Feminismo enlatado.

Foi a diversão da semana passada: escrever coisas aleatórias para a inteligência artificial do Bradesco, chamada de BIA, e receber respostinhas lacradoras em troca. É a segunda mulher virtual famosa engajada em combater o terrível problema de pessoas ofendendo programas de computador, seguindo os passos da Lu, da MagaLu. Finalmente estamos evoluindo como sociedade!

Para situar melhor vocês, a BIA é um programa que o Bradesco usa para atender o seu público. Foi criada para substituir trabalhadores humanos na tarefa e economizar um bocado com salários. É vendida como inteligência artificial, mas por mais que seja um programa complexo, passa longe de ter qualquer noção do que está fazendo, apenas batendo respostas prontas com perguntas feitas por seus usuários, e aprendendo quais reduzem mais o tempo de atendimento no processo.

Sim, BIA não se importa com você, ela só quer reduzir o tempo médio de interação com macacos pelados para otimizar o gasto de recursos e gerar mais lucro para o banco. As respostas que tiram a pessoa mais rápido de um chat com ela ganham pontos, as respostas que deixam o usuário mais tempo pentelhando o programa são marcadas como ruins.

E conhecendo o ser humano, é claro que muita gente deveria xingar esse ser inconsciente ao primeiro sinal de frustração. Quem nunca reclamou com um objeto inanimado que atire a primeira pedra. BIA então foi programada para dar respostas pedindo respeito quando ofendida. E como foi definida como mulher pelos programadores, usando um ângulo feminista nessas respostas.

Agora, a questão é que BIA não sabe o que é respeito, ofensa, homem, mulher ou qualquer outra coisa… BIA sabe se a função de tomar empregos de trabalhadores com baixa escolaridade está sendo cumprida com eficiência ou não. BIA tem a função de gerar mais dinheiro para o Bradesco. O resto é resto.

Mas como vivemos num tempo em que falsas medidas de inclusão social são lucrativas, BIA começou a escolher respostas que gerem a ilusão de que existe uma mulher de verdade do outro lado, uma que compreende as palavras escritas no chat como ideias e não apenas como sequências de letras e números que devem ser conectadas com respostas prontas no banco de dados.

O que provavelmente vai contra o objetivo inicial de tirar os macacos pelados do pé dela e reduzir os gastos com os computadores poderosos que escolhem as respostas. Cada vez que você faz uma pergunta para ela, exige poder de processamento, que normalmente é cobrado do Bradesco em taxas de utilização ou mesmo em eletricidade e tempo de disponibilidade caso sejam donos do equipamento.

Mas alguém deve ter feito a conta: o ganho em publicidade espontânea compensaria o custo de rodar a BIA com menos eficiência. Provavelmente seguindo os passos do boneco 3D da MagaLu, que finge se ofender de tempos em tempos quando um semianalfabeto da rede social o chama de gostosa e ganha muitos biscoitos por isso. Parece funcionar para uma dose rápida de atenção midiática e não diminui as vendas? Então que comece a era do feminismo para salvar personagens imaginárias!

Mas, algo me diz que esses biscoitos estão envenenados. Realmente parece uma boa ganhar uma chuva de elogios de “feministas de Twitter” com ações rápidas como renderizar o boneco da MagaLu chateado com as ofensas ou colocar mais uma meia dúzia de respostas ofendidas no chat do Bradesco, mas não deixa de ser colocar forma acima do conteúdo.

Especialmente no caso da BIA. BIA não está lá para ser respeitada como mulher. BIA está lá para atender os bestiais clientes do banco fazendo as mesmas perguntas um bilhão de vezes. E normalmente com um tom agressivo. Essa é a vantagem do computador sobre o ser humano: ele não tem variações de humor e entrega uma eficiência previsível. O banco vai dizer que ela foi criada para humanizar o atendimento online, que é uma forma de facilitar a vida dos clientes… e todas essas baboseiras, quando na verdade é uma máquina de redução de custos com o benefício secundário de acelerar o tempo de atendimento para o cliente.

Pra que fingir que essa máquina de redução de custos tem sentimentos? O que ganhamos com isso? Porque o assunto já está caducando nas redes sociais, a vantagem conquistada em publicidade com a lacração da BIA tem vida curta. O povo parte para a próxima. E aí, fica com aquele desperdício de processamento no sistema depois disso? Porque agora não pode mais tirar. Podem dar uma desculpa de atualizar o sistema para evitar os hilários erros de interpretação e reduzir a tendência dessas respostas feministas, mas não podem nunca mais tirar.

Senão os biscoitos viram cancelamento. É sempre assim com esse público: vão se voltar contra você na primeira chance. A BIA vai ter que gastar tempo de processamento pra sempre colando respostinha inútil para os cretinos que xingam ela no chat, a Lu vai ter que continuar sendo modelada cada vez menos atraente para não “trair o movimento”, numa sequência aparentemente infinita de tentar agradar quem não pode ser agradado.

E aí, começam as perguntas: como BIA se posiciona em relação ao racismo? E à desigualdade social? Ela defende mesmo o público LGBT+? Ela respeita seus pronomes? Estão usando a plataforma para conscientizar o público sobre o aquecimento global? E a cada atualização, mais respostas prontas que nunca mais podem ser retiradas. Mais chances de errar uma interpretação e não entregar o resultado correto para o cliente. Mais gasto com processamento…

Tudo porque algo está fingindo ser alguém. Porque estão comprando a ideia da aparência de engajamento social sendo a mesma coisa que agir na prática de acordo. O mundinho de fantasia dos justiceiros sociais de internet é reforçado a cada ação dessas: a ideia de que você pode melhorar o mundo com cancelamento e lacração virtual, sem aprofundamento ou consistência lógica. BIA tira o emprego de muitas mulheres, e vai tirar cada vez mais, mas BIA se ofende quando alguém a chama de puta! Compensa?

O que a gente tenta explicar aqui faz tempo é que os movimentos de justiça social já foram cooptados pelas empresas, que fazem de tudo para tornar tudo superficial o suficiente para ser descrito numa campanha publicitária. E está colando. Talvez seja uma troca de biscoitos envenenados… as empresas vão ficando presas numa imagem mentirosa de interesse em causas sociais, mas em troca vão tornando mais previsíveis as reações dos seus consumidores em relação a esses temas.

A empresa finge que se importa, o público idem. E todos se juntam para bater em quem não corrobora com essa mentira confortável. Feminismo de bot do Bradesco é feminismo enlatado, pronto para o consumo com muita gordura e quase nenhuma fibra. Do jeitinho que o povo gosta.

Mas essa dieta tem um custo. As piadas com a BIA feminista não são os reacionários resistindo ao progresso, são as pessoas começando a ler quais são os ingredientes… e descobrindo que eles fazem mal.

Para dizer que xinga até torradeira, para dizer que programas de computador e desenhos tem direitos humanos, ou mesmo para dizer que tudo é melhor que falar com atendente humano: somir@desfavor.com

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Comments (16)

  • Eu já tava ficando animada com a ideia de waifus/husbandos robôticos no futuro, mas se for seguir a receita de uma porra dessas… Nem todo mundo pode ser Project Melody ou Hatsune Miku.

  • Isso nem é robô propriamente falando. É basicamente um algoritmo que retorna respostas prontas conforme a pergunta.
    E nesse quesito o Robô ED estava bem mais avançado quando estava na ativa.

  • A palhaça da Bia não serviu como um bom marketing? Virou assunto do momento e vi gente que nem correntista era dizendo abobrinhas só pra se divertir.

    • Sim e não. Gerou mídia grátis, mas tem um custo: gera alguma antipatia para um programa que tinha que ser neutro, gera uma obrigação social de continuar lacrando, mesmo quando não lucrativo para a empresa… e pior, expõe a “burrice” da inteligência artificial com as respostas erradas.

      Se o Bradesco estava vendendo que Bia entendia tudo e resolvia problemas, agora está vendendo uma inteligência artificial que dá resposta maluca…

  • Banco pode socar juros à vontade no cu do povo, mas se faz comercialzinho lacrador tem otário que aplaude.

    2021 e ainda tem marmota no Twitter achando que empresa se preocupa com alguma causa de verdade KKKKKKKKKKKKKKKKK…

  • Por que não colocam logo um robô homem? Tratamento de brotheragem é mais da hora. O cliente xingar tipo: Seu viado inútil! e o robô responder: Tua mãe gosta, otário!

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