Sally Surtada: Vítimas.

NOTA: Excepcionalmente nesta semana, as colunas de segunda e terça serão trocadas de lugar.

Uma constante que observo no comportamento feminino, (e faço questão de me incluir nisso), é essa mania babaca que temos de adotar a posição de vítima nos relacionamentos (ou no término deles). Não que homens não façam, fazem também, mas eu quero que eles se fodam e continuem fazendo papel ridículo, afinal, como todos sabem, escrevo aqui para mulheres.

Quando algo dá errado, é uma tentação enorme dizer “Olha só o que FULANO ME FEZ!”. Sim, Fulano provavelmente é um babaca, um imbecilóide, um demente, mas são necessárias duas pessoas para que aconteçam abusos em uma relação: a que faz e a que consente. E muitas vezes a que consente não é tão santa assim e tem bons ganhos secundários aturando aquilo.

Quando um Zé Ruela qualquer nos faz algo que não gostamos DE VERDADE e que nos magoa DE VERDADE, algo que, dentro da nossa escala de valores é insuportável, sabemos que devemos colocar um ponto final na relação, mas nem sempre o fazemos. Existem coisas perdoáveis e existem coisas imperdoáveis, de acordo com esta escala de valores personalíssima. Se você perdoa uma coisa imperdoável, não pode depois levantar a bandeira de vítima, afinal, o que houve não foi uma sacanagem e sim um acordo. Você não pegou sua bolsinha e foi embora porque não quis, ou porque não conseguiu. Isso não te faz uma vítima. Isso te torna extremamente idiota.

Mesmo quando a merda que nos é feita independe do nosso consentimento, mesmo quando conseguimos não perdoar e colocamos um ponto final, não convém vestir o manto da vitimização. Ok, ele foi muito escroto com você, ele foi baixo, foi vil, foi traidor, foi incorreto e foi filho da puta. Ainda assim, não se coloque no papel de vítima! É feio, é medíocre e é pior para você. Não queremos despertar pena, queremos?

Você foi sacaneada? Você foi muito sacaneada? Pegue sua bolsinha e vá embora, Amiga. Vá ser feliz. Sem se fazer de vítima.

Também não caia na armadilha de ir para o extremo oposto, o que eu chamo de “vítima agressiva”: tem gente que simplesmente não sabe ficar triste, apenas triste. Tudo tem que ser transformado em raiva. Criam raiva profunda de quem lhes causou apenas tristeza. Resolvem virar as escrotas da vez, só para fugir do papel de vítima. “Ah é? Ele me sacaneou? Pois bem, eu é que não vou ser vítima, ele vai ver, eu vou fazer PIOR”. Continua uma vítima, sinto dizer: vítima agressiva. Vítima da própria raiva. E vai fazer um papel patético gastando tempo de sua vida em prol do outro (ainda que seja para se vingar). Isso dá uma importância enorme à outra pessoa. É um mecanismo de defesa tão bobo e óbvio que chega a dar pena. Não tire onda de “bad girl”, é simplesmente ridículo.

Coisa feia ficar espalhando para meio mundo o que o homem te fez… Isso depõe contra você! Deixa ele, porque o tempo mostra a verdade sobre as pessoas (ahh… e como mostra…). Saia digna. Não sinta pena de você mesma nem faça com que os outros sintam. Existem pessoas que, na intenção de denegrir outras, topam se emburacar junto. Acho isso extremamente idiota. Topam falar mal de pessoas com as quais dormiram lado a lado por anos, sabendo que isso depõe contra elas mesmas. Mas a vontade de queimar o objeto do ódio é tanta que puxam o pino da granada e explodem tudo que está à sua volta, inclusive elas mesmas.

E gente que fala mal sem falar? Esses se acham espertos e de quebra, acham que o resto do mundo é burro. “Fulano é ótimo, coitado, nosso relacionamento não deu certo, mas ele é um amor de pessoa, desejo tudo de bom para ele, inclusive torço para que ele supere esse probleminha com álcool, porque ele é uma pessoa iluminada, tem tudo para ser um sucesso na vida…”. Pronto! Está espalhando que o ex é alcoólatra na maior cara de pau, e ainda acha que está tirando onda de pessoa do bem! Coisa feia… todo mundo percebe!

Não estou pedindo para que as pessoas achem bonito quando são sacaneadas. É normal ficar puta da vida, essa história de dar a outra face para bater é muito utópica. Só estou pedindo para não cair na armadilha de se fazer de vítima (passiva ou agressiva). Nesse jogo, jogam dois. Se um Cueca te sacaneou, vá embora entoando o mantra “Quem perde é ele”. E siga sua vida com esse pensamento: “Perdeu, Playboy, ficou sem mim, se fodeu! Hahaha”. Nada de “Como ele pôde fazer isso comigo? Como eu fui sacaneada!”. Não, você não foi sacaneada. Não, você não é vítima. Você teve sua parcela de responsabilidade nessa relação para que as coisas se desdobrassem desse jeito, olhe para trás e procure ver onde errou (ainda que o erro tenha sido na escolha do parceiro) e aprenda, para não repetir o mesmo erro.

Quem não aprende com os erros, ou quem sequer os identifica, está sujeita a repetir o mesmo padrão de comportamento e relacionamento fracassado. Quem não assume sua parcela de responsabilidade, acaba jogando a culpa no karma, no azar, nas encarnações anteriores, nos astros ou em Deus quando repete um padrão autodestrutivo: “Nossa, eu só atraio homem casado! Deve ser karma”. Não, não é karma. Eu sei que é muito mais fácil culpar fatores externos, mas o problema está dentro de você.

“Mas Sally, a gente não escolhe de quem a gente gosta, né?”. Discordo. De certa forma, é uma escolha sim, por mais que seja uma escolha inconsciente. Quando nos acostumamos a funcionar de um determinados jeito, com determinados comportamentos, estabelecemos padrões que podem ser muito difíceis de mudar. Observe quais são seus ganhos secundários nessas “escolhas erradas” que você anda fazendo, com certeza tem algum. Não gostamos das pessoas ao acaso, randomicamente. E pior: às vezes esse ganho secundário é justamente o sofrimento que essa pessoa te traz. Não que você goste de sofrer, ninguém (ou quase ninguém) gosta, mas às vezes, esse sofrimento se faz necessário na sua vida, por uma série de motivos: para dar vazão a angústias decorrentes de outras situações que estão presas dentro de você, por exemplo.

Não se permita ficar na posição de vítima. E cuidado: as pessoas que nos cercam também adoram nos colocar em posição de vítima. Se fizerem isso com você, corte o mal pela raiz! “Ai Amiga… fiquei sabendo do que Fulano fez com você… tadinha de você, que pessoa má…”. Não morda a isca. Responda com dignidade: “Ele foi muito burro de me perder. Estou triste, estou sofrendo, mas vai passar e vou encontrar alguém que me dê valor”. Não ostente, não valorize sofrimento.

Porque será que quem sofre é sempre herói? Porque será que sofrimento tem tanto mérito na nossa sociedade? Metade dos blogs pessoais que leio (forçada, para fins de desfavor, porque geralmente são todos um pé no saco, salvo honrosas exceções) trazem o sofrimento com pano de fundo (alguns até mesmo no nome!). Se a tua vida é uma merda, porra, tente fazer piada, tente encarar com bom humor, tente resolver da melhor forma possível… procure ajuda se for o caso, mas não fique ostentando sofrimento por aí como se fosse MÉRITO, porque não é. NÃO É. Mérito é conseguir rir de si mesma.

Sofrimento e vitimização tem seu ganho secundário: todo mundo te dá atenção (por um tempo limitado, claro), todo mundo é extremamente gentil com você, você fica em uma posição que inspira cuidados… enfim, traz alguns benefícios. Mas cuidado, porque sofrimento vicia. Não queremos nos tornar aquelas pessoinhas, coitadinhas, que enchem o saco de homem, certo? Tem mulher que enche TANTO o saco de homem que o coitado perde a cabeça, destrata a criatura e ela ainda tem coragem de se fazer de vítima depois… parece até que estava procurando por um motivo para se vitimizar! Quem planta merda colhe bosta, né? Ser vítima é um saco. Não valorize um pingo de sofrimento.

Sofra. Sofrer faz parte da vida, mais cedo ou mais tarde o sofrimento vem. Sofrer é normal. O que não é normal é procurar pelo sofrimento, alimentar o sofrimento, prolongá-lo. Sofrimento paralisa, vocês já perceberam? Sofra apenas o necessário, depois MEXA-SE, porque a vida é uma só, e é curta. Obrigue-se a quebrar a inércia do sofrimento. Sofra aos olhos das pessoas mais próximas, mais íntimas. Gente que sofre para o mundo ver passa uma imagem muito, muito, muito ruim. Ninguém precisa se acabar, se auto-detonar para mostrar ao mundo o quanto está sofrendo. Não precisa fazer com que seu cabelo, sua pele e sua roupa reflitam seu estado interior, isso é se entregar ao sofriemnto. O reflexo do sofrimento em você não indica que ele é maior ou menor, indica o quanto a pessoa que sofre é forte ou fraca. Nada de deixar de comer, nada de deixar de tomar banho, nada de encher a cara, nada de usar drogas, nada de tomar remédios, nada de nada auto-destrutivo. Com isso você não prova que está sofrendo de verdade, ou que está sofrendo mais, só prova que é imatura, fraca e despreparada para adversidades.

Por isso, se hoje você está sofrendo feito um cão sarnento, respire fundo e coloque seu cérebro para pensar por cinco segundos: Ok, você está na merda, na mais profunda merda, está sofrendo pra caralho. Respeito isso. Eu já sofri pra caralho ao quadrado. É ruim. Tem que sofre, tem que chorar, tem que ficar triste – mas com data para acabar. E sem achar que isso é bonito, sem ter orgulho disso e principalmente, sem esperar que as pessoas mudem com você por causa disso. Não capitalize benefício com base no seu sofrimento, oK? É feio. Não se apegue ao “lado bom” do sofrimento. É como diz uma amiga minha “O vale do sofrimento foi feito para se cruzado, não para se montar acampamento nele”. (pelo amor de Deus, espero não estar citando Caulo Poelho… puta merda)

Para debochar de vítimas passivas, para rir das vítimas agressivas e para sugerir temas: sally@desfavor.com

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Comments (8)

  • Pois é, depende da gente aceitar esse papel de vítima ou não. Por mais que tentem nos colocar como vítimas, NÃO SOMOS e não queremos ser!

    Repitam comigo: “Vítima é o CARALHO!”

    hahahahaha

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  • Sally! Saudades, passei tanto tempo fora, não sabia o quanto esses seus textos de sacudir a poeira me faziam falta! Ainda bem que voltei para lê-los! =D

    Até me inspirou a criar metáforas:

    O Sofrimento é a neve presa nos pelos longos do lobo. Esquenta, mas se se deixar aconchegar pelo peso, o lobo cai em devaneios e morre. Mas, se sacudir o corpo e jogar a neve longe, ele pode andar novamente.

    Vão lobinhas! o/

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  • Texto perfeito…. O único problema é que as coitadinhas de plantão (e coitadinhos também) ao se depararem com esse texto muito provavelmente vão se fazer de vítimas (again) e dizer que são assim e não conseguem mudar (ou algo do gênero)…

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  • Sally, isso é uma grande verdade. Já fui sacaneada e simplismente saí fora. O Zé Ruela ficou tão atordoado com essa reação inesperada minha, que mesmo fazendo meses do ocorrido, ainda tá correndo atrás do meu pé! Tá fudido, vai correr atrás eternamente. Quem mandou ele fazer merda?

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  • E ainda há mulheres que sacaneiam, levam bem na cara (Não no sentido literal) e ainda se fazem de vítima, até mesmo difamando o homem por aí…

    Vadias…

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  • Putz, Sally, se tivesse lido esse texto antes…bati muitas palmas para maluco dançar, ao alimentar espetáculos de sofrimento alheios…

    Suellen

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