Ele disse, ela disse: Oniprepotência.

SEMANA ANTA: Se você esperava que o desfavor subisse o nível da discussão na comemoração da Semana Anta, sorria! Não dá para subir mais do que nossa proposta nesse semana comemorativa. Sallera e Somireus são dois deuses numa missão especial para a entidade de classe, a AUD (Associação Universal de Deuses), investigando inúmeras irregularidades no planejamento divino deste planetinha azulado chamado Terra. Está na hora de tirar isso a limpo!

Tema de acalorados debates nas palestras de administração cósmica da universidade da AUD, a questão da divisão da responsabilidade entre divindade e criatura ganha mais um assalto na tela da RID. Sallera e Somireus dividem suas sabedorias atemporais com os pobres mortais, privilegiados com o direito de opinião por tempo limitado.

Tema de hoje: De quem é a culpa pelas mazelas religiosas? Deuses ou crédulos?

SOMIREUS

Tremei ao som… quer dizer, ao inconcebível brilhantismo da Minha palavra escrita! Se em algum momento algum de vocês não for capaz de interpretar a quantidade avassaladora de verdades que profiro em tão limitado espaço, nos os culpo. Pois é assim que um Deus deve enxergar sua relação com suas criaturas… Não há sentido em culpar quem não recebe a gama de escolhas necessárias para evitar o ato culposo.

Já passou da hora de nós, Deuses, sermos responsabilizados por nossos atos. A atitude covarde de divindades como as que transformaram a merecida adoração numa caricatura terrível como a religião terrestre é mais danosa do que qualquer atitude de seres criados para serem falhos.

O que minha CARA colega de panteão é incapaz de entender é que culpar exclusivamente os seres que fazem mau uso da religião é mais uma das formas vis de alienação e uma ferramenta de controle poderosa para a manutenção do poder de seres divinos indignos de suas posições na escala de poder universal.

Evidente que é fácil observar um planeta cheio de defeitos como a Terra e dizer que as pessoas se matando por causa de interpretações diferentes de seus mitos são o verdadeiro problema, mas por trás disso há uma clara falta de preparo da divindade no poder. Mortais vão fazer e pensar basicamente qualquer coisa que alivie seu medo da morte.

Frases como “Deus escreve certo por linhas tortas” e “Há um plano para todos nós” são extremamente comuns neste adorável planeta azulado, proferidas pelos bem menos adoráveis seres da espécie semi-racional que o habita. São exemplos claros de que a abordagem confusa e ilógica de sua divindade atual é mais do que pura incompetência, é má-fé.

Ao manter suas criaturas num estado confuso entre revelação e distanciamento, a divindade se exime de responsabilidades e deixa suas criaturas completarem as lacunas de sua falta de bom-senso. De uma forma mais acessível para seres mortais: É a mesma coisa que um governo que não dá apoio para seus cidadãos, mas os ameaça com punições caso façam algo que o desagrade. O pior dos dois mundos.

Essa tática baseada em ignorância e medo faz de um planeta como a Terra um dos maiores índices de crença em divindades não reveladas em todo o setor do universo, mas a que preço? Cabe lembrar que a espécie semi-racional chamada de humanidade é também destaque por causa de seu atraso tecnológico, causado por incontáveis gerações tolhidas de seu desenvolvimento intelectual por falsos emissários de divindades.

E quem permite isso? Oras, temos exemplos e mais exemplos de divindades que escolheram o caminho da não-intervenção para suas criações, com resultados bem mais impressionantes do que o do planeta Terra. Temos também casos de Deuses que se mostraram interessados e presentes em todas as etapas evolutivas de seus planetas, também com resultados muito mais relevantes… O que não pode mesmo é essa atitude passivo-agressiva de plantar sugestões na mente de alguns poucos para manter a maioria da população numa espécie de dúvida filosófica insolúvel sobre a existência de Deuses.

Essa tortura intelectual gera grandes divisões entre a população das criaturas, como pode ser observado em inúmeros casos da experiência terrestre. Isso leva a insegurança e ao medo. Duas formas de evitar que a população local concentre-se nas verdadeiras questões em jogo. Espécies totalmente racionais seguem o caminho da extensão indefinida da vida, eficiência energética e a exploração espacial, espécies como a humana ainda estão preocupadas com coisas como atração física por pares com genitálias parecidas!

Isso é proposital! Manutenção da ignorância é de valor inestimável para quem está fazendo um péssimo serviço. A divindade deste planeta parece sofrer de uma necessidade patológica de atenção, ao mesmo tempo que provavelmente está viciada nos conflitos emocionais vivenciados pelas suas criaturas.

Como posso afirmar que tudo depende apenas das construções semi-racionais da humanidade se elas são contaminadas terrivelmente por essa noção distorcida de divindade incutida por um Deus incompetente? Como esperar mudanças sem que os habitantes deste planeta já nascem condenados a nunca receber o suporte necessário para rejeitar o método insano de administração divina aplicado sobre eles? Não há voto, não há argumento.

Essa ditadura cósmica da incompetência não é culpa de quem não recebe nem a informação se divindades são reais ou não, é culpa de quem mantém esses pobres animais semi-racionais no escuro, acreditando num método dentro da insanidade de seus criadores, por puro egoísmo e covardia de alguém com mais poder que bom-senso. Muito conveniente culpar o elo mais fraco dessa corrente, não?

Pois eu não compactuo com isso. Deuses devem ser culpados pelos seus erros, e tratados de acordo com seu mérito. Acabo de chegar neste planeta e já posso apontar inúmeras falhas que minam completamente a qualidade do trabalho de sua divindade. Sem uma definição sobre políticas de intervenção que faça algum sentido, os humanos estão muito melhores renegando completamente sua divindade. Claro, tem todo o aspecto absurdo da punição por algo que o próprio Deus forçou suas criaturas a fazer, mas sobre isso eu falo em outra ocasião.

É muita sabedoria para vocês. Preciso me acostumar ao ritmo da mente mortal… Faz tempo desde que eu cuidei de um povo. (Não intervencionista aqui! Ainda vamos convencer todo o universo…)

Para assumir que foi tudo muito confuso e que vai interpretar que nem o seu nariz para tirar a conclusão que te for mais conveniente, reze. Mas não junta as mãos, eu vi vocês fazendo isso e achei brega.

SALLERA

Olha, eu já estou atolada de trabalho aqui para ainda ter que lidar com esse tipo de desaforo. Todo mundo acha que ser um Deus é fácil, é simples, que dá para fazer tudo com poder nas mãos. Troquem de vida comigo por um dia, que eu quero ver! E agora ainda tem essa, estão querendo me culpar pelo estrago que a religião anda fazendo? Negativo! Como se meu curriculum já não estivesse suficientemente cagado por ter criado o ser humano… (na hora parecia uma boa ideia, parecia um projeto promissor de um ser inteligente). Encaremos os fatos: O mundo está uma merda e boa parte da culpa é das religiões. Quem é o principal culpado? Evidentemente são as pessoas que insistem em perder seu tempo com religião. Foram elas as criadoras da religião e também são elas as responsáveis por levar as religiões adiante.

Nós, Deuses, não temos culpa disso que está sendo feito em Nosso nome! Religião, que nada mais é do que uma forma de capitalizar em cima dos Nossos nomes, promovendo enriquecimento de poucos e efetivando manobras de contenção social e conformismo. Religião é um câncer. E as pessoas são as principais culpadas, seja por criá-la, seja por propagá-la, seja por acreditar nela. Nós não temos nada com isso! Nós demos aos seres humanos um cérebro justamente para evitar esse tipo de coisa, se a maior parte deles insiste em não usá-lo, não podemos fazer nada.

Imagine um animal de circo, por exemplo, um tigre. Ele é mantido em uma jaula e não tem nenhuma autonomia sobre sua vida. Vive naquele mundinho limitado por total falta de opção, pois existem humanos que o trancam ali com cadeados. O tigre não tem culpa, o tigre não tem chance de fazer diferente. No caso dos religiosos, a jaula está aberta, ela sempre esteve aberta, é possível sair a qualquer momento. Por isso a culpa é das pessoas, apenas delas. Não existe cadeado. Qualquer temor em relação ao seu Deus é mera projeção de seus medos, já que não há prova concreta alguma de que nenhum Deus deseja que sigam determinadas regras e doutrinas religiosas. Nós nunca dissemos nada nem ao menos parecido com isso!

As pessoas seguem os mandamentos ridículos de cada religião por puro egoísmo: para aplacar seus medos, para terem atestado social de boas pessoas, para mitigarem sua culpa ou por diversos outros motivos que não tem qualquer relação com ser uma boa pessoa ou louvar um Deus. Mas todos tem um denominador em comum: a burrice. Porque acreditar que nós, Deuses não quer que você faça sexo antes do casamento ou não quer que você coma tal comida em tal dia ou quer que você doe parte do seu salário ou quer que você se exploda contra um prédio não tem outro nome: burrice. Até parece que a gente vai se preocupar com quem está fazendo sexo com quem! Isso aqui é um trabalho sério!

Burrice e preguiça, pois não se dão ao trabalho de estudar. Uma leitura crítica do livro utilizado com referência para a sua religião vai revelar a verdade: palavras distorcidas por anos de acordo com a conveniência daqueles que a pregam que hoje beiram ao ridículo. Pessoas cuja preguiça mental é tanta que sequer cogitam a possibilidade de questionar. Pessoas que precisam da religião como uma muleta para explicar aquilo que não se explica. Pessoas com a cabeça fechada o suficiente para preferirem uma explicação mentirosa, patética e forçada do que viver com algumas questões em aberto, sem resposta. Se você acredita em nós, nós somos a resposta que você precisa e não há necessidade de intermediários para isso.

Daí você pode pensar que estas pessoas foram tão doutrinadas que não tiveram chance de questionar, tal qual uma orca treinada para dar mortal em um tanque. As pessoas não nascem em cativeiro, elas tem a opção de questionar. Até onde eu sei, ainda não se pode controlar o pensamento de outros seres humanos, se eles quiserem, eles podem pensar. Até onde eu me lembro, nem Somireus nem eu assinamos qualquer procuração para que um humano pudesse falar em Nosso nome. Não delegamos poder a ninguém para isso. Muito me admira que alguém acredite que discriminaríamos assim nossas criaturas, colocando umas como conhecedoras das nossas vontades e outras não. São todos iguais, todos igualmente ignorantes. Ninguém está autorizado a falar se não por si mesmo.

Muito fácil colocar a culpa em um ser intangível quando tudo dá errado. É quase como que peidar e colocar a culpa no cachorro. Em ambos os casos você sabe que não será desmentido. Quem criou a religião foram os homens, não fomo nós, Deuses. Quem criou uma série de normas toscas que não medem porra nenhuma foi o ser humano. Ele é o culpado pela existência da religião e ele também é o culpado por continuar seguindo essa religião mesmo que seus preceitos não façam o menor sentido. Só faltava essa… querer atribuir as próprias cagadas aos Deuses. Se continuar assim em breve vai ter homem justificando traição com coisas como “Eu não queria, mais foi a vontade de Deus”. Me poupem!

Está mais do que na hora das pessoas assumirem responsabilidade por seus atos. Criar uma religião é um ato de vontade do homem e seguir uma religião também. Ambos são ofensivos a nós, Deuses, e nocivos à sociedade como um todo. Se hoje estão atolados de merda até o pescoço, é merda que vocês mesmos cagaram e se quiserem que as coisas mudem, terão que arregaçar as mangas e limpar essa merda toda. É perfeitamente possível não se filiar a nenhuma religião ou até se filiar, mas sair dela. É um ato de vontade, basta querer, basta raciocinar para perceber que não gera nenhum bem à pessoa ou à coletividade se sujeitar a esses rituais.

Estou de saco cheio disso! É um típico caso de crença seletiva: quando acontece alguma coisa boa com uma pessoa, como receber uma promoção ou comer uma mulher gostosa, ela se gaba dizendo que ELA conseguiu: “EU fui promovido!”, “Eu comi a Fulaninha!”. Mas quando acontecem coisas ruins, sobra sempre para a gente. Morreu alguém? “Foi a vontade de Deus”. Alou? Vocês não são tão importantes, nós Deuses estamos bastante ocupados por aqui, ok? Parem de achar que toda picuinha que acontece no seu mundinho insignificante tem dedo nosso!

Francamente, você cria esses seres, lhes dá cérebro, lhes dá polegar opositor, lhes dá um planeta cheio de oportunidades e tudo que eles sabem fazer, século após século, é ficar chamando por você de forma paternalista, achando, em sua insignificância e egoísmo, que nós estamos olhando e controlando cada passinho de suas vidas chatas. Um pouco de autogestão cairia bem. É bem difícil ter que trabalhar quando o tempo todo um imbecil chama seu nome pedindo para ganhar na loteria, pedindo para ter o namorado de volta ou pedindo para a água do vaso descer. Crianças mimadas, isso é o que são.

Vamos deixar claro de uma vez por todas: nós Deuses não temos absolutamente nada a ver com religião, ok? Filho feio não tem pai… mas se fizer um DNA, verão que esse filho é 100% humano. Limpem a merda que vocês fizeram sozinhos e cresçam! Parem de nos importunar por besteira que nós estamos atolados de trabalho aqui, porra!

Para deixar a sua prece e ser ignorado, para aproveitar o canal aberto e tirar dúvidas existenciais ou ainda para me importunar por pouca merda, converse telepaticamente com Sallera.

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Comments (13)

  • Sally, em poucas palavras, meu comentário se resume a: Este post me lembrou e muito, a intrigante passagem do “Grande Inquisidor” na obra Irmãos Karamazov de Dostoievski. Lá, a crítica por tras de uma ironia muito pesada diga-se de passagem, é justamente essa: A culpa não é da religião, ou dos Deuses, mas dos próprios homens que criaram as religiões.

    Não querendo entrar muito na análise da Obra, mas o personagem Ivan Karamazov tem em suas concepções a crítica relacionada não às crenças das religiões, mas sim ao modo com que os homens cultuam tal crença.

    Enfim, muito interessante essa discussão a nível filosófico…

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    • Ge, me sinto honrada com a comparação!

      É uma discussão muito interessante mesmo, meu sonho é reunir os leitores do Desfavor em uma grande mesa redonda e discutir o assunto, filmar e depois postar na internet. Faz tempo que não vejo cabeças pensantes debatendo. Você está convidado!

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  • Somireus tem razão. Seres dotados de poderes sapiência em tão grande escala (totais?) deveriam fazer alguma coisa. Chega no trabalho uns minutinhos antes que dá tempo de arrumar toda essa bagunça aqui sem prejuízo das outras atribuições do dia dos deuses. Seria tipo fazer um 5s, no final tudo ficaria mais produtivo.
    E já que criaram uma espécie com probleminhas de projeto…

    Opinião de um mero mortal semi-racional.

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      • Nesse caso, foram problemões de projeto.

        Obs.: quando escrevi “poderes sapiência”, leia-se “poderes e sapiência”.

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  • Vou usar uma balinha. Depois retorno e leio o texto do Somireus pra ver se consigo captar alguma coisa…

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  • Somir
    Sua linguagem foi demais para a capacidade de compreeñsão daqueles que poderiam vir aqui reclamar e fazer nossa alegria.
    Se falar complicado a gentalha não entende.

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  • Paulo César Nascimento

    Acho que vocês lucrariam mais plagiando o Macedão e entrevistando o capeta. Os impopulares já estão bem por dentro do que os seus ditadores pensam sobre religião, responsabilidade e racionalidade. Uma semana chovendo no molhado?

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  • Foi tudo muito confuso Somireus precisa se esforçar mais .
    Sally… Já leu A Estratégia, o plano dos homossexuais para transformar a sociedade? Muito bom , vc vai adorar!!!

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