Conversa furada?

Que o governo brasileiro foi terrível na gestão da pandemia, Sally e Somir concordam. Mas nos detalhes, os dois tem uma desavença sobre o mínimo que precisava ser feito para não ser tão horrível assim. Os impopulares comunicam.

Tema de hoje: um governo que não falasse tanta merda teria diminuído o número de mortos no Brasil?

SOMIR

Sim. Comunicação funciona. Não funciona do jeito que as pessoas tendem a achar que funciona, mas não é à toa que existe toda uma teoria ao redor dessa área de conhecimento. Vejam bem, não estou dizendo que estaríamos no nível Nova Zelândia se o governo fizesse boas campanhas de conscientização sobre a pandemia e nada mais, mas estou dizendo que com certeza teria morrido menos gente.

Talvez muito menos gente. Solução real só com ações práticas de lockdown para sossegar o rabo do povão em casa (evidente: os que pudessem ficar em casa) aliada à comunicação. Mas uma mensagem coerente e bem pensada do governo pode ajudar muito nessas horas. Aliás, por mais que me doa o coração dizer isso: talvez nem precisasse ser muito bem pensada, bonita ou interessante, bastava ser coerente mesmo.

O brasileiro nunca foi exemplo de dever cívico, o que podemos até perdoar em certo grau considerando a bagunça que o país sempre foi, mas na prática isso quer dizer que existem muitas excrescências na mentalidade popular como seguir leis apenas quando concordam ou fingir que não existem quando são incômodas. Em países assim, ajuda muito diminuir o incômodo do cidadão com o cumprimento da lei.

Eu sei, eu sei, deveria ser o mínimo esperado do cidadão cumprir a lei, mas assim como não adianta colocar o cachorro de castigo por ter mijado dentro de casa porque o bicho não vai entender a relação entre as coisas, não adianta esperar que o brasileiro perceba sozinho as benesses de agir em prol do bem comum. Não consegue fazer a conexão.

Por isso, a comunicação pública deve apelar para alguns atalhos da mente humana, alguns sentimentos primais que por mais tosca e brutalizada seja a pessoa, ela com certeza vai ter. O ser humano tem um medo instintivo de ser abandonado pelo grupo. É muito difícil estar sozinho defendendo um ponto de vista. Quanto mais você faz parecer que todo mundo concorda com uma coisa, menor a chance de ver gente falando em sentido contrário. Ninguém gosta de estar fora da tribo.

E é por isso que eu falo sobre uma comunicação coerente: num mundo onde o presidente e o poder sob seu controle acreditam na pandemia e acham importante controlá-la, o cidadão médio não tem tantas fontes de confusão sobre o que acontece ao seu redor. No mundo que vivemos, há uma dissonância evidente entre as diversas fontes de informação e influência sobre o cidadão médio. Ao invés da pessoa sentir que está abandonando o grupo ao ignorar a pandemia, ela sente que está entrando em um.

E poucas coisas dão tanta força ao ser humano quando a sensação de pertencimento. Se a comunicação do governo vem com a “opção” de escolher entre um grupo e outro, as mesmas pessoas que simplesmente seguiriam o grupo numa comunicação alinhada contra a pandemia acabam acreditando que é só uma questão de escolha. Ou você é de um time que se preocupa com a doença, ou é do outro que não.

E considerando que o time que não se preocupa não exige sacrifícios como ficar em casa, usar máscaras e reduzir muito sua vida social, compensa o falatório do outro grupo. Sim, eu entendo que as pessoas tinham a tendência de fazer tudo errado como acabaram fazendo, mas eu argumento que facilitaram demais isso para elas. Qualquer incômodo extra para quem fosse negacionista já ajudaria demais.

Estamos num jogo de números. A doença se espalha exponencialmente de acordo com o número de pessoas que não tenta se proteger dela. Se você reduz um pouco que seja o número de pessoas que sai pra rua empolgado com a ideia de transmitir a doença, o número de infectados, doentes e mortos cai muito mais. Toda pessoa que você segura em casa durante as piores fases da pandemia tem o potencial de salvar mais que uma lá no final das contas.

Eu acredito que uma campanha boa e consistente sobre a pandemia mudaria a cabeça do brasileiro médio? Claro que não. Ainda teríamos números maiores que a média mundial, mas poderíamos ter números só um pouco maiores que a média, ao invés de muito maiores. Parece que é pouco, mas se formos considerar que são vidas humanas, o impacto de uma morte que seja já é enorme. Não é demagogia, é lógica simples: todo mundo deixa uma família, amigos, negócios, etc.

Baixar 10% das mortes já faria milagres pela proteção do povo e especialmente para a economia. E olha que eu acredito que poderíamos conseguir bem mais que isso. Talvez até cair o número de mortes pela metade se conseguíssemos pelo menos que o brasileiro médio não ficasse achando que usar máscara era escolher entre esquerda, direita, comunismo, capitalismo…

Poderíamos ter uma população menos propensa a politizar saúde pública, e por consequência, menos inclinada a quebrar regras. Bolsonaro conseguiu acessar o pedaço da mente de muito brasileiro que só queria uma desculpa para fazer o que fosse mais agradável/fácil. Fazer coisa errada já é divertido, fazer coisa errada com a defesa de estar tomando uma decisão em prol do futuro da nação? Mais gostos ainda!

Governadores, prefeitos, legislativo e judiciário também não têm muito do que se gabar, mesmo os que pareciam levar a pandemia mais a sério não esticaram demais a corda para não perder popularidade. Depois que ficou estabelecida a escolha ideológica sobre a pandemia, qualquer reação a ela poderia ser usada contra eles. Preferiram se esconder atrás de um maluco na presidência para dizer que não tinham nada com isso.

Se tivéssemos uma campanha consistente desde o começo da pandemia, mesmo que sem graça, poderíamos ter escapado dessa politização e ficado apenas com gente egoísta fazendo coisas egoístas. Ainda teríamos muitos mortos, mas pelo menos não seria tão fácil assim passar a doença para os outros e dormir tranquilo depois. Qualquer ajuda é válida nesses casos. Comunicação é a arte de falar com o que a pessoa já acredita ou sente, o brasileiro, por incrível que pareça, é humano. Humanos funcionam de forma muito mais eficiente quando acreditam que estão fazendo a mesma coisa que todo mundo.

E funcionam como vemos funcionando quando acham que podem escolher para que time vão jogar.

Para dizer que eu só quero um emprego no governo, para dizer que a solução são bombas atômicas, ou mesmo para dizer que a campanha seria horrível de qualquer jeito: somir@desfavor.com

SALLY

Um governo que não falasse tanta merda teria diminuído o número de mortos no Brasil?

Não. Um Governo que impusesse restrições mais severas e impedisse o povo de fazer merda e propagar o vírus diminuiria o número de mortos, mas um governo que falasse menos merda não.

O problema não é a merda falada, é a falta de senso de sacrifício do brasileiro. Se fosse o Lula o Presidente, por exemplo, as pessoas estariam bundeando na rua do mesmo jeito. Se enganariam do mesmo jeito. Achariam que fazer tudo “com todos os protocolos de segurança” impede o contágio do mesmo jeito.

O brasileiro não quer deixar de tomar sua cervejinha, sair com os amigos, ir a encontrinho. E, para não ser privado disso, ele usa o argumento de quem quer que seja como muleta: da Tia do Zap, do colega do bar ou do Presidente da República. Por sinal, eu conheço um monte de esquerdinha caviar que chama Bolsonaro de genocida mas saiu de casa para socializar no meio da pandemia, “com todos os protocolos de segurança”. Não é sobre falar merda, é sobre educar e punir.

Não precisa de ninguém falar merda para o brasileiro fazer merda. Vocês sabiam que o Brasil é um dos campeões mundiais de casos de câncer peniano, uma doença que se combate simplesmente lavando o pinto com água e sabão? Que eu saiba, ninguém do Governo espalhou fake news de que água no pinto faz mal para a saúde ou que cloroquina cura câncer de pênis. Ainda assim, o brasileiro não faz o que tem que fazer e continua adoecendo.

O brasileiro é um perigoso mix de arrogância com ignorância que o leva a achar que pode tomar decisões sobre tudo sozinho. Não precisa vir ninguém falar merda, ele faz merda sozinho. Tem gente que defende até hoje que cigarro não causa câncer. Tem gente que usa o nosso texto, visivelmente mentiroso, para defender em grupo de zap que cigarro não causa câncer, para poder continuar fumando sem medo ou culpa.

O brasileiro vai fazer a ginástica argumentativa que for necessária para não se submeter a um sacrifício. O brasileiro não vai, por consciência, deixar de ir a barzinho, a jantarzinho, a encontrinho. O brasileiro não vai deixar de ir ao shopping, a salão, restaurante, não importa o que lhe seja dito pelo Poder Público. Ele vai arrumar algum argumento ou se convencer de que sim, pode sair, não tem perigo. Ou então que do jeito que ele está fazendo não tem perigo. Isso se chama “negação”.

Uma pessoa em negação não sai da negação por um político dizer o contrário do que ela quer acreditar. Uma pessoa em negação não sai da negação nem mesmo quando uma pessoa amada tenta lhe mostrar a verdade. Muitas vezes ela não sai da negação nem mesmo quanto algo grave acontece, como por exemplo, adoecer. Eu conheço gente que pegou covid e continua bundenado. Não vai ser um discurso de Presidente que vai mudar isso.

O buraco é muito mais embaixo do “Bolsoanro genocida que espalhou desinformação”, mas, é claro, é sempre muito mais fácil e agradável pensar que se removermos o Bolsonaro a conduta do brasileiro mudaria. Não. O problema está no povo.

O brasileiro só faz algo que não quer se for severamente vigiado e punido, duas coisas que não costumam acontecer muito no Brasil. Não é a conversa que resolve, é a jornalada no focinho. E com isso não quero dizer que o Governo não tenha responsabilidade: tem sim. Não comprou vacinas, espalhou remédio que não protege e faz mal e tantos outros absurdos. E por eles eu lhe atribuo responsabilidade por mortes. Mas não pelo discurso.

Brasileiro sempre cagou para discurso de político. Político é quase que um bobo da corte, alguém em quem o brasileiro tem prazer de criticar, esculhambar e detonar. Político nunca foi modelo de nada no Brasil, político é “tudo ladrão e mentiroso” e o que eles falam é desacreditado. Falar não bastaria. Ou outro governo, além de falar, age, ou vai ser a exata mesma merda.

Vejam os estados onde os governadores tentaram fazer algo sério. Vejam se as pessoas obedeceram apenas pela palavra. Esse papo de que o brasileiro é ignorante e manipulado vai até a página dois. O brasileiro faz o que quer, o que lhe convém, o que tem vontade. E se encontrar um político para culpar depois, o faz.

A maior prova disso é que as pessoas que furaram quarentena e desrespeitaram normas sanitárias não tem um perfil definido: desde um agricultor analfabeto de Moçoró do Cu do Mundo até um médico da capital, ambos fizeram merda. Não é falta de informação, é falta de senso de sacrifício.

E mesmo naqueles casos em que é falta de informação: o tiozinho escuta do governo que não pode sair, não pode tomar sua cachacinha, não pode se divertir com os amigos e escuta de outra pessoa que não é bem assim, que tem um jeito de fazer isso em segurança… em quem vocês acham que esse brasileiro vai escolher acreditar? Vai acreditar no Zé do Bar que diz que dá para fazer “com todos os protocolos de segurança”.

A autoridade máxima pode dar a informação certa que, se aparecer alguém com uma informação mais agradável, o brasileiro vai acreditar na informação que mais lhe convém. Cá entre nós, informação certa sobre covid está disponível até no Jornal Nacional, o brasileiro é que prefere acreditar que tem um jeito seguro de ir almoçar na casa da mãe, de ir à praia, de ir no batizado do afilhado. Egoístas, mimados, arrogantes, ignorantes.

Informação não é o problema. O problema é o brasileiro, um povo rudimentar que, infelizmente, só responde na base da repressão, fiscalização e punição. Dar liberdade antes de dar educação gera esse tipo de atrocidade. O brasileiro tem uma liberdade da qual não sabe fazer bom uso, e isso não se muda com discurso presidencial.

Seria maravilhoso que o mero discurso de uma pessoa pudesse mudar a mentalidade do brasileiro e evitar mortes e disseminação de um vírus, mas sabemos que a realidade é outra. A história mostra que a realidade é outra. Na gripe espanhola o governo obrigava as pessoas a tomarem vacina, alertou sobre os riscos e, mesmo assim, o povo se comportou como bem quis. Nada mudou. Sem educação, só na porrada.

Senhores, é hora de parar de culpar políticos e começar a responsabilizar o povo. O povo não é vítima dos políticos, é cúmplice deles.

Para dizer que é mais agradável culpar os outros, para dizer que se o Presidente fosse o Lula o mundo estava sem pandemia ou ainda para dizer que a culpa é da China malvada que espalhou o vírus para vender vacina: sally@desfavor.com

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Comments (8)

  • O governo brasileiro não poderia fazer muita coisa além de convencer as pessoas a ficar em casa “pelo gogó”, pois não se quis nem pensar em estado de sítio (ou em criar medidas restritivas ao direito de ir e vir do cidadão). De mais a mais, somente com insumos próprios poderíamos ter vacinado mais gente em tempo recorde – e isso não existe no mundo globalizado que optamos por abraçar.

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    • Óbvio que poderia. Basta um decreto emergencial prevendo uma punição severa (como uma multa alta ou prestação de serviços comunitários limpando privada de hospital) e uma fiscalização massiva, para de fato punir quem descumpre as regras. Vários países da América Latina fizeram.

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  • Concordo em partes com o Somir, comunicação é algo que costuma funcionar, é uma ferramenta poderosa, se bem manejada, pode ter bons frutos. Apelar para sentimentos primais da mente humana é um bom recurso, mas teria que ter uma boa estratégia pra engajar esse recurso, principalmente considerando o mar diário de fake news que temos por aí, e também o fato de estarmos vivendo a era da “pós-verdade”. É complicado, em certo sentido, usar a comunicação para alertar alguma coisa, quando afirma-se primeiro algo e só depois realiza-se todo um jogo discursivo pra sustentar essa afirmação. E, nesse caso aqui, o argumento da Sally se sobressai, afinal, o brasileiro é mesmo um “animal” que faz o que quer e como quer, e não há discurso que o interpele, a não ser que mexa com suas benesses pessoais.

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  • Concordo em número e grau com a Sally.
    Desculpa, Somir, mas na era da sobreinformação você está ficando pra trás.

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  • Não faria diferença, na prática o brasileiro vive numa anarquia. E isso independente de classe social ou região, como bem disse a Sally.
    Aliás, já passou da hora de parar de usar pobreza e falta de educação formal como justificativa de tudo. Pra saquear caminhão acidentado na estrada, brigar com torcida de futebol ou pra discutir vida de celebridades, o brasileiro é super organizado…

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