O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello comunicou à CPI da Covid que não vai comparecer presencialmente ao seu depoimento no Senado, marcado para esta quarta-feira. Em ofício, Pazuello afirmou que teve contato com pessoas infectadas pela Covid-19 e, por isso, não poderia ir presencialmente ao Senado esta semana. LINK


Comissão de Palhaçadas de Inquérito. Papo furado, cloroquina e ex-ministro fujão? Desfavor da Semana.

SALLY

A gente já imaginava que essa CPI para investigar a atuação do governo durante a pandemia seria um show de horrores, mas o Brasil sempre dá um jeito de surpreender. Além de um show de horrores foi um barraco digno de reality show de quinta categoria.

O primeiro desfavor diz respeito ao atraso: o país está estagnado no mesmo ponto há mais de um ano. O Brasil deve ser o único país do mundo que ainda discute Cloroquina, Ivermectina e outros remédios ineficientes para covid. É inacreditável que isso ainda seja uma questão. Mais de um ano depois que os remédios foram desacreditados, ainda estão falando sobre o assunto.

Além de ser um país estagnado, ainda é um país de burros: começa a se formar uma tentativa de discurso de dizer que Bolsonaro nunca defendeu o uso de Cloroquina. O filho do Bolsonaro apagou as postagens do pai defendendo e divulgando Cloroquina, como se não existissem zilhões de registros desses momentos por todos os cantos. Até para ema o Presidente divulgou Cloroquina. É lamentável ver tamanha burrice estratégica vindo daqueles que traçam as estratégias do país.

Muitas coisas que foram ditas nos depoimentos, especialmente pelos ex-Ministros da Saúde me chocaram, mas uma em especial me surpreendeu mais: várias pessoas disseram que Bolsonaro não era o principal problema, que Bolsonaro inclusive escutava e concordava com muitas orientações, o problema era seu filho, Carlos.

Carlos, que é vereador pelo Rio de Janeiro, em vez de estar em seu cargo trabalhando, estava em Brasília, presente em cada reunião em que se tratava da pandemia, tomando nota e dando ordens. Segundo depoimentos, basicamente toda a estratégia desse governo para lidar com a pandemia vieram dele, de Carlos Bolsonaro, que não tem formação na área nem conhecimento técnico para determinar a melhor forma de lidar com o assunto.

Chegaram a contar que por diversas vezes Bolsonaro concordava com o que médicos e cientistas falavam, mas, depois, se reunia a portas fechadas com seu filho e alguns chiliques eram escutados. No final, Bolsonaro voltava atrás e não seguia o conselho dos especialistas, acatando as ordens de seu filho. Em um desses chiliques, dizem que Carlos ameaçou até se suicidar caso o Presidente não acatasse sua estratégia.

Carlos Bolsonaro teve papel decisivo na eleição do pai. De fato, fez um trabalho muito bom de engenharia social. Mas isso não quer dizer que ele seja bom em tudo, entenda sobre tudo e conheça tudo. Existe um motivo pelo qual uma pessoa tem que cursar uma faculdade se quiser tratar doenças: é indispensável um vasto estudo técnico. Deixar nas mãos de leigo um trabalho que demanda técnica e estudo é pedir para dar errado.

Se isso for verdade, basicamente, o governo matou mais de 400 mil pessoas para fazer a vontade de um filho mimado do Presidente. Minhas expectativas sobre o Brasil são o mais baixar possíveis, mas, mesmo assim, ainda consigo me surpreender negativamente e me decepcionar. Deixar a vida de 200 milhões de pessoas nas mãos de um filho que não tem capacidade técnica, estudo ou instrução para entender o que é melhor me parece quase inacreditável de tão absurdo.

Por mais absurdo que pareça, isso explica uma série de insanidades cometidas contra a ciência que vieram à tona nos depoimentos, como por exemplo, tentar mudar a bula da Cloroquina na canetada, por um decreto presidencial. Quando a gente fala que cada um tem que se cuidar sozinho pois este governo não cuida de ninguém não estamos exagerando.

Outro ponto chocante foi a confirmação nos depoimentos de que o governo deixou as pessoas morrerem deliberadamente em Manaus, como um experimento, para confirmar se existia ou não imunidade de rebanho. Não enviou ajuda, não fez o que deveria fazer, ciente do que iria acontecer, para descobrir quantos morreriam. Quem deveria cuidar do povo estava fazendo experiências de vida e morte com eles.

Teve vexame também, como não poderia deixar de ser. O General Pazuello, ex-Ministro da Saúde, que foi visto poucos dias antes passeando sem máscara por um shopping de Manaus, não foi prestar seu depoimento pois alegou que teve contato com pessoas com covid e seria um risco para a saúde alheia comparecer. Surgiu uma consciência repentina no General, não? Quando passeou sem máscara não estava nem aí para os outros.

Certamente ele sabe que vai ser fritado e que provavelmente vai levar a culpa de tudo, mas porra, precisa ser tão cagão? Que porcaria de militares são esses que o Brasil tem? Com essa coragem toda, se der um canivete para um paraguaio ele toma o país. Puta vergonha para os militares, desmoralizante.

Também ficamos sabendo que inflaram o número de vacinas compradas propositalmente, assumidamente e de forma planejada, ou seja, mentirosos nos quais não dá para confiar. Até aí, nada novo, mentira é a especialidade da casa, o que chama a atenção é ver os ratos abandonando o navio e tratorando o governo, contando esse tipo de coisa. Sempre bom ver filhos da puta brigando entre eles, mas choca o tamanho da incompetência e mentira.

Apesar de todos os absurdos e canalhices que vimos, o maior de todos continua vindo do povo: a passividade. O que falamos até aqui é apenas uma pincelada superficial do que foi dito. Em qualquer outro país do mundo isso provocaria fúria na população. No Brasil? Estavam todos focados na final do Big Brother Brasil.

Não tem jeito, o brasileiro não vai acordar nem se mexer. Se não se mexeu diante de absurdos como esses, não há mais esperança, a passividade será a marca registrada da pandemia brasileira. A última á de cal foi a morte do humorista Paulo Gustavo: geralmente quando morre uma pessoa famosa e querida dá um sacode, uma comoção e as pessoas acordam. Mas não. O assunto continuou sendo o Big Brother Brasil.

Diante de tanta passividade, não surpreenderia que essa CPI seja mais uma a acabar em pizza, apesar de todos os absurdos. Também não me surpreenderia se o Brasil continuasse estagnado no tempo, conduzindo a pandemia como o filho do Presidente achar melhor, discutindo Cloroquina até o fim do ano, discutindo imunidade de rebanho, andando em círculos e cavando um buraco cada vez mais fundo.

Não se iludam, a situação da pandemia no Brasil vai melhorar, mas vem uma terceira onda que vai varrer o país talvez com mais violência do que a segunda. Esse período de melhora deveria servir para que todos, desde o Presidente até o cidadão comum, se preparem para passar pela terceira onda da melhor forma possível, e não para que as pessoas relaxem e comecem a fazer o que tem vontade.

Agora é a hora de se preparar para fazer uma transição e trabalhar sem sair de casa. Agora é a hora de reforçar o sistema de saúde. Agora é a hora de investir em campanha de conscientização. Agora é a hora de traçar uma estratégia de controle para isolamento social. Agora é a hora de organizar um sistema de testes e rastreio de contatos. Agora é a hora de fechar as fronteiras. Mas não. Afrouxou um pouco o brasileiro abre tudo e vai bundear, vai saciar suas vontades individuais vai fazer tudo menos o que é prioridade.

Termino o texto deixando meus mais sinceros parabéns ao Rio de Janeiro, que acaba de fabricar uma nova variante preocupante, mutação da P1, a variante de Manaus e está com um número avassalador de casos e mortes. Vai lá, vai pra praia, vai para barzinho, vai a jantarzinho, confia no seu potencial!

Para dizer que em breve médicos serão obrigados a bater com uma folha de arruda nos pacientes como tratamento para covid, para dizer que um cabo e um soldado tomam o Brasil ou ainda para dizer que não sabia que a CPI estava nesse nível de barraco e, agora que sabe, vai começar a acompanhar: sally@desfavor.com

SOMIR

O mundo discute o futuro da vacinação diante das variantes e vai reabrindo aos poucos nos países que pelo menos tentaram controlar a doença. O Brasil discute a eficácia da cloroquina no Senado, um ano depois de todo mundo já ter confirmado que não funciona.

Além de todas as bizarrices que Sally narra no seu texto, eu ainda gostaria de falar sobre a cara de pau dos senadores governistas, lendo textos obviamente feitos pela equipe do presidente (talvez até pelos seus filhos), com foco em dois pontos: a suposta “divisão no mundo científico” sobre a cloroquina e a culpa sendo toda dos estados e municípios.

Não há sequer o interesse de disfarçar: a equipe de paus mandados do governo só fala disso, mesmo quando o entrevistado da vez nada tem a dizer sobre o tema. Ao invés de perder tempo tentando argumentar sobre o quanto esses argumentos são furados, eu quero analisar a raiz disso tudo. Porque esses malucos falando coisas sem sentido na CPI são a ponta de um processo muito maior de emburrecimento.

Que provavelmente começa nos EUA, lá pela época dos atentados de 11 de setembro em 2001. A cultura da teoria da conspiração começa a ganhar mais e mais adeptos com a popularidade alcançada pela ideia de que as torres gêmeas de Nova Iorque foram derrubadas a mando do governo (sauditas, judeus, alienígenas, reptlianos, tinha pra todos os gostos).

Essa cultura da conspiração ganha a internet, em sua primeira grande fase de popularização global. Logo, o interessado nessa conspiração ganha acesso a milhares de outras, igualmente interessantes. Saíamos de uma época onde as pessoas eram treinadas para não questionar as ações e opiniões de especialistas e governantes para uma onde isso se tornava um símbolo de status.

Pelo menos para quem vestia a camisa. Já falamos da mentalidade conspiratória aqui, é basicamente uma forma da pessoa se sentir especial e segura na noção que está enxergando algo que a maioria não enxerga. Mas conspirações não duram para sempre: por mais que a pessoa continue acreditando naquilo, já não dá a mesma satisfação depois de um tempo. Por isso, essas pessoas começam a acreditar em mais e mais conspirações, quase como se estivessem buscando mais uma dose da sua droga preferida.

Some-se a isso a internet virando parte integrante da vida da maioria da população e temos o ambiente perfeito para uma era de conspirações. Como, também em média, essa maioria de pessoas não sabia muito bem separar informações seguras de propaganda descarada de seus líderes, é como se toda a confiança de décadas anteriores tivesse se esvaído em dúvida em plena era da informação.

Sim, os governos mentem muito, mas isso não quer dizer que tudo é mentira. Algumas informações têm bases mais sólidas na realidade. Mas se a pessoa nunca teve muito contato com essas bases, não tem muito de onde tirar a segurança para acreditar em informações já estabelecidas. É por isso que 10 anos atrás quase ninguém pensava sobre o formato do planeta Terra, mas hoje em dia muita gente realmente desconfia que ela é plana. Terra redonda era só uma sequência de palavras sem sentido mesmo, não custava nada mudar para Terra plana.

E é nessa mentalidade que se cria uma parcela preocupante dessa “nova direita” global. Sob a ideia de que os governos mentem sobre tudo, e que esperto mesmo é quem desconfia de absolutamente tudo. Quanto mais insistem numa informação, maior a tentação de acreditar que ela é falsa. O auge dessa mentalidade culminou na eleição de Donald Trump, e gerou ondas de impacto que atingiram vários países, como o Brasil.

Bolsonaro e boa parte de sua equipe são seguidores desse tipo de mentalidade: acham que é tudo mentira e que só uma minoria iluminada que realmente entende o que está acontecendo no mundo. Não é à toa que todas as bobagens ditas por conspiradores americanos do começo do século estão presentes no discurso dessa turma: todas as ideias surgem de uma mesma base da desconfiança generalizada.

Usamos vacinas há séculos para erradicar doenças? Deve ter algum esquema secreto por trás disso. A imensa maioria dos médicos diz que um remédio não serve para tratar uma doença? O certo então é acreditar na meia dúzia que diz o oposto. Precisamos cuidar do meio ambiente? Então vamos fazer o contrário.

É uma espécie de “esperteza estúpida”, onde a pessoa é do contra por definição porque acha que estão mentindo para ela. Medo da grande mídia começar uma campanha dizendo “não pule de pontes” e essa gente começar a se jogar! E o que isso tem a ver com a CPI? Tudo. Estamos investigando o que essa mentalidade conspiratória fez com o Estado brasileiro diante de uma pandemia.

O governo claramente agiu influenciado pela ideia de que o caminho correto é ir contra o que outros governantes e diversos especialistas na área indicaram. Não porque estudaram as indicações e chegaram a conclusões distintas, mas porque esse tipo de mentalidade força a pessoa a ir contra, por definição mesmo.

E isso vai ficando claro quando os senadores governistas ficam teimando em defender a cloroquina como “o remédio que as elites não querem que você tome” e tentando colocar a culpa em governadores e prefeitos que “seguiram as indicações dos globalistas”. A revelação que um dos filhos do presidente, notório imitador de ideólogos conspiracionistas americanos, tomava decisões sobre saúde pública e o medo terrível de Pazuello de ser chamado para explicar suas ações (que não é capaz de sequer compreender) só corroboram com essa ideia.

Infelizmente, não acredito que a CPI tenha a capacidade de entrar nesse ponto e tirar uma conclusão clara sobre o que realmente aconteceu: malucos da teoria da conspiração assumiram o governo brasileiro e colocaram em prática nele tudo o que aprenderam em vídeos e textos de outros malucos que viram na internet. Sem estudar, sem pensar, só sendo do contra; porque na cabeça deles ser do contra é o único caminho para a verdade.

Deu no que deu. Se esse tipo de gente que controla o Brasil tivesse competência mesmo, já teríamos visto sinais nos EUA, o berço de toda a maluquice que copiam sem pensar meia vez. Estamos na era dos malucos, tomara que não seja muito longa…

Para dizer que a culpa é das elites (governo é elite), para dizer que não é maluco, apenas o detentor único da verdade inquestionável, ou mesmo para dizer que estava sem saudades: somir@desfavor.com

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Comments (10)

  • Você sabe que está num circo quando o cara presidindo uma CPI é o fodendo Renan Calheiros.

    Pra coroar os jornalistas ainda falam dele como se ele fosse um mediador nível Rei Salomão.

  • “Em qualquer outro país do mundo isso provocaria fúria na população” Aqui é exatamente o oposto, com esses bolsominions (termo criado pela esquerda, mas ok…) passando pano pro presida e acreditando piamente na cloroquina.

  • Se o povo soubesse o custo de uma CPI (que no final acaba em pizza, então para que fazê-la?)
    Ninguém se disporia a incentivar que uma fosse aberta.
    Nao compensa.
    Usa o $$$ para comprar vacina que ganha mais começando do zero.
    Passado já foi, morreu, que se cuide para não repetir o mesmo erro no futuro.
    Queria ser eu para cuidar dessa joça toda e por ordem nesse galinheiro: escreveu não leu o pau come direto,
    Nao pode cochilar e nem por raposa para cuidar do galinheiro.
    Quem cuida do galinheiro não pode ser partidário e nem querer fazer toda a galera feliz, esse, tem que vender algodão doce.

  • Tá vendo o que dá ficar no armário? Olhem pro Carluxo. Olhem o que repressão pode fazer com uma pessoa, ou ela se mata ou ela fica perturbada e começa a se tornar um expoente do caos! Zoam o filho Drag Queen de outro presidente aí, mas vai ver se a drag bem resolvida no ápice do seu look mega trabalhado vai foder com tudo assim!

    Experimentos com seres humanos em Manaus… Ok, quando podemos declarar que o Brasil é a nova Alemanha nazista?

  • Cada notícia que leio (na verdade, cada título de notícia; porque já sei que vai vir coisa ruim no conteúdo só por isso) sobre esses assuntos já me deixa um tanto tenso. Aí quando venho ler os vossos artigos, basicamente vejo que minhas suspeitas se conformam. A preocupação com isto já começa a subir… dá vontade de descer o foda-se e fazer só minha parte e pronto, sério (se o que outros vão fazer está fora do meu alcance…). :|

    Acompanhar essas notícias já deve ser tipo um prenúncio do inferno que virá. Eu mesmo já sinto isso quando, aqui em casa, ouço meus pais acompanhando as notícias da CPI (aliás, Sally, como estou com preguiça de mandar e-mail, digo que vontade de acompanhar esse barraco não falta)… já é um saco ouvir meus pais (bolsonaristas que são, já perdi as esperanças de tentar convencê-los de que estão brincando com a natureza e pisando nos cadáveres de mais de 400.000 mil mortos) “respondendo” cada ministro, senador ou seja lá quem for em voz alta, até parece que vão mudar algo desse jeito. Isso me parece mais amaciação de ego e necessidade de reafirmação.

    E em falar nisso, já que o gado político fez dessa pandemia um inferno, colocando a porra da ideologia e o próprio ego acima da vida das pessoas em uma situação na qual deveria haver engajamento por parte dessa população, nem preciso parar para pensar como serão as eleições em 2022.

    • Tem gado dos dois lados da cerca, isso é o desesperador. Para onde quer que se olhe tem gado nesse país polarizado. Se por um lado uns defendem cloroquina, não usam máscara e chamam a doença de “gripezinha”, por outro tem gente dizendo que a sputnik tinha todos os documentos para ser aprovada e não foi por questões políticas, que a medicina cubana é a melhor do mundo e que laboratórios que criam vacinas são vilões que só querem lucrar.

      É cansativo, é muito cansativo.

  • Não me espanta que Carlos Bolsonaro esteja por trás das mudanças presidenciais. Ele é quem, mais do que ninguém, conhece a alma dos “minions”, e sabe o que as antas pensam – e querem – ouvir: que não se pode arrebentar o Estado, ainda que seja para salvar vidas. Creia, os seguidores do “mito” pensam assim.

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