Visual clean?

A forma como nos apresentamos para a sociedade influencia a reação das outras pessoas, isso é óbvio. Mas, na hora de definir entre dois dos fatores mais básicos dessa apresentação, Sally e Somir não aparentam a mesma opinião. Os impopulares se apresentam.

Tema de hoje: o que é mais reprovável socialmente, uma pessoa suja e muito bem vestida ou uma pessoa limpa e muito mal vestida?

SOMIR

Estamos num mundo onde infelizmente roupa conta mais que higiene pessoal. Por isso, vou escolher que é mais reprovável uma pessoa limpa, mas muito mal vestida. O que importa para a maioria é o impacto visual de uma roupa, porque isso denomina, pelo menos para elas, o status social da pessoa em questão. E no final do dia, é tudo sobre o dinheiro envolvido na situação…

É estranho pra mim escolher essa opção, porque eu sou um notório mal vestido. Meio por preguiça, meio por idealismo: pra mim, usar um terno é demonstrar subserviência à burrice alheia. Uniforme de desistentes. Eu sei que é uma criancice, mas é a minha criancice. Tem algo de especial em não estar vestido como as outras pessoas numa reunião, como se você estivesse declarando para todos que é um foco de resistência às convenções sociais.

O que eu já digo de antemão, é um jogo perigoso: as pessoas te julgam pela roupa. Você fica pressionado a provar sua capacidade ativamente, ninguém vai presumir que o único cara de calça jeans na sala tem capacidade de realizar bem um trabalho intelectual se você não se posicionar como tal usando suas palavras e ideias. Quem está vestindo o uniforme correto não precisa desse esforço todo: acaba emprestando da credibilidade alheia só por estar vestido de forma parecida.

Mas existem limites, é claro. Apesar de não cumprir exatamente o dress code exigido em todas as ocasiões, é importante não aparentar falta de respeito. Não fecho um negócio de chinelo e boné. Uma coisa é querer se mostrar diferente da maioria, outra é passar a impressão de que está numa reunião de sacanagem, vestido como se estivesse acabado de acordar. Então, se mesmo eu – que ideologicamente tenho horror dessa babaquice de usar uma combinação de panos específicos para demonstrar capacidade – consigo depreender que existe uma linha que não se cruza, é porque essa combinação de panos específicos faz muita diferença.

O cidadão médio não é muito bem equipado para fazer juízo de outra pessoa com base no que ela fala e faz, isso pode ser sutil demais para quem em média não entende direito o que lê, tem conhecimento muito limitado sobre qualquer coisa que não use diariamente e normalmente tem um medo inconsciente de ser descoberto como a fraude que é. A roupa é uma espécie de fortaleza do incompetente médio: dentro dela, fica mais difícil ser reconhecido pelo o que realmente é. Quando você confronta essa noção de estar bem vestido, está mostrando para essa gente que elas não estão tão seguras quando pensam.

Estou dizendo que todo mundo que se veste bem é burro? Não, longe disso. Estou dizendo que muito burro se esconde atrás de roupa bacana para fingir que é mais capaz do que realmente é. Tem gente que simplesmente gosta de estar bem vestida, se importa com marcas, materiais, combinações… e isso é um interesse pessoal como qualquer outro. E quando a pessoa se veste bem por gosto e não para camuflar incapacidade, não é de encher o saco dos outros por causa de suas escolhas nessa área. No máximo pentelham um pouco e tiram um sarro, mas eu que gosto de computadores, por exemplo, faço o mesmo com quem não entende nada de tecnologia. Não penso mal da pessoa, só encho um pouco a paciência dela.

E agora, o elefante fedido na sala: como a parte do “sujo” não torna a pessoa uma pária social imediata? Ninguém gosta de sentir o fedor alheio! Isso é a mais pura verdade, mas higiene pessoal é uma medida de análise imediata, vestimenta gera presunções mais completas. É claro que todos nós queremos estar perto de pessoas limpas e, se possível, cheirosas. Mas, pense nesse exemplo: você está sozinho(a) com mais uma pessoa num vagão do metrô de noite. Você estaria mais confortável com alguém muito bem vestido, mas com um leve cheirinho ruim vindo à distância, ou com uma pessoa que não exala cheiro nenhum, mas vestida de forma maltrapilha? Cheiro de suvaco é ruim, mas não é tão ruim quanto medo de violência.

A roupa da pessoa faz o seu cérebro analisar muito mais coisas sobre ela, e normalmente, quanto mais bem vestida, mais características positivas você aplica a ela. Foi assim que a maioria de nós fomos criados. Uma pessoa suja pode ser um evento pontual, quem nunca deu uma fungada debaixo do braço e sentiu que algo estava errado que atire a primeira pedra. Quem nunca pulou um banho no inverno e foi obrigado a sair de casa antes de poder corrigir a situação? A sujeira que argumentamos aqui pode ser um evento isolado, e como todos nós já passamos por algo assim em algum momento da vida, é mais natural que perdoemos.

Já roupa quase sempre é uma escolha. Se você sabe que a pessoa é muito pobre, mas ela vem te ver com o melhor que tem (mesmo que não pareça muito bem vestida), você gera uma imagem muito boa sobre ela, que vai durar um bom tempo. Se você se encontra com uma pessoa e ela estava com um bafo ruim naquele dia, normalmente fica marcado como uma má impressão, mas não uma que vai a definir para sempre, especialmente se num próximo encontro não sentir mais o mau cheiro.

Como eu disse, é estranho pra mim argumentar que roupa importa mais que higiene, porque algo parece errado dentro da cabeça ao defender esse ponto, mas o que eu sempre tento dizer aqui nesta coluna é que o que funciona para um indivíduo não necessariamente funciona para a coletividade. É só parar para pensar um pouco: quem você acha que se dá melhor na vida, uma pessoa que se veste impecavelmente mas falha eventualmente na higiene, ou uma pessoa que está sempre limpíssima, mas falha eventualmente em usar a roupa certa para a ocasião?

Então, mesmo que assim como eu você não goste da ideia de defender a pessoa suja, afinal, vai parecer que você é porco, eu prefiro colocar a lógica à frente da pose: esse é um mundo de aparências (há). Especialmente se você considerar dinheiro. Muita gente prefere um rico fedido do que um pobre cheiroso por perto. É triste, mas é verdade.

Para me chamar de porco (meu idealismo é inabalável), para dizer que o mais reprovável é ser pobre, sempre, ou mesmo para dizer que na Europa ser fedido é chique: somir@desfavor.com

SALLY

O que é pior, em termos de reprovação social: uma pessoa limpa mas muito mal vestida ou uma pessoa suja impecavelmente vestida?

É pior uma pessoa suja, por mais bem vestida que esteja. Não tem grife neste mundo que consiga camuflar odores desagradáveis, unhas pretas, cabelo ensebado, dentes podres, bafo de bueiro e tantos outros desdobramentos da falta de higiene.

Por sinal, no Brasil parece ser até algo cool ser muito rico ou muito famoso e andar feito um mendigo. Nunca entendi isso, mas como morei muito tempo no Rio de Janeiro pude ver que os globais mais famosos, os empresários mais ricos, as pessoas mais influentes adoram andar com camiseta Hering amarelada, com furo no sovaco e de havaianas. E não são menos respeitados por causa disso.

Tente entrar em um ambiente vestindo Armani e exalando cê-cê, chulé, bafo da morte, com remelas nos olhos, cera de ouvido visível, dentes podres, cabelo engordurado, unhas sujas e todo o combo da falta de higiene. Eu diria que você nem percebe que a pessoa está bem vestida, por algo sensorial dispara e presume que acabou de entrar no ambiente um mendigo que tomou banho esfregando cheetos bolinha pelo corpo.

Tem dessa. É a pessoa que faz a roupa. Uma pessoa feia ou com corpo escroto, mal cuidado, parece estar sempre vestindo roupas de camelô. Já uma pessoa esbelta, bem cuidada, elegante nos modos, pode estar vestindo Renner que parece estar usando alta costura. A roupa, por si só, tem muito pouco valor. Certamente não tem valor o suficiente para suplantar sujeira, pois, convenhamos, uma pessoa suja usando uma roupa significa que em pouco tempo essa roupa estará tão suja quanto a pessoa. Em um país quente como o Brasil, não há espaço para falta de higiene, pois rapidamente a fedentina te denuncia.

Com uma roupa merda, feia, mal feita, você ainda tem uma chance de passar por excêntrico. Imundo e bem vestido você vai ser uma pessoa imunda mesmo. Ninguém gosta de gente suja, não tem eufemismo para sujeira.

Uma pessoa mal vestida pode ter esse problema relativizado, afinal, não são todos que nascem com bom-gosto e não é culpa da pessoa, mas uma pessoa suja, bem, é sua culpa sim, higiene pessoal é uma fórmula de bolo que todo mundo sabe ou tem acesso a como saber fazer. É escolha ficar sujo, uma escolha que torna a pessoa muito rejeitável.

É possível até que uma pessoa meio pancada da cabeça se encante por outra mal vestida e queira “resgatá-la”. Já vi homens e mulheres que se encantam por mal vestidos e começam um relacionamento determinados a aprimorar a forma como o outro se veste, quase que como um projeto pessoal. Com gente suja eu nunca vi nada nem parecido: “vou namorar com ele, vou me empenhar para que ele passe a tomar banho”. A reprovação social para porquice é muito, muito maior.

Talvez pela pessoa mal vestida não agredir tanto ela seja melhor tolerada. O que você prefere, sentar ao lado de um colega de trabalho de boné ou que fede? A falta de higiene impacta a todos que estão no mesmo ambiente da pessoa. Uma pessoa suja, além de ser esteticamente desagradável e exalar odores por todos os buracos do corpo, ainda pode espalhar as consequências de sua sujeira para os demais: micoses, piolhos e coisa piores.

Se você está mal vestido pode ser falta de senso de estética, pode ser falta de condições de comprar roupas novas, pode ser muita coisa que não necessariamente é sua culpa. Se você está sujo, é sua culpa sim, principalmente se considerarmos a hipótese de hoje, onde a pessoa imunda está com boas roupas. Ou seja, se tem dinheiro para comprar roupa, tem dinheiro para comprar um desodorante, um sabonete e um shampoo. Não o faz por desleixo, algo muito mais reprovável do que não ter bom-gosto.

Acredito que esse seja um dos motivos pelo qual o pobre tem essa obsessão com limpeza: é uma forma de compensar. Pode não ter as melhores roupas, pode não ter os melhores sapatos, mas porra, naquilo que depende deles, a higiene pessoal, eles têm que estar impecáveis. A reprovação por serem considerados “sujos” seria por demais desonrosa. Pobre tem a obrigação de ser limpinho, burro tem a obrigação de ser esforçado e gordo tem a obrigação de ser engraçado na sociedade atual.

Roupa escrota é uma falha externa, sujeira é uma falha interna. A pessoa suja tinha a oportunidade de fazer diferente, mas escolheu ser uma desleixada e esse fator escolha torna tudo mais grave. Sem contar o egoísmo, pois quando você está mal vestido não invade o espaço de ninguém, mas estar sujo é como ouvir música ruim sem fone de ouvido: causa danos sensoriais ao outro. Ninguém é obrigado a ter as narinas estupradas por cheiro de cê-cê azedinho doce.

Pense em qualquer situação de convivência social: no ônibus, na fila do banco, em um encontro, em uma mesa ao jantar, em uma reunião de trabalho… em qualquer situação uma pessoa suja é mais incômoda, mais mal vista, mais reprovável. Até por uma questão evolutiva aprendemos a repudiar pessoas sujas: elas eram fonte de doenças e muitos problemas graves quando a humanidade ainda não tinha uma medicina decente. Representavam um risco para a sobrevivência.

E, por sinal, hoje uma pessoa suja voltou a ser um risco. Se alguém não se dá ao trabalho de lavar a cabeça uma vez por dia, quem te garante que essa pessoa lava as mãos várias vezes por dia? Uma pandemia não é uma boa época para ser imundo, é colocar em risco a sua vida e a vida dos outros, se eles tiverem o infortúnio de encostar nos lugares onde o sujismundo encostou.

Faça o seguinte exercício: o que você acharia pior, sair na rua mal vestido ou sair na rua imundo? Vai ficar bem claro o que é mais reprovável para você. É um mundo de aparências? É sim, mas as pessoas ainda têm olfato e, quando falamos de um país tropical, ser sujo é sinônimo de ser fedido.

Para dizer que prefere tirar uma cueca brega do que uma cueca freada do seu parceiro, para dizer que prefere uma pessoa com top laranja sentada ao seu lado do que uma pessoa fedida ou ainda para dizer que prefere conversar com uma pessoa de regata do que com uma que escova os dentes com pudim: sally@desfavor.com

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