Espécie invasora.

Desde que o ser humano passou a existir, é mais um dos motivos de extinção de espécies inteiras no planeta. Sally e Somir aceitam essa realidade, mas discordam da manifestação desse destino. Os impopulares caçam a verdade.

Tema de hoje: se um animal ameaçado de extinção que te é muito desagradável aparece na sua casa e você não consegue retirá-lo de lá com vida, você o mata?

SOMIR

Não. Por mais que o ser humano seja sim um animal dentre tantos na natureza, a velocidade imensa da nossa evolução intelectual em relação a qualquer outra espécie nos coloca numa categoria de responsabilidade bem diferente na Terra: a de reescrever as leis que regem o meio-ambiente. Quando animais irracionais acabam com outra espécie, o fazem obedecendo as regras da seleção natural. Quando nós o fazemos, há uma diferença fundamental na nossa capacidade de perceber o que está acontecendo e poder tomar decisões diferentes.

Embora sozinhos sejamos muito fracos contra a natureza, em conjunto somos formidáveis para agir às margens da lei da selva. O lobo que defende seu território não tem escolha senão defender seus recursos. A formiga que dá a vida para tirar um predador de perto das câmara onde a rainha bota seus ovos também não. Qualquer predador que precisa tirar uma vida não tem nenhuma intenção além da própria sobrevivência. São leis de competição por recursos limitados que geram um equilíbrio natural entre as formas de vida deste planeta. Leis que o ser humano trabalhou muito para subverter.

E esse trabalho deu seus frutos: uma criança humana média vive uma vida mais segura e abundante que o mais poderoso predador de qualquer outra espécie. Não quer dizer que nossas vidas não tenham sofrimento, mas quer dizer que não podemos nos julgar pelos mesmos parâmetros que essas outras formas de vida. Nossa existência é protegida por números, cooperação e tecnologia impossíveis para quem não é… humano. Sim, existem paralelos de nossos comportamentos em outras espécies, alguns animais trabalham em conjunto, outros usam ferramentas, se comunicam e até mesmo tem formas rudimentares de agricultura (algumas formigas criam fungos para alimentação). Mas fazer tudo isso ao mesmo tempo, consistentemente e com mecanismos de manutenção de uma cultura ao mesmo tempo, isso é exclusividade nossa.

Então, vamos entender que dizer que somos animais também é verdade, mas não toda a verdade. Somos animais e algo a mais. Temos uma gama de sentimentos muito próxima de vários outros animais mais evoluídos, mas a forma como lidamos com eles e as possibilidades geradas por ser humano e ter acesso a toda nossa tecnologia mudam as coisas de figura. Nós compreendemos contextos e podemos pensar sobre as coisas de forma menos imediatista.

É com esse contexto que eu espero deixar claro que temos mais responsabilidade que um animal médio neste planeta. Temos a escolha de não matar um invasor, de calcular o impacto de nossas decisões e é claro, o de demonstrar um nível de compaixão pelo resto da vida no planeta sem qualquer paralelo. Eu sou um animal sim, mas posso mudar as leis da selva. Não sei se o leão ou o sapo fariam a mesma coisa na nossa posição, mas isso é irrelevante: só nós estamos nela.

Tendo a escolha, eu não contribuiria para a extinção de uma espécie. E não é só questão de ser bonzinho, é uma manifestação do meu poder como ser humano: sou maior que isso. Não posso usar meu poder de forma irresponsável, afinal, nós escapamos da vida que a maioria das outras espécies é obrigada a viver. Pra quê pensar como elas?

Sim, eu sei que a premissa é que o animal na sua casa seja desagradável, mas, francamente… que animal não é desagradável na sua casa? Pode ser o ser mais majestoso da natureza… que vai feder, cagar em todos os cantos e fazer barulhos irritantes na hora que você quer descansar. Não é à toa que só um pequeno número de animais foi trazido para dentro de nossas casas: a imensa maioria vai encher muito a sua paciência. Então, faz pouca diferença o seu incômodo com o bicho. Até cachorro bem treinado tem seus momentos de encheção de saco.

Mas, como você é humano e consegue pensar além: por que não lidar com a situação de forma lucrativa? Um animal em vias de extinção pode ser bem valioso. Seja em exposição ou valor de venda mesmo. Você não jogaria dinheiro fora, não? Só um animal irracional não gosta de dinheiro. Cria uma conta de rede social para o bicho e fica filmando, coloca no YouTube e ganhe uma bolada! Ele é desagradável para você, mas pode ser maravilhoso para quem está vendo através de uma tela.

Cobre para as pessoas poderem ver o bicho, escute as ofertas de ricos chineses querendo matar o bicho para fazer uma sopa… ou, se você quiser ir além e aguentar lidar com bichos ainda mais desagradáveis, chame a Luisa Mell e faça pose de herói da natureza para milhões ao resgatarem o animal que você nem gostava mesmo… vão aparecer fãs que podem render boas oportunidades depois. Mas coloca um caldo de galinha escondido no café dela, só para não perder a viagem.

A diferença do ser humano é sua imaginação e criatividade. Para matar um animal estranho tem todo o resto da natureza, para perceber uma oportunidade e capitalizar em cima dela, existimos nós. E nada impede que você conviva com o bicho por pura vontade de ser bonzinho com outro ser vivo, isso costuma fazer bem para o nosso organismo, nos amarramos nisso de nos sentirmos heróis. E se você conseguiu fazer algo do tipo mesmo achando o bicho desagradável, seu cérebro vai te recompensar com um senso de superioridade delicioso. Se o sentimento de proteger os mais fracos não nos fizesse bem, não teríamos a humanidade como temos hoje.

E não tem nada de errado em fazer uso desse senso de recompensa interno para se sentir melhor. Todos ganham. Até mesmo a criatura asquerosa que você está tolerando. Matá-la significa acabar com todas as oportunidades por um prazer muito efêmero. Nós podemos fazer melhor, não?

Para dizer que não sabe se eu sou uma pessoa boa ou ruim, para dizer que eu devo ter sangue judeu, ou mesmo para dizer que todo animal é desagradável, especialmente os humanos: somir@desfavor.com

SALLY

Um animal inofensivo, mas que te é muito desagradável e está muito ameaçado de extinção entra na sua casa. Você não consegue colocá-lo para fora vivo. O que fazer: conviver com ele até que ele resolva sair sozinho ou matar?

Matar, sempre. Ou providenciar para que alguém mate, se não tiver coragem de chegar perto do bicho.

Não tem nada de aberrante em fazer isso, em qualquer recanto da natureza, desde a savana africana até a Antártida, quando um animal mais fraco entra no território de um animal mais forte o desfecho é a morte. Então guardem seu mimimi sobre “assassinato” para problemas reais com seres humanos, pois o país está cagado e brutalizado demais para alguém se dar ao luxo de se aborrecer pela morte de um animal que invadiu sua casa.

A premissa aqui é bem simples: se o animal me é desagradável e entrou na minha casa, ele torna a minha casa desagradável, a minha vida desagradável. Pouco me importa se ele está em extinção, se ele vale uma fortuna ou se ele caga ouro e peida arco-íris, minha paz não tem preço. Entrou no meu território = morre. Minha casa é meu tempo sagrado.

Essa histeria por animais em extinção nunca vai ganhar a minha simpatia. Eu acredito que o que seja nocivo para o planeta seja justamente a ação humana tentando salvar bicho que não se mostrou apto a sobreviver. Desde os primeiros dias do planeta Terra animais são extintos e dão lugar a novas versões, geralmente melhoradas.

Não tenho esse apego nem essa necessidade de me sentir salvadora de nada. Arrogante achar que o ser humano tem capacidade para decidir qual animal deve ficar vivo e não ser extinto. Extinguiu? Vai ver que foi por ficar entrando onde não deve, não é mesmo? Desapega, gente. Em breve todos nós estaremos extintos também.

“Mas Sally, o coitado do bicho pode ter entrado em extinção não por inaptidão e sim pela crueldade humana”. Primeiro que a ação humana faz parte do planeta. Segundo, acho curiosa essa obrigação individual que se impõe a infelizes pelos danos coletivos causados.

Indústrias poluidoras despejam toneladas de dejetos e químicos nas águas, mas você, otário, não pode mais usar canudinho plástico. Vai resolver alguma coisa deixar de usar canudinho? Não, não vai, pois o grosso do dano à vida aquática vai continuar acontecendo, mas a propaganda que fazem tem a intenção de te deixar culpado e te fazer querer parar de usar o canudinho.

Enquanto isso, indústrias poluentes continuam matando a vida marinha, e você, otário, tem a falsa sensação de estar fazendo algo de bom. Não está. Está fazendo algo de irrelevante. Mas tem gente que precisa ter a consciência aliviada de alguma forma, que precisa encontrar recursos para se sentir bom (provavelmente por não serem bons em sua essência). Aí vão e abraçam a causa de um bicho em extinção se sentindo os bons samaritano.

Se a ação humana coletiva (certamente não foi a minha) colocou o bicho em extinção, não acho justo me onerar por causa disso. Progresso tem um custo. Viver com confortos modernos tem um custo, e todo mundo quer. Um dos muitos custos é destruir habitat natural e dizimar espécies. A coletividade abriu mão de conforto para salvar essa espécie? Não, tanto é que ela está quase extinta.

Então, por qual motivo eu tenho que abrir mão do meu conforto individual, se vão continuar dizimando essa espécie? Não vai adiantar de absolutamente nada, a única utilidade que isso teria era me fazer sentir uma boa samaritana, coisa da qual eu definitivamente não preciso.

Não tem problematização, não tem dúvida, não tem culpa: entrou na minha casa, morre. Não tem “bem maior” (que eu nem acredito que exista) que me faça experimentar desconforto dentro da minha casa. Eu preciso de paz para viver, para trabalhar e para dormir. Não vou sacrificar meu bem-estar, minha produtividade e minha saúde por um animal, só por restarem poucos exemplares dele no mundo. Eu não dou tanto valor e tanta realidade assim a este mundo.

Não tem barganha, não tem negociação, não tem ganho secundário. Pouco me importa o quanto esse animal vale no mercado negro, por sinal, acho mais desrespeitoso vendê-lo do que matá-lo. Pouco me importa a fama ou as oportunidades que o bicho poderia me abrir. Nada que esse bicho possa me trazer de bom vale o fato dele tornar minha casa um lugar desagradável. Já descartei seres humanos por causa disso, imagina se não vou descartar um bicho…

Imagina que merda ser refém de um bicho só por existirem poucos exemplares dele no mundo e ter que adaptar a sua vida para conviver com ele até que ele decida ir embora… As palavras “bicho” e “decidir” não combinam. Quem decide as coisas na minha casa sou eu, não um animal irracional. Quem dá livre arbítrio a animal precisa de terapia.

Sem contar que nem sempre é confirmado se o bicho de fato saiu ou não, ninguém fica 24h por dia vigiando um animal, então, pode acontecer de ficar a eterna dúvida sobre ele estar na sua casa ou não. Quem quer viver nessa dúvida constante, correndo o risco de esbarrar com um animal desagradável a qualquer momento quando estiver tomando banho ou indo dormir? Tô fora dessa aura de sacrifício para mostrar o quanto sou engajada e boa.

Sendo muito sincera, se um bicho entra na sua casa, pouco importa se ele é abundante na natureza ou se é o último exemplar vivo. O foco deve ser apenas na sua paz e no seu bem-estar. Você não é responsável pela morte de todos os exemplares de sua espécie, assim como você não é responsável pela escravidão no Brasil ou pelo Holocausto na Alemanha. Faça o que for melhor para você, independente de culpa ou cagação de regra.

Para dizer que está cagando para a natureza e suas mazelas, para dizer que está cagando para qualquer bicho que entre na sua casa ou para dizer que esperava por um tema mais profundo: sally@desfavor.com

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