Somir Surtado: Manual de sobrevivência virtual.

Mimimimimi... Escala de nerdice: Cada vez menos… 

Entre ontem e hoje, visitando brevemente duas comunidades virtuais apinhadas de trolls e pessoas horríveis em geral, pude acompanhar ataques em bando contra duas garotas que, adivinhem só: Se expuseram demais e começaram a fazer drama quando viraram alvo.

Quem visita o /b/ já deve saber de pelo menos um deles. Uma garota de 11 anos de idade, que adorava fazer pose de fodona/piranha da internet, gravou e POSTOU um vídeo dela chorando, com uma participação pra lá de especial do “papai” logo após ser “cyber-bullyingzada” (wat) por centenas de anônimos com sede de sangue…

Mimimimimi… Ninguém se importa…
(O vídeo já foi tirado do ar…)

Não que eu tenha alguma simpatia pela menina. Vivo criticando as pessoas que se expõem demais na internet e depois começam a reclamar do que aprontaram. Muito embora seja um pouco mais perdoável para uma menina de 11 anos. Pode até estar dando para meio mundo, mas ainda sim é pouco mais de uma década de experiência de vida. Faz falta, principalmente se a criação não for das melhores. (Spoiler: Quase nunca é…)

Só que desta vez eu não pretendo apenas criticar. Desta vez eu vou usar o meu conhecimento para o… eca… bem. Até porque o mundo muda e eu estou começando a aceitar que a evasão de privacidade virtual vai ser parte integrante da vida de quem está chegando agora na rede mundial de computadores.

Minha adolescência começou offline e terminou completamente globalizada. De uma certa forma, eu já tinha alguma noção de trato social da vida real quando comecei a me relacionar com pessoas do outro lado da tela. Quando a fada da puberdade te dá aquelas primeiras espinhas, pêlos e movimentos desengonçados, começa toda uma fase nova de possíveis cagadas sociais na sua vida.

E o meu primeiro aprendizado foi 100% vida real (Nem é botar banca, eu não tinha internet mesmo…). Não tem pra onde correr, você está sempre exposto. Foi dar uma de valentão pra cima de alguém muito maior? O saco de gelo na cara e o olho roxo te ensinam a prestar mais atenção com quem está lidando. Falou uma merda daquelas para a garota que estava paquerando? Os risos de todas as meninas da escola que passam perto de você te ensinam a pensar antes de falar.

Como diria um amigo meu: É ruim, mas é bom. Se você aprende a lidar com outras pessoas num ambiente onde não pode se esconder das conseqüências, isso fica “tatuado” na sua cabeça.

Mas como eu já tinha dito, o mundo muda. Quem cresce num ambiente onde ser um ser social te obriga a estar na internet acaba colocando um novo elemento nesse aprendizado: A falsa certeza da impunidade.

É muita gente em contato direto. Muita gente que não presta atenção nas merdas que está fazendo. Nunca é demais dizer: A tela do computador não te protege se você não se proteger.

Normalmente eu digo para as pessoas tomarem muito cuidado com o que divulgam na rede, mas esse conselho é datado. Já estamos lidando com as primeiras gerações que simplesmente não tem essa escolha. A mãe babaca já faz Orkut para o bebê…

Bola pra frente, aceito que está na hora de colocar essa atualização no meu sistema operacional (ei, é Somir Surtado, eu tenho direito de fazer essas analogias extremamente nerds!) e considerar que não tem mais volta.

Mas isso não significa que meu conhecimento ficou obsoleto.

E depois da maior introdução da história (eu não prometi ser gentil), vamos logo ao plano de ação:

Ok, eu estou sendo atacado(a) pela internet… E agora?

IMPORTANTE: Esse guia serve para as pessoas que não são desesperadas por atenção, elas vão fazer tudo errado de qualquer jeito. E isso não é guia para brigar, é guia para ESCAPAR.

Primeiro passo: Controle.

Agora você vai começar a parte mais importante de todas: Parar de cavar. O troll tem tanto poder quanto o que você cede. Tirando casos onde o ódio pela sua pessoa é realmente poderoso, o resto dos problemas virtuais pode e é resolvido facilmente simplesmente deixando quem te ataca sem munição.

E muita atenção para o “deixar sem munição”. Não estou pregando ser banana e deixar todo mundo te detonar sem retaliações, estou dizendo que na maioria das vezes é justamente a vítima quem aumenta a proporção do ataque oferecendo novos elementos e insistindo no que fez tudo começar em primeiro lugar.

Na prática: Se você postar um vídeo no Youtube fazendo pose de fodona, não poste outro chorando com o seu papai do lado depois de ser xingada por estranhos. Cria um “fato novo”. E “fatos novos” são coisas ruins quando você está debaixo dos holofotes contra sua vontade.

Esqueça se você está certo, esqueça se o que está acontecendo é justo, esqueça se você tem munição contra quem está te atacando. Não esperneie, isso vai atrair ainda mais atenção. A primeira parte do processo é simplesmente “parar de cavar”. Porque é justamente a sua capacidade de lidar com a situação que está em xeque. É mais fácil se defender de uma acusação do que de várias.

E ainda nessa idéia de facilitar a sua vida logo no começo da confusão, muita atenção na quantidade de pessoas que você vai enfrentar de uma só vez. A maioria dessas situações de ataques via internet começa com uma desavença simples entre duas pessoas. Vai te ajudar IMENSAMENTE manter essa presunção de briga pessoal enquanto você puder.

Não saia ofendendo e xingando pessoas que por ventura se intrometam na discussão. Lembram do que eu disse sobre evitar “fatos novos”? Aliás, você pode escapar logo de cara se admitir um eventual erro para um “terceiro” no meio da discussão. Povo gosta de covardia, mas gosta mais ainda de ser ouvido: Cada pessoa que você conquistar assim vai valer por mil se a coisa ganhar muita fama.

Recapitulando a primeira etapa:

1. Pare de cavar;
2. Não crie fatos novos;
3. Não é hora de espernear;
4. Escolha um adversário;
5. Ganhe a simpatia dos intrometidos.


Segundo passo: Proteção.

Olha, eu posso garantir que se fizer a primeira parte direito, grandes chances de você nem precisar fazer mais. Mas é difícil ter o sangue frio para não errar nenhuma vez no processo. Eu raramente consigo fazer a parte da “simpatia”. (Sally tem dificuldades enormes com “não espernear”…)

A parte de proteção é uma das mais “tristes”. Já que é nela que você tem que decidir se vai negociar com os terroristas ou não. Normalmente eu diria que uma pessoa esperta não tem informações pessoais importantes estampadas na internet, mas vamos considerar pessoas normais: Aquelas que se arreganham inteiras na rede e depois não sabem como descobriram o e-mail da mãe delas…

Derrubando um mito: Não precisa ser gênio da informática para descobrir suas informações pessoais. As pessoas tem mania de usar o mesmo e-mail para se cadastrar em todos os sites. As pessoas tendem a usar o mesmo nome de usuário… e senha, em trocentos lugares diferentes. Basta saber usar o Google hoje em dia.

Você não está tão seguro quanto acha, e não precisa de um nerd enfiado num Linux digitando linhas e mais linhas de código para saber até a cor da sua roupa de baixo.

Na prática: Você colocou de livre e espontânea vontade na internet aquela foto sua da época que era um adolescente balofo. Você vai ter que tirá-la do ar se não quiser lidar com ainda mais isso.

Existem várias formas de tornar todo o conteúdo que você publica nas redes sociais “privado”, e eu aconselho que você faça isso antes que seja tarde demais. Mesmo que você ache frescura e ache bacana mesmo aparecer, é hora de se proteger. Você já enfraqueceu a oposição não criando mais confusão, então basta secar a fonte ficando mais inacessível. E, PUTAQUEPARIU, pare de usar senhas ridículas como “senha123”…

Feche a porta. Se precisar apagar um perfil do Orkut, Facebook ou seja lá o que você tiver, apague sem dó. Depois é só dizer que foi um “ráquer” que fez isso, o povo não entende merda nenhuma de computador mesmo. Não se pode deixar alguém que está TE atacando ter como atacar pessoas próximas a você. Suas contas virtuais estão mais próximas do que aparentam. Divulgue o que puder divulgar…

E nessa fase de proteção, ajuda MUITO sossegar o facho e deixar as coisas esfriarem. Aproveite e vá fazer alguma coisa da vida, nerd! A internet permite esse afastamento. Só vão te alcançar se você mostrar o caminho.

Resumo da segunda etapa:

1. Feche a porta;
2. Proteja suas “contas”;
3. Se precisar, apague tudo o que tiver publicado;
4. Fique menos tempo online, deixe esfriar.

Terceiro passo: Ataque.

E aqui, a trollagem: Ou você é uma pessoa que ataca ou você é uma pessoa que precisa deste guia. Passarinho que come pedra sabe o cu que tem. O principal erro de quem não tem estrutura (ou gosto pela briga) para agüentar o que acontece depois de provocar os adversários é JUSTAMENTE atacar. Não sabe fazer, não faça!

Como eu disse lá no começo: Isto aqui não é guia para sacanear os outros na internet. E eu não escrevi isso para “enfraquecer” possíveis vítimas, se eu estou dizendo que essa gente se fode justamente por não parar de cavar, eu estou mesmo é diminuindo minhas chances de trollagem.

Mas tudo bem, as verdadeiras zebras… aquelas que gostam mesmo é de se afundar para fazer pose de vítimas, essas nunca nos deixarão na mão.

Para dizer que vai fazer justamente o contrário porque é muito mais esperto(a) do que eu e previu o golpe, para dizer que eu só escrevi coisas incrivelmente óbvias e perceber que nem isso sabem fazer, ou mesmo para dizer que sabe que meu nome Tiago Somir: somir@desfavor.com

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Comments (11)

  • Você só continua nesse blog por causa da Sally.

    E soube que um tal de Felipe Neto anda colocando todos os trolls no mesmo patama e, ainda popularizando o termo.

    Pretendo pegar ele na hora do recreio.

  • O Manual foi uma das poucas coisas que eu acabei salvando nas inúmeras deleções de perfil no Orkut.

    O que não muda a resposta: Talvez, provavelmente não.

  • como tem moleque tapado nesse mundo… a falta que uma surra faz.
    Seu comentário sobre a briga com o moleque maior me recordou evento tenro da minha infância feliz. No primeiro dia de aula numa escola nova tropecei e caí num troço de cachorro, não percebi, estava atrasado e fui correndo. Cheguei lá fedendo a merda de cachorro, ganhei a pecha de cagão, óóóbveo. No dia seguinte já meio puto com isso falei pra mim mesmo VOU QUEBRAR NA PORRADA O PRIMEIRO QUE ME CHAMAR DE CAGÃO… ai chegou o moleque mais forte da escola e me cumprimentou E AE CAGÃO, eu nem vi quem era, num esquema SALLYD EFENDENDO NAMORADO NA BOATE GAY já comecei a gritar EAEEEE VEM PRO PAAAAAU… relatos contam que eu parecia um joão bobo tomando porrada e não caindo… eu estava na sétima série, o moleque era do terceiro colegial… a "briga" durou alguns minutos até que o pessoal se cansou do sadismo e separou…
    essas surras ensinam bastante para um aborrescente pentelho, como por exemplo, não ser um imbecil.

  • "…mas vc não explicou como é que se ataca!!!
    vai ter continuação?"

    A defesa é relativamente padronizada. É só seguir o guia e 99% de chance de resolver a situação.

    O ataque tem tantas possibilidades e táticas que poderia virar um livro. Eu ainda escrevo sobre algumas em "Somires Surtados" futuros.

  • Não sei a razão, mas as pessoas em comunidades virtuais acabam nutrindo um certo ódio gratuito por mim, não sei o que faço de errado.

    Outras apenas sentem asco.

    Para evitar cyber-bullying, eu tento proteger minha identidade, usando diversos níveis.

    O nível mais baixo é uma pessoa que aparentemente é real, com parentes, amigos da faculdade… esposa.

    Mas antes de chegarem até essa pessoa, eu ainda tenho uma personalidade que muitos consideram real. Muitas outras identidades pseudo-reais.

    Só existem alguns problemas… eu minto tanto que já não consigo lembrar de todas as mentiras; nem eu mesmo lembro o que é mentira ou verdade.

  • Não tinha pensado nisso.

    Essa geração NÃO tem escolha. É como eu achar que era legal andar so de preto ou amarrar uma camisa xadrez na cintura pra me inserir num grupo, hoje, vc tem de ser conectado.

    Eu acho simples se proteger, ou não dar tanta bola pra internet, que como o Somir, acho que as pessoas levam a sério demais. Mas hoje em dia é diferente.

    É mesmo um tnato óbvio, mas não da pra pensar em tudo assim de forma tão clara e organizada.

    Bom post.

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