Mudando as moscas.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu hoje que o Auxílio Brasil, programa que vai substituir o Bolsa Família, seja de R$ 600. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) propõe que o valor do benefício seja de R$ 400. LINK


Passamos aqui pra te lembrar que no Brasil só mudam as moscas. Desfavor da Semana.

SALLY

Eu tenho uma amiga que mora em um país de temperaturas extremas: quando faz calor, faz muito calor e quando faz frio, faz muito frio. Ela passa metade do ano reclamando do calor e torcendo para o inverno chegar e, quando o inverno chega, ela passa a outra metade do ano reclamando do frio e torcendo para o verão chegar. O fato é que ela não está feliz em nenhum dia do ano, e não adianta chegar verão ou inverno, o sofrimento dela vai continuar, de forma cíclica.

Me parece que o mesmo círculo vicioso está acontecendo com o Brasil. Vocês se lembram do motivo real pelo qual o Bolsonaro foi eleito? Foi uma resposta ao “não aguentar mais” o PT. Vocês percebem o que faz com que Lula esteja em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais? O fato de o povo não aguentar mais o Bolsonaro.

São dois lados da mesma moeda, dois extremos. E, como todo extremo, são ruins. Mas vai além disso: muda apenas a alegoria que cada lado usa para panfletar, em essência, são a mesma merda. Tanto faz Lula ou Bolsonaro, o esquema de corrupção, o descaso com o povo, a política populista, tudo continua igual.

Como bem disse o Somir quando conversávamos sobre o tema: de um lado são corruptos que acham bonito dar a bunda, o outro lado são corruptos que acham pecado dar a bunda. Ambos os lados errados, dá a bunda quem quer, não é feio nem bonito, muito menos relevante para escolher o gestor de um país.

Meter questões pessoais em política é de uma imbecilidade sem precedentes. Quem quiser continuar dando a bunda vai continuar, quem não dava continuará não dando. Político é um administrador dos bens públicos, um gestor. Pouco importa o que ele pensa sobre religião, sexualidade ou se usa pochete. Tem que saber gerir um país.

Mas, como no Brasil são todos iguais (igualmente corruptos, despreparados e incompetentes), acabam ganhando os eleitores por essas questões periféricas: voto no Fulano por ele apoiar/não apoiar dar a bunda. Ou, pior ainda, voto no Fulano pois ele vai ser melhor para mim, pois vai aumentar meu salário. Voto egoísta, sem pensar na coletividade, não vai trazer nada de bom a ninguém.

E o brasileiro parece não ter a menor ideia de que são todos a mesma merda. Ele genuinamente parece precisar acreditar que tem um salvador no meio de todos os candidatos. Antes havia alternância de partidos traindo sistematicamente o eleitor, mas agora parece que piorou: a alternância chegou ao seu grau máximo e começa a ser de pessoas: Lula e Bolsonaro. Vota em um para tirar o outro, ciclicamente.

Na prática, o esquema de corrupção continua o mesmo. E como se houvesse uma mesma orquestra, tocando sempre a mesma música e, de quatro em quatro anos se alternasse o regente. Independente de quem seja o maestro, a música vai continuar igual. E isso, meus queridos, não é culpa apenas dos políticos não.

O povo tem sua parcela de culpa. Essa tática assistencialista só existe por um motivo: dá certo. Enquanto o povo se vender, vai ter quem compre. Enquanto o povo preferir quem dá o peixe do que quem ensina a pescar, esses merdas terão garantido seu lugar no poder, para destruir o país em troca de um agradinho ao povo. Enquanto o povo levar a vida na esculhambação, vai continuar autorizando político a agir na esculhambação.

É o que sempre falamos aqui: políticos que vencem eleições são o reflexo do povo que votou neles. Se o povo não melhorar, vai continuar votando em pessoas tão medíocres quanto eles. Nada disso se muda prendendo político ou matando político: ou muda o povo, ou vai ser sempre assim.

O que mais me entristece é essa crença falsa de que se a pessoa que está no poder está fazendo cagada, então, para resolver, tem que votar no oposto político dele. Não. Todos os extremos vão fazer cagadas, e as mesmas, só que com alegorias diferentes.

A real é que brasileiro não quer um país sério, pois o ganho secundário na esculhambação é enorme. Brasileiro, hoje, não suportaria um país com leis e normas rígidas, com fiscalização e punição. Brasileiro quer flexibilidade, jeitinho, contatos, favorecimento. Liberais para consigo mesmos, conservadores para com os vizinhos.

Quantas décadas mais vão ter que passar nessa alternância de poder entre dois extremos merdas para perceberem que não é o caminho? Enquanto isso a educação se degrada, a ciência sofre cortes violentos e o brasileiro se torna cada vez mais ignorante, reforçando este círculo vicioso de um povo medíocre que vota em políticos medíocres.

“Ain mas o que eu posso fazer a respeito?”. Muita coisa. Começando por melhorar a você mesmo. Se cada um fizer isso, tudo muda. “Ain mas não vão fazer”. Bem, se você tem essa certeza, seria o caso de se perguntar o que está fazendo em um lugar que não tem a menor perspectiva de melhora. Tem vários países dando casa, dando subsídio mensal, para imigrante que vai morar e trabalhar neles.

“Mas eu não posso sair do Brasil por outros motivos que não são financeiros”. Certo, faça sua parte: seja melhor, seja ético, seja correto e não alimente essa polarização. Não replique, não discuta, não dê voz para nenhum dos dois lados. Mantenha-se acima dessa guerrinha de esterco. Se agora já está voando merda para tudo quanto é lado, em ano de eleição vai ser ainda pior. Não se deixe sugar por essa espiral de bosta.

Vote naquele que você acha que seria o melhor administrador para o país. Não vote em quem já foi eleito e fez merda. Vote pensando no bem-estar coletivo e não em interesses pessoais. Vote em quem sua consciência manda votar, ainda que você ache improvável que essa pessoa vença. Informe-se, acompanhe o que essa pessoa já fez como político: para tomar qualquer decisão na vida é preciso estudar.

Você só pode mudar a você mesmo, mas, eventualmente, pode ser que sua mudança inspire algumas pessoas que te cercam a quererem mudar também. Seja um farol, uma luz que mostra o melhor caminho. Talvez ajude outros a encontrarem esse caminho também. Se não puder fazer isso, ao menos não alimente esses merdas dando ibope para briga, batendo boca, tomando lados. Não vai resolver de vez o problema, mas já é um bom começo.

Para dizer que o melhor caminho é o aeroporto, para dizer que dar a bunda é uma questão de relevância política para você ou ainda para dizer que está mais preocupado em botar comida na mesa do que acompanhar o que político faz ou deixa de fazer: sally@desfavor.com

SOMIR

Considerando que Lula é o candidato com maior potencial de ganhar as próximas eleições, podemos perceber que vamos nos enfiando num ciclo vicioso de populismo, Bolsonaro foi eleito para tirar Lula, Lula vai ser eleito para tirar Bolsonaro. Nenhum dos dois vai aprender nada com isso, e tenho quase certeza que o brasileiro também não.

O Brasil tem um tipo de problema comum na administração pública, mas exagerado pela incompetência e a corrupção de povo e agentes públicos: gasta muito mal o dinheiro que tem. Não é como se estivéssemos num país que não tem de onde tirar riquezas, até por isso eu nem considero um milagre não estarmos vivendo num mundo Mad Max: o Brasil tem sangue o suficiente para ser sangrado por 500 anos e ainda estar de pé.

Não é a primeira vez que eu escrevo sobre isso, em resumo, meu argumento é que o Brasil tem tantos recursos que faz parte da identidade do povo explorar tudo o que puder enquanto puder. Outros países e povos foram criados com uma ideia de escassez, em terras menos férteis. Isso impacta a mentalidade de uso de recursos e a visão de longo prazo.

Um exemplo é a Noruega: descobriram petróleo algumas décadas atrás, e o país se organizou para pegar todo o dinheiro que vinha disso e fazer um fundo de investimentos para todo o país. O fundo acumulou mais de um trilhão de dólares, e está rendendo até hoje. Só podem gastar com causas ambientais (para compensar a exploração de petróleo) e necessidades urgentes do povo. A verba de ajuda na proteção da Amazônia que o Brasil perdeu por birra do Bolsonaro vinha desse fundo também.

Descobriram petróleo no Brasil, e todo o dinheiro que vem dele já está comprometido com gastos do dia a dia dos governos. No segundo que entrou o dinheiro, ele já estava gasto com salários, juros e tudo mais o que podiam fazer com ele. O Rio de Janeiro (estado) é o que mais recebe dessa verba, e está mais no vermelho agora do que estava antes de começar a exploração em sua costa. Incompetência e corrupção fazem parte desse processo, mas há a mentalidade de “gastar agora” profundamente enraizada na cabeça do brasileiro.

Não estou dizendo que sou contra darem dinheiro para um povo cada vez mais miserável, mas sou contra o caráter reativo de todo esse processo. Tenta resolver na hora o quanto pode dar, tenta dar jeitinho no teto de gastos, faz isso pelo tempo exato para durar até as eleições… é tudo feito pra agora. E isso não é invenção do Bolsonaro: o primeiro Bolsa Família foi criado pelo PT mais ou menos do mesmo jeito, de qualquer jeito e sem previsão de futuro. Quase duas décadas depois e muita gente continua presa na armadilha do assistencialismo: não podem progredir economicamente porque o dinheiro não é suficiente para se preparar melhor para o mercado de trabalho, e também não podem avançar muito porque senão perdem o direito de receber a acabam com menos dinheiro que antes.

Se vai dar dinheiro para o povão, tem que ter um plano mais longo para que esse povão consiga aumentar a arrecadação do Estado e tornar a economia mais condutiva para crescimento do PIB. Senão é só esmola mesmo. O PT deu o primeiro passo, mas parecia não saber mais o que fazer depois. Talvez tenha sido incapacidade, talvez tenha sido intencional: povo dependente do Estado para comer não troca de presidente. Então, imaginem a quantidade de erros cometidos pelo partido para que o povão decidisse colocar outra pessoa no lugar?

Bom, não o suficiente para as pessoas se lembrarem alguns anos depois. Bolsonaro entrou como uma solução mágica “para mudar tudo isso aí”, mesmo que durante a campanha tivesse falado seguidas vezes que não sabia o que ia fazer ainda em diversos setores importantes da máquina estatal. E do alto da sua inépcia, depois de quase 3 anos no poder, sua solução para os problemas é fazer a mesma coisa que o PT: vender o futuro para comprar a próxima eleição. Dilma estava enforcando a matriz energética do país enquanto mantinha os preços artificialmente baixos, na expectativa de ser reeleita e depois descobrir como resolver o problema.

Deu certo até a crise ficar grande demais, e aí, todos os inimigos feitos durante o governo petista conseguiram agir ao mesmo tempo para fazer o impeachment. Que sim, estava correto, mas não, não foi votado por gente que queria o melhor para o país. Se ainda estivesse confortável para deputados e senadores, Dilma nunca teria saído. Bolsonaro segue a mesma cartilha: motivo pra sair já tem, faz tempo. Mas ele conseguiu manter a coisa mais confortável para o Legislativo, e não tem nenhum homem-bomba que nem o Cunha para derrubá-lo.

Eu não digo que estaríamos na mesma situação se o PT ainda estivesse no poder, eles provavelmente não teriam esse “ponto de honra” de serem negacionistas da ciência; mas difícil acreditar que nossa economia estivesse muito melhor. Ainda estariam usando recursos públicos para pagar por popularidade temporária e deixando o povão sem muito prospecto para o futuro.

Não é à toa que nessa parte de distribuir dinheiro Lula concorda com Bolsonaro: é uma estratégia testada e aprovada em Repúblicas das Bananas feito o Brasil. Ninguém vai te incomodar se você estiver sendo irresponsável com as contas futuras do país, a coisa só fica feia quando o brasileiro tem um problema imediato. E para resolver seus problemas imediatos, só pensa em soluções imediatas: colocar o Lula de volta para fazer a mesma coisa que o Bolsonaro sem ficar reclamando do que os outros fazem com a bunda. Porque sim, essa acaba sendo a única diferença. Diferença suficiente para o brasileiro, pelo visto: desde que compartilhe sua visão sobre o que os outros devem ou não fazer no sexo, pode ser um irresponsável e manter o país em eterno processo de endividamento!

A democracia não funciona no Brasil. O problema é que a alternativa também não funciona: nossas ditaduras foram corruptas e irresponsáveis do mesmo jeito. O povo que se vende por qualquer coisa é o mesmo independentemente de quem está no poder. Não é o governo, é o povo. O povo acha que os recursos do país são infinitos. Acha que nossa vocação é extrair, não produzir. Por isso vota em quem for mais populista, porque reforça essa esperança de que a distância entre o perrengue e a riqueza é só um pouquinho de sorte. Que não vamos precisar de décadas (talvez séculos) de muito esforço para começar a virar o jogo.

Não adianta votar no corrupto incompetente vermelho, azul ou verde, adianta não ser esse tipo de povo imediatista e torcer para contaminar mais gente. Não tem atalho, não teve pra país nenhum desse mundo, o Brasil que não vai ser a exceção.

Para dizer que vai votar no Daciolo porque só por Deux mesmo, para dizer que achou que o DS seria a pizzaria do Senado, ou mesmo para dizer que daqui a pouco esse país desertifica e o povo aprende: somir@desfavor.com

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Comments (16)

  • Enquanto o Brasileiro Mé(r)dio não perceber que o “salvador” que tanto procura lá fora, nos políticos, está na verdade dentro de si próprio, nada vai mudar.

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  • Mas foi isso mesmo, votei no Bozo pra tirar o PT e agora vou votar no Lula pra tirar o Bozo. Por mais que eu vote em algum que eu ache legal no 1 turno, sei que no 2 só vai ter esses aí. Com toda a roubalheira petista a gente não via preços tão caros nos mercados. Vc viu que tem mercados com dispositivo anti roubo nas bandejas de carne? Na época do Luladrão as famílias pagavam caro por ossos e pés de galinha? Isso é o fim dos tempos.

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    • São tempos diferentes. Lula pegou um tempo onde todos os países do mundo estavam mais estáveis e com mais fartura de recursos. Se colocar o Lula hoje, a crise vai continuar.

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  • “Tem vários países dando casa, dando subsídio mensal, para imigrante que vai morar e trabalhar neles”

    Como quais? Todos que eu consulto pedem, no mínimo, ensino superior/qualificação específica, uma vaga de emprego ou estudos já confirmada no país de destino, e/ou uma fonte de renda comprovada. E sim, eu consulto os critérios de imigração pelo site das próprias nações.

    Concluí que, se tu só tem ensino médio ou tá desempregado (e ninguém te indicou para nenhuma vaga no exterior), não importa teu desespero ou tuas intenções, não vai ganhar sequer atenção alguma.

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    • Dos que eu sei que estão oferecendo vagas, tem Itália (tem até a notícia no A Semana Desfavor) e em algumas regiões a única condição é morar e trabalhar no local, pode ser plantando, pode ser com uma quitanda, pode ser do jeito que você quiser desde que movimente a economia.

      Austrália também, tenho uma amiga que foi trabalhar como cozinheira. Tem uma lista de funções (não profissões, funções) que, se a pessoa estiver disposta a desempenhar, vai com tudo pago. Tem outros países que, com diferentes níveis de exigência, aceitam imigrantes de braços abertos. Procura no Google que você encontra os detalhes.

      Ainda tem a possibilidade de ir com tudo pago e bolsa para estudar. Aí, se você tiver um bom resultado, acaba conseguindo trabalhar e ficar no local.

      Dá uma lida aqui e procura outras opções no Google: https://veja.abril.com.br/mundo/paises-desenvolvidos-lancam-novos-programas-de-imigracao-para-brasileiros/

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  • Kkkk
    O buraco é mais embaixo.
    Sem diminuir o tamanho do ralo da máquina roedora do $$$ público jamais que os cofres aguentarão pagar os tais auxílios por mais necessários que eles sejam.
    Aumentando impostos? Alta dos custos que gerarão mais inflação e mais custos, é um loop.
    A melhor ação de freagem até hoje e que doeu pra caramba foi o golpe que o Collor nos deu da noite para o dia.
    Funcionou, mas deu em nada devido a ganância do próprio governo.
    Sem cortar 3/4 da máquina pública jamais teremos saída.
    É muita gente encostada nos encostados.
    Muito funcionário público mamando o leite dos necessitados.
    Nem lula nem bolsonaro.
    O Brasil está em desordem e sem progresso, como sempre.
    É de chorar.

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  • Isso vale pro tráfico também. Traficante rouba gente, mata gente, raspa cabeça de namorada, mas são bem vistos porque botam pula-pula na rua pros pirralhos brincarem e fornecem gato que permite ar condicionado 24h por dia nos barracos. Não sinto a menor pena dessas pessoas, sinto pena é de mim por ter que sustentar isso (por vários motivos sair não é uma opção pra mim). O que me consola é que talvez eu já esteja morta quando essa “bolha” de recursos naturais do Brasil estourar.

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  • Pensando agora, como vários recursos são finitos, se acontecesse uma catástrofe global que fizesse a humanidade regredir décadas ou séculos não teremos recursos pra voltar pra onde paramos, não é?

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  • “daqui a pouco esse país desertifica e o povo aprende” Nah, vão simplesmente sair em multidões pra América do norte ou Europa e continuar sugando riquezas (no caso, o dinheiro do contribuinte americano/europeu).

    Se bem que recentemente eu li que já tem países europeus que estão repensando algumas políticas de bem-estar social porque está ficando inviável sustentar tanto refugiado cuja única ocupação é fazer filho e perturbar a população local com sua cultura pré-histórica. Vamos ver no que vai dar…

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