Lista corrompida.

+A lista de ministros, governadores, senadores e deputados que serão investigados por determinação do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), tem 16 nomes do PT, 14 do PMDB e 11 do PSDB. Todos foram citados nos depoimentos de delação premiada de ex-diretores da empreiteira Odebrecht, no âmbito da Operação Lava Jato. A relação também inclui oito nomes do PP, seis do PSD, quatro do DEM, quatro do PSB, três do PR, três do PRB, dois do PCdoB, além dos partidos PPS, PTC e SD, com um nome cada.

Se gritar “pega ladrão”… a lista de Fachin foi o destaque da semana, mas será que o brasileiro médio entendeu mesmo o que foi isso? Desfavor da semana.

SALLY

Não tem como falar sobre outro assunto, apesar do fascínio e vontade de esculachar em detalhes o “Meu ovo é show”, este evento distinto que acontece em Salvador, o Desfavor da Semana é a lista dos corruptos que foi divulgada esta semana na operação Lava Jato.

Para uma operação que perseguia o PT e tinha como única intenção derrubar a Dilma, a lista de nomes está bastante eclética. Tem para todos os gostos, partidos, cargos e tamanhos. Basicamente, o que a gente já sabia: no Brasil, se não for corrompido, não chega a cargo de poder, seja na politica, seja em uma quitanda. No Brasil as coisas se movem na base da corrupção.

E o povão, esse bando de babacas maniqueístas, passou anos brigando entre si, defendendo seu político de estimação, desfazendo amizade por causa de política, se aborrecendo e até saindo no tapa em manifestação, enquanto todos os políticos, todos eles, estava lá roubando por igual. Ninguém presta, e quem brigou para defender um ou outro fez um baita papel de idiota.

Que retardo mental foi esse de achar que o partido com o qual simpatizavam era honestão e o partido adversário era ladrão, escroto e tudo de ruim? Como pode o brasileiro ser tão bobo, infantil e iludido? Talvez pelo fato do brasileiro médio ser tão corrupto que nem ao menos sabe o que é corrupção. Vemos isso em acusações de rede social: todo mundo que eu odeio é fascista, nazista, corrupto e burro, não importa o conceito destas palavras. O que importa é jogar coisas pejorativas no desafeto. Gente que eu tenho certeza que não sabe o que é ser “fascista” acusa desafetos de fascismo. O mesmo vale para corrupção. Brasileiro médio não entende o conceito de corrupção.

Quando a pessoa suborna o guarda, é ok, porque ela não pode ficar sem o carro, afinal, ela trabalha com o carro e tem família para sustentar. Quando a pessoa sonega imposto, é ok, porque político é um bando de filho da puta que rouba seu dinheiro. Quando a pessoa trai a esposa tem seus motivos, porque afinal, ela não o satisfaz mais. Sempre tem uma desculpa para cometer as ilegalidades ou imoralidades que a pessoa comete. Mas, quando alguém com quem a pessoa não simpatiza desliza na ética ou na lei, é filho da puta, bandido, tem que matar, bandido bom, é bandido morto.

Assim, a noção do certo e do errado, do ético e do antiético, do corrupto ou do honesto, fica condicionada à pessoa, não ao ato. Vimos isso claramente na coluna Ele Disse, Ela Disse, naquele tema onde perguntávamos se a pessoa denunciaria um roubo a banco se soubesse que o valor seria usado para caridade: “o banco tem seguro”, “esse dinheiro não vai fazer falta para o banco”, “o banco é filho da puta e rouba seus clientes”. Tudo verdade. Porém, não autorizam você a cometer uma ilegalidade. O brasileiro médio se sente no direito de transigir com a lei, de não cumpri-la quando ele acha que não é necessário.

Esse jeitinho, esse auto-perdão, essa flexibilização do que pode e do que não pode… isso tem que acabar se você quer um país sério. Não é admissível que, de qualquer forma, se perdoe, atenue ou argumente sobre a corrupção de Lula dizendo que “FHC também fez”. Mas o que é isso, minha gente? Se Jack, O Estripador matou e estuprou e saiu impune, então, você também pode? Se você chega em um lugar e tem um grupo de pessoas batendo em um idoso, depois que elas vão embora, você começa a espancar o idoso porque quem estava lá antes também o fez? NÃO DÁ.

O brasileiro médio acha que é corrupção aquele ato para o qual ELE não vê explicação justificável. Condiciona corrupção a um subjetivismo que não existe. Se aceitou propina, suborno, é corrupto, não importa a história que esteja no entorno, não importa a pessoa, o partido. Mas, na cabeça do brasileiro médio, o filho do vizinho é um “viadinho de merda” e seu filho é um homossexual. A condenação do ato (corrupção) depende de quem o fez e não do ato em si.

Enquanto a coisa continuar assim, o povo continuará votando nos corruptos com os quais tenham mais afinidade nas desculpas para se corromper. Continuaremos nessa cultura “nós e eles”, onde algumas atitudes corruptas de algumas pessoas são válidas: rouba mas faz, rouba mas ajuda os pobres, rouba mas FHC também roubou. Gente, não dá mais para pensar assim. Vamos amadurecer? Vamos crescer? Sempre olhando para os erros dos outros para argumentar. FODAM-SE OS OUTROS, foda-se o que os outros fizeram, sua moral, sua ética, sua conduta é responsabilidade só sua, independente do entorno. Como a senhora sua mãe bem dizia, você não é todo mundo.

A corrupção está enraizada no brasileiro. Desde pequenas, crianças assistem a seus pais praticarem atos corruptos com normalidade. Pequenos atos que aos olhos da sociedade corrupta brasileira são normais, mas são sim atos corruptos. Crianças aprendem que, dependendo do motivo, é aceitável ser corrupto e crescem com essa mentalidade. Quando você aprende desde cedo a relativizar corrupção, a relativizar certo e errado, acaba defendendo político corrupto com unhas e dentes se achar que estavam presentes as circunstâncias que autorizavam andar fora da linha.

Fingir que o carro ou o celular foram roubados para ganhar um novo é corrupção? E furar fila? E mentir que está doente e não ir trabalhar? E aceitar troco a mais e não avisar? E beber e usar internet para fugir da blitz quando se está dirigindo? E comprar carteira de motorista? E usar wi-fi do vizinho sem a sua autorização? E comprar um celular de origem duvidosa, bem abaixo do preço, que provavelmente foi roubado? E fazer gato para não pagar luz ou tv a cabo? Posso ficar aqui até amanhã dando exemplos que, muita gente vai achar aceitável e outros não.

Esse é o problema, quando não há um conceito sólido do que é corrupção, cada um decide conforme o que lhe convém. Assim segue o Brasil, pais corrompidos criam filhos corrompidos que nem sabem que são corrompidos e acabam votando em políticos igualmente corrompidos por razões corruptas. E não me refiro apenas aos populares, já vi muita gente boa, esclarecida, militante de esquerda, que vota em Prefeito e Governador usando como critério aquele candidato que aumentará o seu salário. É assim que se vota, Brasil?

Corrupção não é só aceitar dinheiro, corrupção é tomar decisões pensando em interesses próprios, corrupção é fingir que não vê algo errado que te beneficia. Existem mil faces da corrupção. Escolher candidato com base no que TE convém mais é ser um corrompido. Votar em quem aumenta seu salário, asfalta sua rua ou te dá uma dentadura é ser um corrompido e obviamente nada de bom sai disso.

Em tese, se vota pensando no bem estar da coletividade, no candidato mais apto, preparado e com histórico menos reprovável. Alguém pesquisa histórico de candidato? Não. E não é que o Brasil não tenha memória, como dizem. Vamos parar de repetir esta merda. O Brasil não tem é interesse, não pesquisam sobre a vida pregressa de candidato. Votam em quem oferece o melhor favorecimento pessoal e nem ao menos percebem que isso é ser corrompido.

Você sabe que um problema vai ser muito difícil de resolver quando os envolvidos nem sequer conseguem visualizar o problema. Assim está o país, quando falamos de corrupção. Não adianta 30 Lava Jatos, se não mudar a mentalidade do povo, estarão apenas enxugando gelo.

Para dizer que este texto te deprimiu, para comemorar o fim da semana temática ou ainda para dizer que a corrupção está na cabeça de quem vê: sally@desfavor.com

SOMIR

Lembro de um relato de conhecidos brasileiros que viajaram para a Europa: que em um trem usado para viajar entre uma cidade e outra, comprava-se a passagem num guichê e entrava-se no trem. Ninguém estava na porta verificando se a pessoa tinha uma passagem. Como esses conhecidos eram brasileiros, imaginaram que durante a viagem apareceria alguém para verificar as passagens. E esperaram… esperaram… chegaram até o destino e ninguém veio confirmar se eles tinham pagado por aquela viagem. Do ponto de vista deles, e inclusive do meu, uma tremenda falha: qualquer um poderia viajar de graça assim. Uma empresa que fizesse isso no Brasil estaria falida… naquele país europeu, tinha décadas de serviço, orgulhosamente estampadas na sua comunicação visual.

Isso me deixou pensando se as pessoas de lá sequer imaginavam que dava para nunca pagar nada naquele trajeto. Se eram tão “robóticos” que só pelo fato de estar presumida a compra da passagem, não passava mais nada na cabeça deles. Porque ter essa resposta é muito mais importante do que imaginamos: faz sentido que alguém que pegue esse trem todo dia nunca perceba que ninguém vai forçá-lo a pagar se não quiser? Ainda não estou nem discutindo se é certo ou errado não pagar, estou só dizendo que pelo menos pra mim, o primeiro reflexo é pensar no porquê daquelas pessoas sequer considerarem viajar de graça. É lindo pensar que existe um lugar onde as pessoas são automaticamente honestas, mas é realista?

E é aí que a brasilidade demonstra seus poderes. Ao invés de pensar que as pessoas de um país mais civilizado simplesmente escolhem fazer o que é certo, eu fico tentado a achar que eles são “otários”. Com grande admiração por essa suposta inocência, mas mesmo assim estranhado com a falta de percepção básica… oras, quem disse que a única forma de fazer a escolha da honestidade é não ver que existe outra? Quem disse que os europeus não sabem exatamente a forma de burlar o sistema, mas que decidem não fazê-lo? Porque é muito mais lógico que eles saibam e não façam a coisa errada.

Não chego ao nível Sally de qualidade, mas eu sou muito mais certinho que a média da população brasileira. Tenho um senso mais apurado de que algumas escolhas convenientes para mim não são saudáveis para a sociedade como um todo, e tento usar esse senso no dia a dia. A vida é melhor em média quando as pessoas exercem algum senso de justiça e ordem pensando no conjunto. E mesmo assim, o conceito de levar vantagem está tatuado na minha mente de tal forma que é estranho pensar no outro sem presumir o mesmo. E é aqui que eu sugiro que o próprio conceito do que é a corrupção não é suficientemente claro no Brasil.

Quando sai a lista de Fachin, com os executivos de uma empresa implicando uma parcela enorme de políticos de alto escalão em escândalos de corrupção, principalmente na troca de favores para financiar campanhas eleitorais, é uma surpresa para alguém aqui? O povo diz faz muito tempo que político é tudo ladrão. Muita gente tem plena consciência do que o que Marcelo Odebrecht disse sobre ninguém ser eleito honestamente nesse país é a mais pura verdade. O sistema torna isso basicamente impossível. Explode a sua cabeça que executivos endinheirados influenciem decisões políticas? É chocante a revelação, mas não o fato.

É preocupante que o que está acontecendo agora não consiga passar a verdadeira lição para o Brasil: o que é corrupção. Corrupção é uma escolha como qualquer outra, egoísta e imediatista por definição, mas só mais uma das escolhas disponíveis. Talvez de forma menos articulada do que a descrita nos primeiros parágrafos do meu texto, o brasileiro médio também tenha essa confusão mental sobre o motivo do outro tomar uma decisão honesta. Uma dúvida muito real sobre se as outras pessoas só fazem escolhas honestas por não verem outra possibilidade mais vantajosa, ou se realmente estão pensando num bem maior e mais duradouro.

E disso que vem aquela frase clássica: “se eu fosse político, roubava também”. É um medo terrível de ser passado pra trás por não confiar que o outro vai tomar uma decisão boa também. O brasileiro parece refém da ideia que na menor distração, vai ser feito de otário. De que não dá pra confiar no outro o suficiente para assumir o risco de não ser corrupto. De ser a única ovelha no meio dos lobos. Corrupção torna-se assim um modo de vida. Um modo de vida tão sufocante que não tem espaço para mérito, inovação ou ética. Qualquer distração e você é o único imbecil pagando a passagem do trem.

A impressão mais triste dessa história toda é que sequer a ideia do que seja corrupção entrou na cabeça das pessoas. Mesmo com quase todo o governo sendo exposto por isso, mesmo vendo o país cheio de problemas decorrentes da má-fé e da incompetência resultante dessa roubalheira… mesmo assim, corrupção não parece uma escolha. A forma como os delatores contavam seus esquemas só corrobora com isso: falando com a maior naturalidade do mundo. Afinal, para eles não parecia uma escolha. Era só como as coisas eram. E são.

Vai dar um trabalho enorme remontar essa percepção de sociedade que o brasileiro desenvolveu, e nem mesmo um total colapso do governo consegue passar a mensagem com eficiência. Parece absurdo dizer isso, mas o que falta para o brasileiro é entender de uma vez por todas o que é corrupção. Porque atualmente parece que ninguém sabe. E infelizmente eu acredito que a próxima eleição vai ser mais uma prova desse ponto… eu acredito no Brasil, mas não agora.

Para dizer que corrupção é aquilo que pessoas que são pegas fazem, para dizer que também ficou pensando porque as pessoas pagavam o trem, ou mesmo para dizer que ser otário é inescapável por aqui: somir@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

O que você achou?

Loading spinner

Etiquetas:

Comments (18)

  • Impressionante como todos os políticos estão caindo. É uma das poucas vzes que generalizo sem medo de errar.

    O que você achou?

    Loading spinner

  • Já fui uma pequena corrupta e me arrependo.

    Hoje mesmo fui a um fast food almoçar e não pedi bebida, o atendente veio me dar o lanche​ com a bebida e eu neguei. Acho que​ se fosse a uns anos atrás iria pegar e me sentir vantajosa pq GANHEI uma bebida, mas na verdade eu teria roubado.

    A diferença é como os valores nos são passados e o que fazemos deles. Em casa eu aprendi que é roubo mas na rua com companhias duvidosas, eu aprendi q é vantagem e sorte.

    Graças a um grande esforço pessoal tenho​ a consciência limpa hj em dia

    O que você achou?

    Loading spinner

    • Muito bacana você ter conseguido sair desse mar de corrupção, fica muito mais difícil quando todo mundo faz e acha lindo!

      O que você achou?

      Loading spinner

  • O sistema é cheio de brechas para favorecer os “expertos” e não existe fiscalização ou punição pra quem se aproveita dessas brechas como deve existir ou pelo menos algum dia existiu em países dá Europa, não é que as pessoas sejam belas e morais em países de primeiro mundo é que eles tem medo da punição que de vez em quando deve acontecer pra servir de exemplo.

    O que você achou?

    Loading spinner

  • Pessoalmente, não gostei da abordagem do texto de hoje.
    Bater nas “pequenas” corrupções, embora necessário, é algo repetidamente feito aqui.

    O que você achou?

    Loading spinner

    • O foco central do texto é argumentar que o brasileiro não sabe e não entende o conceito de corrupção, por isso jamais conseguirá deixar de ser corrupto.

      O que você achou?

      Loading spinner

  • Esses dias eu fui sacar dinheiro numa agência bancária e, em todos os caixas, tinha um papel dizendo “POR FAVOR, NÃO LEVEM AS CANETAS EMBORA!”
    No Brasil, a corrupção é associada pelas pessoas como algo que envolva grandes valores e gente engravatada. E, infelizmente, a mídia só ajuda a corroborar essa percepção com manchetes do tipo “uma aula de corrupção!” hahahahaha. A pequena corrupção, do dia a dia, é tratada como “jeitinho”, “esperteza” ou até “legítima defesa”. Enquanto as pessoas não terem consciência de que é necessário se submeter a uma ordem e abrir mão de parte da liberdade que isso implica (jeitinho), as coisas não irão mudar.
    E eu mesmo, que escreve isso, já fiz coisas erradas. Mas procurei e procuro melhorar — sempre.

    O que você achou?

    Loading spinner

    • Errar todos nós erramos, o importante é o que fazemos com esses erros: podemos nos sentir mal, perceber que foi errado e tentar não repetir ou podemos apelar para o auto-perdão, com justificativas mancas como “ah, mas todo mundo faz” ou “eu preciso fazer isso, tenho contas para pagar” ou ainda “tem gente que faz pior”.

      O que você achou?

      Loading spinner

  • a ciência ainda precisa estudar um dia as influências do frio sobre uma população, até na America Latina os lugares menos merda são frios

    (Australia e Nova Zelândia são exceções)

    O que você achou?

    Loading spinner

Deixe um comentário para Sally Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: