Pública privada.

+A Eletrobras, Casa da Moeda e a Lotex, braço da Caixa Econômica Federal para loterias instantâneas, foram incluídas na lista de privatizações do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), segundo documento distribuído pelo governo à imprensa nesta quarta-feira.

Adivinhem só se não começou o chororô de “estão vendendo o Brasil”? O que nós achamos? Achamos é pouco. Desfavor da semana.

SALLY

Existem discursos que acabam virando verdades de tanto que são repetidos. Ninguém questiona, você nasce ouvindo que aquilo é ruim e repete, afinal, se todo mundo fala, deve ser realmente ruim. O da privatização é um deles. Em um país burro suficiente para se assustar com suas próprias mentiras e acreditar que leite com manga faz mal, não me admira que o mito da privatização como coisa ruim tenha se solidificado.

O anúncio de privatizações esta semana fez aflorar o economista que (não) existe em todo brasileiro. Revolta, indignação e muito protesto de rede social nos causaram vergonha alheia. Pessoas que não sabem do que estão falando, mas que falam cheias de certeza e agressividade.

Você pode ser a favor ou contra a privatização, não é esse o ponto. A questão toda é que seu argumento seja coerente. Fulaninho, 20 aninhos, não paga suas contas, nunca dependeu de um serviço público que não funciona e tá lá, gritando que isso é um absurdo.

Eu sou do tempo em que telefonia era um serviço público. Eu lembro da merda que era para conseguir uma linha telefônica (tinha fila de espera que às vezes demorava mais de um ano), do preço que custava (linha telefônica era um bem, tinha que ser declarada no Imposto de Renda) e da bosta que era o serviço (alguns dias, demorava mais de dez minutos para um telefone dar sinal e você poder discar). Francamente? Ficou melhor privatizado.

Ao privatizar, acaba o monopólio. A empresa que presta o serviço vai concorrer com outras empresas. Se não prestar um bom serviço, vai perder o direito de prestá-lo. O principal combustível para esse serviço público de merda é essa falta de vergonha de estabilidade de funcionário público: basta que você saiba muito no momento em que faz a prova para ingressar no serviço público, o concurso. Depois? Foda-se, já está garantido, nunca mais estuda ou se aprimora na vida. Tá errado, todo ano deveria ter prova e quem não passar está fora e cede lugar a outros mais preparados.

As atividades estatais não podem ser exercidas por mais ninguém, se você não está satisfeito com seu sistema de esgoto, foda-se, é só ele que existe. Assim é muito fácil se acomodar, não tem concorrência. Então, se o Estado monopoliza um serviço, ele tem a obrigação de prestá-lo muito bem ao povo. É isso que acontece? Claro que não. Presta um serviço bunda, que custa caríssimo (não se iluda, nós pagamos com taxas e impostos). Por exemplo, se a emissão de passaportes for privatizada, é provável que ele passe a custar metade do preço e os passaportes saiam na metade do tempo.

“Ah, mas é uma temeridade entregar esse serviço a uma empresa!”. Amigo, temeridade é o Poder Público e seus funcionários públicos imbecilóides, obsoletos e acomodados prestarem serviços importantes. Vai por mim, pior do que está, não fica, já dizia nosso parlamentar. Infelizmente a prestação de serviços públicos no Brasil consegue ser a pior das opções. Vai melhorar? Não, nada indica que vá melhorar, muito pelo contrário, só piora. Condenar o povo a uma série de privações, deficiências na prestação de serviços e aborrecimento com o argumento que um dia pode melhorar soa como deboche.

Concordo que privatização não é o melhor dos mundos, o ideal seria que o Poder Público consiga atender ao povo, principalmente quando pega meses dos nossos salários na forma de tributos. Você sabia que todo ano o governo pega de você um valor equivalente a seus salários de janeiro a maio na forma de impostos? Pois é, pagamos caro demais para esta porra não funcionar. O que vocês sugerem? Continuar pagando caro e a porra toda não funcionando? Desculpa, isso é o pior dos mundos!

Não sabe fazer? Embolsa o dinheiro e não faz? Beleza, deixa outro fazer então. Segurança nacional o cacete, o Brasil está nas piores mãos quando fica nas mãos de brasileiros. Chega de amadorismo. Não vão vender o país, vão delegar prestação de serviços para quem sabe fazer um pouquinho melhor. Caiam na real.

Aí vem os ignorantes dizer que vão privatizar a Casa da Moeda e com isso nossa economia vai servir aos capitalistas malvados dos EUA, que vai emburacar nossa economia, que vai entregar as finanças do país para estrangeiros. Minha Nossa Senhora da Moedinha, a Casa da Moeda nada mais é que uma grande gráfica onde se imprime dinheiro. O pior atentado que alguém pode fazer é soltar uma nota com uma Hello Kitty. As decisões econômicas não são tomadas pela Casa da Moeda.

Mas nada cativa mais a internet do que uma mentira alarmista. Pessoas que não devem saber nem somar ficam gritando que “vão vender o país” e coisas do tipo. Daí pessoas vão e divulgam qualquer mentira, desde que ela pareça preocupante, é quase como delegar o juízo de valor e o senso crítico: “olha aí o que me passaram, veja você e avalie se é para acreditar ou não, na dúvida, estou passando”. Tá errado, é preguiça mental.

Aí vem Dilma, a mãe dos apagões, a Presidente que foi tirada do cargo por ser corrupta, e diz que privatização compromete a segurança energética do país. Por favor, minha senhora, gaste seu tempo livre fraudando sua aposentadoria em vez de despejar merda nos nossos ouvidos!

Essa insistência em ver como “patrimônio” desgraças ineficientes como a Eletrobrás é de uma rigidez mental insuportável. De que adianta um “patrimônio” (que só é depreciado, vejam o valor para o qual a Petrobrás caiu) se não presta o serviço desejado ao povo e este sucumbe por causa disso? Eu quero que se foda o patrimônio, minha prioridade é que o serviço seja prestado. E o Poder Público não sabe, não pode ou não quer prestar serviços públicos de qualidade. Vamos admitir a incompetência? Dói um pouco, mas é libertador.

O que as pessoas não entendem é que a outra opção não existe. Seria muito bom se o governo prestasse serviços públicos com qualidade e, aí sim eu seria contra privatizações. Mas não é o caso, tá tudo um lixo, então, desculpa, eu prefiro o Estado mais pobre e serviços eficientes. Sem contar que, numa boa, um Estado mais rico só favorece a classe política, que acaba metendo a mão em tudo mesmo. Que fique um Estado bem pobre, que se desinche o funcionalismo público que tanto nos onera. Que entre a concorrência regulatória do mercado, assim só fica quem é bom e trabalha direito.

Chega, o Poder Público não tem competência para gerir nem uma quitanda. Coloca essa porra nas mãos de quem sabe fazer.

Para compreender meu texto mas não conseguir aceitar por causa da lavagem cerebral de privatização ser sempre ruim, para me chamar de capitalista ou ainda para dizer que está pegando pipoca para ver manifestante apanhar: sally@desfavor.com

SOMIR

O que acontece com empresa que é mal administrada? Quebra. No mundo “normal”, azar de quem não conseguiu fazer a empreitada lucrativa e daqueles que dependiam dela. E a não ser que você tenha amigos em posições de poder público dispostos a uma propina, não adianta teimar: empresa que não dá dinheiro desaparece para dar lugar aquelas que dão. Ainda bem que é assim, imagine só se cada negócio que nascesse continuasse indefinidamente, mesmo dando prejuízo? Não teria mais lugar nesse mundo para empresas novas e qualquer tipo de inovação.

O que parece óbvio na esfera privada torna-se estranhamente confuso na cabeça de muita gente quando vamos para a pública. De repente a empresa mal das pernas por uma série de besteiras de seus gestores vira patrimônio inalienável da população… oras, se não deu certo, está na hora de tentar coisas novas, não? Como uma empresa pública que presta serviços básicos para a população não pode simplesmente fechar as portas e parar de dar problema para os cofres públicos, a privatização tornou-se uma alternativa viável. Se não para o lucro da nação, pelo menos para evitar que a incompetência seja eterna.

Afinal, precisa ser muito incompetente para quebrar uma empresa que fornece algo básico como energia elétrica. Pode-se argumentar que na escala em que uma Eletrobrás trabalha, precisa de muito poder de investimento e manutenção, mas a não ser que você enfie todo o dinheiro dela num… buraco escuro… a estrutura é grande o suficiente para se sustentar. Isso é, se alguém minimamente capaz e bem intencionado estiver guiando a operação.

O que não foi o caso… lembram da eleição de 2014? Dilma e Lula estavam incomodados com a queda da popularidade, ainda mais depois dos protestos em escala nacional. Numa manobra típica da miopia populista, mandaram a Eletrobrás engolir os custos de uma energia muito mais cara que o normal (lembram das secas?) para evitar mais gente na rua e o risco de perderem a única coisa com que jamais se importaram: a boquinha no governo. O divertido de gente que só consegue enxergar um palmo na frente do nariz é que costumam pagar um preço caro no futuro.

O golpe foi bom, conseguiram a reeleição de Dilma. Mas não viram que estavam criando várias cobras em casa, acabaram expulsos do poder. De uma certa forma, aquela velha máxima do Romário: quem é ruim se destrói sozinho. O problema é que nessa sanha de manter o povo calminho, levaram a Eletrobrás para um caminho virtualmente irrecuperável de problemas financeiros. Obviamente a estatal não tinha caixa para segurar um aumento tão brutal de custos de produção sem repassar para a população.

A conta veio. A empresa está pra lá de apertada financeiramente, e está custando cada vez mais para os nossos bolsos. A solução é voltar no tempo e nunca votar no PT ou seguir o curso mais natural da realidade e tentar reduzir os danos o máximo possível. Como eu já disse, mesmo com grandes dificuldades, ainda é uma empresa que oferece serviços essenciais, que salvo uma hecatombe nuclear generalizada, vai continuar tendo imensa demanda. É muito provável que com uma direção competente a empresa recupere sua saúde. Se esse tipo de competência estivesse disponível no cenário político nacional atualmente, vá lá torcer o nariz para a privatização… mas, está?

Se ainda estivéssemos falando de um sistema político onde especialistas e funcionários de carreira tivessem mais controle sobre as estatais, valeria uma tentativa, é claro. Mas o que acontece estando no controle público é mais do mesmo: algum imbecil bem relacionado vai assumir o comando da estatal, trazer vários outros imbecis bem relacionados e não dar a mínima para o que a empresa deveria fazer enquanto enchem os bolsos. Quem está lá dentro e sabe o que tem que fazer não vai ter voz porque não vai estar falando de suborno e Caixa 2 para partidos…

Neste cenário, até um administrador do setor privado mais ou menos competente vai ter uma vantagem incrível sobre as indicações políticas aparentemente inescapáveis no nosso sistema atual: ele vai ter que fazer a empresa funcionar e dar lucro para continuar trabalhando lá. A vantagem de privatizar aqui é que pelo menos alguém que se importa vai estar lá. Não precisa nem se importar tanto assim com o bem estar do povo, basta não destruir a empresa propositalmente para ganhar mais uma eleição.

Não é pedir tanto assim, né? Trocar quem quer estragar o suposto patrimônio dos brasileiros por quem quer garantir seu salário e bônus no final do ano. Não existe santo na iniciativa privada, mas com certeza eles conseguem atrair e reter pessoas com mais de dois dígitos no Q.I., ao contrário do poder público, de onde vem as indicações habituais para as posições de poder nas estatais.

Lula e Dilma tentaram com toda a força quebrar a Petrobrás, e quase conseguiram. Mas não foram pra casa tristes: a Eletrobrás não aguentou. O curioso é que agora são eles que aparecem na mídia fazendo drama sobre as propostas de privatização. Justamente quem FORÇOU o poder público a chegar nesse ponto. E considerando o apoio que parecem ter, é impressionante como a memória do brasileiro só funciona no curtíssimo prazo mesmo.

Quem está chorando pelas privatizações é a mesma gente que achou o máximo destruir as estatais para manter o poder. Os lideres da quadrilha e os cretinos que os apoiam.

Chocante.

Para dizer que a culpa é do FHC, para dizer que a culpa é do Collor, ou mesmo para dizer que quem começou isso tudo foi o Cabral: somir@desfavor.com

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Comments (20)

  • Sally, você resumiu muito bem o que pensa o brasileiro de “direita” a respeito da prestação de serviços públicos: que se dane o “desenvolvimento nacional” ou os objetivos previstos na Constituição no seu artigo 3º, eu quero é “o serviço feito do jeito que eu preciso”.

    É bom? Claro que é – mas também é uma droga, porque o Brasil não consegue fazer nada a seu favor no longo prazo. Ficamos somente na boa posição de consumidores, mandando nossas “commodities” para fora em troca dos bons produtos do estrangeiro.

    Você, e eu, como consumidores, podemos ligar o “dane-se”. O governo, não.

    E aí chegamos ao Somir, que lembrou o óbvio: se o Estado fosse responsável não teríamos que privatizar o que é, em última instância, do povo. Meu dinheiro, e seu, usado para a ilusão de que, um dia, o Brasil pudesse deixar de ser “pau mandado” do mundo.

    Com certeza você, e muitos, vão dizer que isso é “bullshit”. Entretanto, não custa lembrar, volta e meia aparece gente para nos lembrar que o Brasil tem a obrigação de ser grande – por lei, e que ninguém pode mudar isso, a não ser que se faça uma nova Constituição.

    Que pode ser, aliás, pior que a atual… duro aguentar isso, não?

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  • Eu estaria enganando a mim mesmo se dissesse que já sabia dos benefícios das privatizações.

    Eu pensava exatamente que tratava-se simplesmente de “vender o Barril para os gringos”, até ler este post.

    Agora sei que na verdade é mais um “telefone sem fio” e confesso que eu não me preocupei em aprofundar o tema. Basicamente, privatização é, portanto, delegar a administração das empresas nacionais para quem tem competencia para tal.

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    • É uma lavagem cerebral estilo “capitalismo malvado”. Curioso que é em países capitalistas que um lenhador consegue virar Presidente. Meritocracia: sou fã.

      Temos sempre que rever esses mantras que nos enfiam cabeça adentro.

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  • Sally,
    não poderia concordar MAIS com os textos de hoje. O serviço público é uma vergonha, pessoas acomodadas, preguiçosas, que acham que estão te fazendo um favor quando você solicita o serviço, que te atendem mal, são grosseiros, arrogantes, etc etc etc.

    Em um país onde existe cartório (onde você paga por um serviço e tem que pagar de novo porque demoraram tanto para te atender que o seu pagamento expirou) não pode haver essa garantia de estabilidade eterna no emprego, as pessoas têm que sentir medo do desemprego para se aprimorarem e estudarem. Infelizmente não tem jeito, senão vira essa merda de serviço.

    Senti pena dos servidores sem salário no Rio? Não mesmo, quero que se fodam. Infelizmente os que fazem seu trabalho sofrem pela grande maioria que destrata o cidadão.

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  • Eu quero saber é quando vão vender a merda dos Curreios? Pac de sampa pro hell 20 reais demorando 1 fuckin mês? Nenhuma empresa estatal presta. Eu vivi a época desgraçada da telefonia estatal. Privariza tudo! Melhor que o PT metendo a mão na Petrobrás e etc.

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  • um conhecido meu certa vez comentou que, ironicamente, o único período em que o Brasil viu algo próximo de desenvolvimento foi numa fuckin’ ditadura militar e que brasileiro é burro demais pra merecer democracia.
    a princípio achei radical e me oponho a qualquer coisa que não se aproxime de democracia, mas porra, se depender dessa massa os mesmos ignóbeis vão ser eleitos sempre, sempre, sempre. nunca aprendem. e dificilmente vai ter uma grande revolução que faça o povo tomar vergonha na cara.
    já que é pra ter um governo babá que bate em jornalista e manifestante da oposição, que seja um que construia estradas e pontes, não um que quer transformar todo mundo em pobres.

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