quartinho da injeção. Começou a se debater contra a parede. Comecei a suar frio e disse para o popular da farmácia “Moço, termina isso rápido porque eu tenho pavor desse bicho”. Ele, como todo homem, começou a dizer aquelas frases babacas: “não tenha medo, é um bicho bonzinho” + “ela não morde não” + “ela tem mais medo de você do que você dela”. Até parece! Esses bicho são frenéticos, descompensados! Saem voando sem o menor critério e acabam encostando na gente. Para fechar com chave de ouro, ele soltou a seguinte pérola: “Se você não mexer com ela, ela não vai mexer com você”. Quando alguém te disser isso, duvide. Duvide muito.

A libélula começou a voar baixo e eu me mexi para tentra me desviar dela. Foi o bastante para o sujeito se sentir no direito de me dar um esporro: “Olha, Dona, essa agulha aqui é afiada, ela corta na horizontal, entende? Se a Senhora se mexer, vai se machucar!”. Tem gente que nunca vai entender o que é uma fobia. Eu não tinha a opção “ignorar libélula”

Claro que a libélula veio voando na minha cara e evidente que eu, descontrolada que sou, não consegui ficar parada. Arrebentei a portinha corrediça do quartinho e sai berrando “ELA ESTA EM MIM! ELA ESTÁ EM MIM!” de CALÇAS ARRIADAS, feito um pinguim, com uma injeção espetada na bunda. Todo mundo viu a minha bunda, inclusive os transeuntes, já que a farmácia era daquelas abertas para a rua. Para piorar minha situação, ainda havia uma obra da Prefeitura naquela calçada, o que só aumentou minha platéia.

Hoje, quando passo em frente à farmácia, tenho certeza que todos lembram do episódio. Eles devem me chamar de “A maluca da libélula”.

404

Segunda-feira passada, o vôo AF 447 da Air France, saindo do Rio de Janeiro com destino a Paris carregando 228 pessoas, perdeu contato com o controle aéreo no meio do trajeto. Não tendo pousado nas horas seguintes no aeroporto Charles de Gaulle, iniciou-se uma busca prevendo a queda do avião em alto-mar. Encontrados alguns destroços, confirmou-se o que se imaginava: Ocorrera mesmo um acidente e a chance de encontrar sobreviventes era nula.

Fonte.

Se não bastasse a tragédia, o avião carregava inúmeras pessoas de prestígio. Executivos, empresários e até mesmo um dos “príncipes” do Brasil.

Opa, peraí… isso torna a tragédia mais tragédia?

Um acidente desses é um desfavor por si só.

Mas isso é o que eu chamo de tragédia VIP! Não chega a ser um dos piores de todos os tempos, (A Espanha ainda é a campeã… 583 jamóns numa cacetada só.) mas com certeza vai ser um dos mais badalados. Aposto que as comunidades de solidariedade às vítimas no elysiants devem ser mais numerosas que as do orkut.

Um vôo com destino a Paris, carregando até mesmo um dos Orleans e Bragança, não poderia ter caído de outra forma: Discretamente. A classe média-baixa quando bate, faz um escarcéu, vide o último grande acidente em território tupiniquim. No acidente de Congonhas, em 2007, só o depósito da TAM passou uma semana pegando fogo…

Mas o vôo AF 447 não. Sumiu dos radares durante a noite, inclusive mantendo a esperança do controle aéreo que a demora na chegada era apenas uma forma de chegar elegantemente atrasado. Infelizmente não foi o caso. (Oras, infelizmente mesmo, foi uma tragédia. Eu apenas tenho uma forma… peculiar… de demonstrar solidariedade.)

O avião aparentemente caiu em alto-mar, logo depois de passar por Fernando de Noronha. É a exclusividade até mesmo na hora da desgraça. Dessa vez, ao invés de revistas de fofoca, era a aeronáutica que se virava para achar onde eles estavam.

Obviamente virou notícia no mundo todo. Um acidente aéreo dessas proporções não passa despercebido. Mas está na cara que dessa vez é pessoal… Quando os quase 300 iranianos encontraram suas virgens no paraíso em 2003, a notícia não passou de manchete da hora para a imprensa mundial. Aliás, quando mais de 50.000 CHINESES morreram em terremotos no ano passado, não passou de uma preocupação sobre a possibilidade disso atrapalhar as Olimpíadas.

Dessa vez temos até uma listinha contando quem eram os mortos. A imprensa percebeu que daria para pesquisar a vida dessas pessoas e dar nome, sobrenome, emprego e prestígio para cada uma das vítimas. É tão mais fácil humanizar a desgraça alheia quando se considera essas pessoas humanas, não? Eu já vinha falando disso desde os tempos do anjinho sem asas que caiu nas graças da mídia nacional em 2008.

As pessoas que morreram no vôo AF 447 foram vítimas de uma fatalidade horrível, mas… elas eram tão branquinhas. Tão VIPS. Era praticamente impossível que isso não tocasse o coração dos executivos, editores e jornalistas que decidem o tamanho da cobertura de cada assunto na nossa mídia. Mas isso não é tudo…

A revista Caras encalharia nas bancas se começasse a comentar sobre o novo puxadinho do Maicon da padaria ou mesmo sobre as desventuras amorosas da Dona Cleide. O que se pode fazer? Somos números até que alguém se interesse por nós. Os passageiros acabaram pulando da coluna social para o obituário.

O acidente virou notícia na França, minha gente! Primeiro mundo. Tudo bem que somos nós, os terceiro-mundistas, que vamos pagar a conta pelas buscas e resgate de possíveis sobras do avião. (Caiu em águas brasileiras… Imagine só fazer essa bagunça em águas européias, não seria educado.) Incrível como até nisso eles deixam as sobras para a gente…

França que ainda não descarta a possibilidade de atentado terrorista. Desfavores… As chances do avião ter sugado os restos mortais do padre voador com suas turbinas são maiores. Ah sim, caso vocês não saibam, este é o ano da França no Brasil. Pelo menos agora temos certeza que um pedacinho (ou vários) deles vai ficar para sempre conosco.

Claro que um dos motivos para esse acidente ter sido considerado desfavor da semana é a cobertura “mais solidária” do que o de costume da imprensa nacional e internacional por causa do status dos passageiros do vôo AF 447.

(Que por sinal, irá se chamar vôo AF 445 a partir de agora. Não sabia que franceses acreditavam em numerologia.)

Mas, cá entre nós… O que eu acho mesmo um desfavor é que já que seria uma tragédia com grande exposição de mídia, bem que o avião poderia estar cheio de ex-BBB’s ou mesmo alguns dos desfavores homenageados no Processa Eu!

Para me dizer que eu sou um monstro insensível, para lamentar que o avião não estava cheio de “suíços” ou mesmo para dizer que o vôo deveria ter caído na minha cabeça: somir@desfavor.com


Todos os dias, no Brasil e no mundo, morrem centenas de pessoas em conseqüência dos motivos mais surpreendentes possíveis: desde doenças que já deveriam estar erradicada até mortes pelas mãos de outros seres humanos. Nós nos acostumamos e ver isso. Criamos uma armadura de proteção, algumas vezes nem nos chocamos mais. Mas quando cai um avião com 200 pessoas ricas e bonitas, isso causa uma comoção nacional. Alguma coisa está errada.

Sem querer ser escrota (mesmo sabendo que vão me achar escrota), aviões caem. É de se esperar que aviões caiam. Ninguém deseja isso, mas acontece. Quem viaja de avião sabe do risco e escolhe enfrentar esse risco. O que não é de se esperar é que a gente pague impostos e ao chegar a um hospital público após um acidente te informem que não tem nem mesmo gaze para fazer um curativo. Pessoas morrem na fila para atendimento em hospitais todo santo dia no Brasil. Isso não é previsível, não deveria acontecer e independe de escolha. Entretanto, quando cai um avião com príncipe, com Chefe de Gabinete de Prefeito e com advogado, todo mundo se solidariza e a imprensa fica monotemática.

Pessoas que ficam doentes por motivos alheios à sua vontade, com doenças aleatórias, para as quais não concorreram, também são causa de diversas mortes diárias no Brasil. Essas pessoas não tiveram qualquer escolha nem qualquer aviso na esfera da previsibilidade. Ainda assim, um acidente de avião causa muito mais choque, impacto e surpresa. Vamos lá, um troço que pesa TONELADAS e voa a 35 mil pés de altitude fatalmente pode cair. Uma merda que caia, quem dera nunca caísse. Entretanto uma criança com leucemia, um bebê com defeito congênito no coração ou até mesmo um adulto com um tumor me chocam muito mais.

Todos os dias brasileiros são forçados a conviver com violência urbana assustadora. Quando não estão apanhando de bandido, apanham de polícia. E quando não apanham de ninguém tomam bala perdida. Mesmo nas cidades de interior, temos a presença dos jagunços e do coronelismo que manda matar. É violência o tempo todo com pessoas que, na maior parte das vezes são inocentes trabalhadores. Mas quando cai um avião executivo, médico e engenheiro o país acompanha a tragédia como se fossemos tão civilizados a ponto da morte ser uma novidade. O cidadão que sofre na mão da milícia, da polícia, do tráfico ou do jagunço não fez nada para se colocar naquela situação, independe de sua vontade. O executivo que subiu com sua pasta para ir a Paris, assumiu um risco.

Fiquei me perguntando porque nos chocamos tanto com esse acidente do vôo 477 da Air France. Porque ele vende tanto. Porque essas mortes nos causam tanto pesar quando vivemos em uma sociedade barbarizada que nos insensibiliza para a morte todos os dias.

E é aí que está o grande desfavor da semana. Esse acidente fez cair a máscara de hipocrisia social que nos cerca. Nos sensibilizamos porque nos identificamos, morreu um de nós, gente como a gente. Não é um favelado, um bandido ou um trabalhador rural. Era aquela funcionária pública que podia ser uma de nós, era aquele advogado que podia ser um de nós. O ser humano tem essa mania ESCROTA de sentir compaixão quando consegue se visualizar no lugar da vítima. Por isso quando um favelado mata a esposa é um assassino que deve ser trancafiado e isolado do convívio social e quando um rico mata a namorada é um crime passional muito mais bem aceito e compreendido. “Matou por amor”, alguns diriam.

Esse sistema de castas velado me enoja. Defendemos os “nossos”, aqueles com os quais nos identificamos, e metemos o pau nos demais. É preciso que nos sensibilizemos em torno de um único fator: ser humano. Sendo um ser humano, merece nossa compaixão. Tudo bem, é papo de hippie… se você não quer essa coisa de compaixão, então não se sensibilize com porra nenhuma, nem com a pessoa que morre na fila do hospital esperando atendimento, nem com o executivo da fábrica de pneus que morreu indo para Paris. Será menos hipócrita do que aquele que se sensibiliza com um dos lados apenas.

Está na hora de parar de atribuir impacto à tragédia em função de suas vítimas. Quem quiser escrever “luto” na sua fotinho de Orkut, quem quiser fazer um minuto de silêncio, quem quiser orar, que também faça isso tudo por cada vítima que morre em função dos problemas graves que assolam nossa sociedade, porque estes são tão vitimas, quiçá até mais, que os classe-média que estavam naquele avião indo para Paris.

O grande circo que se fez em volta desse acidente espelha o nosso egoísmo: “Ei… caiu um avião? Ei… podia ser EU! Ei… como podia ser eu, vou ficar chocado!”. A gente só se mobiliza quando a merda respinga, quando sentimos uma ameaça real de prejuízo ou dano para nós ou para alguns “dos nossos”. Sabe aquela história da pessoa que só aprende a nadar quando a água bate na bunda?

E antes que comece uma corrente histérica me chamando de insensível, eu quero frisar aqui QUE NÃO ACHO BACANA QUE TENHA CAIDO UM AVIÃO, ACHO UMA MERDA, acho que as pessoas que estavam nele não mereciam morrer. Acho sim que foi uma tragédia, uma coisa triste, lastimável. Apenas prego que, se vamos nos sensibilizar com isso, temos que nos sensibilizar com outras realidades tristes, com outras tragédias, sob pena de sermos hipócritas e egoístas.

Para me dizer que não agüenta mais ouvir falar do maldito vôo 447, para me dizer que não se sensibiliza com porra nenhuma e é feliz assim e para me dizer que acha que os passageiros estão na ilha de Lost: sally@desfavor.com

DRAMA! CAPÍTULO 12, CENA 1:

Na cobertura do Edifício Baumann…

A porta do elevador se fecha, com Sally e Somir sem entender patavinas.
SOMIR: O que foi isso?
SALLY: Qual foi a merda que você fez, Somir?
SOMIR: Sally, eu estava do seu lado o tempo todo, eu não falei nada!
SALLY: É verdade, desta vez não foi você…
SOMIR: Esse amigo do seu pai é maluco, isso sim!
SALLY: Será que ele tem medo de pessoas com a cara vermelha?
SOMIR: Talvez tenhamos chegado em uma hora ruim…
SALLY: Que desaforo! Vou ligar para o meu pai agora!

No quarto de Helena:

HELENA: Algum problema, Carlos?
CARLÃO: Nada não, só estou achando a Senhora muito quieta
HELENA: Hahahaha… Você não entende mesmo, né? Eu sou Tetraplégica!
CARLÃO: O quê? TETRA o que?
HELENA: Nada, Carlos, nada…
CARLÃO: Tá tirando onda, Madame? Eu sou PENTA! PENTA e ainda sou campeão do mundo! MENGOOOOOOO!
GOVERNANTA: Senhor Carlos, o Sr. Antunes gostaria de vê-lo

Alguns minutos depois, no escritório do Sr. Antunes:

SR. ANTUNES: Obrigado por ser discreto
CARLOS: O casal tá na rua Senhor!
SR. ANTUNES: Estou realmente grato, Carlos. Confesso que inicialmente tinha ressalvas com você, mas você se mostrou um funcionário muito leal
CARLÃO: Nem precisa agradecer… a loirinha foi facinha! Com um peteleco já estava dentro do elevador. Também, com aquele tamanho de toco de amarrar jegue… Depois foi só tirar o marido
SR. ANTUNES: Perdão?
CARLÃO: A loira! A mulé batia aqui em mim! *aponta para a cintura
SR. ANTUNES: Tem certeza?
CARLÃO: Ô se tenho! Parecia um gnomo
SR. ANTUNES: Acho que ocorreu um equívoco então…
CARLÃO: Hã?
SR. ANTUNES: Ela não era alta, com uma… uma… *faz sinal de bunda grande
CARLÃO: Não, não, Dotô. Era desse tamanho *aponta para baixo* e tinha uma bundinha bem mixaria, bunda de mico…
SR. ANTUNES: Acho que ocorreu um engano! Rápido, me acompanhe até a portaria!
CARLÃO: Para acompanhar na portatia vai ser mais mil pratas, Dotô…

Sr. Antunes dá um tapa na própria testa e puxa Carlão pelo braço, em direção ao elevador.

DRAMA! CAPÍTULO 12, CENA 2:

KELLY: Esse táxi que não chega!
PORTEIRO: A Senhora precisa de ajuda?
KELLY: Preciso sim. Me leva em casa, fofo?
PORTEIRO: Não posso, Dona, estou de serviço e…

Kelly abre um botão da sua blusa

PORTEIRO: Além disso eu só posso roubar o carro do Sr. Antunes depois das onze, quando eu sei que ele não vai mais sair…
KELLY: Se você me levar em casa eu abro tudo…
PORTEIRO: * babando
KELLY: Mas tem que ser agora, é pegar ou largar!

Kelly abre mais um botão de sua blusa e o porteiro sai correndo em direção à garagem

Chegando à portaria:

PORTEIRO: Dá licença! Dá licença!
SOMIR: O que deu nesse porteiro? Tá correndo porque? Sally, desliga esse telefone…
SALLY: Estou dizendo, Papai, ele um empregado dele expulsou a gente de lá! Colocou para fora da casa dele, até me machucou!
SOMIR: Exagerada…
SALLY: Um absurdo, Papai! Um absurdo! Liga para ele AGORA! Não me importa se ele é dono do prédio todo, o que ele fez foi um abuso! *começa a chorar

Na cobertura:

SR. ANTUNES: Esse elevador que não chega!
CARLÃO: Seu celular está tocando…
SR. ANTUNES: Alô? Como vai? *cara de bunda
CARLÃO: *tira meleca do nariz
SR. ANTUNES: Evidente que foi um mal entendido! Eles chegaram antes da hora e eu não queria que estraguem a… a surpresa que eu havia preparado! Sim, sim… uma supresa… Vou entrar no elevador, se a ligação cair… *desliga o celular

DRAMA! CAPÍTULO 12, CENA 3:

LINDAMAR: Tem alguém na janela…
PILHA: Deve ser alguém do meu fã-clube

Lindamar dá um cascudo em Pilha

LINDAMAR: Acorda para a vida, Drogado! Os anos 80 acabaram!
PILHA: Macaca! Macaca fedida!
LINDAMAR: Pantera? É você?
PILHA: Tomara que seja a Juma…
LINDAMAR: Estou vendo seu vulto! QUEM É?
PILHA: Para de gritar!
LINDAMAR: Então vai lá ver quem é, seu inútil
PILHA: PERDEU! PERDEU PREIBÓI! MÃO NA CABEÇA! SOU DO DENARC! CALA A BOCA! – Pronto, resolvi.

Lindamar olha para Pilha com ar de desprezo, se levanta e vai até a porta. Percebe que o vulto corre e corre atrás. Lindamar pula no vulto e derruba uma mulher.

LINDAMAR: TAVA FAZENDO O QUE ESPIONANDO MINHA CASA?

DRAMA! CAPÍTULO 12, CENA 4:

SOMIR: Olha quem está vindo ali…
SALLY: Será que ele vai expulsar a gente do prédio também?
SR. ANTUNES: Ai estão vocês! Me perdoem… vocês chegaram e a surpresa que eu havia preparado ainda não estava pronta, então eu pedi a meu empregado que os levasse a outro aposento, para não estragar a surpesa, mas ele me entendeu mal…
CARLÃO: Não senhor, o senhor me deu mil pratas para que eu…
SR. ANTUNES: * cotovelada em Carlão Mas agora a surpresa já está pronta, podemos subir e desfazer esse enorme mal entendido!
SALLY: Que surpresa?
SOMIR: Sem barraco, Sally…
SR. ANTUNES: Eu insisto, quando virem a surpresa entenderão o porquê do equívoco…
CARLÃO: Mas Dotô, o senhor falou pra mim que…
SR. ANTUNES: * dá outra cotovelada em Carlão
CARLÃO: * bufando
SALLY: Tudo bem, tudo bem, vamos ver a tal surpresa, mas estou ofendida!
SOMIR: Mulheres… *piscada marota
SALLY: Ele é que vai nos mostrar a surpresa? *aponta para Carlão
CARLÃO: Não, eu só tinha que botá vocês para for…
SR. ANTUNES: * cotovelada em Carlão
CARLÃO: Ô Mano! Agora chegou, né? Não vou ficar aqui apanhando não! *dá soco exageradamente forte na boca de Sr. Antunes, que cai desmaiado no chão
SALLY: O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ?
SOMIR: Tá maluco? Você pode ser preso!
CARLÃO: Ele que começou! Preso? Eu?

Carlão sai correndo em direção à rua

DRAMA! CAPÍTULO 12, CENA 5:

Pantera circula pelas ruas. Avista uma freira parada no ponto de ônibus. Corre em direção à freira e começa a espancá-la, com um sorriso no rosto.

PANTERA: LEVANTA E LUTA, COVARDE!

A freira cai ao chão e Pantera chuta suas costelas. Pantera bate com vontade até a freira ficar inconsciente. Pantera faz cara de decepção e vai embora.

DRAMA! CAPÍTULO 12, CENA 6:

SALLY: Dr. Antunes, o Senhor está bem?
SR. ANTUNES: Sim, sim… estou bem… *cospe um dente
SOMIR: O Senhor não parece bem
SR. ANTUNES: Me acompanhem, vou lhes mostrar a surpresa…

No elevador…

SR. ANTUNES: Décimo andar
SALLY: Seu apartamento não fica no décimo primeiro andar?
SR. ANTUNES: Não, a surpresa está no décimo andar…

No meio da rua

PANTERA: MANO! Tu tá bem?
CARLÃO: Bati no meu patrão…
PANTERA: Hoje é o nosso dia! Eu tamb…
CARLÃO: MANO, EU VOU SER PRESO!
PANTERA: Vai nada…
CARLÃO: Vou sim, um bacana falou!
PANTERA: Se você for preso eu te tiro de lá
CARLÃO: Tá achando que é quem? Me tira como?
PANTERA: Mano, hoje eu descobri sou muito forte… Não se preocupa, tá comigo tá seguro
CARLÃO: Hã?
PANTERA: Segredo, hein?
CARLÃO: juro!
PANTERA: Mano, hoje eu dei uma surra no Batman!
CARLÃO: Tu é meu ídolo!

DRAMA! CAPÍTULO 12, CENA 7:

As portas do elevador se abrem:

SR ANTUNES: Esta é a surpresa. Não estava devidamente arrumada quando vocês chegaram, mas agora já está pronta para recebê-los
SOMIR: *sussurrando é o que eu estou pensando?
SALLY: *sussurrando acho que é…

CONTINUA…

O Processa Eu de hoje fala de um famoso cantor brega suíço que canta de forma nasalada, fazendo caras e bocas, se veste de forma brega e tem pinta de galã de subúrbio. Suas músicas bregas conquistam uma meia dúzia de barangas carentes e mal amadas, que acreditam na cafonice como única forma de se expressar amor. Senhoras e senhores, o Processa Eu de hoje é sobre o Rei (manco) Coberto Rarlos.

São tantos os Cantões...

Coberto nasceu em uma pequena cidade suíça, em uma família humilde. Eu poderia relatar pequenas situações vexatórias e risíveis de sua infância, mas como costuma faltar espaço, vou poupá-los. Vamos ao que interessa. Aos seis anos de idade, Coberto estava assistindo à apresentação de uma banda. Subiu nos trilhos do trem para ter uma visão melhor. Não percebeu que um trem se aproximava em uma manobra de retorno. Não me perguntem como alguém não percebe um trem se aproximar. Aliás, não me perguntem nada, eu não entendo este ser humano. Só sei que ele começou esse dia com o pé esquerdo… (e terminou sem! HÁ!)

Enfim, ele não percebeu o pequeno detalhe do trem se aproximando e teve sua perna esquerda esfarelada pela roda do trem. Foi levado às pressas para um hospital, enquanto seu pai, muito centrado, tentava matar o maquinista. Ao chegar no hospital, o Baby Rei já dava os primeiros sinais de seu TOC: teria pedido ao médico Dr. Gomildo Ronçalves que tome cuidado para não sujar seus sapatos, pois eram novos. É preciso ter prioridades nesta vida. Que mancada, hein? (HÁ! Desculpem, eu não vou resistir aos trocadinhos!)

Não sei quanto a vocês, mas eu tenho uma vertente sádica. Sobretudo com esses assuntos que são uma espécie de tabu. Então, fucei tudo que podia até encontrar uma entrevista do médico que cortou fora a perna de Coberto. A entrevista é datada de 1993 e foi publicada em um grande jornal do Jio de Raneiro, cidade suíça: “Dei uma anestesia, levantei a pele boa junto com um pouco de músculo da batata da perna e cortei o osso com a serra. Dei uma lixada até o osso ficar arredondado e puxei para baixo a pele levantada. Coloquei o músculo embaixo do osso, para envolvê-lo, e costurei a pele”. Ninguém nunca fala sobre esse assunto, então, está aqui, com detalhes, como o Rei ficou perneta. Usou muletas até os 12 anos, quando colocou uma prótese.

O Rei (está mais para pirata) não gosta de falar no assunto até hoje, tanto é que uma das razões para ter recorrido ao Judiciário para censurar sua biografia foi o fato de ter se sentido ofendido com a “invasão de privacidade”. Curiosamente o próprio Coberto se inspirou no assunto para escrever uma de suas músicas. E pior, como toda celebridade, clama por intimidade mas também posa para fotinho na ilha de revista badalada. De qualquer forma, bom saber que ele não gosta que se fale no assunto. Falei bastante, com sorte vem aí nosso primeiro processo.

O espaço é pouco, então, vamos abreviar e apenas dizer que o Rei foi subindo, com uma ajuda aqui, outra ali, até que ficou realmente famoso com a Govem Juarda, onde compunha e cantava com seu grande parceiro, Errasmo. Eles se achavam rock n´roll. Apresentou diversos programas de televisão. Tudo ia bem até que Coberto resolveu dar um piti com seu amigo Errasmo: uma rede de TV fez um programa sobre Errasmo, o que deixou o Rei enciumado. No programa, atribuíram a autoria de algumas músicas a Errasmo, sem citar que foram compostas em parceria com Coberto. O Rei ficou nervoso. Em vez de reclamar com o programa, cortou relações com Errasmo. Brigaram, a parceria se desfez por quase um ano. Mesmo assim, o Rei era mais falso que uma nota de três e continuava se comportando como se nada no programa de TV que eles apresentavam.

Coberto fazia filmes também. Os nomes são todos tão ridículos, mas tão ridículos, que não consegui escolher um para citar aqui. Ok, eu não resisto. Aqui vão alguns: Minha Sogra é da Policia, Coberto Rarlos e o Diamante Cor-de-Rosa e Saravá, Brasil dos Mil Espíritos (eu SABIA que ele batia o tambor! Eu sabia!!!)

Coberto estava famoso. Coberto estava ganhando dinheiro. Coberto finalmente era um homem atraente. Casou com sua primeira esposa e quando nasceu seu primeiro filho, o Rei olhou para os cornos do bebê e, sem a menor compaixão, optou por chamá-lo Coberto Rarlos Segundo (ficou conhecido como Segundinho). A partir daí, sua carreira mudou de rumo. O que antes pretendia ser rock n´roll, descambou para o brega total assumido. Mudou roupa e corte de cabelo. Adotou um mullet tenebroso e um estilo “todo se querendo”. Observem o olhar nas capas dos discos. Dá medo.

Foi uma festa. Na Suíça as mulheres são muito carentes e barangas, adoram uma canção de amor cafona. Coberto virou sucesso absoluto. Vendeu mais discos que os Beatles na América Latrina e na Suíça, até hoje, é campeão de vendas no cômputo geral. A fama tem seu preço. Se separou da mulher e já engatou um romance com uma pseudo-atriz conhecida como Ririam Mios.

Coberto se engajou em causa nobres. Na ONU, lutava pelas criancinhas. Na Suíça, fez campanha para o Ano Internacional do Deficiente (causa própria?). Gravou um disco em um inglês macarrônico. Quebrou todos os recordes, uma canção sua foi executada mais de três mil vezes nas rádios suíças em um único dia. Suas músicas pioravam e pioravam. Era como se ele pegasse um repertório de cantadas canalhas e as musicasse. Brega e mentiroso, mas a mulherada adora.

Chegou a ganhar um Grammy de melhor cantor e esteve no topo da parada da Billboard. Todo ano apresentava um especial de final de ano na Rede Bobo, badalada rede de TV suíça, onde entoava suas músicas diante de milhões de barangas que se sentiam amadas por ele. Momento sádico: nos especiais mais antigos, a cortina se abria e o Rei já estava no palco. Sim, o Rei é do tempo em que a perna mecânica mais moderna que existia era um cabo de vassoura com um sapato colado na ponta. Quando andava se via claramente sua vocação para Saci.

No meio do caminho teve um filho bastardo, Cafael Rarlos, que só assumiu após um exame de DNA. Bacana. O Rei ia até a ONU defender as criancinhas e a criancinha que saiu do saco dele precisou acioná-lo judicialmente para que o perceba. A mãe do menino morreu de câncer, semanas depois que o Rei reconheceu o filho.

Mesmo no auge, Coberto viveu um momento triste. Sua ex- mulher falece em conseqüência de câncer de mama (o Ministério do Desfavor adverte: Coberto é altamente cancerígeno)

Em 1995 Coberto casou-se com o que seria seu grande amor: Raria Mita. A história era antiga: o Rei já havia sido apresentado a ela em um show realizado em 1977, por sua ENTEADA. Sim, ela era amiga da enteada dele, eram colegas de escola. Raria Mita tinha apenas 16 anos. Coberto mandou flores no dia seguinte, mas o pai da menina se aborreceu de ver a cara (e a perna) de pau de um quarentão recém desquitado cortejando sua filha de 16 anos e a coisa morreu por aí. Em 1995 eles se reencontraram e se casaram.

Poucos anos depois, Raria Mita estava com câncer (fala sério, esse cara é radioativo ou o que? A perna mecânica dele é feita de urânio?). Fez-se o que era possível, mas a certo ponto, o médico informou que a situação era irreversível. Coberto não aceitou e continuou repetindo a todos, inclusive aos filhos, que ela ficaria curada. Coberto rezava e dizia que Deus curaria sua esposa. Raria Mita a essa altura já estava mais para lá do que para cá, o câncer tinha atingido seu cérebro e ela já não falava coisa com coisa. Mesmo assim, Coberto passava o dia todo no hospital conversando com ela (aposto que era uma conversa sem pé nem cabeça… HÁ! Não dá, eu não resisto…)

O Rei surtou. Primeiro ele negou que ela estivesse morta. Dizia que conversava com ela. Mas tudo bem, vamos dar um desconto porque cada um elabora sua dor como pode. No entanto, a presença de Raria Mita se manteve por anos na vida de Coberto. Quando indagado por um jornalista porque não cortava o cabelo (ainda mantinha o mullet ridículo com uma franja que vinha lá do meio da cabeça para camuflar as entradas) o Rei respondeu que não cortava porque Raria Mita diz que não quer que ele corte.

Coberto sempre teve uns TOCs e umas manias meio esquisitas e escravizantes, mas depois da morte de Raria Mita, elas tomaram conta dele. Ele não pronunciava certas palavras, a ponto de ter que alterar algumas letras de suas músicas (“se o bem e o mal existem” virou “se o bem e o bem existem”, por exemplo). Ficou excessivamente religioso e místico. Implicava com algumas cores (não gravava com gente vestindo a cor marrom e ele andava sempre de azul, parecia um smurf)

No meio do caminho, moveram um processo por plágio contra o Rei. E pasmem, ganharam. Coberto tentou recorrer até o Supremo Tribunal Suíço, mas não teve jeito, tomou um pau em todas as instâncias. É PLAGIADOR declarado por sentença.

Diante de uma popularidade tão expressiva, decidiram escrever uma biografia de Coberto, chamada “Coberto Rarlos em detalhes”, feita com base em todas as entrevistas que o Rei já havia dado. Tudo ia muito bem até que Coberto surtou e se achou no direito de pedir à justiça que proíba a venda da sua biografia, mesmo alegando que não leu o livro, apenas trechos.

A autor, uma pessoa sensata, chegou a propor que o Rei cortasse o que julgasse ofensivo no livro para reeditá-lo. O Rei não topou e o acusou de querer se promover e ganhar dinheiro às custas de sua intimidade. Isso no meio de uma audiência judicial. O autor, novamente muito sensato, sugeriu ainda abrir mão dos direitos autorais em favor do cantor para rebater a acusação de que quisesse se beneficiar com a intimidade dele. O Rei não aceitou. Pasmem, ganhou a causa. Na Suíça é assim: você abre sua vida em entrevistas, é fotografado na Ilha de Claras, conta a sua vida e quando alguém escreve um livro baseado em COMPILAÇÕES DE ENTREVISTAS QUE VOCÊ MESMO DEU, é possível dar faniquito e mandar recolher os livros das livrarias. Foi o que Coberto fez.

Alegou que dois assuntos o aborreceram: a forma como foi tratada a perda da sua perna e a forma como foi tratada a morte de Raria Mita. O autor se ofereceu para reescrever. Mesmo assim o Rei recusou. Ele alega querer preservar sua intimidade. Porque ele não casa com aquela biscate da ex-mulher do Paul McCarteny, Heather Mills, que é 171 como ele e também tem uma perna de pau? (além da cara)

A biografia pode ter sido proibida na Suíça, mas continua sendo vendida na internet em sites de vendas de outros países. Além disso, há versões disponíveis na internet. Quem quiser ler pode baixar.

Infelizmente o espaço acabou. Para finalizar quero dizer que Coberto Rarlos só é Rei lá para as barangas dele e que é muito fácil conquistar seu público quando você puxa o saco dele. Fazer música para mulher gordinha, para mulher de 40 e para demais é descer muito baixo, abaixo do último degrau de prostituição musical. Seu comportamento contraditório pode até ser visto como uma loucura ou excentricidade por pessoas mais tolerantes, mas por mim, é visto como uma atitude de um mimadinho dois pesos e duas medidas que além de ser escravo das suas compulsões acha que o mundo gira em torno do seu umbigo.

Imagina se cada um que não gostar do que lê sobre si mesmo em um livro conseguir censurar e recolher a obra! Onde a Suíça vai parar? Só vai ser permitido escrever coisas boas dos outros? Mas que saco, hein? Em um lugar assim não se pode dizer porra nenhuma, nem mesmo se pode chamar alguém de desfavor…

Para me dizer que eu fui longe demais ao sacanear deficientes físicos e cancerosos, para me dizer que fica muito feliz porque aqui no desfavor nada é sagrado, para me dizer que gosta do Rei em segredo e não assume nem sob tortura e para sugerir nomes para o próximo Processa Eu: sally@desfavor.com