A humanidade já balançou várias vezes, mas ainda não caiu. Sally e Somir fazem um exercício imaginativo sobre uma catástrofe controlada: Todos os países menos um vão ser eliminados. Evidentemente, os dois discordam sobre qual deve ser o sobrevivente… os impopulares plantam suas bandeiras.

Tema de hoje: Se você tivesse que escolher apenas um país para sobreviver e repovoar o mundo, qual seria?

SOMIR

Japão. Por motivos de insanidade sem fim! Juro que não sou weeaboo, otaku ou algo que o valha, mas o país do sol nascente me fascina desde criança. Não pelo local, mas pela cultura pop absolutamente insana. Claro, não negaria me mudar para um lugar mais civilizado, mas é importante entendermos que eu não estou aqui defendendo uma suposta superioridade japonesa sobre o resto do mundo.

Eu acho que eles têm defeitos. Muitos defeitos. Uma sociedade que vive ao redor do estresse, aparências e repressão não é o melhor que a humanidade pode oferecer, mas é só nessa fornalha de mentes que podemos ter uma cultura tão incomum! A insanidade que existe por lá é o contraponto da disciplina pela qual são tão famosos.

Se for pra fazer as mesmas coisas, nem precisa de tanta gente assim no mundo. Imagina o que os japoneses fariam com o resto do planeta para usar? A era mais criativa deles, na minha nunca humilde opinião, foi entre os anos 80 e 90, quando estavam expandindo imensamente sua economia. Toda maluquice e/ou depravação foi para o mercado, as coisas só foram acalmar um pouco nessas últimas décadas por causa de uma recessão infindável que não deixa o japonês sonhar de novo.

Mas com um mundo para chamar de seu, até mesmo os herbívoros sairiam da toca em busca de aventuras. É um povo que eu gosto de ver se divertir, porque quanto mais o fazem, mais inexplicáveis as coisas ficam. A humanidade precisa disso, é só o caos que constrói o nosso futuro. E não o caos do brasileiro, que é basicamente cagar no meio da sala, é o caos de criar elementos culturais e ambientes impossíveis de se encontrar no resto do mundo.

Sem ninguém pra encher o saco deles com lacração (o Japão está caindo aos poucos), poderiam voltar a criar suas maluquices em paz, e ainda ter um mercado que passaria séculos se expandindo. A opção da Sally não é ruim, mas é sem graça: seria mais do mesmo, um pouco mais chique. A minha opção é garantia de depois de alguns séculos a humanidade está vivendo numa utopia tecnológica ou uma distopia desértica. Os japoneses podem tudo isso.

Até porque, são poucos os povos que conseguem se organizar tão bem. Você pode até achar que eles vivem de um jeito bizarro, mas escolheram um plano e foram em frente. Japonês não fica pensando na morte da bezerra sem fazer nada que nem brasileiro, não entra em conflito por qualquer merdinha que nem o americano, e não são tão “certinhos” quanto os europeus. Porque debaixo dos panos, é um povo que não liga muito para agradar a comunidade internacional. Caçam baleias, vendem gibis de crianças peladas, e azar de quem não gosta.

Precisa de um pouco de pimenta também. Não se esqueça que o cordial povo que te cumprimenta com uma reverência agora arrebentou com a Ásia toda das formas mais cruéis menos de um século atrás. Não estou dizendo que esse é o ponto positivo, estou só dizendo que é melhor para o mundo ficar com um país que sabe o que é fazer merda, e das grandes.

E que soube apanhar quando perdeu. Tomou duas bombas atômicas na cabeça e menos meio século depois era uma economia muito maior que o Brasil. Quando esse povo foca em alguma coisa, vai até o fim. Prefiro que a humanidade esteja na mão deles, que até pouco tempo atrás eram selvagens e agora são muito experientes no que tange o mundo moderno. É a mistura de conservadorismo e inovação que nos trouxe até o século XXI.

Eles se tornaram uma das culturas mais conhecidas do mundo em pouco tempo, e já influenciaram diversas gerações. E fizeram tudo isso numa ilha que vive tremendo e sendo atacada por ondas gigantes. Imagina só o que essa gente faz com o mundo todo ao seu dispor?

Eu quero ver maluquice, eu quero ver avanços científicos abrindo um pouco de mão de ética, eu quero ver mais robôs e menos Gretas. O Japão parece ser o país mais bem preparado mentalmente para um mundo cheio de problemas: já tiveram quase todos, e estão aí para contar a história.

Para quando os alienígenas finalmente chegarem, nós termos algo bacana para mostrar para eles. Porque se depender do velho mundo estagnado e do novo mundo emburrecido, vamos passar é vergonha. Se eu puder escapar dessa tragédia, excelente, mas se não puder, que pelo menos o mundo tenha alguma graça ainda.

Para dizer que eu sou Ota Ryu, para dizer que escolhe o Paraguai só para trollar o mundo, ou mesmo para dizer que vota no país que estiver na hora: somir@desfavor.com

SALLY

Se você tivesse que escolher apenas um país para sobreviver e repovoar o mundo, qual seria?

Suíça, pois o que eu entendo como um mundo melhor é um povo organizado, pontual e educado. Plus: sabem fazer o melhor chocolate do mundo (não, eu não acho que seja o belga).

Não é apenas uma visão de fora, é o relato da parte da minha família que vive lá: se existe uma palavra para definir bem a Suíça é “planejamento”. Além de serem extremamente organizados, são precavidos, cautelosos e responsáveis.

Por exemplo, apesar de ser um país sabidamente neutro diante de qualquer conflito internacional, a Suíça possui abrigos nucleares que são capazes de manter toda a população em segurança por até um ano, na remota possibilidade de um eventual ataque. É esse grau de segurança e planejamento que eu gostaria de ver no mundo.

A Suíça atingiu um patamar de segurança que é inimaginável para nós. Quando falamos de crimes, os números beiram o zero: 0,4% da população já sofreu um assalto a mão armada, por exemplo. É esse modelo social que eu quero ver replicado pelo mundo. “Mas Sally, isso só é possível por serem poucos habitantes”. Ótimo, que reproduzam pouco ao repovoar o mundo, assim todos os seres humanos vivem dignamente distanciados.

A Suíça tem um dos maiores salários-mínimos do mundo, no valor de quase cinco mil dólares (o que corresponderia hoje a quase 30 mil reais). Isso é o mínimo que um trabalhador, qualquer trabalhador, pode ganhar no país. Por mais que o custo de vida seja caro, eles pagam o melhor salário do mundo. Plus: você pode contar com todos os serviços públicos disponíveis, pois, ao contrário de outros países, eles funcionam.

A taxa de desemprego é uma das mais baixas, pouco mais de 3% da população. E, mesmo se você ficar desempregado, recebe um auxílio mais do que digno para sobreviver. O mercado é estável, a moeda é estável. A educação é de qualidade. E os filhos da puta ainda são pontuais e fazem queijos e chocolates maravilhosos!

Quando uma pessoa é correta no Brasil ela é chamada por nomes pejorativos. Fulano é “certinho”. Repararam no diminutivo pejorativo? Ser correto, ser planejado, seguir as normas são exceções. Na sociedade suíça é a regra, e os “certinhos” são apreciados. Quem eu quero que repovoe o mundo, quem tenta ser esperto ou quem se comporta conforme o combinado e pensa na coletividade?

Para ter um cachorro na Suíça você precisa fazer um curso. Um curso. Um fuckim´curso onde a pessoa é ensinada sobre as necessidades do animal, sua educação, sua alimentação e receberá todas as informações para entender se quer/pode ter um cachorro ou não. Além disso o dono deve tirar uma licença específica para o animal que terá (não é qualquer um que pode ter qualquer raça) e pagar um seguro, caso seu cão eventualmente cause algum dano ao patrimônio de alguém ou a alguma pessoa. Onde muitos verão exagero, eu vejo sociedade de sucesso.

E não é só sobre cachorros. Qualquer animal demanda uma série de precauções ou exigências. Até para ter um porquinho da índia você deve respeitar algumas normas, como por exemplo, não pode ter o animal sozinho, apenas em pares, pois causaria sofrimento ao bichinho viver solitário. Meus queridos, uma sociedade que tem tempo e dinheiro para se preocupar com o bem-estar dos porquinhos da índia, ela zerou a vida.

Quer avaliar o quanto um país é seguro e confiável? Basta olhar para o quanto o resto do mundo confia em colocar seu dinheiro lá. Ricos do mundo todo colocam seu dinheiro em contas na Suíça. Sabemos que dinheiro pode não ser o mais importante na vida, mas também sabemos que, na média, o mundo o trata como se fosse o mais importante na vida. Então, que pessoas do mundo todo confiem e coloquem seu dinheiro lá é uma prova de segurança e estabilidade.

Pode procurar, pode pesquisar, tudo que vem da Suíça é bem planejado, eficiente e voltado para o bem-estar da coletividade. Até o fuckin´ cachorro que eles criaram, o São Bernardo, é treinado para ser relevante: salvar a vida de seres humanos. E o cachorro ainda te salva dando bebida gratuita!

A grande pergunta que todos devem se fazer é: que tipo de mundo vocês gostariam de ver reconstruído. Povo nenhum é uma garantia de reconstrução que vá dar certo, mas obviamente, povos que são bem-sucedidos agora teriam mais chances de reconstruir o planeta da melhor forma possível.

Eu acredito que o futuro de uma humanidade decente está na organização, no planejamento e na disciplina. E não devo estar tão errada, pois os países que são mais bem-sucedidos atualmente têm estas características. Chega de romantizar improviso, despreparo e atraso. Não é esse o caminho, já ficou muito claro.

“Mas Sally, não é você quem sempre diz que quer que o mundo acabe?”. Depende, se for para construir uma sociedade melhor, eu sou a favor da continuidade do ser humano. Mas, se for para continuar essa desgraça que está como regra geral, continuo firme e forte na torcida pela extinção.

Não é sobre “lugar perfeito”. Vocês nunca, em mais de dez anos do Desfavor, me viram usando esse termo. Ninguém aqui acha país X ou Y perfeito. Parem de deixar comentários dizendo que “nenhum lugar é perfeito”, isso é uma obviedade sem sentido. Acho a Suíça um país mais digno, mais honesto, mais civilizado, mais limpo e mais bonito que o Brasil. E não precisa ser perfeito para isso, podem ter certeza.

A Suíça ostenta o título de “melhor lugar do mundo para se nascer”, por isso eu lhe outorgo o título de “melhor lugar do mundo para repovoar o mundo”. Se alguém pode fazê-lo, são eles.

Para dizer coisas horríveis sobre a Suíça de modo a tentar se convencer de que todos os lugares são mais ou menos no mesmo patamar, para dizer que é melhor a extinção mesmo ou ainda para dizer que “nenhum lugar é perfeito” ignorando minha explicação: sally@desfavor.com

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Comments (24)

      • Capitão Impressionante

        Muito melhor essa chatice do que viver na eterna insegurança daqui, sempre correndo risco de ser vítima de violência ou de passar aperto devido a uma economia capenga.

  • Morei no Japão, sou nikkei, mas com certeza Suiça. Povo multicultural (4 línguas oficiais), altamente educado, com uma população estrangeira em grande parte qualificada morando no país, sobrevivendo cercada por vizinhos muito maiores.

    Nesse sentido, essa vinda de gente qualificada que permitiu, dentre outras coisas, a Suiça ser famosa por seus relógios. Hoje o país tem multinacionais de sucesso, em diversos campos, desde alimentos até relógios (canivete suiço >>>> miojo).

    Já o sistema bancário…é, é tão seguro que até pouco tempo atrás era refúgio da riqueza de nazistas, ditadores e outros criminosos. Ainda bem que estão mudando isso…se bem que a UBS…

    Os japoneses até tentaram abrigar judeus durante a Segunda Guerra com o mesmo objetivo, mas falharam nesse objetivo. Pessoalmente, tenho minhas reservas quanto ao mérito próprio do sucesso econômico deles no pós-guerra…mas não sou economista.

      • Não, não se recuperaram. Se recusaram a admitir qualquer culpabilidade, por exemplo, na exploração sexual de mulheres asiáticas e europeias dos países e colônias no Sudeste Asiático. E vivem querendo ter o direito de aumentar o seu exército de novo…

        E todo político que se preza, dá uma passadinha no templo de Yasukuni, dedicado aos herois de guerra japoneses. Os mesmos soldados que, além de se utilizarem de escravas sexuais, promoviam massacres de civis, enterrando gente viva, maus tratos a prisioneiros de guerra em descumprimento flagrante da Convenção de Genebra ou competição de quem decapitava com maior rapidez.

        • Puxa vida, Suellen! Eu até supunha que o Japão ainda tivesse mesmo algumas “sequelas” da Segunda Guerra Mundial, mas não imaginava que a coisa fosse desse jeito…

        • Tem um filme que até hoje me dá arrepios, que é o “Campo 731”. Depois que eu assisti eu finamente entendi a rixa dos chineses (entre outros) com os japoneses. Apesar de serem vistos como país pacifico e da “paz”, ainda não entendo a recusa deles se redimirem com os esses países. Lamentável… digo isso até pela influência que eles têm no resto do mundo, e muita gente que ama o país se recusa a ver ou aceitar esse fato.

      • A recuperação econômica dos japoneses depois da 2 guerra muito se deve aos EUA. Houve muito investimento por lá, até porque o território deles é estratégico e tals. Claro que o milagre econômico é mérito dos japoneses, mas não foi tudo, muita coisa por lá é feito nas coxas. Dizem que depois das bombas a radiação f*deu com os genes dos japoneses, por isso eles não perdoam os ocidentais, pois isso afeta a população até os dias atuais. Tem outros boatos também, mas prefiro não me estender.

          • A dívida com os americanos procede. Diz a lenda que a Guerra da Coreia foi a salvação para uma indústria que patinava, e um Japão próspero serviria de anteparo para a China. Como disse, não sou economista mas, na época em que estava lá, havia várias profissões que americanos poderiam exercer livremente por lá, tal como advogado…

  • Concordo com a Sally. Quando eu visitei brevemente a Suíça vi uma mocinha carregando uma bolsa envelope e um guarda andando perto dela, meu familiar que já trabalhou em banco no Brasil disse que aquilo certamente era um malote de banco e o guarda era a escolta. Putaquemepariu. Transportam dinheiro a pé pela rua. Sim, zeraram a vida. E que país bonito! você enxerga o fundo do lago que tem no centro da cidade. Deprimente voltar pra SP depois.

  • Sally, vc é um pouco amarga nessa defensiva contra alguém quem discorde. Relaxa. ninguém discorda, não. Quem vai contestar a escolha da Suíça?

  • Metade dos conteúdos que eu consumo atualmente são asiáticos, mais especificamente, japoneses. Animes, mangás, games… Boa parte do que eu escrevo inclusive se deve ao que aprendi com obras de japoneses. Se vocês me perguntassem o que eu escolheria pela perspectiva de criadora de conteúdo, eu preferiria o Japão.

    Porém, se me perguntassem pela perspectiva de uma pessoa que tem crises de ansiedade quando pensa em estabilidade de vida que não é possível no atual Brasil, escolheria a Suíça, um país em que pessoas conseguem emprego quando procuram, não são humilhadas à toa por serem “menos” em algo, nem precisam se preocupar se vão te sequestrar se voltar mais tarde do que deveria pra casa (isso meio que ainda acontece no Japão pelo que vi, Junko Furuta e Fusako Sano tão aí de prova).

  • Dentre as duas opções apresentadas no texto, fico com a apresentada pela Sally. Apesar de reconhecer o valor da disciplinada e trabalhadora sociedade japonesa, ainda prefiro a estabilidade e a segurança que há na Suíça.

  • Eu nunca estive em nenhum dos dois lugares, mas já ouvi gente acostumada com a baderna e a selvageria brasileiras dizer que a vida na Suíça, de tão civilizada, fica até monótona; e que no Japão, o mais difícil não é se acostumar com a opressiva cultura de disciplina e eficiência no trabalho, mas com certos usos e costumes locais que para muitos ocidentais são estranhíssimos.

  • Eu falaria a Suécia, tenho simpatia pelo país mas sei lá, tem umas maluquices lá, entre elas a própria Greta…

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