Indiscutível.

O ditado é que não se discute política, religião ou futebol. Por sorte, futebol é cada vez menos relevante no país, por azar, política e religião foram ocupando esse espaço. Sally e Somir discutem qual das duas é mais infrutífera, e os impopulares falam… mesmo que seja por falar.

Tema de hoje: o que é pior, discutir política ou religião?

SOMIR

Apesar de achar que as coisas andam mais misturadas que o normal, eu ainda acho discussão religiosa pior. Por mais que seja irritante falar com alguém fanático por uma linha de pensamento política, ainda é melhor do que discutir uma porcaria totalmente inventada com alguém que acredita em mágica.

Sim, eu sei que existe o argumento que não tem quase diferença entre as duas coisas ultimamente, que discutem religião como se fosse política e política como se fosse religião, mas existe algo no âmago de cada questão que gera a diferença fundamental: há uma chance ínfima de uma discussão política ter algum resultado positivo para a humanidade.

Discutir se o amigo imaginário de boa parte da população mundial é imaginário ou não dá em nada há… milênios! É uma questão de lógica simples: adianta discutir se unicórnios são bons ou ruins considerando que unicórnios não existem? Adianta ter algum argumento sólido para convencer uma pessoa que… acredita em unicórnios? Não, né? Não tem muito pra onde correr, por mais que você tente acessar algum ponto comum na mente daquela pessoa, ela ainda acredita em unicórnios.

Tem uma falha fundamental na visão da realidade dessa pessoa. É que nem tentar rosquear com mais força uma lâmpada queimada. Tem algo básico faltando ali para fazer aquela sequência lógica funcionar. No caso da política, por mais imbecil que a outra pessoa pareça, existe algo real para discutir. Podemos discordar sobre a melhor forma de melhorar a qualidade de vida do ser humano, mas pelo menos temos algo no que nos basear: o que é qualidade de vida.

Se eu estou discutindo religião com uma pessoa, não tem uma fundação para desenvolver a conversa. Ou você compartilha da fantasia dela, ou não compartilha. Pra ver como é algo fundamental, por mais que a ideia básica de várias religiões sejam as mesmas, boa parte dos problemas que enfrentamos até hoje com religiões se baseiam na discordância sobre qual ser fantasioso é melhor.

Religião A acha que o nome do ser mais poderoso do universo é José, religião B acha que o nome do ser mais poderoso do universo é João. Religião A ataca religião B e massacra sua população em nome de José. Religião B guarda rancor e tenta se vingar em nome de João. Nenhum deles nunca viu José ou João, só ouviram falar que alguém viu.

Tem um buraco aí, dos mais fundamentais: seres vivos usam um sistema de causa e consequência para pensar. Você e seu cachorro sabem reconhecer padrões e se adaptar a eles. Você consegue ir um pouco mais longe. Mas é uma limitação fundamental da consciência: você sempre vai ser perguntar o que veio antes e o que acontece depois. Eu sou muito ateu, mas é claro que me incomoda não entender a causa da minha existência. É um pensamento que sempre vai estar lá, afinal, o grupo de macacos pelados aos quais eu pertenço evoluíram dentro de um universo com uma seta do tempo apontando para frente.

E você escolhe se vai deixar esse incômodo te dominar ou não. É efeito colateral de pensar, e não tem solução. A partir do momento em que uma forma de vida desenvolve um cérebro, ela está amarrada na percepção temporal e no reconhecimento de padrões. Aliás, eu até argumento que isso é literalmente inteligência.

Eu não pirei e mudei de assunto, é que meu argumento sobre religião ser pior de discutir que política é baseado nisso: tem um bug fundamental na mente humana que nos faz ficar obcecados para entender de onde as coisas vieram e prever o que acontece com elas depois. Se você não cuidar dessa parte da mente, ela deixa entrar qualquer bobagem que sacie essa ansiedade intelectual. O ser humano aprendeu a cobrir esse buraco com religiões.

Pior, quase todo mundo nem pensa nesses termos: religião é algo “natural” da mente, enfiado na cabeça de crianças e que raramente é contestado durante o resto da vida. Já percebeu que quase todo mundo que entra em “crise de fé” experimenta outras religiões? O buraco fundamental está lá do mesmo jeito, por algum motivo a pessoa desconfiou de José, e a solução só pode ser acreditar em João. Ou, decidir que no final das contas o melhor era José mesmo e dizer que agora sua fé está mais sólida…

De novo, ninguém viu José ou João, só umas pessoas meio estranhas disseram que viram. E quase sempre essas pessoas precisam de dinheiro para contar para mais gente o que José ou João disseram para ela. Se você não percebe esse golpe ridiculamente óbvio, é porque custa muito caro para você não ter nada tapando aquele buraco na sua mente. Normalmente ninguém cai nessas histórias furadas em outras partes da vida.

Se eu chegar para você dizendo que um bode azul falou comigo no alto de uma montanha e disse que masturbação o deixa muito bravo, você vai me dar dinheiro para contar essa história para outras pessoas? Você vai me visitar toda semana para saber o que mais o bode azul gosta ou não gosta? Você vai tomar decisões pensando sobre o bode azul da montanha?

Imagina só fazer isso? Bom, algo em torno de 9 em cada 10 seres humanos fazem isso. Adianta discutir alguma coisa com quem precisa TANTO cobrir o buraco de não saber causa e consequência da própria vida que acredita num papo furado desses? É irritante. Eu já tentei. Eu juro que já tentei. Sendo um ateuzinho babaca e sendo um ateu educado. Já ataquei, já tentei ser compreensivo, já tentei até me colocar no lugar da pessoa. Não muda nada: está no fundo da mente da pessoa. Se ela estiver pronta para sair dessa ideia maluca, ela sai; senão você está falando com as paredes. E francamente, é escroto sair chutando as muletas dos outros.

Política ainda tem algo de real. São ideias que se encaixam no mundo ao nosso redor, e por mais imbecil que seja a opinião da pessoa, pelo menos é sobre algo que existe. Não é um buraco inerente à condição humana, é algo que foi construído um passo depois da crise existencial básica do ser humano e pode ser desconstruído.

As duas são chatas, mas religião não sei nem se pode ser categorizada como discussão racional. Prefiro ter algo sobre o que falar…

Para dizer que meu ateísmo é uma religião, para me agradecer por te lembrar de uma ansiedade ancestral, ou mesmo para dizer que pior é discutir qualquer coisa em geral: somir@desfavor.com

SALLY

O que é pior, discutir política ou religião?

No Brasil, nenhum dos dois tem que ser discutidos pois ambos estão baseados em fé cega. Mas, eu ainda acho pior discutir política.

A religião tem seus preceitos expostos de forma clara, geralmente em um livro ou um compilado de regras, como por exemplo, e a Bíblia. Há uma base para discutir e apontar a incoerência daquilo: está escrito. Política não, é um emaranhado de atitudes duvidosas que ficam a cargo do subjetivismo de cada um. Imagina o inferno de discutir se Fulano fez ou não fez algo ou com qual intenção foi feito?

Eu imagino que ninguém aqui é inocente de acreditar que no Brasil existem partidos ou ideologias que seguem seus preceitos. No Brasil existe disputa por poder. Político faz o que for preciso para se eleger, inclusive cuspir nos ditames do partido ou da ideologia que diz defender. A falta de compromisso com partido ou ideologia é tão gritante que eles mudam de partido como quem troca de cueca. Então, discutir política acaba sendo discutir pessoas, um verdadeiro inferno.

Fora que nos últimos anos, criticar o político de estimação de alguém pode ser ainda pior do que criticar a mãe da pessoa. Parece que todo o fanatismo que ia para futebol foi canalizado para política. E se for uma discussão pública, por exemplo, em redes sociais, é pior ainda: pessoas de fora, que você nem conhece e que não foram convidadas a participar da discussão vão se meter, te odiar, te xingar e te infernizar.

É inacreditável como o brasileiro adota político de estimação. E ficam cegos. O político dele é infalível, incorruptível, incriticável. Se fizer alguma crítica a pessoas refuta ou desacredita, diz que é invenção, nega. É uma cegueira assustadora. Não dá para discutir com pessoas assim. Onde entra o fanatismo sai qualquer possibilidade de diálogo.

Por mais que existam fanáticos religiosos, não acho que o brasileiro tenha a força de vontade e disciplina para se enquadrar nessa categoria. O próprio brasileiro flexibiliza as normas de sua religião, escolhendo aquelas que vai cumprir e aquelas que não. Ou por acaso tem alguém casando virgem? Acho que não, né? O fato de não levar a religião tão a sério dá margem para alguma flexibilidade na hora de discuti-la.

Além disso o Brasil é a capital mundial do sincretismo religioso: mistura de Iemanjá à Virgem Maria, se apega a qualquer santinho, mesmo que não reconhecido oficialmente por sua religião, se achar que ele possa “ajudá-lo” de alguma forma. A quantidade de “Nossas Senhoras” genéricas que existem é incontável: Nossa Senhora Desatadora dos Nós, Nossa Senhora dos Vestibulando, Nossa Senhora dos Traídos… Tem pra todo gosto. A flexibilidade e jeitinho brasileiro ajudam com que eles não levem religião tão a sério a ponto de brigar por ela.

E, por incrível que pareça, poucas pessoas realmente conhecem a religião que seguem. Aderem a ela por uma herança familiar, por gostar do status de pertencer a aquele grupo ou por buscar nela um conforto, uma muleta, para lidar com questões que “de cara limpa”, só a pessoa com a realidade, não conseguiria suportar. Isso também favorece na hora da discussão. Muitas vezes um ateu conhece a religião melhor do que o próprio religioso e é capaz de mostrar novos pontos de vista.

Em política não tem ponto de vista: o meu político é o bom e o resto é tudo safado e quem discorda de mim está sendo enganado/manipulado pela mídia. E as pessoas encontram aval para ser assim, alimentadas por milhões de informações mentirosas em grupos de whatsapp e demais redes sociais, que corroboram com seus pensamentos fanáticos.

Como discute com alguém que diz ter “provas cabais” que coronavírus é uma mentira? Que recebeu um “estudo” falsificado atestando isso? Que acha o Lula inocente vítima de perseguição judicial? Que acha que não tem corrupção no governo Bolsonaro? Não se discute, apenas se gera um impasse da pessoa dizendo que é verdade e você dizendo que é mentira.

Outro fator importante: ninguém é obrigado a ter religião no Brasil. Ninguém é chamado a declarar sua religião de 4 em 4 anos. Sua religião não afeta a inflação, o preço da comida, a qualidade do ensino. É muito mais fácil discutir religião, pois se a pessoa quer ser trouxa de pagar 20% do seu salário para um pastor, o problema é dela e quem se ferra é ela.

Política não. O que um anencefálico faz te prejudica, prejudica a sociedade, afunda o país. É mais difícil ter calma, serenidade e educação com idiotas que estão contribuindo para afundar um país. Dificilmente alguém discute política pelo prazer de argumentar, geralmente se discute por desespero mesmo, para tentar evitar que o outro vote com a bunda e faça a sua vida piorar.

Tem também o fato de que religião é uma discussão não datada. Você conversa sobre isso quando quer, quando está com paciência. Não é um assunto saturado, discute-se eventualmente. Política não, política ferve e vira assunto do momento em alguns períodos – e é discutida até a morte. O inferno que as pessoas fazem em anos eleitorais é muito pior do que qualquer panfletagem religiosa.

Uma pergunta simples: no Brasil, o que é mais comum, ver alguém brigar por política ou por religião? Pois é, política é um assunto mais propenso a desentendimentos atualmente.

Tem famílias que brigaram entre si por política. Tem gente que parou de falar com a própria mãe. Tem gente que perde o emprego por causa de briga sobre política. Por mais que religião seja um assunto polêmico, ela não tem mais a força e a passionalidade que uma discussão política tem.

Acho que o brasileiro, por motivos de respeito, desconhecimento ou cansaço, aprendeu que cada um tem a religião que quer, torce para o time quer, come o que quer. O lado patrulhador de opinião debandou todo para a política. Em política se você não concordar com o interlocutor você é considerado burro/enganado/manipulado e a pessoa fica lá, não discutindo ideias mas sim tentando te “converter”, te fazer mudar de opinião. Um verdadeiro inferno, como é um inferno discutir com qualquer fanático.

Se você discutiu política recentemente com um brasileiro médio, tenho certeza de que vai concordar comigo: é melhor discutir religião.

Para dizer que o melhor é não discutir nada nunca, para dizer que o melhor é discutir os dois ou ainda para não comentar por não querer discutir: sally@desfavor.com

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Comments (8)

  • Discutir política, atualmente, é mil vezes pior. Basta você discordar de alguém para ser chamado de todos os xingamentos possíveis, imagináveis e até inimagináveis. Se discutir política com alguém, você vai estar implorando para acabar se estressando…

  • Antigamente eu achava religião, agora tudo virou politica e está insuportável VIVER. Política com certeza é o assunto, que pelo menos aqui no Brasil, é o mais sensível de se comentar.

  • Dadas as circunstâncias atuais, digo que política é mil vezes pior de ser discutida. Se bem que aqui no Brasil não se discute política, tudo o que temos são um bando de primatas defendendo qual piroca de político eles querem enfiar no próprio cu. Eu que não perco o meu tempo batendo palma pra maluco dançar.

  • Política é a nova religião. O que além de muita fé explicaria a seita bolsonarista manter adeptos, até mesmo depois que o líder religioso deles falou na live que vacina causa aids?

  • Concordo com o Somir. Discutir política é mais produtivo pra humanidade e no fundo a maioria das pessoas nem é tão religiosa assim, até em ditaduras islâmicas tem gente contrabandeando bebida alcóolica e foda-se.
    E num país (em teoria) secular, um político pode causar mais impactos do que o padre velhinho da igreja de São João de Pirapopoca do Norte.

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