Cativeiro.

Uma mulher está amarrada sobre o que imagina ser um colchonete, o lugar cheira mofo e suor, por isso a leve brisa que vem de uma das paredes do pequeno cômodo onde se encontra é de grande alívio. Ela se lembra de ser abordada por alguns homens encapuzados na noite anterior, quando voltava do trabalho. O som de passos antecede a abertura da porta.

SEQUESTRADOR: Você está com sede?
SEQUESTRADA: Sim…
SEQUESTRADOR: Aqui, um copo d’água, levanta a mão… isso.
SEQUESTRADA: Obrigada.

A mulher leva as mãos amarradas à boca, segurando firmemente o copo. Ela alinha a borda com os lábios cuidadosamente, pois a venda em seus olhos a impede de fazer um movimento mais natural. Depois de um longo gole, ela estica os braços, oferecendo o copo de volta.

SEQUESTRADOR: Peguei.
SEQUESTRADA: É… moço… como eu te chamo?
SEQUESTRADOR: Pode me chamar de… de… Max.
SEQUESTRADA: Max… bom, você sabe meu nome, né?
MAX: Sim, Taís.
TAÍS: Claro, você me sequestrou.
MAX: Eu só estou cuidando de você.
TAÍS: Max, eu preciso… é… eu preciso ir no banheiro.
MAX: Pode se levantar devagar.
TAÍS: Eu não vou ter que fazer aqui, né?
MAX: Não, segura minha mão e eu te levo.

Os dois seguem por um corredor, Taís tenta contar os passos para ter uma noção de distância. Oito. Talvez uns seis dele. É uma porta à esquerda. O chão frio sob seus pés descalços sugere que ela está no lugar certo.

MAX: Eu vou deixar a porta encostada. A privada está logo atrás de você.
TAÍS: Você pode soltar minhas mãos?

Silêncio.

TAÍS: Eu não consigo nem abaixar a calça com as mãos amarradas, quanto mais me limpar.
MAX: Ok. Mas se eu escutar qualquer barulho estranho, eu entro.
TAÍS: Tudo bem.

Taís sente suas mãos livres pela primeira vez desde a noite anterior. Ela instintivamente busca pelo rosto, se aproximando da venda.

MAX: Não tira a venda!
TAÍS: Desculpa…
MAX: Tudo o que você precisa fazer consegue fazer até no escuro. Quando acabar, é só me chamar.
TAÍS: Tudo bem.

Ela fica parada por alguns instantes, escuta passos.

TAÍS: Você já saiu?

A voz de Max vem mais abafada e distante.

MAX: Sim.

Taís levanta a venda, apenas o suficiente para observar o chão. Como não vê sinais de companhia, levanta o resto. Quase prefere não ter feito isso, pois percebe como o banheiro é imundo. A única janela é pequena demais para qualquer esperança de fuga.

MAX: Está tudo bem aí?
TAÍS: Sim! Me dá mais um tempo.

Ela se senta no vaso depois de colocar alguns papéis higiênicos de proteção. Enquanto se alivia, observa o banheiro em busca de algo que possa usar como arma, ou mesmo para cortar as cordas quando estiver sozinha. Em cima da pia, um pacote com alguns sabonetes, escovas de dente e tubos de pasta. Ao lado, um alicate de cortar unhas reflete a luz do sol e chama sua atenção.

MAX: Vai demorar muito aí?

Taís começa a pensar.

MAX: Estou entrando!
TAÍS: Não! Espera! Eu estou… eu estou fazendo mais coisa.
MAX: Mais coisa?
TAÍS: Cocô!
MAX: Ah…

Silêncio novamente. Taís avança na ponta dos pés até a pia, olhando pela fresta da porta em busca de seu sequestrador. Nem sinal. Ela pega o alicate e coloca dentro da calcinha.

MAX: Taís?

Ela percebe a porta se mexendo.

TAÍS: Espera… eu não acabei.
MAX: Isso está estranho!

O som de algo caindo na água interrompe o movimento na porta. Taís joga alguns dos sabonetes na privada, enquanto grunhe como se estivesse fazendo força. Ela escuta um som de hesitação na voz de Max, e a porta não se move mais.

TAÍS: Eu comi muito ontem…
MAX: Não precisa me contar.

Os pequenos sabonetes parecem daqueles encontrados em hotéis. Ela joga mais alguns, espera um momento e dá a descarga.

MAX: Vai logo!
TAÍS: Já estou indo.

A água começa a subir na privada. A expressão de Taís vai se transformando em desespero. Aquele banheiro velho não ia dar conta de se livrar dos sabonetes. Ela aguarda mais alguns segundos, na vã esperança da descarga finalmente ter fim. A água começa a transbordar. Ela pega uma toalha pendurada na parede e coloca embaixo do vaso, para abafar o som da água transbordando.

TAÍS: Só mais um pouquinho.
MAX: Eu vou contar até dez e entrar.

Taís está inclinada sobre a privada, tentando pegar os sabonetes que estão boiando prestes a cair no chão. Ela consegue segurar os três primeiros, mas logo um escapa e começa a navegar na água que se espalha pelo chão.

MAX: Oito…

Taís abaixa as calças novamente e tenta com toda força produzir algo que prove sua mentira inicial.

MAX: Nove…

As veias da testa começam a saltar, seu rosto fica vermelho.

MAX: Dez. Vou entrar!

Taís corre para a porta e enfia a cara entre o vão, ficando frente a frente com Max. O homem se espanta e faz menção de buscar uma arma na cintura.

TAÍS: A privada entupiu. Eu estou tentando limpar, por favor, não entra. Eu estou morrendo de vergonha.

Max vacila por alguns segundos. Ele é um homem bem moreno, com barba por fazer e pequenos olhos negros. Não é muito maior do que ela. Logo ele parece realizar alguma coisa e arregala os olhos.

MAX: Você tirou a venda!
TAÍS: Eu… eu… olha… se você quiser procurar os cocôs que estão nadando no chão, tudo bem.
MAX: Não… não. Pode… pode continuar.

Max olha para baixo, a mulher ainda está com as calças arriadas. Ele vira o olhar por um instante. Taís aproveita o momento para fechar a porta de vez. Não há menção de tentar abrir novamente. Tempo ganho, ela volta a pensar no que fazer. Ela havia visto Max, ela sabia disso, ele sabia disso. Mas, havia algo no comportamento dele que sugeria que ele talvez não fosse um assassino também.

TAÍS: Traz um pano pra mim? Vai começar a escorrer para fora da porta.

Alguns instantes de silêncio do outro lado, e ela pode ouvir alguns passos, progressivamente mais baixos. Pelo menos uns doze, talvez o dobro da distância do seu cativeiro para o banheiro. Ela se aproxima da porta, abre uma pequena fresta, o suficiente para passar a cabeça. Olha para os dois lados do corredor, nem sinal de Max.

Ela se vira para a direita e anda o mais rápido que pode sem fazer barulho até o quarto onde acreditava estar esse tempo todo. Como imaginara, há uma janela de tamanho decente na parede. Ela parece estar fechada apenas com um trinco interno. Com todo o cuidado, ela abre a janela. A luz do sol é um alento para olhos cansados da escuridão. Do lado de fora, um terreno baldio no que parece ser um bairro muito pobre.

Mas talvez a pior visão seja a das grades. No condomínio onde cresceu nunca viu janelas assim.

MAX: Não tem pra onde ir, madame.

Taís se vira assustada, apontando o alicate de unha para seu sequestrador. Ele sorri e aponta para a cintura, onde um volume sugere que há uma arma debaixo da camisa.

MAX: Isso não funciona contra uma arma.
TAÍS: Se você me matar, não vai ganhar dinheiro.
MAX: Moça, eu já fui pago.
TAÍS: Como assim? Então me solta!
MAX: Eu fui pago para te prender aqui… por mais doze horas.
TAÍS: Hã?
MAX: Quando der dez da noite, eu vou te soltar num lugar longe da cidade.
TAÍS: Não tem resgate?
MAX: Que eu saiba, não.
TAÍS: Quem te mandou fazer isso?
MAX: Essa gente não dá cartão, moça. Só sei que eram todos bacanas, chegaram num carrão vestindo terno e gravata.
TAÍS: Eu não estou entendendo nada…

Taís abaixa o alicate de unha, Max se aproxima pedindo para que ela levante os braços em sua direção, o que a mulher faz sem protestar. Quando está com os braços devidamente amarrados, ela é ajudada a se sentar no colchonete novamente.

MAX: Eu também não entendi nada, moça. Eu perguntei se você tinha feito alguma coisa pra eles e se queriam que desse um susto… mas disseram que não, que era só te segurar aqui.
TAÍS: Eles disseram mais alguma coisa?
MAX: Não. Quer dizer… um deles falou uma coisa estranha… que você não tinha feito nada pra eles… ainda.
TAÍS: Ainda?

Max faz uma expressão confusa, dá de ombros e sai do quarto. Taís pode escutar a porta sendo trancada. As horas se passam, e no final da tarde, ele a venda novamente e a coloca num carro. Eles andam por vários minutos. Max retira o cobertor que está sobre ela no banco traseiro e ajuda a se levantar e sair do carro.

TAÍS: Onde eu estou?
MAX: Segue a estrada naquela direção, tem um posto onde você pode ligar pra casa.
TAÍS: Obrigada…
MAX: Eu não gosto de fazer isso não, moça. Mas eu preciso pagar as contas, e ninguém contrata quem já foi preso, entende?
TAÍS: Eu não vou falar sobre você. Vou dizer que estava vendada o tempo todo.
MAX: Obrigado. E se te alivia um pouco, eles disseram que se eu te matasse, morreria junto. Não que eu fosse fazer isso, mas sei lá, se eu fosse você eu dormiria melhor sabendo.
TAÍS: Eu não sei se me sinto melhor.
MAX: Boa sorte, moça. E… aquela de jogar os sabonetes na privada foi muito esperto!

Taís dá um sorriso encabulado.

TAÍS: Obrigada. Foi muito vergonhoso…
MAX: Mas foi engenhoso. Se a janela não tivesse grades, você teria me enganado direitinho. Agora eu sei porque tinham medo do seu filho.
TAÍS: Mas eu não tenho filho.

Max fica em silêncio por alguns momentos, e entra no carro rapidamente.

Para dizer que não entendeu nada, para dizer que esse roteiro seria bem mais barato de filmar, ou mesmo para dizer que eu estou obcecado com funções excretoras: somir@desfavor.com

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