Skip to main content

Colunas

Arquivos

Indesejo.

Indesejo.

| Desfavor | | 24 comentários em Indesejo.

O que não falta nesse mundo é gravidez indesejada. Também não faltam discussões sobre como as mulheres se sentem nessa hora… mas Sally e Somir discordam sob um ponto de vista raramente escutado: o do homem. Os impopulares geram a discussão.

Tema de hoje: para o homem é pior uma gravidez indesejada no casamento ou numa aventura de uma noite?

SOMIR

O pior é não ter feito vasectomia a tempo. Mas, já que nesta discussão já partimos da premissa da mulher ter engravidado, eu acredito ser pior se for uma aleatória cuja única coisa que você sabe ter em comum foi a vontade de fazer sexo naquele dia. Homem já tem pouco ou nenhum controle nesses casos, ter uma estranha com esse poder na mão é ainda mais desesperador.

Vamos considerar duas possibilidades após a descoberta dessa gravidez: a mulher faz o aborto ou tem o filho. Não, abortos não são legais, mas sejamos honestos: podendo pagar, são uma opção. Estamos falando de uma gravidez indesejada para o homem, obrigatoriamente. A mulher pode ou não querer ter o filho. Se os dois não quiserem e puderem realizar o aborto, não faz muita diferença. Agora, evidente que a discussão de hoje não vai cair nesse cenário “ideal”. Pra realmente ter que decidir o que é mais terrível das duas opções, a mulher nesse caso quer ter o filho.

Pois bem. Como o homem nesse caso não quer, ou vai tentar convencer a mulher a desistir (a tempo) ou vai ter que entubar a criança. E nesses dois cenários, é melhor estar com uma louca conhecida do que com uma recém descoberta. Porque a mulher que quer forçar filho em cima de um homem não regula bem ou não presta, talvez ambos. Tá, muito triste descobrir que casou com uma cobra, mas temos que ser práticos e realistas aqui: a merda de casar está feita, pode ser revertida depois. A merda de ter um filho com essa louca ainda não aconteceu, e não pode ser revertida caso aconteça. Foco!

O que você tem mais com uma mulher com a qual casou e tem um relacionamento longo que não vai ter com a estranha? Acesso e conhecimento. E se você quer derrubar a ideia dela de ter o filho, tem muito mais margem de manobra com alguém que você convive diariamente e que sabe os pontos fracos. Terrível que eu tenha que escrever isso, mas desde manipular até “causar” o aborto é muito mais simples para quem está do lado da grávida todos os dias. Evidente que o ideal é fazê-la desistir desse golpe sujo da forma mais educada e pacífica possível, mas mesmo pra isso, ajuda muito saber como a loucura dela funciona.

A louca recém-conhecida é um mistério, você não sabe quais são os medos e esperanças dela, não sabe onde apertar para ela desabar, não sabe nem que tipo de mentira ela gosta de acreditar. Você tem que passar um bom tempo com uma mulher pra conhecer ela assim, e convenhamos que nós homens somos mais lentos para esse tipo de reconhecimento. Até você descobrir o que teria de dizer para que ela abortasse, a criança já nasceu. Você não mora com a pessoa, não tem nem mesmo muita abertura para passar muito tempo com ela. Quando é sua esposa, o resto da família e amigos meio que deixa o cuidado na mão do marido, mas quando é uma solteira que engravida, começa a aparecer gente do nada para ficar com ela. Suas janelas de oportunidade diminuem e tem sempre um filho ou filha da puta que não te conhece e te detesta para ficar botando minhoca contrária na cabeça dela.

Se você tiver uma chance de reverter o desejo da mulher de ter o filho, vai ser muito maior se for a sua esposa. Acesso e conhecimento. E se conseguir, pé na bunda disso na hora! Só não culpo mulheres que não tem condição de fazer um aborto suficientemente seguro (tudo o que é ilegal fica mais caro), mas aí, também, se o homem forçar ela a correr um risco assim, é um cretino de marca maior, e estamos fora do escopo do texto.

Bom, enquanto o aborto for possível, é melhor ser casado com ela. Mas, se não for? Bom, aí por decisão unilateral dela ou por impossibilidade de terminar a gravidez, o filho vai ser uma realidade. E aí, novamente é melhor estar com a louca conhecida. E aqui, vamos fazer um pequeno retorno: até na hora de descobrir a gravidez a mulher com a qual se casou é melhor. A estranha pode aparecer barriguda depois do limite aceitável do aborto ou até mesmo já com a porcaria da criança feita, pedindo pensão. Quer dizer, mentindo que quer que a criança conheça o pai, mas querendo o dinheiro de verdade. Se a mulher está na mesma casa que você, você vai ser avisado enquanto é tempo de desistir na imensa maioria dos casos.

Pois bem, nasceu a criança indesejada. O que é melhor, que ela esteja com uma estranha por aí ou que você possa pelo menos evitar estragos maiores? Crianças crescem, e se uma maluca começar a botar besteira na cabeça dessa criança desde cedo, seu filho vai ser mais e mais problemático com o passar dos anos. Porque depois que nasceu, já era, é seu. Você pode fazer algum esforço para criar direito e ter menos dor de cabeça no futuro ou você pode deixar a merda explodir na sua cara depois. E existe sim um grande risco de você se apegar à coisinha, a genética explica. Caso você faça a entubada completa e aceite de coração a criança, melhor que seja com a sua mulher e o filho esteja debaixo da sua asa.

Se você não quiser nada com a criança, bom, aí basta se separar e basicamente ter a mesma relação com o fedelho que teria se ela fosse uma estranha. Se você era casado com ela, ela teve muito tempo pra ouvir como é uma pessoa horrível por te forçar a criança, e talvez fique carente o suficiente pra arranjar outro pra cuidar, afinal, ela está com a mentalidade de “papai e mamãe” muito forte na cabeça. A do caso de uma noite não, ela decidiu uma produção independente (paga com o salário alheio) e tem menos chances de encontrar outro homem que tope ser o pai da criança. Quando tem substituição, mulher e criança te pentelham menos. Aí é basicamente pagar pelo erro por dezoito anos, mas só em dinheiro pelo menos.

A situação é terrível de qualquer jeito, mas não tenho dúvidas que na hora do aperto, é melhor conhecer bem o inimigo.

Para dizer que eu sou uma pessoa horrível, para dizer que as duas podem cair de escadas, ou mesmo para dizer que torce para que eu não tenha filhos (somos dois): somir@desfavor.com

SALLY

O que é pior para o homem: filho indesejado no casamento ou filho indesejado em uma aventura de uma noite?

Percebam que estamos discutindo o ponto de vista exclusivo do homem. É um exercício de empatia para as mulheres (que andam precisando disso): se colocar no lugar do homem e tentar entender o que se sente. Então, mulheres, o que vocês acham melhor para vocês não nos interessa hoje. Hoje é sobre os homens.

Acredito que é pior para um homem uma gravidez indesejada no casamento. Sim, você achou que eu diria o contrário, eu sei. Mas ao final do texto talvez você concorde comigo. Vamos pensar na questão com a cabeça de um homem que não quer de forma alguma ter filhos, caso contrário a gravidez não seria indesejada.

Uma relação casual de uma noite é algo quase que randômico. Você escolhe a pessoa por critérios superficiais como uma boa conversa ou uma boa aparência. Não se mede caráter nem índole em uma coisa de uma noite. A outra pessoa também não sabe muito sobre você: sua vida, seus planos, seus desejos a longo prazo. É tudo muito superficial. Uma gravidez nesse contexto é algo muito chato, mas dá para classificar na categoria de “um incidente infeliz”. Uma pílula esquecida, uma camisinha estourada, uma irresponsabilidade de uma dupla que não joga como um time e pronto, está criado o problema.

Já casamento… bem, casamento é (ou deveria ser) parceria. A parceira sabe (ou deveria saber) dos desejos, dos planos, e do pensamento do parceiro. Por óbvio, uma esposa sabe do desejo do marido de não querer ter filhos. Não é um desejo fraco, eu posso falar de camarote. É algo forte, forte o suficiente para te fazer remar contra a maré, em um mundo onde as pessoas “normais” tem filhos. Nesse contexto, ciente do desejo de não ter filhos, não tomar o devido cuidado me parece um pouco mais grave. Há uma traição de confiança aí.

“Mas Sally, o homem também tem que tomar cuidado, todo mundo sabe como se engravida, não é só a mulher que tem que se cuidar bla bla bla”. Sim. Mas quando há uma relação de confiança e o casal acorda a forma que usará como método anticoncepcional, muitas vezes essa tarefa pode recair em um ato da mulher, como tomar pílula, por exemplo, e o homem confia nela, ao contrário de uma relação casual. É uma decisão de comum acordo que, se supõe, atenda a ambas as partes.

Imagina que um casal decide que o método anticoncepcional vai ser um e o sujeito, em paralelo, insiste em usar outros. Soaria como falta de confiança, certo? Se o método anticoncepcional escolhido pressupõe a confiança do homem, é muito cretino dar essa facada nas costas do seu parceiro. Mulher alguma no mundo admite que engravidou de caso pensado, mas o homem sabe, lá no fundo, ele sabe, pelo contexto, que ela o fez.

Só tem filho quem quer. Se você sabe que a outra pessoa não quer, é falta de caráter impor um filho a quem não quer. Isso vale para homem que fura camisinha ou para mulher que não toma a pílula para engravidar. Mas, ok, supondo que acidentes acontecem e que a mulher acabou engravidando sem má fé de ninguém… Se você sabe que o parceiro não quer filhos, acho totalmente sem ética tê-los. Quase ninguém vai concordar comigo, mas eu acho impor um filho indesejado a um homem o similar a estuprar uma mulher. Sim, joguem pedras. Só vai entender quem foi obrigado a criar, sustentar e “amar” um filho que não queria. Te obriga a mudar sua vida, suas prioridades e até seus sentimentos (se é que isso é possível) por um ato unilateral, que te impõe fazer algo que você não quer, para o resto da sua vida. “Mas Sally, quem mandou o homem não se cuidar?”. Ok, punam um homem por confiar em vocês, tá serto, tá sertinho.

Então, eu acho mais grave quando uma pessoa na qual você supostamente confiava faz uma coisa dessas com você. Em um encontro de uma noite, a pessoa não te deve nada, não há promessas, não há confiança. Se ela te der uma sacaneada, bem, era o risco do negócio. O homem topou quando decidiu sair com uma mulher que acabou de conhecer. Já casamento, são anos parceria, cumplicidade, esforço para fazer a relação dar certo. Não se espera que alguém abuse desta confiança para impor um ônus (que durará o resto da vida do homem) que tinha ciência ser indesejado. “Meu corpo minhas regras”? Ok, mas um filho afeta o corpo e as regras do parceiro também. “Nossa relação, nossas regras” seria um pouco mais justo. Imagina que bosta de mãe essa mulher vai ser para uma criança.

Há pressão social violentíssima contra quem não quer ter filhos, novamente, falo de camarote. Quando uma esposa diz ao marido que está grávida, o homem sabe que se ele disser que não quer, está ferrado. Não se pode obrigar uma mulher a fazer um aborto, vai da consciência dela ter a ética de pensar que se um dos dois não quer, não deveriam ter filhos. Fora a questão financeira, já que aborto no Brasil é crime, o que demandaria uma viagem internacional para realizar o procedimento. A sociedade não respalda a ideia de que se um dos dois não quer, é uma agressão, uma violência impor um filho. Não. É aquela ignorância de que “filho é sempre uma bênção” e que todo mundo sempre tem que gostar de receber essa notícia. Esta hipocrisia social é forte o bastante para que mulheres continuem impondo gravidez a homens: eles não tem o direito de se revoltar contra isso, o que torna a covardia ainda maior. Que porra de mulher filha da puta faz isso? Com que ética esta porra desta mulher vai criar uma criança? Gravidez de um encontro de uma noite pode ser apenas irresponsabilidade, mas em casamento é sacanagem da esposa.

Além da questão ética, na parte prática também é pior estar casado. Quando o filho é fruto de uma noite randômica, a mulher vai criar e é sobre ela que vai recair o maior ônus. O homem verá o filho nos finais de semana, se tanto. Só fará além se o desejar. No casamento não. As noites mal dormidas são mútuas. Todos os sacrifícios, todos os ônus, todo o estresse recai sobre ambos. Não viajar pois está com um bebê em casa. Não dormir uma noite inteira pois tem um bebê que chora de três em três horas. Quer dizer, além da falta de ética de ter um filho que não foi de comum acordo, um filho imposto, ainda tem todos os ônus desta consequência.

E ai do homem que reclamar, é extremamente mal visto dizer “faz você, eu nunca quis este filho”. Não pode. A sociedade acredita em um romantismo falso de que, no minuto em que nasce o filho, um amor brota do nada e emula esse comportamento por medo da inadequação. Uma mentira, propagada por anos e anos que as pessoas insistem em encenar por medo do julgamento alheio. Taí, milhões de mães com depressão pós-parto de tanto amor e homens traindo e indo embora, largando a mulher com um bebê em casa, de tanto amor. Francamente, sei que as coisas que estou dizendo hoje são feias, escrotas e chocantes, mas a vida é assim. É melhor aceitar e lidar com isso do que continuar romantizando e produzindo esses casamentos disfuncionais cheios de baixaria, traição e mentiras.

Na contramão do falso empoderamento feminino, onde mulher pode tudo e homem não pode nada como tentativa burra de equilibrar a balança, eu digo: mulher que impõe um filho indesejado a um homem não tem caráter. Pode fazê-lo tranquilamente pois não é esse o entendimento social (ainda), a sociedade entende que não tem caráter o homem que não quer ter um filho já concebido. Mas felizmente eu não meço meu caráter por aquilo que a maioria pensa, eu tento basear meus valores em coerência e ética, mesmo quando o resultado final me é menos vantajoso. Eu não quero proteção social injusta, como mulher, quero ser reprovada quando me faltar caráter, não preciso da pena ou condescendência de ninguém. Mulher que impõe filho sem que o parceiro queira é filha da puta.

Se é para tomar uma sacaneada de alguém, que seja de uma pessoa randômica, da qual você não esperava nada e onde você vai sofrer o menor ônus da situação. Se sua esposa te impõe um filho que não foi decidido de comum acordo, que você não queria, desculpa, mas essa pessoa não tem caráter. A sociedade não reprova, mas você deveria. E que merda que seu filho seja criado por uma mãe sem caráter…

Para se chocar com o tapa na cara logo no começo da semana, para se revoltar contra meu sincericídio ou ainda para dizer que no dia em que meu anonimato cair eu estou fodida: sally@desfavor.com


Comments (24)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: